Esnobando o Amor
4 Capítulo 2 – Conhecendo a Fátima.
Notas iniciais
São Paulo novamente. Ai meu Deus, já estou preocupada! Logo no primeiro reencontro, o Rodrigo veio todo lindo para cima de mim, me abraçando de um jeito que ninguém mais conseguiria. Ugh, como eu me odeio! Fiquei a viagem toda ensaiando o que ia falar e como ia agir quando o visse, mas não saiu NADA como o esperado! Quando eu o vi, foi como se ele nunca tivesse feito nada de errado, e como se nós ainda fossemos casados. Eu devo confessar: eu ainda o amo. Mas eu sou muito estúpida mesmo! O cara está para se casar, te traiu e seguiu em frente, aí você simplesmente não consegue deixar de amá-lo! Pode isso? E pior ainda, ele não colabora nada né, vem todo charmosinho para cima de mim, ele sabe que eu não resisto! Mas às vezes fico pensando, será que tudo é para provocar, ou ele ainda me ama?
Refletia nisso enquanto tomava uma ducha para “tirar o avião de mim”, como diz a Elisa. Ah essa pestinha! Ela e o pai dela tramaram tudo, para me obrigar a ficar aqui! Qual é a deles hein? E parece que minha filha vai ter que andar na linha aqui, porque se tem uma coisa que o Rodrigo não admite, é gente esnobe. E é exatamente isso que a Elisa é, e eu não sei onde eu errei. Talvez sejam as amizades, sei lá... Mas tomara que meu marido- ex-marido (ugh!) passe um pouco da humildade dele para nossa filha, porque ela está precisando. O Rodrigo sempre foi muito simples (à medida do possível), pois ele começou pobre, e eu também. Nós construímos o império de supermercados dele juntos, quando eu era só uma garota na faculdade de Publicidade e Propaganda que estava oferecendo meus serviços de publicitária por um preço baixo, e ele era só um rapaz com um sonho de ter sua própria rede de supermercados. Nós formamos- formávamos (ugh de novo!) uma dupla em tanto! Às vezes, eu tenho uma saudade de quando tudo começou, de quando éramos jovens apaixonados por um sonho e um pelo outro... Agora tudo isso desmoronou.
Acabei meu banho e fui procurar algo para vestir na mala. Logo estava pronta, e decidi descer para socializar. Só estava torcendo para não encontrar o Rodrigo lá...
Desci até a sala e procurei alguém com os olhos. Estava vazia.
– Vera? – chamei olhando em volta.
– Na cozinha! – respondeu e eu fui até lá.
Encontrei-a cozinhando, parecia estar fazendo alguma coisa muito gostosa, pois o cheiro estava incrível!
– Hmmm que delícia! – falei me aproximando dela e erguendo um pouco a cabeça para exalar melhor aquele cheiro maravilhoso.
– Estrogonofe de filé mignon, como eu sei que você ama. – afirmou mexendo a comida na panela com uma colher de pau.
– Posso experimentar? – perguntei com os olhos brilhando. Para mim, a melhor comida do mundo é estrogonofe de filé mignon!
– Não! – respondeu sem me olhar.
– Ah, deixa vai! Só um pouquinho! – pedi fazendo biquinho e com uma voz manhosa.
Ela olhou para mim e riu incrédula. Eu estava parecendo uma criancinha de 5 anos.
– Ta bom bebezona, só um pouquinho porque você ficou fora por muito tempo! – disse pegando um pouco na colher de pau e colocando sobre a palma da minha mão, que estava esticada esperando ansiosamente.
Arrepiei ao sentir o calor do molho sobre minha mão, e levei-a até a boca saboreando o pouco que podia do alimento.
– Hmmmmmmmm, está divino! – exclamei de olhos fechados e com um sorriso no rosto.
– Aqui é cozinheira de primeira minha filha! – respondeu cheia de si, e eu ri levemente – Mas e aí, como estão as coisas lá nos EUA? – perguntou enquanto eu lavava as mãos na pia da cozinha.
– Ah, está tudo ótimo, lá é um lugar maravilhoso para se viver! – respondi chacoalhando as mãos para secá-las, até que visualizei um guardanapo de pano – Mas eu sinto muita falta daqui do Brasil.
– Só do Brasil, ou de alguém em especial no Brasil? – perguntou erguendo uma sobrancelha, enquanto eu secava minhas mãos no guardanapo de pano. A Vera me conhece bem demais, afinal antes de minha empregada- ex-empregada, eu a vejo como uma amiga. Ela sabe que eu ainda amo o Rodrigo, mas disso eu acho que todo mundo sabe.
Escorei minhas costas na pia e fiquei brincando com o guardanapo nas mãos, em silêncio. Não sei se estou pronta para responder.
– Cristina, eu sei que você ainda ama o Rodrigo. Dá para ver de quilômetros de distância! – afirmou se virando para mim e me encarando.
– Mas do que adianta me sentir assim, se ele vai se casar? O real motivo de eu vir nesse casamento, é para ver se eu me toco e sigo em frente. Mas se continuar assim vai ser difícil... – falei encarando o guardanapo.
– Você não precisa se conformar! O Rodrigo ainda te ama, e tenho certeza que se você der uma chance a ele, ele vai desistir do casamento! – exclamou se aproximando de mim e parando na minha frente para me encarar.
– Desistir do casamento para quê?! Para me trair de novo? Não, não é isso que eu quero. O melhor é ele casar logo com sei lá quem, que pelo menos se ele quiser bancar o cretino, ele banca com ela! – desabafei erguendo o tom de voz.
– Então esse é o seu medo? Que ele te traia de novo? – perguntou calmamente.
– É lógico! Se ele fez uma vez, por que não faria de novo? – questionei franzindo a testa, meus olhos já se enchendo de água.
– Porque te perdendo, ele descobriu que te ama! Ele se arrependeu todos os santos dias da vida dele por ter te traído! Confie em mim! – afirmou segurando meus ombros, me fazendo deixar a primeira lágrima cair.
– Então por que ele não foi atrás de mim em Los Angeles? – perguntei abaixando a cabeça e deixando as lágrimas rolarem livremente.
– Porque ele não sabia se você o aceitaria... – respondeu com a voz doce, acho que queria me acalmar.
– Por que ele não arriscou? Nós- ele sempre foi tão corajoso, sempre arriscando, nunca perdendo as esperanças... Por que ele perdeu as esperanças em mim? – questionei já soluçando, ainda de cabeça baixa.
Ela ficou em silêncio um tempo, e o único som que ecoava no lugar eram meus soluços desesperados.
– Eu já sei qual é o real motivo de você ter vindo a esse casamento. – indagou quebrando o silêncio.
– Eu já disse que foi para tentar segui...
– Para de mentir! Não para mim, mas para si mesma! Você está aqui porque VOCÊ não perdeu as esperanças nele! Você ainda acredita que vocês podem voltar! – exclamou me cortando, e de certa maneira ela estava certa.
– Ela deve estar aqui... Ah, aqui está você! Cristina, eu quero que conheça a Fátima, é com ela que eu vou...
– Casar! – completou uma mulher loira e magra, que entrou na cozinha acompanhada do meu marido- ex-marido. Olhei-os sem levantar a cabeça, virei o rosto e sequei as lágrimas.
– Olá! – cumprimentei tentando fingir um sorriso.
– Você deve ser a EX-esposa do Rodrigo... – falou se aproximando de mim e destacando o “EX”, e aquilo me doeu. Olhei com o canto dos olhos para o Rodrigo, que me encarava. Eu acho que ele percebeu que eu estava triste, então mudou sua fisionomia de cara de paisagem para cara de preocupado.
– Sim, sou eu. – respondi forçando um sorriso novamente.
Ela veio e me deu um beijo no rosto, como forma de cumprimento.
– Ah, eu to tão empolgada com o casa...
– Cristina você está bem? – perguntou Rodrigo vindo na minha direção e me olhando preocupado. Ele estava bem mais próximo de mim do que a noiva dele estava.
– Claro, por que não estaria? – respondi tentando esconder como eu não estava bem.
Ele abaixou o olhar, e eu sabia que não fui muito convincente e que ele não iria esquecer isso tão cedo. E acho também que ele sabe que é por causa dele que eu estou assim.
– Ai, será que não dá pra a gente conversar lá na sala não? Meu cabelo vai pegar cheiro de comida, se eu ficar aqui. – indagou Fátima cheirando seu próprio cabelo, e virando-se para Rodrigo.
– Claro – respondeu olhando para ela e depois para mim, com um olhar de “precisamos conversar a sós” – Vera o almoço vai demorar? – perguntou tirando os olhos de mim e direcionando-os a mulher atrás de mim.
– Não, eu já estou indo pôr na mesa, só mais um pouquinho Senhor Rodrigo. – respondeu a empregada séria.
– Okay, ãn, você vem conosco? – perguntou agora olhando para mim de novo, com um olhar que parecia que ia furar minha cabeça.
– Não, eu vou ajudar a Vera a pôr a mesa. – respondi tentando me livrar de ficar no mesmo ambiente que aqueles dois, ainda mais sozinhos.
– Nossa, mas a Vera consegue se virar... – indagou a noiva da vez, com um pouco de arrogância na voz. Quem ela pensa que é? Uma pé rapada que seduziu um homem rico e CASADO, ta se achando a patroa! Ah, eu não aguento...
Respirei fundo para não discutir com aquela lá e passar a maior vergonha, e voltei a falar.
– Eu sei que ela consegue, mas não custa ajudar né... – afirmei o mais calma que pude, me segurando para não voar nela. Além de pegar o meu homem, quer dar uma de bãbãbã! Ah, me ajuda aí vai!
– Ta bom, vem Fafá, vamos ali na sala enquanto não fica tudo pronto. – disse Rodrigo pegando no braço dela levemente.
– Ta né... Divirtam-se. – respondeu ironicamente com um sorrisinho sínico, que eu queria arrancar no soco naquele momento.
Os dois deixaram o cômodo, o Rodrigo me encarando até me perder de vista.
Soquei a pia com as duas mãos e respirei fundo, eu acho que vou enlouquecer nessa casa durante essa maldita semana!
– Calma, a pia não tem culpa se a noiva do seu ex-marido é uma vaca! – falou Vera dando uma risadinha.
– Vaca é pouco... – murmurei pendurando o guardanapo onde ele estava anteriormente.
– Quê? – perguntou virando-se para mim.
– Nada não. – respondi balançando a cabeça – Já vamos pôr tudo na mesa?
– Sim, vem me ajudar. – afirmou colocando a colher de madeira dentro da pia.
Eu a ajudei a pôr a mesa, e alguns minutos depois estávamos todos sentados na mesa, ainda esperando pela Elisa.
– Nossa, será que aconteceu alguma coisa com a Elisa? – perguntou Rodrigo meio preocupado.
– Não, é assim mesmo, ela demora uma cara. – respondi olhando para ele. Foi espontâneo, talvez a primeira coisa verdadeira que eu falei para eles até agora.
– Quem vai casar sou eu, não ela! – disse a loira oxigenada noiva do Rodrigo, ela claramente quer jogar na minha cara sobre esse maldito casamento.
Fechei os punhos sobre a mesa e respirei fundo, contando até dez. Se eu ficar uma tarde toda com aquela criatura a menos de 1 km de distância, eu vou cometer um assassinato.
– Será que ela vai ficar brava se nós nos servirmos sem ela? – questionou meu EX-marido (estou tentando me acostumar com isso), já impaciente.
– Ah, eu aposto que sim. – respondi assentindo com a cabeça e o encarando nos olhos, tentando ao máximo não derreter ali mesmo.
– Mas nós já esperamos 10 minutos! Eu tenho compromisso minha filha! – retrucou a vaca noiva, fazendo meus dentes trincarem. Ela estava certa, a Elisa estava demorando mesmo, mas eu não ia dar o braço a torcer NUNCA.
– Eu tenho certeza que ela já vai descer, dá para esperar mais um pouco? – rebati com uma pitada de hostilidade, e eu percebi que ela ficou P da vida.
– Nem mais um segundo! – exclamou pegando o prato e começando a se servir.
– Oi gente. – cumprimentou a Elisa entrando no cômodo – Nem pra me esperar pra comer né? – continuou ao ver a loira se servindo, com seu jeito arrogante de ser, que normalmente eu não gosto, mas hoje estou torcendo para ela usar todos os truques dela para aprontar com aquelazinha. E minha filha tem MUITOS truques excelentes.
– Ninguém nunca te avisou que a água do mundo ta acabando não hein filhinha? – perguntou a megera ironicamente, tentando zombar da minha filha. Mal sabe ela que a Elisa não é “zombável”.
A adolescente a olhou atravessado, e eu já sabia o que viria por aí. Minha filha vai fazer a vida dessa mulher um inferno, e eu vou ADORAR. Eu não queria estar na pele dela, porque quando a Elisa pega para aprontar com alguém, sai de baixo. Mas vai ser um entretenimento em tanto.
– E ninguém nunca te avisou que lugar de exu é no inferno? – rebateu hostilmente minha filha, me fazendo quase morrer de rir por dentro, mas só soltei um risinho para não ser deselegante.
– ELISA! – repreendeu Rodrigo, e a Fátima ficou vermelha de raiva. E eu estou amando tudo isso (risos).
– Mas onde você foi arrumar essa criatura hein pai? Achei que você tivesse um gosto um pouquinho melhor! – exclamou Elisa ao sentar-se à mesa, ao meu lado.
– Elisa, por favor, mais respeito com a Fátima, ela é minha noiva. – indagou seriamente Rodrigo, e eu fiquei indiferente à situação, o que, eu sei, irritou ele.
– Fátima? Então esse é o nome dessa daí? Mas é pobre mesmo... – falou a garota.
– Agora chega Elisa, mais um piu e serei obrigado a te pôr de castigo! – disse se alterando um pouco, e nossa filha revirou os olhos e bufou. Será que ele não entende que não somos obrigadas a suportar azinha que ele achou?
Nós continuamos a refeição em silêncio, a Fátima pendurada no braço do Rodrigo o tempo todo, e eu e ele trocando olhares de “precisamos conversar”. Foi quando eu reparei que Elisa e a loira também trocavam alguns olhares, a mais velha ameaçando e a mais nova desafiando. Quero ver se essa daí vai aguentar bater de frente com minha filha...
Depois do almoço chamei a Elisa para ficar comigo no quarto, porque eu ODEIO ficar sozinha, ainda mais na casa do meu EX. Passamos a tarde juntas no quarto, falando mal da Fátima e a Elisa me contou sobre um plano ou outro para aprontar com ela, e eu estava amando.
Já o Rodrigo passou a tarde com a noiva em casa, acho que ela quer fazer marcação serrada na gente.
Quando começou a anoitecer, mandei minha filha ir tomar banho, e eu também iria. Até ouvir uma batida na porta do quarto, e fui ver quem era.
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