– Eu não sei por onde começar – Esme falou baixo para o primo.

– Pelo começo sempre é bom.

– Sim, sim, claro, é só.... eu não sei como você vai reagir a isso.

– Cedo ou tarde eu precisarei saber o por que de você estar aqui sozinha, Esme.

– Eu sei.... – Esme respirou fundo antes de continuar – eu abandonei Charles.

Johnny ficou em silêncio e Esme interpretou aquilo como mal sinal.

– Se você quiser eu vou embora e...

– Pare Esme! Você é família, não tem porque ir. Tem algo a ver com esse seu pulso roxo, não tem?

Esme se encolheu e puxou as mangas do vestido para baixo, cobrindo os machucados, a sua vergonha.

– S-sim – murmurou mas Johnny conseguiu ouvir – tem sim algo a ver com isso.

– Alguém estava te machucando na cidade? É isso? Tenho certeza que Charles resolveria, daria um chega para lá em qualquer um que te incomodasse.

Esme murmurou algo em resposta que Johnny não conseguiu ouvir.

– Por favor Esme, mais alto. O que foi?

– Foi.... foi ele.

– Foi o que? Você não está fazendo sentido.

– Charles – Esme disse por fim – ele quem fez isso.

– Como? Pera, repete de novo, eu não entendi. Foi Charles que fez isso com você? Mas.... mas ele era um cara legal pelo que a tia tinha contado, não era?

– Ele era, ou é, não sei.... sei que ele perde controle quando bebe, fica um pouco bruto e... – Esme pensou em revelar que estava grávida mas preferiu manter aquilo consigo — ... eu só não podia continuar ali.

– Tudo bem. Mas... isso foi só uma vez? Só dessa vez? Ou já aconteceu antes? Por favor Esme, você precisa me contar para que eu possa pensar no que fazer.

– Não tem o que fazer, eu já o larguei e não tem mais o que fazer – virou-se para o primo e pediu suplicante – por favor, não faça nada a respeito, só esqueça. Não quero que você vá atrás dele ou algo do tipo. Eu só quero seguir minha vida.

Johnny olhou a prima, a menina confiante que conheça quando criança já não existia mais. A sua frente só uma mulher encolhida e machucada, nem de longe parecida com a jovem Esme de dezesseis anos.

– Tudo bem. Pode ficar quanto tempo quiser. Não se preocupe. Minha esposa deve estar voltando da casa da amiga daqui a pouco, avisarei que você ficará aqui. Ela tem algumas roupas que poderá te emprestar.

– Eu.... eu....

– Fale Esme, somos primos, não somos? Você pode me contar o que quiser. Quando crianças você me protegia quando minha mãe tentava me bater com cabo de vassoura porque eu comia os doces antes do jantar, agora é minha vez de te proteger.

– É só... sua esposa irá me aceitar? Você sabe que caso me aceitem irão ficar mal falados na cidade já que terão abrigado uma mulher que largou o marido.

– Ora, é com isso que está se preocupando? Relaxe, direi que você é minha prima viúva, que seu marido morreu na guerra. Ninguém lhe conhece aqui, não tem porque desconfiarem. Assim está bom para você?

– Obrigada Johnny, muito obrigada mesmo. Não tenho como lhe agradecer o suficiente.

– Somos família. Agora durma um pouco e descanse. Estou indo trabalhar e avisarei minha esposa que você está aqui. Não precisa mais se preocupar.

Quando se viu sozinha no quarto Esme soltou um suspiro de alívio, parecia que as coisas estavam se ajeitando agora. Ela sentia que agora seria feliz.

– Eu e você teremos uma ótima vida querido – disse acariciando a barriga – tenho certeza de que teremos.