Sorria, Esme dizia como um mantra para si mesma. Respire e sorria. Você precisa parecer feliz, você precisa ser feliz...

– Muito obrigada senhor – disse pagando os pães.

As ruas da cidade estavam movimentadas, as pessoas estavam em alerta, o jornaleiro berrava as notícias do jornal do dia:

– Presidente Wilson confirma entrada dos EUA entra na guerra! Presidente diz que EUA entra na guerra! Compre seu jornal aqui! Saiba tudo que aconteceu ontem!

Esme fez uma prece interna e já imaginou que em breve eles, cidadãos comuns, iriam sentir as mudanças que a guerra ia causar. Os preços iam subir, eles teriam toque de recolher... por que o mundo tinha se tornado tão violento? Qual a dificuldade em os países sentarem e conversarem entre si?

Suspirou, não é como se ela pudesse fazer a diferença. Era só uma mulher de Columbus, Ohio, não tinha nada o que fazer.

Pegou as compras do dia e andou lentamente até sua casa, evitando o máximo que podia aquele lugar. Porém, por menores que fossem seus passos, enfim chegou na pequena casa azul. Entrou sem fazer barulho se refugiando logo na cozinha. Cozinhar lhe trazia paz, e o marido raramente entrava ali, só quando estava muito bêbado e sequer conseguia calcular dois mais dois.

O barulho da campainha a tirou de seus desvaneios e olhou assustada para a porta. Naqueles anos todos de casados nunca tiveram uma visita. O que deveria fazer agora? Abrir a porta e convidar a pessoa a se sentar? Ou esperar a pessoa se cansar, desistir e ir embora?

Não teve tempo para decidir pois logo seu marido andou até o portão e o abriu, permitindo a pessoa entrar casa.

– Boa tarde, imagino que esteja falando com o primeiro-tenente Charles Evenson – um homem uniformizado disse uma vez que os dois estavam na sala da casa.

– Sim, sou eu – marido respondeu estufando o peito.

Era engraçado perceber o quanto seu marido mudava com a bebida, sóbrio ele era calmo e não a machucava. Parecia até outra pessoa.

– Estou aqui em nome da Vigésima-quinta Divisão dos Fuzileiros dos Estados Unidos da América para convocá-lo para a Guerra, se apresente no Quartel General na segunda-feira – falou entregando-lhe uma convocatória do governo.

– Certamente senhor. Estarei lá.

– Muito bem. Até lá – e se virando para Esme que o encarava da cozinha fez um comprimento – Senhora Evenson.

Quando se encontraram sozinhos na casa, Charles se virou para ela:

– Prepare minha mala, use aquela preta grande que esta em cima do armário. Quero tudo pronto para hoje a noite.

– Tudo bem – murmurou retornando para a cozinha para terminar o almoço.

Marido e mulher sentaram-se na mesa e comeram em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos.

– Tem dinheiro na segunda gaveta da despensa, você deve conseguir viver com isso até eu voltar da guerra. O governo deve vir entregar cheques de vez em quando também. Estou indo ver meus amigos agora, antes de eu partir amanhã.

– Tudo bem.

Quando o marido saiu porta a fora ela suspirou aliviada. Quando Charles estava assim, sóbrio, era os melhores momentos. Eles mal se tocavam e o marido raramente lhe dirigia uma palavra, mas pelo menos ela não sentia nenhuma dor.

Recolheu os pratos e foi lavar a louça. Com tudo terminado sentou-se perto da lareira e começou a ler seus livros, aqueles que sua mãe não gostava que lesse pois lhe davam ideias que moças direitas não deviam ter.

Sentiu as pálpebras pesadas e rapidamente adormeu. Sonhou que era livre, que corria por um campo aberto e um homem loiro a abraçava por trás e ria. Mas sabia que aquele loiro não era do mesmo tom do seu marido, era um loiro mais claro, era de outra pessoa.

De repente o céu ficou escuro, o campo aberto se transformou em cactos traiçoeiros, e espinhos a espetavam e machucavam.

– E-e-e-esme.... seja uma boa esposa.

Acordou assustada e percebeu que o marido estava em cima dela a imobilizando, o cheiro de álcool impregnava-lhe a boca.

– Os meninos falaram que eu devia ter uma noite de rei antes de partir, e eu vou ter! – disse colocando uma coroa imaginária na cabeça – Sou um rei!

O marido gargalhava sozinho e foi puxando-a até o quarto. Esme deitou-se na cama e se manteve imóvel, os hematomas da noite anterior ainda na pele.

– M-m-minha esposa é tão linda! – ele baforou em seu pescoço antes de penetrá-la.

Esme segurou o grito que teimava em sair. Quanto antes ele começar antes termina, quanto antes começar antes termina....

Ela tinha aprendido com a última vez que não devia se rebelar contra o marido, o pulso roxo que tivera era uma prova disso. Só ficou encarando o teto esperando terminar.

Sentiu o marido se esvaziar e deitar-se ao seu lado e quando finalmente Charles estava roncando ela se permitiu ir até o banheiro e se limpar.

Olhou-se no espelho e mal se reconheceu, olheiras profundas cobriam os olhos e estava bem mais magra.

– Sou feliz, sou feliz, sou feliz.... – murmurou para si mesma, mas até ela sabia que era uma mentira.

No dia seguinte acordou cedo, preparou o café da manhã e viu o marido descer as escadas já com o uniforme do exército.

Os dois comeram em silêncio e depois Charles pegou a mala e deu um beijo casto na testa da mulher.

– Te vejo em seis meses. Se precisar de algo avise o quartel general aqui da cidade, eles vão te ajudar.

Esme assistiu o marido entrar no ônibus militar e partiu. Quando o ônibus sumiu da vista soltou um suspiro de alívio.

– Tomara que ele morra... – murmurou, mas logo arregalou os olhos nervosa já se arrependendo – Não... não.... não se pode desejar a morte de ninguém....

Se recolheu na casa vazia e um pequeno sorriso saiu dos lábios. Por seis meses era livre, só ela consigo mesma.

Notas finais
Eu não curto muito aquela ideia de que um personagem é mal porque é simplesmente mal. Minha ideia aqui sobre o Charles é só que ele é um bêbado violento, mas como vocês podem ver, sóbrio é alguém normal. Acho que personagens assim são bem mais interessantes. Bem, obrig por lerem até aqui. Até o próximo ano pessoal! ;D