Escuridão Gentil
1 Escuridão
Notas iniciais
Depois de realizar a missa dominical, Padre Albert move-se pela igreja dando atenção a todos, entabulou uma conversa divertida e prazerosa com as crianças, as mesmas que durante a semana ensina literatura e escrita nesses bancos. Conversou com os jovens, com os adultos e com os velhos, tratando a todos com diligente atenção. As pessoas se dispersam saindo lentamente para fora, voltando para suas casas.
Ao andar pela igreja o olhar de Albert vagou-se um pouco, embaçado e esquecido. Piscou duas vezes.
– Como vão as coisas? Se recuperou daquele mal súbito nas costas? – ele foi surpreendido pela voz da mulher a sua frente.
– Foi uma maldição, Val, envergam-se ainda mais com o tempo e sinceramente, foi muito vergonhoso – riu ao lembrar-se que ficou com as costas travadas, há um bom tempo enquanto os dois limpavam a igreja.
Tão rápido a mulher veio como sumiu na multidão, deixando o Padre sozinho, sem mais explicações. Momentos depois Albert se encontra conversando em um velho grupo de amigos, Humbert e Dolores estão ali também.
– Então, quer dizer que a multiplicação de pães e peixes – fez uma mulher baixa e curiosa. – É apenas uma metáfora sobre como devemos distribuir a mensagem, voltarmos para Cristo, pegar mais peixes e distribuir tudo de novo?! – indagou agitada e feliz.
Albert sorriu.
– Quase isso, Elle.
Ficaram um bom tempo conversando com as bíblias abertas, uma mulher baixinha escutava os ensinamentos que Albert ia apontando, lendo versículos e explicando pacientemente a ela.
Foi assim que a manhã passou rápida para todos eles.
De pé, Albert observou os que restavam saindo para fora da igreja.
Seus ombros fustigados despencaram e ele dá um suspiro de muitos anos.
Depois disso foi para o fundo, almoçou na cozinha que ficava além de seus aposentos e ao retornar, sabia que a tarde já havia repousado sobre a manhã, percebeu que tinha muitas coisas para fazer, coisas que havia deixado para ultima hora.
Albert move-se distraidamente pelo altar, imerso em seus pensamentos ele segue arrumando, limpando o confessionário e os grandes assentos emadeirados.
Troca a sedas das mesas. Varre a igreja e depois se ocupa fazendo os relatórios do balanceamento mensal que precisa prestar contas.
Enquanto ele se mantém ocupado, canta uma musiquinha sibilante que pousa em seus lábios e alça voo sem que ele percebesse.
É interessante ver num refrão de segundo, entre uma tarefa e outra, o olhar de esguelha vai observando o lado de fora, rapidamente desviado e prossegue fazendo seus serviços com a graça da normalidade. Apesar de tudo ele continua cansado ao extremo — não, cansado não; olhando para fora, Albert não está feliz com essa espera, é isso, mas esse sentimento esfomeado não impede dos seus gestos de serem ainda mais graciosos, ele passeia pela igreja, assobiando.
Uma hora depois senta-se em um dos bancos.
Está escutando, procurando sentir, tentando mergulhar a atenção no silêncio que repercute a sua volta, então Albert franze a testa, isso não lhe traz felicidade, respirar o silêncio, não é tão supremo e absoluto como respirar a escuridão.
Sente-se acabrunhado, a carne do peito emudecida.
Ele ignora isso e retira das vestes um livrinho de capa preta e começa a lê-lo quase que distraidamente, quase que encantadoramente ele folheia, deitando as páginas amanteigadas uma sobre as outras, ele segura o objeto na linha do peito, suas pálpebras estão caídas, imerso na leitura.
Ele permanece assim, lendo e repetindo alguns trechos tão baixinho como um sopro constante, é quase bonito vê-lo nessa forma, na verdade é bem bonito mesmo, mas em outro aspecto ele está ligeiramente anormal com esse ar da tarde, essa pequena ruptura, ele não gosta disso, da tarde, da espera, da luz que não se apaga.
Queria que os minutos se passassem mais rapidamente.
Ao observar Albert pela perspectiva humana, vemos um homem fisicamente bem, um velho comum, agradável, um homem casualmente feliz, mas ao descermos um pouco mais nos dedos das mãos entrelaçadas, vemos o mindinho dele batucando levemente... é simpático vê-lo agitado, vê-lo inalando suspiro de infelicidade, um pouco de fome, eu diria.
Mesmo com a ligeira camada de suor lambendo sua testa, ele continua inalterável em sua máscara de tranquilidade, desvia subitamente os olhos, mas o gesto não é completo. Continua a ler baixinho e decide ficar assim até a tarde passar de uma vez para que ele sinta o anoitecer. Está ficando difícil suportar esse calor, essa energia do sol, e os minutos se arrastam, ele começa a suspirar de maneira dificultosa e aborrecida, mas permanece concentrado na leitura.
Os ensinamentos passam com o folhear das páginas e ele chega até o ultimo trecho do livro. Como se tivesse algum consentimento do horário, Albert fecha o livrinho abruptamente colocando-o nas vestes e caminha pelo corredor olhando as nuvens, para a sua tristeza; a tarde não virou noite.
Ele está há muito tempo em jejum.
Tudo o que queria – era a chegada da noite. Apenas isso.
Obriga-se a permanecer ali, enclausurado pelas paredes bonitas da igreja, o máximo que pode fazer é observar intensamente os moradores de fora.
Não possuí orgulho perante as pessoas, é de costumes simples e usa trajes negros, ele mesmo gosta da estrutura conservada do seu corpo, notamos ela pelo modo como ele se porta, o tronco ainda é firme e ao chegarmos perto, nos deparamos com seu olhar azul-férreo.
O Padre fica apoiado nos portais da igreja, observa a cidade e as ruas, as vielas sujas, mas ele ainda segue infeliz e com o espírito abatido pela espera.
Nós chegamos ao final da tarde e por isso, é interessante relatar que nada adiantou para trazer de volta a paz de espírito do velho Albert, ele, que tanto esperou – almejou – pelo anoitecer, que ao que parece, recusar-se a chegar.
Por um grão de tempo desviemos nossa atenção de Albert, O Monótono, e todas as demais coisas.
Encarecidamente peço que olhe para o alto.
Notará que acima dele, o céu de aveia começa a se modificar adquirindo o tom de águas profundas.
Mas céu ainda está visivelmente claro... você poderá me dizer – e eu não discordarei nem tirarei sua razão, mas de qualquer modo, é essencial nos preparamos para a escuridão que se achega.
Confortável e mansa.
Neste momento.
Albert consegue senti-la.
E sorri. Aliviado.
Bom, até aqui tudo fora meigo – singelo – e agradável enquanto contemplávamos apenas um dia comum e florido.
Um dia que chegou ao fim.
A escuridão é uma realidade inevitável. Depois do dia o que nos resta é o vapor da noite. E com sua chegada, algumas coisas se modificam, peço que se acomode.
Não teremos pressa, ela virá de um jeito ou de outro.
A noite pode chegar de maneira lenta, mas não menos abrasadora.
É possível que em determinados dias ela demore um pouco, como hoje, dando a impressão de que não virá, mesmo assim, não resta dúvidas.
Quando tudo se aquietar – ela estará presente.
Olhe novamente para o céu.
Veio mansamente. Como um nevoeiro.
Ela embalou tudo feito som de música.
A escuridão. Fez o dia adormecer.
Ela devastou o céu esbranquiçado tão rapidamente como as palavras de uma dama sufocando o coração de um homem.
Sem perceber.
Ela veio.
Receio dizer que não há como fugir de uma escuridão tão gentil, tão amarga e tão esplêndida como esta.
–
Albert não sabia por quanto tempo ficou mergulhado na escuridão, mas quanto retornou para dentro fechando as magistrais portas da igreja, regozijava-se por estar novamente restaurado. Apagou as lamparinas e entrou por detrás do altar, sumindo de vista.
Do outro lado percorria um corredor estreito, girou a maçaneta da última porta e entrou em seus aposentos. No interior, o quarto é limpo e de pouca mobília, ele despiu-se, guardou seu livrinho em uma gaveta especial, apagou a lamparina e deitou na sua cama fria e reconfortante, reclinando a cabeça no travesseiro.
Curiosamente, não fechou os olhos.
Em meio à escuridão é interessante vê-lo desconfiado. Agita-se um pouco mais. Percebeu a lenta passada ao seu redor, a velha sensação melodiosa e aos poucos, reconheceu que estava faminto, mas sinceramente, não pode fazer nada perante isso, é tarde demais para desejar qualquer coisa, ele esta deitado na sua cama e ali é aonde deve ficar.
Momentos depois Albert adormece, a madrugada avança sobre ele de maneira sossegada, como um abraço, como um alivio reconfortante sobre a estrutura cansada de seu corpo, como um poder oculto reacendendo um corpo velho e o aperfeiçoando.
No quarto tudo é calmo e escuro.
O tom da madrugada avança. Em algum lugar, passos ressoam.
Infestam o corredor e param na porta do quarto do padre.
A batida ecoa em volume acelerado, atingindo-o.
Padre Albert acorda e seu olhar caminha pelo ambiente escuro.
Mais batidas. Colocando suas vestes ele franze a testa para o som estridente da porta sendo atacada, caminha rapidamente e gira a maçaneta, aparecem dois montes encapuzados que o observam por um momento, ele os sente; a linha dos lábios se entorta num meio sorriso.
– Dolores, Humbert... o que houve?
– Albert, nós... – voz trêmula e feminina abaixo do capuz. – precisamos nos reunir.
– Sim, mas o que houve?
– Nossa filha foi violada – disse Humbert. – Precisamos de um julgamento.
– Faça tudo conforme a vontade de nosso Deus – enfatizou ela. – Todos corremos riscos, você sabe... estamos esperando por você no cômodo secreto.
Albert assentiu.
– Podem ir, eu vou me preparar.
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