Escuridão
1 escuridão
O quarto era um cubículo escuro e abafado. Não havia janelas e a única passagem de ar era uma pequena fresta entre a porta de ferro e o chão, que não era uma fonte suficiente de luz ou ar. O chão era áspero sob a minha pele e eu passava os dias ali, sentada, tentando ouvir algo do lado de fora. Uma ou duas vezes por dia, um funcionário passava uma bandeja por uma portinhola. Era, na maioria das vezes, um mingau grosso e gelado, que não tinha gosto de nada, mas que provavelmente teria algum componente nutritivo, já que de fome eu ainda não tinha morrido. Naquela quase completa escuridão, eu não tinha a menor noção da passagem de tempo: poderia ter passado algumas semanas ou dez anos que não faria a menor diferença. Eu também não conseguia sentir as mudanças em mim, já que eu não me enxergava e de tempos em tempos, alguém vinha e raspava minha cabeça.
No começo não era tão ruim. Havia uma janela com grades grossas e vidro temperado. Não dava pra ver muita coisa do lado de fora, já que o quarto dava para um enorme muro, mas pelo menos eu conseguia ver um recorte do céu e um ou outro pássaro voando. Havia uma cama e um abajur, mas tudo isso foi levado eventualmente. A primeira coisa que tiraram foi a janela: uma tarde – quando eu ainda tinha uma noção de tempo – eles arrancaram as grades e encheram o buraco de tijolos e cimento. Depois, eles foram tirando tudo que me fazia sentir humana. Trocaram o uniforme cinzento por uma camisola fina e comprida, que ia até os meus pés. Talvez foi aí que comecei a sentir a sanidade escapando do meu corpo. Se acendessem as luzes, veriam muitas marcas de sangue nas paredes cinzentas, de quando eu precisava sentir que estava viva.Hoje, não faz mais diferença. Eu fico sentada no que eu acho que seja o meio da sala – eu tentei medi-la com os pés quando ficou tudo escuro. Não sei mais o som da minha voz ou se ainda consigo enxergar algo, mas ainda tento ouvir. Na maioria das vezes, não consigo. Mas há aquelas em que ouço uma voz distante ou um assobio, mas não tenho certeza se é real ou se é apenas minha mente tentando enlouquecer.E continuo sentada. Não sei mais dizer se meus olhos estão abertos ou não. A escuridão engoliu meu corpo há muito tempo, e aos poucos, a minha mente também.
Notas finais
Há muito tempo penso sobre esse plot e finalmente tive a coragem (?) de escrever. Espero que gostem e deixem reviews sobre o que acharam!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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