Escuridão Total
2 Capítulo 2
Estava lá. Naquele sofá velho, de cor bege, já desbotando. Não importava. Eu odiava está ali. Todas aquelas lembranças. Tudo que vivera ali. Porque eu entrei mesmo? Anne sentou do meu lado.
–Já eles chegam. Estavam lá no quarto cochichando...
–Não foi uma boa ideia aparecer aqui. Não estou me sentindo bem.
–Besteira Rafa! Sabe o quanto eles sentem falta de você.
Ela não sabia. Era muito pequena quando tudo começou. Acho que Eddite se esforçou ao máximo para que meus problemas não afetassem Anne. Ela não lembra dos nossos pais biológicos. Como lembraria. Era apenas um bebê quando tudo aconteceu. Minha "mãe" entrou na sala. Sentia que a mesma estava me evitando com o olhar. Já o velho Rodrigo não exitou em me puxar do sofá e me da um abraço. Como eu odeio abraços. Todo aquele contato. Como não sei se ele não está coberto de germes. Que nojo. Dei umas tapinhas nas costas dele, querendo dizer, já basta, menos... Eddite me olhava fixamente agora. Acho que no fundo imaginava o que eu podia fazer se perdesse o controle da situação. Nada fiz. Cumprimentei-a com o olhar.
–Vamos gente. Faz quase 2 meses que vocês não se vêem e só o papai que demonstra alguma coisa aqui. Rafael seu tosco. Vem cá me dá um abraço.
Quem disse que eu queria todo aquele contato. Fui novamente forçado. Era algo sufocante ter que demonstrar algum carinho quando na verdade tudo que eu sentia era vontade de nunca ter entrado naquele lugar. Mas no fundo, eu devia aquela gente. Graças a eles eu mudei minha identidade. De certa forma, estava em minha carreira promissora, graças a eles. Quem contrataria um indivíduo que foi fichado quando tinha 8 anos? E de um crime tão grave?
Continuei naquele local. Já estava impaciente. Anne parecia muito empolgada. Mas porque? Aquilo para mim era uma tortura. Eddite não me olhava nos olhos. Sentia que ela tinha medo de mim. Não era para menos.
–Para onde vamos?
–Pensei em irmos em algum restaurante japonês. Queria um yakissoba. Estou com fome.
Nessa hora acho que Eddite pensou em me oferecer algo. Mas ela, igual a mim, só queria que fosse embora. Nos levantamos e fomos até o carro. Anne não parava de falar. Falava da escola. Das coisas incríveis que pouco me interessava. Quando finalmente liguei o carro. Ela parou de falar e começou a mexer no celular. Finalmente paz. Silêncio. Não durou muito tempo.
–Porque estamos indo comer fora?
–Ganhei uma grande comissão hoje.
–Abom. Pensei que estava com namorada nova.
Como eu poderia namorar? As meninas que Anne tentava jogar em cima de mim, eram todas estranhas. Para que eu queria namorar elas? Para mais tarde ter vontade de matá-las? A única coisa boa de ficar com alguém é o prazer que ela pode me oferecer. Aquele sede insaciável. Aquele desejo sem fim.Aquela vontade de mais e mais sexo. Sentimento por alguém eu nunca senti.
–A Isis ta solteira... Bem que vocês podiam se conhecer melhor.
Isis era uma mulher bonita. Lábios carnudos. Pescoço atraente. Lembro de uma vez que ela usou um xale azul. Ha aquele pescoço podia ser meu?
–Isis é bonita. Acho que não ficaria comigo.
–As vezes você não se dá o devido valor. Olhe só pra você. Um homem bem sucedido. De olhos claros. Corpo atlético. Qual mulher não se interessaria por você?
Eu sabia do meu poder de sedução. Sabia que poderia possuir qualquer mulher a qualquer hora. Mas tudo que eu queria era fazer sexo a noite toda, sentir que estou no comando e sair de lá sem obrigação de falar meu nome, nem muito menos pensar em ligar. Para que me agarrar alguém conhecido sabendo que uma hora ou outra ela irá sair magoada em razão da minha total indiferença?
–Sabia que papai e mamãe já até me perguntaram se você é gay?
–Ha Anne. Não inventa. Duvido que eles tenham dito algo sobre isso.
–Já me perguntaram sim. Você anda muito sozinho, e quando não está em seu universo particular está com os teus colegas de trabalho ou com o pessoal da academia. Só macho.
Nunca havia pensado daquela forma. Eu gay? Não gosto de homens. Nem de mulheres. Não sinto nada.
Chegamos no restaurante. Um lugar bem agradável. Com decoração japonesa. O cheiro de comida oriental invadia o local. Delicioso. O shushiman caprichou. Estava tudo delicioso. Não falamos muito. Anne até que se esforçava, puxando assunto sobre o tempo e coisa e tal, mas depois de tudo que vivera naquele dia, todas aquelas recordações. Só queria que terminasse aquele dia.
Depois de deixá-la em casa, tudo que eu queria era chegar em casa e ficar só eu e meus pensamentos. Tirei aquela roupa, vesti um calção confortável e fui para a varanda. Fiquei olhando fixamente para a rua. Tinha pouco movimento. Alguns carros passavam. Fiquei imaginando o porque Anne queria tanto que eu arrumasse alguém. Para que me jogar pra cima das amigas dela? Qual o propósito daquilo? Porque a minha família achava que eu era gay. Todos esses pensamentos deram lugar a uma única sensação. Aquele desejo de novo veio até mim. Vontade de sentir o cheiro de sangue. Como é delicioso sentir isso. Só uma vez senti o prazer de ter essa sensação. Ver um corpo totalmente sem vida e saber que eu fui o responsável. Nada podia ser melhor para mim. Pena que faz tanto tempo. Preciso sentir isso de novo. O desejo de matar está incontrolável dentro de mim. Tenho que fazer isso. Quero ser um homem que mata e deixar de lado o pivete de 6 anos que matou um dia para se defender. Não. Eu precisava de mais. Precisava de mais.
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