Esnobando o Amor
18 Capítulo 14 – O Grande Dia (Parte 3).
Notas iniciais
“É hoje!” – foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao acordar. Me mexi na cama e ouvi Mariana resmungar alguma coisa, me fazendo sorrir maliciosamente – Bom dia flor do dia! – gritei pulando sobre ela, e fazendo nós duas cairmos da cama. Caí na gargalhada ao ver sua cara de poucos amigos, me levantei, peguei um travesseiro e joguei sobre ela – É hoje Mariana! Tudo que fizemos a semana inteira vai ou não ter um resultado hoje! – sorri me sentando na beirada da cama, enquanto ela se colocava de pé.
— Tomara que todas essas maluquices que você fez não tenham sido em vão. – falou ao se levantar – O que você acha que aconteceu ontem à noite depois que saímos da festa? – perguntou se sentando ao meu lado.
— Eu sei bem o que aconteceu. – respondi sorrindo maliciosamente. Nós saímos logo no começo do strip-tease, porque minha tia disse que não era coisa para criança da nossa idade ver e blá blá blá – Mas eu realmente fiquei curiosa quanto ao “show” da minha mãe.
— Eu também, talvez alguém tenha filmado, quem é que sabe? Agora me conta, eu senti o clima tenso entre você e o Caio, aconteceu alguma coisa? – questionou se virando mais para mim.
Foi quando a lembrança do ocorrido da noite passada me atingiu como um tapa na cara. Engoli em seco lembrando das sensações, e sem querer acabei soltando um sorriso bobo enquanto reprisava a cena em minha mente.
— Hmmmm, aconteceu alguma coisa! – exclamou sorrindo animadamente – Conta tudo!
— Àquela hora que eu fui procurar ele... Pois é, quando eu o encontrei, ele veio com um papo de que queria fazer aquilo fazia tempo, aí ele pegou e me beijou. – expliquei sorrindo fraco, sentindo um frio na barriga.
— Ain, mais detalhes por favor! – reclamou se mexendo na cama.
— Não tem o que detalhar Mariana, foi isso aí, ele me beijou e ponto. – rebati prestes a perder a paciência.
— É claro que tem! Você correspondeu? Ele beija bem? Como você se sentiu?
— Pode-se dizer que correspondi, e sobre beijar bem não posso dizer muito, foi meu primeiro beijo... E eu me senti normal. – dei de ombros tentando parecer indiferente. Mas lá no fundo, mesmo sem querer admitir, eu queria que isso acontecesse. Ai que droga, como pude deixar isso acontecer! Eu não posso gostar dele!
— Foi o seu... primeiro beijo? Você era BV?! – berrou para meio mundo ouvir, e eu tapei sua boca com minha mão.
— Shiu sua louca, eu hein! – a repreendi – Eu era, e daí? A pior coisa para mim é o fato de ter perdido o BV com o filho a empregada, mas tudo bem né, todos dizem que o primeiro beijo nunca é lá essas coisas. – mas o meu foi, só não queria admitir.
Mariana resmungou alguma coisa, só aí me fazendo perceber que ainda a impedia de falar. Tirei a mão de seu rosto e a encarei ameaçadoramente, me ajeitando de novo na cama.
— Mas o Caio não é de se jogar fora, e mais, você meio que gosta dele, né?
— Não! É claro que não! – retruquei sentindo uma pontada no peito. Eu não posso estar gostando daquele pivete! – Agora vamos parar de papo furado, porque já são 8:00! – continuei me levantando da cama.
— Você não me escapa dessa conversa dona Elisa! – ameaçou me seguindo.
“Ainda bem que vou embora amanhã!” – pensei descendo as escadas e adentrando a cozinha logo depois, encontrando minha tia preparando o café – Bom dia tia Luísa! – cumprimentei indo lhe dar um beijo na bochecha e me sentei.
— Bom dia mãe! – disse minha prima, imitando minhas ações.
— Bom dia meus amores! Dormiram bem? – indagou a mulher ainda de costas para nós enquanto terminava de preparar o café.
— Eu dormi como uma pedra. – respondeu Mariana, se espreguiçando.
— Eu demorei para pegar no sono, mas depois dormi bem também. – afirmei analisando as opções da mesa. Só tinha um saco de pães franceses, margarina, presunto e mozarela, além de leite e achocolatado em pó. Não tinha nem a metade do que costuma ter na casa do meu pai, mas pode parecer estranho vindo de mim, mas não fazia muita diferença para mim no momento.
— E então, será que nossos planos deram certo? – questionou minha tia ao se virar para a mesa e colocar a garrafa de café sobre ela.
— Eu estou torcendo que sim! Mal posso esperar para ir para casa! – falei animadamente, enquanto preparava um sanduíche para mim.
— Eu também espero que sim né, depois de todas essas tentativas... – afirmou Mariana, por sua vez se servindo de leite com café.
— E também, se não funcionou, Cristina deve estar um caco. – disse Luísa se sentando também – De qualquer forma, preciso falar com minha irmã urgentemente. – continuou colocando café em sua xícara.
— Pois é, vamos acelerar aqui, porque estou muito curiosa! – indaguei terminando de mexer meu leite com achocolatado.
— Também não precisa engolir tudo de uma vez, temos que dar tempo para eles se resolverem lá também! – rebateu minha tia, passando margarina no pão.
— Ta, ta bom, mas não enrolem! – revirei os olhos e continuei comendo, me torturando com as possibilidades do que poderia ter acontecido.
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Aproximadamente depois de uma hora e meia, terminamos nosso café e finalmente estávamos estacionando em frente à casa do meu pai. Meu coração faltava rasgar meu peito e pular para fora, de tanta ansiedade. A maior parte, é claro, foi para ver se meus pais tinham dado certo. Mas havia outro lado, que era a expectativa de me encontrar com Caio. Desde o ocorrido nós não tínhamos realmente conversado, e eu temia por encontra-lo novamente, mas também queria muito vê-lo de novo. Basicamente, eu não sei o que estou sentindo.
Saí do carro e fechei a porta, respirando fundo. Me aproximei do portão e toquei o interfone, esperando alguma resposta. Pouco tempo depois, pude ouvir a voz de Vera.
— Quem é?
— Sou eu Vera, a Elisa. – respondi tentando disfarçar a ansiedade.
— Ah, bom dia Elisa. – falou ao mesmo tempo que o portão foi destrancado.
Entrei em casa sem responde-la mesmo, atravessando o curto espaço entre o portão e a porta da sala rapidamente.
Abri a porta e adentrei o local, olhando para os lados à procura de qualquer pista do que havia acontecido ali durante a manhã.
— Sua mãe está lá em cima Elisa. – indagou Vera, vindo da cozinha.
— Você sabe o que aconteceu durante esse tempo, Vera? – questionei me virando para ela.
— Acho que deveria descobrir por si mesma. – respondeu com uma expressão neutra, me deixando ainda mais aflita.
— Vai logo Elisa, até eu estou curiosa! – exclamou Mariana.
Respirei fundo e subi as escadas rapidamente, hesitando na hora de bater na porta. Peguei o fôlego novamente e dei algumas batidinhas na porta.
— Mãe? – chamei meio insegura.
— Entra. – respondeu com uma voz estranha, o que me fez praticamente entender tudo.
Abri a porta lentamente e coloquei a cabeça para dentro do quarto, olhando tudo em volta antes de entrar completamente. Foi quando eu a vi. Seu rosto estava inchado e tomado por lágrimas.
“Droga!” – pensei ao vê-la, e engoli seco antes de entrar no cômodo e fechar a porta atrás de mim – Mãe, o que aconteceu? – perguntei preocupada, a encarando de longe.
— Seu plano falhou... – respondeu com a voz chorosa, fazendo meu coração apertar.
“Como assim ela sabia do meu plano? E como assim ele falhou?!” – pensava enquanto me aproximava dela – Mãe eu... sinto muito. Mesmo. – indaguei me sentando à sua frente na cama – Eu tinha a melhor das intenções...
— De boas intenções o inferno está cheio, Elisa. – rebateu me cortando – Mas sabe de uma coisa, agora já era... – finalizou fungando.
Suspirei, pela primeira vez me sentindo culpada. De todas as coisas que eu queria que acontecessem, a última delas era ver minha mãe naquela situação. Engoli o choro que ameaçava vir e tentei me manter firme.
— Mas como? Por quê? – questionei indignada, ainda tentando entender o que eu tinha feito de errado.
— Desculpe em te dizer, mas seu pai é um idiota. – afirmou revoltada, e respirou fundo – Ele não consegue tomar decisões sóbrio. É só que... Eu sinto muito Elisa, mas nós não somos feitos para ficarmos juntos. Eu sei que você quer muito... Mas isso eu não posso te dar. Me desculpa. – concluiu, agora mais calma.
— Mãe... Eu não estava fazendo isso tudo por mim, e sim por vocês. – falei segurando sua mão e a olhando nos olhos – Eu só quero te ver feliz, mas se isso for impossível com meu pai, então não te quero com ele. Vamos ao casamento hoje, e amanhã nós saímos daqui o mais cedo possível...
— Eu não vou ao casamento. – me cortou negando com a cabeça.
— Como assim não vai ao casamento?! – exclamei inconformada – Você tem que ir ao casamento! Tem que mostrar que está por cima!
— Sério? Eu? Por cima? Seu pai está se casando, e eu é que estou por cima? Filha, não. Nem se eu quisesse eu iria passar essa impressão. – rebateu aparentemente cansada.
“Infelizmente, ela tem razão...” – pensei e suspirei – Okay, mas eu não quero te deixar aqui sozinha... – falei fazendo um biquinho.
— Vá, seja a daminha que seu pai tanto quer, divirta-se na festa, e amanhã eu já vou estar novinha em folha, e nós vamos voltar para os Estados Unidos, e vamos recomeçar, igual da outra vez, lembra? – sorriu fraco – Só me deixe desabar hoje, eu preciso disso. – finalizou fungando.
Sorri tristemente e deixei uma lágrima escapar.
— Okay mãe... Mas fique bem, ta? – sequei uma lágrima em seu rosto com a ponta do dedão.
— Eu vou tentar. – disse me abraçando, e eu deixei mais algumas lágrimas escorrerem, enquanto a apertava contra mim.
Ficamos assim durante alguns minutos, até que finalmente ela me soltou.
— Agora a princesa precisa se arrumar, hoje será um grande dia. – afirmou secando meu rosto com as mãos e olhando meus olhos.
— Pois é... – suspirei e dei um beijo em sua bochecha molhada – Te vejo mais tarde... – continuei me levantando, e parei na porta – Ah, e a propósito, a tia Luísa está aqui, quer que eu a chame? – perguntei me virando.
— Pode dizer para ela subir. – respondeu limpando as lágrimas.
Assenti e saí do quarto, fechando a porta atrás de mim. Me encostei contra ela e bufei. Tinha dado tudo errado, e graças a mim minha mãe estava naquela situação. Fechei os olhos e tentei espantar esse sentimento de culpa, me desencostei e segui para a sala lentamente.
— E então?! – perguntou Mariana ao me ver descendo as escadas.
— Pela sua cara, não deu muito certo... – indagou minha tia, me analisando com os olhos.
— Não, não deu nada certo. – respondi tristemente – E minha mãe quer falar com você, tia.
— Okay, eu vou lá falar com ela... Mas ta tudo bem Elisa, é que não era pra acontecer mesmo. – afirmou colocando a mão no meu ombro.
Assenti e ela sorriu fraco, subindo as escadas em seguida.
— Como você está? – questionou Mariana, se aproximando de mim.
— Decepcionada, mas vou sobreviver. – rebati tentando esconder meu sentimento de culpa – Agora preciso encontrar o Gerson, daqui a pouco tenho que aparecer no salão do Otávio para começar a me arrumar. – continuei seguindo para a porta.
— É do Gerson que você vai atrás, ou do Caio? – disse minha prima com uma pitada de sarcasmo, fazendo eu me virar para ela.
— Não tenho nada para conversar com ele Mariana, a essa altura ele já deve saber que o plano deu errado, e é isso que importa. – retruquei hostilmente a olhando, e saí em direção à edícula onde Vera, Gerson e Caio moravam. Bati na porta e fiquei esperando, e logo alguém veio me atender.
— E-Elisa? – falou Caio ao me ver, ficando corado.
Tentei disfarçar as emoções que me atingiram ali e foquei no meu objetivo.
— Seu pai está? – perguntei colocando as mãos na cintura, mostrando impaciência.
— Não, ele foi levar seu pai em algum lugar... Por quê?
— E te interessa? – rebati e respirei fundo – Você já deve saber que todo nosso plano deu errado, né?
— Sim... – respondeu suspirando – Eu sinto muito Elisa...
— Não sinta. Pelo menos agora eu volto para os Estado Unidos e pronto, a vida continua. – falei dando de ombros.
— Mas e...
— E o que Caio?
— E nós dois...?
— Nós dois? – ri ironicamente, tentando parecer verdadeira – Não existe “nós dois”, Caio. – continuei o olhando seriamente – Nós somos só cúmplices de um plano que deu errado. – finalizei negando com a cabeça.
— Eu só achei que...
— Pois achou errado. – o cortei, engolindo as emoções que me atacavam ali. Apesar de não querer admitir, dizer aquelas coisas estava me matando por dentro – Quando seu pai chegar, avise que estou o esperando.
— Okay... – disse tristemente, assentindo. A expressão em seu rosto me cortou o coração, mas precisava ser feito.
Me virei bruscamente e segui para dentro da casa de novo. Passei por Mariana rapidamente, subindo as escadas o mais rápido possível.
— Elisa! – minha prima me chamou.
— Preciso ficar sozinha! – gritei de volta, já adentrando meu quarto.
Bati a porta e a tranquei, respirando fundo. Só agora percebi como toda essa história também me afetou, e como estou destruída por dentro. Me virei e me joguei na cama, agarrando o travesseiro, enquanto deixava as lágrimas escorrerem. Minutos depois, já não aguentava mais chorar. Me levantei, sequei as lágrimas e fui até a sacada. Fiquei observando a vista, que era composta pela casa da Vera, uma parte do jardim e a piscina. Foi quando avistei Caio, que caminhava cabisbaixo. O acompanhei com o olhar, até que ele finalmente me notou e me encarou. Nos fitamos por um momento, mas logo ele desviou o olhar e seguiu seu caminho. Suspirei e entrei de volta no quarto, indo direto para o banheiro. Entrei no chuveiro e fiquei ali enrolando, como se não houvesse amanhã.
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Depois de um longo banho e esperar Gerson chegar, finalmente estávamos em frente ao salão do Otávio. Fomos o caminho todo em silêncio, com um clima tenso entre nós. Não tive coragem de perguntar onde meu pai fora, e também não acho que ele responderia a essa pergunta.
— Está entregue. – indagou me olhando pelo retrovisor.
— Okay, te ligo quando estiver pronta. – respondi e saí do carro, entrando rapidamente no salão.
— Bom dia Elisa! – me cumprimentou Otávio, sorrindo animadamente.
— Não vejo nada de bom. – retruquei com a cara fechada, me sentando na cadeira.
— Ih, acordou com o pé esquerdo, é? – falou se aproximando de onde estava sentada.
— Com o direito também. – disse hostilmente e o olhei, suspirando – Deu ruim, Otávio. – afirmei desviando o olhar – Ta tudo acabado. – continuei prendendo as lágrimas – Eu nem quero mais ir nesse casamento!
— Ain Lisa... – resmungou ficando de frente para mim – Quer dizer que o ridículo do seu pai deu os canos em sua mãe de novo? Depois de tudo que aconteceu ontem? – perguntou com uma ponta de irritação.
— Primeiramente, não chame meu pai de ridículo! – revirei os olhos – E segundo, você estava na despedida de solteiro? – perguntei franzindo o cenho.
— Mas é claro! Você acha que ia perder?! – respondeu rindo fraco – Eu também fui convidado para o casamento, só pra constar... Agora me conta, o que aconteceu depois do show da Cristina?
— Adivinha?! – questionei ironicamente, fazendo cara de retardada – Eles dormiram juntos, e depois brigaram hoje, terminando tudo. – continuei, fazendo biquinho.
— Aff, mas é um cretino mesmo! Não sei como sua mãe, uma diva daquelas, foi se envolver justo com ele! – disse indignado – Ela está muito mal?
— Claro né! – suspirei – Mudando de assunto, já que você estava lá, você gravou o strip-tease ou sabe se alguém gravou?
— É claro que eu gravei né fofa, não podia deixar um momento épico desses passar! – respondeu pegando o celular – Mas sua mãe não pode nem sonhar que eu te mostrei isso!
— Ta, ta, agora me mostra logo isso... – retruquei já no limite da minha curiosidade.
Otávio apenas assentiu com a cabeça e deu play no vídeo. Fiquei pasma o tempo todo, observando cada detalhe do vídeo.
— Meu Deus... Minha mãe seria uma ótima stripper. – murmurei ainda vidrada com o vídeo.
— Concordo plenamente, sua mãe arrasou, se eu gostasse da fruta já estaria todo alegrinho. – afirmou assistindo também.
Ri fraco e neguei com a cabeça, até que a gravação finalmente acabou.
— Isso foi bem estranho... – disse rindo sem graça – Tinha tudo para dar certo, por que não deu?! – questionei fazendo voz manhosa e biquinho.
— É porque seu pai é um idiota que faz tudo errado, por isso. – respondeu com raiva na voz – Agora vamos acelerar aqui, que ainda tenho que arrumar sua tia e sua prima. – indagou se afastando.
— Okay... – respirei fundo e o segui até o local de lavar meu cabelo, pensando sobre tudo.
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“Está quase na hora!” – pensei me olhando no espelho de uma salinha na igreja. Eu estava deslumbrante por fora, mas por dentro não estava muito feliz.
— A noiva chegou Elisa. O casamento já vai começar. – afirmou Gerson, colocando apenas a cabeça para dentro da sala.
— Okay... – respondi nervosa – Minha mãe não veio mesmo? – perguntei preocupada.
— Nem sinal da sua mãe e da sua tia. – falou com certeza.
— Okay Gerson. – assenti e o mesmo sorriu fraco e saiu dali, fechando a porta atrás de si.
— Será que nossas mães não vêm mesmo? – questionou Mariana, que estava ali desde o princípio.
— Eu não sei, no momento nem estou ligando. – indaguei dando de ombros – Só quero que isso acabe logo e voltar para LA. – continuei suspirando – Pode ir ver o casamento, preciso de um instante sozinha.
— Okay... – concordou e se levantou – Fica calma Lisa, vai ficar tudo bem... – disse sorrindo fraco, e eu imitei seu gesto. Saiu dali em silêncio, me deixando finalmente sozinha.
Respirei fundo e me sentei de frente para o espelho, refletindo sobre tudo o que acontecera. De repente um flashback da semana toda se passou por minha mente, desde quando chegamos, a pimenta na comida, o site de traição, a tinta verde... Tantas coisas insanas, para no final dar tudo errado.
Estava tão imersa em meus pensamentos que nem vi o tempo passar. Só despertei do transe quando ouvi uma voz me chamando.
— Elisa, está na sua hora! – exclamou a cerimonialista.
— Ah, Okay, to indo... – respondi ainda meio perdida.
Me levantei e dei mais uma conferida no espelho. Estava perfeita. Peguei as alianças com a cerimonialista e segui até a porta da igreja, respirando fundo. Duas mulheres que estavam trabalhando na organização do casamento me explicaram o que fazer, e logo abriram as portas da igreja.
Entrei lentamente, andando no ritmo da música, assim como me foi instruído. Conforme entrava, comecei a prestar atenção na letra da música.
“I gotta take a little time
A little time to think things over
I better read between the lines
In case I need it when I'm older”
“Eu tenho que dar um tempo
Um pouco de tempo para pensar melhor nas coisas
É melhor eu ler nas entrelinhas
Caso eu precise quando estiver mais velha”
“Realmente.” – concordei com a letra mentalmente, enquanto seguia pelo corredor, que parecia infinito.
Olhei para o lado e vi Mariana, que sorriu fraco para mim. Retribui o sorriso e continuei andando. Quando cheguei lá na frente, avistei Caio, o que acabou comigo. Ele me olhava com uma expressão indecifrável, aparentemente com uma mistura de ódio e admiração. Senti um aperto no coração e parei no final do corredor, o encarando rapidamente antes de me virar para os noivos. E pela primeira vez no dia eu vi meu pai. Ele parecia desconfortável, mas mesmo assim sorriu para mim, me medindo com os olhos. Sorri de volta e olhei para Fátima, que estava com o cabelo todo preso para trás, com um véu o cobrindo quase inteiro. Prendi o riso e me posicionei meio centralizada, esperando o padre se pronunciar.
Antes que o padre abrisse a boca, ouvi a porta da igreja se abrir e olhei para ela na hora. O que vi era surpreendente: minha mãe e minha tia adentrando o local. Fiquei boquiaberta e olhei para meu pai, que parecia ainda mais em choque do que eu. Ela usava um vestido vermelho longo, liso na frente com o decote na altura do pescoço, e nas costas era praticamente todo aberto, com duas tiras cruzadas, além de ter uma calda que cobria seu sapato. Ela basicamente estava de tirar o fôlego, e, obviamente, mais bonita do que a própria noiva.
Depois de um minuto de silêncio total na igreja enquanto todos encaravam minha mãe, o padre finalmente voltou à cerimônia.
— Uma vez que é vosso propósito contrair o santo Matrimônio, uni as mãos direitas e manifestai o vosso consentimento na presença de Deus e da sua Igreja.
Os noivos juntaram suas mãos, e o padre cochichou alguma coisa para eles, e meu pai começou a repetir.
— Eu, Rodrigo Facchini, recebo-te por minha esposa – houve uma pausa enquanto o padre continuava ditando – a ti Fátima Rocha – mais uma pausa, mas dessa vez meu pai hesitou antes de continuar – e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te – parou novamente – na alegria e na tristeza, na saúde e na doença... – ficou em silêncio mais uma vez, só que dessa vez não repetiu o que o padre disse – Eu não posso fazer isso. – afirmou soltando a mão de Fátima, e fazendo a igreja toda começar a falar.
— Rodrigo, por favor! – repreendeu Fátima, forçando um sorriso para os convidados – Não me faça passar vergonha! – murmurou o fuzilando com os olhos.
— Me desculpa Fátima... – negou com a cabeça e se afastou – Eu sei que você não me ama, e só quer se casar comigo pelo meu dinheiro. – falou alto, agora para todos ouvirem – E eu? Bem, eu ia me casar pelo sexo. – continuou, deixando todos chocados – Mas eu andei pensando melhor e... Não é suficiente. Sexo não é o suficiente. Ainda mais quando se ama outra pessoa. – riu fraco e olhou para minha mãe, se aproximando dela – Cristina, eu sei que fui um cretino com você. Que fiz tudo errado. Mas, eu quero te pedir mais uma vez... – parou na reta do banco que ela estava – Me perdoa? Mesmo se você não voltar para mim, eu nunca vou parar de te amar, e é por isso que não posso me casar com nenhuma outra mulher... Porque eu te amo, e vou te amar para sempre. Então volta pra mim? – finalizou a olhando com cara de arrependido.
De repente toda a igreja se voltou para minha mãe, inclusive eu. Eu estava chocada com tudo o que estava acontecendo, e não sabia o que esperar daquilo tudo.
— Rodrigo... – indagou minha mãe se levantando – Não. – afirmou o olhando fixamente – Você acha que pode aprontar poucas e boas comigo, pra desistir na hora do seu casamento e falar que me ama?! – questionou incrédula e riu ironicamente – Não Rodrigo... Não dessa vez. Você teve todas as chances do mundo. E desperdiçou todas elas. Não vai ser com palavras lindas num momento delicado que você vai me enganar. – continuou deixando algumas lágrimas caírem – Você pode seguir com sua vida se quiser... Eu não vou te impedir de fazer nada. Mas não vai ser comigo. Não vai passar a vida ao meu lado. Você me perdeu, Rodrigo. – negou com a cabeça e seguiu para a saída.
— Cristina! – chamou meu pai, a seguindo.
— Está decidido, Rodrigo! – gritou se virando para ele – Eu vou me mudar para NY, focar na minha carreira e na minha filha. Adeus Rodrigo. – disse o fitando seriamente, se virou e deixou o local.
Desci do altar rapidamente e me aproximei do meu pai.
— Você vai deixa-la ir? – perguntei incrédula.
— Ela se decidiu, Elisa. – falou me olhando tristemente – Não tem volta.
— É claro que tem!
— Não, Elisa. Acabou. Ela vai ficar melhor sem mim. – me cortou – Desculpe a agitação, o casamento está cancelado, mas a festa ainda vai acontecer...
— Cancelado?! – berrou Fátima descendo do altar – Não... Rodrigo, você vai se casar comigo sim! Nem que seja a última coisa que eu faça! – exclamou, completamente fora de si.
— Não Fátima, eu não vou. – retrucou meu pai – E não se atreva a insistir.
— Mas eu te amo! – gritou – E você me ama também, eu sei disso! Você só precisa sentir. – disse antes de agarrar o rosto do meu pai e beijá-lo à força.
No mesmo instante, meu pai começou a lutar contra seus braços, que o agarravam com força. Num piscar de olhos, Gerson e Max agarraram Fátima e conseguiram segurá-la, tirando ela dali.
— Você! – bradou para mim – Você fez isso! Você tirou seu pai de mim! – exclamou enquanto tentava se livrar dos homens que a seguravam – Isso não vai ficar assim, vai ter volta!
— Fátima, você tem que ficar calma... – indagou Max, enquanto a levavam para fora da igreja – Vem, você precisa se acalmar...
Fiquei olhando a cena em choque, com um turbilhão de emoções tomando conta de mim mesma. Não sabia exatamente o que sentir.
— Eu preciso falar com minha mãe. – falei e também saí da igreja, encontrando minha tia lá fora – Tia, onde minha mãe está? – perguntei me aproximando dela.
— Ela não atende o celular, não sei se pegou um táxi ou foi para algum lugar a pé... – respondeu a mulher enquanto mexia no celular.
— Será que ela foi para a casa do meu pai?
— Talvez...
— Cadê o Gerson? – questionei olhando em volta.
— Ele foi levar a noiva para a casa dela. – respondeu Max, também se aproximando.
— Você está de carro, né tia?
— Sim, claro...
— Então vamos fazer o seguinte: Max, você fica aqui com meu pai, e eu e minha tia vamos até a casa dele ver se minha mãe foi para lá. – afirmei intercalando olhares entre os dois.
— Okay... – concordou o homem, entrando na igreja logo em seguida.
— E nós? – perguntou Mariana, surgindo com Caio.
— Vocês vêm conosco, rápido! – ordenei e segui minha tia até o carro dela, analisando mentalmente todos os outros possíveis lugares que ela poderia estar, se não a encontrássemos.
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Antes que eu pudesse imaginar, já estávamos na casa do meu pai. Algum dos empregados que ainda estavam na casa abriu o portão para mim, e entrei rapidamente, indo diretamente para o andar de cima.
— Mãe? – chamei ao atingir o corredor dos quartos.
— Estou aqui! – respondeu, e eu segui sua voz até o quarto de hóspedes. Quando parei na porta, me deparei com a mesma arrumando as malas tranquilamente, como se nada demais estivesse acontecendo.
— Mãe, o que está fazendo? – perguntei adentrando o cômodo.
— Fazendo as malas, né Elisa. Vamos partir hoje mesmo, nosso voo será em 5 horas, já até verifiquei. – afirmou na maior calmaria, o que estava me irritando.
— Mas então é isso? Todo esse escândalo para irmos embora hoje?! – exclamei perdendo a paciência – Não pode terminar assim...
— Eu sei que não foi tudo como você esperava Elisa, mas é assim que acaba. Amanhã mesmo vamos começar um novo capítulo de nossas vidas, deixando tudo isso aqui para trás. – disse olhando em volta.
Respirei fundo e assenti. Apesar de não gostar da derrota, tinha que confessar que isso tudo foi uma péssima ideia. E eu realmente só queria ver minha mãe feliz, e tudo o que estava acontecendo a machucava muito, e não era minha intenção. Foi aí que caí na real e decidi que irmos embora o mais rápido possível era mesmo a melhor opção.
— Okay, vou arrumar minhas coisas... – indaguei depois de alguns instantes de silêncio, e me retirei, me dirigindo ao meu quarto.
Me tranquei lá dentro e vasculhei o local com o olhar. É o quarto dos sonhos de toda menina, e apesar dos apesares, eu não reclamaria de morar aqui para sempre. A ideia de morar com meu pai nunca se passou por minha cabeça até naquele momento, mas em um segundo já a descartei, afinal nunca abandonaria minha mãe.
Aproximei-me da minha mala e comecei a juntar minhas coisas, desde as roupas até alguns produtos de higiene pessoal. Enquanto mexia em meus acessórios, encontrei uma correntinha da qual não me lembrava. Foi somente quando a puxei por completo que vi do que se tratava: era um colar com um pingente de asa, que Caio me dera no dia que minha mãe e eu fomos embora daqui, há 4 anos atrás. Isso me atingiu como um tiro, e não pude evitar o aperto no peito ao lembrar daquele dia. E tudo se repetiria de novo, as despedidas, as saudades, as lembranças... Não sei se aguentaria passar por tudo isso de novo.
Coloquei o colar e fui até a sacada, para olhar mais uma vez a paisagem do meu quarto. A piscina, o jardim, a casa do Caio no fundo... Essa imagem nunca sairia da minha cabeça.
Com tudo pronto, decidi que não poderia pegar um voo vestida daquele jeito, então prendi o cabelo em um coque e me enfiei no chuveiro, aproveitando para refletir ainda mais sobre tudo o que estava acontecendo.
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Minutos depois, estava vestida de maneira decente para uma viajem. Me olhei pela última vez no espelho e saí do quarto, indo reto para o de hóspedes.
— Mãe, você ainda está aí? – chamei do lado de fora, dando algumas batidinhas na porta.
— Sim, mas daqui a pouco eu desço, filha. – respondeu ainda sem abrir a porta.
Assenti para mim mesma e desci para a sala, onde, para a minha surpresa, uma mini multidão esperava.
— Elisa! – falou Vera chamando a atenção de todos – Vocês realmente vão hoje? – perguntou se aproximando de mim.
— Sim, e na verdade acho que já estamos atrasadas. – respondi olhando para o relógio do celular, tentando ao máximo não perder a calma.
— Filha... – murmurou meu pai vindo me abraçar – Não acredito que vou te perder de novo... – continuou me apertando mais.
— Hey, quem disse que você está me perdendo? – rebati me soltando dele e olhando em seus olhos – Nós nunca perdemos contato, e nunca vamos perder... – continuei segurando seus ombros – Eu te amo pai.
— Eu também te amo, docinho... – indagou voltando a me abraçar.
Foi quando eu finalmente me permiti soltar algumas lágrimas singelas, enquanto observava todos os outros por cima do ombro do meu pai. Vera, Gerson, minha tia Luísa, Mariana... E lá no cantinho, só observando, Caio. Demorei um pouco mais o encarando, mas logo desviei o olhar.
— Você conversou com a mamãe? – perguntei ao meu pai, tentando disfarçar o momento estranho.
— Não há nada mais para conversarmos, já foi tudo muito bem esclarecido... Sinto muito. – afirmou tristemente, mas com firmeza.
— Acho melhor irmos logo, estamos atrasadas. – indagou um voz que parecia vir do topo da escada, e que obviamente era da minha mãe.
Me afastei do meu pai e me virei para olhá-la. Ela estava com roupas normais também, sem a maquiagem forte que usara para sua breve participação no casamento.
— É, estamos mesmo... – concordei e me virei para o resto do pessoal – Então é isso... – sussurrei e me aproximei de Vera, que era a primeira da “fila”.
Fiquei de frente para ela, que me olhava com lágrimas nos olhos. Senti um leve aperto no coração, mas prendi o choro ao máximo.
— Elisa, eu sei que nem sempre fui um amor para você, afinal pensa numa pimentinha... – riu-se em meio às lágrimas – Mas saiba que sempre tive a melhor das intenções, sempre quis o melhor para você... – sorriu fraco e pegou minhas mãos – Não acredito que minha menininha está indo embora de novo... – terminou e me abraçou fortemente. Fiquei meio tensa de primeiro momento, mas dei uma relaxada, afinal era uma ocasião especial.
Algum tempo depois, me afastei e fui para o próximo. Era minha tia Luísa. Me joguei em seus braços sem pensar duas vezes, apoiando minha testa em seu ombro.
— Foi bom aprontar com você, pimentinha... – sussurrou em meu ouvido, acariciando minhas costas carinhosamente.
Sorri e me direcionei à Mariana, que estava ao lado. A abracei de primeira também, dando tapinhas em suas costas.
— Eu não creio que você vai embora de novo... – murmurou com uma voz manhosa.
— Eu vou, mas eu volto algum dia, e também trate de ir me visitar... – rebati ainda com meus braços em volta dela.
O próximo foi Gerson, para quem apenas ia dar a mão, mas ele me puxou para um abraço de urso.
— Vem cá menininha... – falou me prendendo em seus braços – Foi divertido ser seu cúmplice algumas vezes, viu? Nós vamos sentir saudades...
Ri fraco e me livrei de seus braços, finalmente me virando para Caio. Me aproximei dele e ficamos nos encarando por um tempo, até que eu finalmente me pronunciei.
— Obrigada... Por tudo. Por me ajudar com o plano, por guardar segredo... Obrigada. – indaguei tentando esconder o nervosismo, em vão.
— De nada. – respondeu seco.
— Eu queria te dar isso... – disse tirando o colar do meu pescoço, e mostrando o pingente a ele – Você me deu isso para que eu nunca te esquecesse, e eu estou te devolvendo para que você nunca se esqueça de mim. – expliquei estendendo o objeto para ele.
— Pode ficar com ele. – retrucou apático – Nem que eu quisesse eu conseguiria te esquecer, Elisa. Já para você parece bem fácil né... – afirmou e suspirou – Pelo menos isso pode te ajudar a não me esquecer tão fácil. – deu de ombros e virou o rosto, indiferente.
Apenas concordei com a cabeça e engoli em seco, me virando para o resto do pessoal. Nesse tempo todo, minha mãe já tinha se despedido de um por um, e estavam todos chorando. Ela veio e conversou alguma coisa com Caio, mas não me dei o trabalho de prestar atenção.
— Então Gerson, será que você pode trazer nossas malas? – pediu minha mãe, enquanto secava as lágrimas.
— Claro, só um minuto. – respondeu o homem e subiu as escadas rapidamente.
Todos nós saímos da casa e fomos até a garagem, onde Gerson apareceu poucos minutos depois com as malas, as colocando dentro do carro.
— Então é isso pessoal... – disse minha mãe, ficando de frente para todos – Eu quero agradecer a todos vocês, porque todos tiveram seu papel especial durante esses dias... – agradeceu sorrindo – Gerson foi nosso motorista para todo canto; Vera não foi só uma ajudante, mas também uma amiga, me ouvindo em todos os momentos; a Luísa eu não preciso nem falar né, além de irmã é minha melhor amiga, e esteve lá por mim para praticamente tudo... E, é claro, o Caio e a Mariana ajudaram muito a mudar a Elisa, em uma semana ela aparentemente melhorou muito... Obrigada a todos. – finalizou chorando, deu um abraço em Luísa e em Vera e entrou no carro.
Corri até meu pai e o abracei forte e rapidamente.
— Te vejo por aí? – perguntei com os olhos marejados.
— Sempre, em todo lugar. – respondeu e me ergueu por um segundo, me soltando em seguida – Vocês têm que ir.
Assenti e acenei para os outros, sorrindo tristemente. Entrei no carro ao lado de minha mãe, e fiquei olhando pela janela. De repente me deu aquela sensação de déjà vu, ao ver o carro se afastando lentamente, as pessoas com cara de choro... Só que dessa vez, o Caio não entrou atrás do carro para se despedir de novo. Ele simplesmente ficou lá, parado, me olhando com frieza.
— Isso ainda não acabou... – murmurei fazendo as lágrimas cessarem, e retomando a pose – Ou eu não me chamo Elisa Pacheco Facchini.
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