Esnobando o Amor 2
3 Capítulo 1 – Hora de Recomeçar.
Notas iniciais
São Paulo, aqui estamos nós de novo. Mal posso acreditar que eu voltei, depois de toda aquela coisa com o Rodrigo...
Depois de pegarmos as malas, segui com Elisa para a escada rolante, que nos levaria à saída do aeroporto. Respirei fundo e observei o local, me lembrando de tudo o que acontecera. Os últimos meses foram mais fáceis de lidar, afinal me cobri de trabalho em Nova York, sem nem ter tempo de pensar nele. Mas, apesar de tudo isso, não consegui esquecê-lo. Cheguei à conclusão de que é impossível esquecer esse homem, e me odeio por isso. E é por isso que estou torcendo para não o encontrar tão cedo, mesmo tendo a sensação de que Elisa vai aprontar alguma coisa...
Olhei para o lado e vi minha filha rindo, e foi quando um arrepio me subiu pela espinha. Aquela risada era sinônimo de que alguma bomba estava por vir...
— O que foi, Elisa? – perguntei, temendo a resposta.
— Olha para baixo. – respondeu sorridente.
Fiz o que ela disse e olhei para baixo, com medo do que veria. De tudo que eu imaginara, essa era a última coisa que eu pensei que aconteceria: no final das escadas no meio da multidão, estavam Vera, Gerson e Caio. Mais à frente se encontrava a pessoa mais importante, aquela que me confunde todinha, me deixa do avesso com apenas um olhar. Rodrigo. Ele se encontrava de pé, com um violão pendurado no pescoço e um sorriso estampado no rosto.
“Meu Deus, me diz que não é verdade...” – pensei encarando a cena, começando a me desesperar. Me virei para Elisa, que sorriu vitoriosa, e a encarei com um olhar assassino – Isso não pode estar acontecendo... – murmurei e vi minha filha rir ao meu lado, me deixando com mais raiva ainda.
Quando finalmente chegamos no chão, não pude deixar de encarar Rodrigo, que sorriu largo para mim, começando a tocar as primeiras notas no violão, e já reconheci a música na hora.
“Não pode ser...” – o olhei desconfiada e cruzei os braços, tentando manter a postura.
— Quando digo que deixei de te amar, é porque eu te amo... – começou a cantar, fazendo meu coração apertar. Logo essa música, que tinha tudo a ver com nós dois.
Antes mesmo de chegar no refrão, não consegui conter as lágrimas, me desmanchando ali mesmo. O encarava nos olhos, enquanto se passava um flashback de tudo o que havíamos vivido, desde quando nos conhecemos, nosso casamento, a traição, o quase casamento dele... Absolutamente tudo. E, por um momento, pareceu que ele nunca havia me magoado. Que todo aquele passado não passava de coisas sem importância, e um recomeço seria completamente possível.
“Droga Cristina! Ele não pode te ganhar com só uma música!” – me repreendi por dentro, secando as lágrimas e tentando parecer forte. Mas, para acabar com minha postura, ele se ajoelhou aos meus pés, insinuando que eu cantasse junto.
— Diz que é verdade, que tem saudade, que ainda você pensa muito em mim... Diz que é verdade, que tem saudade, que ainda você quer viver... pra mim...! – terminamos a música juntos, nos encarando nos olhos. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha ao terminar, tirando violão do pescoço e entregando para Vera, que observava tudo emocionada.
— Cristina... Eu sei que errei com você muitas vezes, de novo e de novo... – começou a falar, ainda ajoelhado – E eu sei que você disse que não temos mais chances... Mas eu sei que temos. Eu sei que você ainda me ama, do mesmo jeito que eu te amo. E eu sei também, que isso é extremamente brega e infantil – riu-se fraco – Mas a gente perde o senso quando se ama, sabe? E eu me perdi completamente, e sem você eu temo que nunca mais consiga me achar... – enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha, me surpreendendo completamente – E é por isso que eu quero pedir mais uma chance... só mais uma. Mais uma chance de recomeçar, de fazer as coisas da maneira certa, de te ter ao meu lado... Talvez você não tenha me aceitado de volta ainda porque eu não pedi direito, então lá vamos nós... – riu-se novamente, parecendo nervoso – Me ajuda a me reencontrar? Vamos começar de novo? – pediu me olhando com os olhos marejados, segurando a caixinha aberta.
Nesse momento, já não segurava mais as lágrimas, que corriam livremente por meu rosto. Mas, apesar de tudo, ainda estava insegura. Belas palavras, mas será que ele mudaria mesmo na prática? A dúvida me corroía por dentro, afinal, não dá para ser trouxa de novo...
— Bom... – finalmente consegui falar, depois de alguns instantes em silêncio, pensativa – Confesso que tudo o que você disse mexeu comigo, e sim, eu te amo... – continuei, tentando conter as lágrimas – Porém, o que me garante que você vai mudar de verdade, Rodrigo? Como vou saber que daqui um ano ou menos, você não vai estar me traindo com outra? – sequei as lágrimas e cruzei os braços, o olhando séria.
— Eu mudei Cristina, eu juro... – disse pegando em minha mão com sua mão livre – Eu não saí com nenhuma outra mulher depois daquilo tudo, eu respeitei o seu espaço... Você tem que acreditar em mim! Todos merecem uma segunda chance, certo?
— Eu estive disposta a te dar uma segunda chance antes Rodrigo, mas você estragou tudo de novo... Como espera que eu confie em alguém que só acabou comigo? – percebi que várias pessoas nos olhavam e me senti envergonhada – Vamos discutir isso num local privado, por favor...
— Eu só vou me levantar daqui depois que te convencer a me dar uma segunda, terceira, vigésima chance... – riu e segurou mais forte em minha mão – Acho que o único jeito de descobrir vai ser me dando uma chance... – deu de ombros sorridente.
Parei e fiquei séria, o olhando. Ele parecia sincero, mas eu ainda estava com os dois pés atrás. Olhei para a aliança, e notei que é uma novinha em folha, diferente da nossa antiga e da que Fátima usara. Depois de algum tempo encarando o anel, soltei um sorriso fraco, mas logo o reprimi novamente, suspirando.
— Você deve ter gastado uma grana preta em alianças nessa vida né? Afinal comprou uma para mim há anos atrás, uma para a Fátima, e agora uma nova para mim de novo... – indaguei, tentando mudar de assunto.
— Ah, vem aqui vai! – me cortou se levantando e me puxando para um beijo, carregado de saudades.
Sorri e correspondi o beijo, ouvindo as palmas das pessoas em volta. Afastei meu rosto do seu interrompendo o beijo e fiquei completamente vermelha, devido à plateia.
— Posso considerar isso como um sim? – questionou mantendo meu rosto perto do seu.
— Um talvez... Mas para não ficar feio para você, vamos dizer que sim, é um sim... – sussurrei e me afastei um pouco, estendendo minha mão para ele pôr o anel.
Ele não disse nada, apenas colocou a aliança em meu dedo, sorridente, e me puxou para mais um beijo rápido. Olhei em volta e sorri para as pessoas que nos observavam, tentando evitar contato visual com as pessoas conhecidas.
— Vamos agora? – chamei puxando minha mala para perto.
— Nós dois vamos de táxi, afinal não vai caber todo mundo no carro. – afirmou ainda me encarando.
— Tudo bem... – respondi, olhando Elisa em seguida – Depois precisamos conversar, mocinha...
— Eu? O que eu fiz? – perguntou, se fazendo de desentendida.
Apenas neguei com a cabeça e segurei minha mala, ameaçando começar a andar.
— Não precisa, eu e o Caio levamos, senhora Cristina... – disse Gerson, se aproximando.
— Senhorita... – o corrigi – E tudo bem, obrigada Gerson. – soltei a mala e me afastei – É bom te ver. – lhe dei um abraço rápido e me virei para Vera, que me olhava com um olhar malicioso – Vera... – me aproximei dela e a abracei também.
— Quanto tempo, flor... Acho que alguém se deu bem de novo... – sussurrou rindo, e eu respondi com um tapa leve em suas costas.
— Talvez sim, talvez não... – respondi e me afastei, olhando Caio – Oi Caio, como você cresceu, está lindo! – o abracei rapidamente e me virei para Rodrigo – Vamos?
— Vamos. – afirmou e foi até Elisa, a abraçou e sussurraram entre si, para ninguém ouvir.
Depois de nos despedirmos, saímos e pegamos um táxi que estava parado em frente o aeroporto. Entrei no carro e fiquei em silêncio, esperando que ele falasse alguma coisa.
— E então... – se virou para mim – Sua resposta é mesmo sim, né?
— Não sei... – suspirei e olhei para baixo – Eu realmente quero te dizer sim e tentar de novo, mas não teria lógica te aceitar depois de tudo...
— Lembra o que dizem sobre ouvir a voz do coração é blá blá blá? Então... Você deveria aderir à ideia... – riu fraco, mas logo fechou o cenho – Eu sei que dei muitas mancadas contigo, e eu faço o que você quiser para compensar... – afirmou segurando minha mão.
Deixei um sorriso fraco escapar e apertei sua mão, levemente.
— Você não acha muito cedo para nos casarmos de novo? Quero dizer, nós poderíamos esperar um pouco, ver como as coisas andam... – disse olhando nossas mãos.
— Se fizermos isso, nunca mais vamos nos casar... E isso é muito importante para mim. – respondeu fazendo carinho a ponta dos dedos em minha mão, sem soltá-la.
Respirei fundo e encarei o banco à minha frente por um bom tempo, pensativa. Apesar da insegurança, eu me sentia leve ao seu lado, e um futuro juntos parecia tão bom...
— Vamos fazer o seguinte. – indaguei depois de um bom tempo pensando – Nós marcamos o casamento para daqui a alguns meses, e tentamos fazer isso dar certo. – expliquei me virando para ele – Você vai ter sua chance de fazer funcionar, e eu de me estabilizar aqui novamente. Se der errado, nós cancelamos o casamento e pronto, afinal não seria a primeira vez, né.
— Essa foi sua melhor ideia hoje... – afirmou sorrindo, e levou a mão ao meu cabelo – Já estou dentro! – manteve o sorriso e ficou me encarando de maneira apaixonada – Depois de tanta coisa, nunca imaginei que voltaríamos a isso... – desceu a mão até meu ombro e me abraçou de lado, posicionando minha cabeça em seu peito.
— Muito menos eu... – falei num suspiro, me acomodando junto a seu corpo – Não que não tenha sonhado com isso, mas não achei que se tornaria realidade...
Ficamos ambos em silêncio, mas não era constrangedor. Era um silêncio confortável, de quem apenas curtia a companhia um do outro. Vendo que ainda demoraria para chegarmos na casa dele, Rodrigo me perguntou sobre a vida em Nova York, e acabamos conversando sobre isso por todo o resto do caminho.
Vários minutos depois, o táxi finalmente estacionou na frente da minha antiga... atual casa. Meu ex-marido/atual noivo pagou a corrida e, antes de sairmos do carro, me beijou ternamente, sendo repreendido pelo taxista.
— Isso é porque provavelmente não teremos muito tempo por enquanto... – murmurou e sorriu, me puxando para fora do carro.
Apenas ri e segui com ele para dentro da casa. Avistei Gerson tirando nossas malas do carro, enquanto Elisa conversava com Vera na sala. Entrei no cômodo e me sentei ao lado delas.
— Sobre o que estão falando? – perguntei, me acomodando no sofá.
— Adivinha? Sobre vocês dois, é claro! – respondeu Vera, rindo – Estão mesmo juntos de novo, né?
— Sim... – afirmei rindo sem graça – Só vocês para aprontarem assim, viu...
— Isso foi tudo ideia da pestinha da sua filha, eu só ajudei na execução... Aguentar o Rodrigo ensaiando essa música 24 horas por dia 7 dias por semana não foi fácil não viu! – comentou, nos fazendo gargalhar.
— Até que meu pai foi bem, achei que ele iria desafinar na música inteira. – indagou Elisa, se jogando no encosto do sofá – Mas o que vale é a intenção, que era vocês reatarem, e pelo jeito deu certo! Temos que começar a planejar o casamento, porque tem que ser perfeito!
— Elisa, calma... Nós decidimos ir com calma, marcar o casamento para daqui vários meses, tentar fazer funcionar...
— Como assim?! Mas vai funcionar, é claro que vai! – retrucou minha filha, inconformada.
— Nós queremos acreditar que sim, mas não precisa de pressa... Temos todo o tempo agora! – falei, olhando Rodrigo passar com algumas malas.
— Então, senhoritas... Já posso acomodá-las aqui, né? Mesmo que vocês já têm o apartamento, vão ficar aqui, certo? – questionou Rodrigo, com uma pitada de insegurança.
— Por enquanto, ficamos aqui... Mas preciso resolver as coisas do apartamento, porém deixa isso para mais tarde... – sorri para ele, que imitou meu gesto.
— Perfeito! – disse levando as malas para cima.
— Preciso urgentemente de um banho. – indagou Elisa, suspirando.
— Eu também... – me levantei – Acho que aquelas eram minhas malas, vou subir para tomar um banho logo, porque estou agoniada.
— Banho, sei... – rebateu Vera, ironicamente.
Ri envergonhada e neguei com a cabeça, subindo logo em seguida. Olhei em volta, e notei que absolutamente nada havia mudado. Parei na porta do quarto de Rodrigo, e o vi organizando minhas coisas. Fiquei ali, encostada no batente da porta, o assistindo por algum tempo. Ele parecia feliz, e confesso que eu também estava. Soltei um suspiro alto, que chamou sua atenção.
— Hey, não te vi aí. – sorriu colocando uma mala no lugar – Pode colocar as roupas no closet se quiser, tem bastante espaço, afinal foi feito para os dois, né... – afirmou, apontando para o closet – Bem vinda de volta! – abriu os braços, com um sorriso amplo.
— Obrigada... – respondi, me aproximando dele e envolvendo meus braços em seu pescoço – Espero que dessa vez você não estrague tudo.
— Eu não vou. – falou com convicção, e fitamos os olhos um do outro com intensidade, em silêncio.
Até que finalmente vencemos a distância entre nossos rostos, em um beijo carregado de sentimento. Paixão, saudades, vontade... Tudo unido ali, em um simples gesto.
Um beijo que começou carinhoso, começou a esquentar, ambos deixando claro a saudade que sentíamos do corpo um do outro.
— Preciso urgentemente de um banho, o que acha de se juntar a mim? – murmurei em seu ouvindo, quebrando o beijo.
— Acho que também estou me sentindo meio sujinho... – respondeu e riu-se, me levando até o banheiro. O puxei para um beijo caloroso, com sede de matar a saudade de todos esses meses.
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