Esnobando o Amor
6 Capítulo 4 - Uma noite não muito agradável.
Notas iniciais
Fiquei parado no corredor que nem um otário, tentando digerir o que acabara de acontecer. Até que o toque do meu celular me acordou de meu transe e eu balancei a cabeça bruscamente, tentando me situar. Peguei o celular do bolso da calça e li “Fáfá” no visor. Aquilo com certeza era tudo o que eu menos precisava no momento. Bufei encarando a tela e pensei duas vezes antes de atender.
– Alô? – finalmente atendi, respirando fundo.
– Nossa, é assim que atende sua noiva? – perguntou em um tom ofendido, que estava me estressando.
– Fala logo Fátima. – retruquei entrando em meu quarto e me sentando na cama.
– Ai que grosso...
– É grosso mesmo, agora anda, diz o que você quer.
– Bom, como eu sou uma pessoa muito boazinha – uhum – eu vou te perdoar, e nós poderíamos sair para jantar, naquele restaurante super chique que nós sempre vamos. – afirmou com uma voz tentando me seduzir, inutilmente, é claro.
– Ótimo, vou avisar a Vera que não precisa fazer a janta. – respondi para provocar, eu sei que ela pretendia sair para jantar a sós comigo. Mas eu realmente não estou a fim de ficar sozinho com ela.
– Mas e sua EX-esposa e sua filha? – perguntou já sabendo da resposta, mas creio que preferia não acreditar.
– Elas vão conosco, ué. – afirmei calmamente, como se fosse óbvio. E era, afinal ela acha mesmo que eu vou deixar minha filha e minha mulher- ex-mulher, que não vejo faz 4 anos, sozinhas na minha casa enquanto saio com minha noiva? Lógico que não!
– Mas eu pensei que...
– Pensou errado Fátima. – cortei-a antes que ela terminasse a frase. Eu realmente não estava com paciência – Peço para Gerson passar para te pegar às 8 horas. Até mais tarde. – continuei e desliguei o telefone na cara dela. Às vezes minha noiva realmente me irrita.
Joguei o celular sobre a cama e esfreguei as mãos no rosto, tentando me acalmar. Me levantei e fui avisar Elisa que iríamos sair.
Bati na porta do seu quarto e não obtive resposta, então decidi tentar abri-la. Girei a maçaneta e olhei dentro do cômodo. Ouvi o barulho do chuveiro e me aproximei mais da porta do banheiro.
– Elisa?
– Pai?! – exclamou de lá de dentro.
– Sim. Vim avisar que nós vamos sair para jantar hoje.
– “Nós” quem?
– Eu, você, sua mãe e Fátima.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, mas logo respondeu.
– Okay.
– Avisa sua mãe para mim por favor? – pedi imaginando como seria se eu aparecesse no quarto de Cristina de novo. Imagino que ela não queira me ver nem pintado de ouro!
– Okay, aviso sim.
– Está bem filha, antes das 8 horas, por favor.
Não obtive resposta, então saí e desci as escadas, procurando por Vera.
– Vera?! – chamei olhando em volta.
– Na cozinha! – respondeu e eu fui até lá. Ao adentrar o local senti o maravilhoso cheiro de bolo, e me deparei com a mulher tirando a forma do forno – Precisa de alguma coisa Sr. Rodrigo?
– Ãn, é que hoje não precisa fazer janta para nós, porque vamos comer fora. E avise Gerson para ir buscar Fátima às 8 horas. – respondi de olho na assadeira em suas mãos – É bolo? – perguntei franzindo a testa e olhando para seu rosto.
– Okay Sr. Rodrigo. E sim, bolo de chocolate. – sorriu.
– O preferido da Cristina... – digo me lembrando brevemente de quando nós nos encontrávamos na padaria para discutir questões profissionais, antes ainda de namorarmos. Ela pedia bolo de chocolate todas as vezes, e foi impossível eu não notar sua paixão. E depois que começamos a namorar, passávamos na padaria todo dia depois do trabalho, e ela continuava pedindo bolo de chocolate. Era um costume nosso, e é dessas coisas que eu sinto falta, já que provavelmente não as terei com Fátima.
– Sim, por isso fiz esse. – afirmou colocando a assadeira sobre a pequena mesa do local – Agora, será que se eu te pedir uma coisa é demais? Um favorzinho? – perguntou com uma vozinha de quem quer alguma coisa.
– Depende, o que seria?
– Será que é muita folga pedir para o senhor levar o Caio com vocês...? É porque eu queria aproveitar para, você sabe, ficar sozinha com o Gerson...
– Não seria folga nenhuma. Eu adoro o Caio, será um prazer. – ri levemente.
– Ai Sr. Rodrigo, muito obrigada viu... E se o Caio não se comportar, brigue com ele por mim! – disse toda alegre.
– Eu creio que ele vai se comportar sim. – sorri e olhei no relógio – Bom, já é bom eu ir me arrumar, então diga ao Caio para estar pronto antes das 8 horas okay?
– Tudo bem Sr. Rodrigo, ele estará! Muito obrigada mesmo viu!
– Não é por nada Vera... – respondi – E divirta-se. – falei antes de sair da cozinha.
Subi para meu quarto e tomei um banho gelado, pensando em tudo que acontecera hoje. Me vesti em um estilo social, mas não muito formal. Passei o pente no cabelo e me lotei de perfume, como de costume. Dei uma olhada em meu reflexo no espelho e saí do quarto. Foi quando dei de cara com quem menos queria me ver: Cristina.
– Desculpa. – disse me afastando rapidamente. Apesar de querer meu corpo grudado no dela, entendo que no momento tudo o que ela mais quer é distância de mim.
– Não foi nada. – rebateu sorrindo falsamente. Foi quando notei o quão linda ela estava, em um vestido preto conservado e um batom vermelho. Espantei todo e qualquer pensamento malicioso que pudesse aparecer – Vamos? – perguntou já andando até a escada.
– Claro. – respondi e a segui.
Quando chegamos na sala, apenas Caio se encontrava lá.
– A Elisa ainda não desceu? – perguntei me aproximando do garoto.
– Não. – respondeu olhando brevemente para mim e desviando o olhar.
Bufei e me sentei no sofá, e assim ficamos durante vários minutos, até Elisa descer quase meia hora depois.
–-
Ao chegarmos no restaurante, fui direto falar com o dono, que era um grande amigo meu, nos conhecemos desde garotos e acompanhamos um o sucesso do outro. Sem contar que ele é meu parceiro de negócios, afinal forneço quase tudo o que ele precisa no restaurante.
– Max! – chamei-o.
– Rodrigo, meu amigo! – respondeu saindo de trás do balcão e vindo me cumprimentar – Como estão as coisas? E o casamento?
– Ah, estão bem né... Tudo bem corrido. E você, já está com tudo pronto, padrinho? – perguntei erguendo uma sobrancelha.
– Sim, claro. – respondeu claramente mentindo, eu conhecia o Max, e ele com certeza deixaria tudo para o último dia.
– Aham, sei. – concordei ironicamente – Agora deixa eu te apresentar minha filha, a Elisa. – continuei pegando levemente no braço da minha filha e puxando para mais perto.
– Nossa, essa que é a Elisa?! Meu Deus, como ela cresceu! – exclamou surpreso, pegando na mão da garota num aperto de mãos – Também, faz quanto tempo? Uns 5 anos?
– 4. – retrucou Elisa soltando da mão dele – E agora eu realmente gostaria de comer alguma coisa, se não for muito difícil. – completou hostilmente.
– Elisa! – exclamei dando-lhe um cutucão – Me desculpa Max, é que minha filha é meio indelicada às vezes. – continuei olhando-a com reprovação. E o que mais me irritava, é que ela me retribuía o olhar com indiferença!
– Elisa, mais educação, por favor! – repreendeu-a Cristina, que até então estava na sua.
– Cristina! – disse Max olhando-a de cima embaixo, boquiaberto. Quando Cristina e eu nos conhecemos, eu logo percebi que Max se sentira atraído por ela, e desde então parecia que esse sentimento crescia cada vez mais. Ele tivera algumas namoradas, mas nunca muito sério. Nunca a ponto de deixar de olhar Cristina daquele jeito, que me incomodava muito, ainda mais agora que haviam chances de ele conseguir dar um passo à frente com ela.
– Oi Max. – respondeu ela sem empolgação. Ela também sabia dos sentimentos do meu amigo por ela, mas nunca dera a mínima para ele. Pois ela sempre ME amou.
– Você não mudou nada. – afirmou encarando-a de maneira possessiva.
– Você também não. – falou minha ex-esposa sem graça, encarando-o de volta.
– Então Max, me vê uma mesa pra 5, por favor. – indaguei quebrando o clima estranho que se formara, fazendo Cristina desviar o olhar do dele. Depois de mais alguns segundos encarando-a ele olhou para mim e sorriu.
– Claro, só um minuto. – respondeu virando-se e indo para trás do balcão, e checando o livro de reservas e mesas disponíveis – Mesa 9, acompanhe-os por favor. – pediu para uma moça trajada elegantemente, que sorriu para nós e nos guiou até a mesa.
– Aqui está. – afirmou ainda com um sorriso no rosto – Fiquem à vontade, quando já souberem o que pedir, é só apertar aquele botão ali. – apontou para um botão sobre a mesa – Espero que tenham uma noite bastante agradável. Com licença.
Depois que a moça nos deixou a sós, eu arrastei a cadeira para Cristina se sentar, e ela me olhou torto, mas se sentou. Dei a volta na mesa e me sentei à sua frente. Quando de repente vi Caio imitar meu gesto, só que com a cadeira de Elisa. Eu até achei bonitinho, mas o encarei com cara de poucos amigos, porque não quero ninguém dando em cima da minha filha. Ela o olhou com desprezo, o que me deixou um pouco mais aliviado, e se sentou ao lado de sua mãe. Logo em seguida Caio se sentou ao seu lado, e quando percebeu meu olhar fuzilante pareceu morrer de medo, e afastou um pouco sua cadeira de perto da minha filha.
Abaixei os olhos para o cardápio, e comecei a procurar o que iria pedir. Depois de vários minutos discutindo o que iríamos beber, Cristina e eu pedimos um vinho e suco para as crianças, e, é claro, nossa comida.
– E aí, como são as coisas em Los Angeles? – decidi puxar assunto, depois de minutos em silêncio.
– Bem, Los Angeles é ótima. – respondeu Cristina – Estou pensando em me mudar para Nova York, mas ainda é só uma ideia.
– Nossa, que legal. E pro Brasil, não pensa em voltar? – perguntei cheio de segundas intenções, olhando-a curioso e quase suplicante ao mesmo tempo.
– Não, na verdade não pretendo voltar para o Brasil não. Não para morar, e nem tão cedo. – falou com convicção, e eu me senti um completo idiota, percebendo que estava a perdendo completamente.
– Será que não há nada que a faça mudar de ideia? – questionei erguendo uma sobrancelha, esboçando um sorriso maldoso.
– Não, não há. Eu realmente acho que não. – respondeu me encarando friamente.
De repente o que era um olhar frio passou a ser um olhar quente, e parecia não ter mais ninguém no mundo, só nós dois, nos encarando. Eu não conseguia entender, mas aquela mulher realmente me deixava louco. Doidinho de pedra. Eu me perco na imensidão dos seus olhos cor de chocolate, e seu rosto perfeito me encanta. Por que eu não consigo tirar essa mulher da minha cabeça? Da minha vida? Estou prestes a me casar com outra, mas o que eu sinto pela minha noiva, ah, nem se compara ao que eu sinto pela Cristina. Com a Cristina eu passaria o resto dos meus dias, até ficar bem velhinho. Mas e com a Fátima? Não vejo esse casamento passar de um ano. Com ela eu não quero um futuro, na verdade eu nem sei porque estou prestes a me casar com ela. É da Cristina que eu preciso. E é por ela que eu vou lutar...
Quando abri a boca para dizer a primeira coisa que me viesse à mente, uma voz acabou com todos os meus planos.
– Boa noite amor! – ouvi uma foz falsa e irritante que eu conhecia bem: Fátima.
– Oi. – respondi ainda encarando a mulher na minha frente, que continuou me encarando, agora com um sorriso irônico no rosto.
Só tirei meus olhos da minha ex-mulher quando minha noiva segurou meu rosto com as duas mãos e virou-o para ela, selando nossos lábios. Ela pediu passagem com a língua, mas eu não concedi e me afastei.
– Já fizemos nossos pedidos. – falei encarando a mesa.
– E nem me esperaram?! – exclamou incrédula, e senti seu olhar acusador no meu rosto, mas não me virei para vê-la.
– Não, não esperamos. – respondi ainda sem olhá-la.
– Eu não acredito...
– Se não quer jantar sozinha, aconselho que peça o mais rápido possível. – cortei-a hostilmente. Ela bufou e percebi por meu olhar periférico que ela continuava me olhando incrédula.
– Ótimo. – respondeu emburrada – Garçom! – gritou fazendo todos do restaurante voltarem seus olhares para ela.
– Será que você nunca aprendeu que existe um botão que se aperta para chamar o garçom, ao invés de ficar gritando que nem uma idiota? – perguntou Elisa ironicamente, que até então estava surpreendentemente quieta.
– Sei, mas eu prefiro chamar o garçom eu mesma, esses botões nunca funcionam, e eu odeio esperar... – respondeu Fátima tentando parecer superior.
– Pois nós usamos o botão, e o garçom veio na hora... Que estranho não? – questionou retoricamente.
– Elisa, menos. – ordenei olhando-a com reprovação.
– Menos nada, não tenho culpa que a mulher que você escolheu é uma pobre sem classe, vagabunda e além de tudo burra! – falou Elisa num tom desafiador.
– Elisa, por favor menos! – indaguei com mais firmeza – Cristina! – chamei a atenção da mulher, que parecia nem estar ouvindo as barbaridades que sua filha falava.
– O que? – perguntou com um sorriso sarcástico, se fazendo de boba.
– Olha aqui garota, eu não aceito que falem assim de mim! – berrou Fátima batendo sua bolsa de mão sobre a mesa e levantando-se da cadeira – Você é uma pirralha atrevida que nem deveria existir, uma riquinha mimada que deve ser mais burra que uma porta, mas se acha tão superior só porque seus pais são cheios do dinheiro! Mas saiba que agora a mimada do seu pai serei eu!
– Fátima, por favor! – pedi num tom alto.
– Ah, e sabe de mais uma coisa, sua mãe é uma sem sal que nem consegue manter um casamento, acho é pouco que tenha perdido o Rodrigo, mal consegue segurar a própria filha, quem dirá um marido! – continuou Fátima berrando no meio do restaurante.
– Ah é?! – gritou Elisa se levantando também.
– CHEGA! – bradei já irado com aquela cena – Vocês duas, parem com isso agora! Onde já se viu?! Você vai mesmo discutir com uma menina de 12 anos Fátima?! Olha a sua idade e olha a dela! E não é porque Cristina e eu nos separamos, que você simplesmente insultá-la! Nós podemos até não estar mais juntos, mas eu ainda a respeito! E o mesmo serve para você Elisa, eu e a Fátima vamos nos casar, e você tem que respeitá-la como sua madrasta!
– Pra mim ela sempre vai ser a vaca que tirou meu pai da minha mãe! – falou me olhando profundamente com desaprovação, demonstrando o quanto isso ainda a machucava. Caramba, como eu sou burro! Nunca notei que esse é um grande problema, que a magoa até hoje!
– Chega Elisa! – disse Cristina num tom baixo, mas repreensivo – Olha Fátima, você pode me insultar, insultar minha filha, mas isso nunca vai me fazer perder a educação e fazer um escândalo como você mesma fez. Eu como uma dama vou me expressar de maneira franca e calma, sem palavras de baixo calão. Você é uma pessoa extremamente desagradável, que conseguiu acabar com meu casamento. Bom, eu já superei isso, e desejo que você e o Rodrigo sejam muito felizes. Desde que você não entre no meu caminho ou no da minha filha, eu não me importo com o que você faz ou deixa de fazer, é ou deixa de ser. Você e meu ex-marido tem uma vida agora, e eu aceito isso. Assim como eu e minha filha também temos uma vida nós duas, na qual eu espero que você não se intrometa, assim como não me intrometerei na de vocês. Espero ter sido clara. Vamos Elisa, vamos pegar um táxi e ir para um hotel.
– Cristina, por favor... – pedi me aproximando dela.
– Não Rodrigo, eu vou me hospedar num hotel! Não acredito que cogitei a ideia de me hospedar na sua casa! – rebateu pegando sua bolsa e se levantando, assim como Elisa – Você vem conosco Caio? – perguntou olhando para o menino, que estava quieto em seu canto. Ele apenas assentiu com a cabeça e se levantou também.
Os três seguiram até a rua, me deixando sem ação.
– Meus parabéns pelo o que você fez! – falei acusadoramente para Fátima, e corri para alcançar minha filha, minha mulher e o garoto – Cristina, espera! – exclamei correndo até ela – Não vai para um hotel não, fica lá em casa, eu juro que isso nunca mais vai acontecer!
– Eu vou para um hotel Rodrigo...
– Por favor... – pedi segurando em seu braço firmemente, mas com cuidado para não machucá-la, e olhando bem fundo em seus olhos, de maneira suplicante. Senti em seu olhar que ela cedera, e esbocei um sorriso.
– Tudo bem... – respondeu aparentemente cansada.
– Promete? – perguntei já sorrindo como um bobo.
– Tchau Rodrigo. – disse tirando seu braço do meu aperto e indo para um táxi, que eu nem vira que estava estacionado esperando por ela.
“Eu vou lutar por você!” – pensei assistindo o carro se distanciar rapidamente.
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