Escuridão

2 Entre os mortos


Notas iniciais
Daniel tenta entender o que houve com ele e o que fará com sua nova "vida"...

Ser um fantasma era a parte mais fácil de tudo. A grande dificuldade foi entender como aquilo funcionava. Eu só conseguia subir e descer no princípio. Às vezes subia alto demais e tinha medo de sair voando pelo céu escuro. Outras vezes eu descia tão rápido que voltava para dentro daquele caixão. Agora, com a visão clara, aquelas visitas ao interior do meu túmulo eram perturbadoras. A morte não traz um manual de instruções, muito menos indicações de como ser um fantasma. O jeito era aprender da maneira mais antiga e mais difícil: tentando e errando!

Não sei dizer quanto tempo levei para conseguir dar a volta em torno do meu túmulo. Mas posso dizer que envolveu um enorme esforço e muito tempo de treino. Chega a ser ridículo! O tempo não significa nada para os mortos, e a cada dia eu percebia mais isso. Andar em círculos em torno da minha própria lápide deve ter levado semanas! Eu cansava muito rápido e era arrastado de volta para aquela escuridão fria e vazia. Aos poucos percebi que momentos antes de eu ser engolido por essa escuridão eu sentia uma espécie de embriaguez... Comecei a considerar aquele período como uma espécie de sono, embora, para mim, não fizesse muito sentido que os mortos dormissem.

Na verdade nada fazia muito sentido. Eu sempre pensei que fantasmas tinham um corpo, ou pelo menos uma forma definida. Sentir cansaço foi uma surpresa, mas começou a fazer algum sentido quando comecei a considerar que eu era feito de energia... Com todo o esforço que eu estava empenhando em minhas experiências, parecia natural o cansaço e a necessidade de repor as energias: dormir! Eu estava tentando aprender um pouco mais todo o dia, mas confesso que agradeceria se encontrasse outro fantasma que pudesse me guiar através daquela escuridão sem fim.

Outra coisa que eu percebi foi que minha atividade se concentrava toda a noite... Ou era isso, ou eu simplesmente não assimilava a luz do dia. Parecia que era sempre noite para mim! Ao menos enquanto eu estava desperto! Será que os fantasmas, assim como os vampiros, não podiam sair de dia? Era uma das tantas coisas que eu ainda não sabia. Ou será que eu é que estava condenado a viver numa eterna escuridão? Naqueles dias eu daria tudo para me lembrar da minha vida e entender o que estava acontecendo comigo!

Eu comecei a me aventurar a alguns centímetros da minha sepultura. Não tinha ideia se eu realmente podia fazer isso! Toda a vez que eu me afastava eu temia que não conseguisse voltar, que me perdesse naquele cemitério ou simplesmente desaparecesse. Tudo era uma aventura que eu não sabia como acabaria! Aos poucos fui ficando mais confiante e flutuando cada vez mais distante, mas sempre voltava. Eu não tinha nenhum objetivo senão ficar treinando o que eu era capaz de fazer.

Comecei a observar as sepulturas, os nomes, as esculturas... Como o tempo não fazia mais nenhuma diferença, eu conseguia ter tranquilidade para apreciar o lugar agora. Na verdade eu me obriguei a ter calma, ficar tranquilo. Não ia mesmo mudar o fato de estar morto e ser um fantasma inexperiente, de que adiantaria ter pressa? E eu me apressaria para que? Achei melhor continuar experimentando os limites daquela condição sem qualquer ambição... Naqueles dias eu achava que não valia a pena fazer planos, eu estava morto afinal!

Com o passar do tempo, meu cansaço foi diminuindo mais e mais. Meu sono foi ficando mais curto, embora continuasse se restringindo ao dia. Percebi que à medida que as minhas ideias e pensamentos iam ficando mais claros e ordenados, conseguia enxergar melhor o cemitério e ler os detalhes nas lápides. Também percebi que conforme eu ia me conscientizando do meu estado e dos meus limites, parecia que meu corpo se parecia menos com uma massa disforme e ganhava contornos mais humanos.

Fantasmas têm sentimentos. Foi a minha primeira descoberta! Eu ficava frustrado sempre que não conseguia fazer algo que eu queria; eu ficava triste quando percebia algum cortejo atravessando as alamedas do cemitério; eu tinha raiva quando percebia alguém perto do meu túmulo e não conseguia nem reconhecê-lo, nem me comunicar. E eu sentia uma estranha saudade, que se tornou permanente assim que eu entendi o que era aquilo.

Ser um fantasma me incomodava menos do que a minha inexperiência e minha falta de habilidade. Não conseguir ir onde eu queria e quando eu queria era irritante! O pior era não saber se não conseguir era efeito da minha condição ou apenas resultado da minha falta de conhecimento e experiência. Estar morto era o menos importante! Era o que eu não podia mudar! Ser um fantasma e não saber nada a respeito disso era frustrante!

Eu comecei a acreditar que devia ser um cético em vida. Era impossível a minha falta de conhecimento em relação à morte. Embora eu lidasse muito bem com o fato de estar morto, não tolerava muito bem o fato de ser um fantasma... Não, não era o fato de ser um fantasma, era ser um fantasma estupido que me incomodava! Eu devia ser alguma espécie de professor ou intelectual, por que o fato de não saber alguma coisa me incomodava muito.

Algumas vezes eu achava que tudo não passava de um sonho e me voltava para a escuridão, como um fechar de olhos da mente e me deixava levar, na esperança de acordar em alguma cama quente, talvez em casa, talvez em um hospital psiquiátrico. Nos primeiros dias, eu honestamente alimentei a esperança de ser apenas um doente mental, um esquizofrênico qualquer tendo ilusões de vida após a morte... A rotina me provou que não era uma ilusão.

Ás vezes eu pensava honestamente que ficaria deprimido ou louco. Na época eu não fazia ideia se essas coisas realmente podiam acontecer a um ser na minha situação. Mas eu tinha a impressão que a morte não me deixava deprimido. Isto é, ser um fantasma e a constatação de estar de fato, morto, não era exatamente deprimente. Ao menos não para mim!

Deprimente de verdade eram os fantasmas. Com o passar do tempo, comecei a perceber outras presenças. Era óbvio que isso aconteceria afinal eu estava em um cemitério! O que eu esperava? No principio eu só percebia a presença deles, mas depois comecei a distinguir outros fantasmas vagando pelo lugar, por todo o lugar. O estranho foi que eles simplesmente não percebiam que eu estava lá também e aquilo me deixou profundamente curioso. Será que fantasmas não podiam ver fantasmas?

Comecei a observá-los. À distância, em princípio, mas depois, percebi que era indiferente, já que eles pareciam não poder me ver mesmo que eu estivesse a centímetros de seus olhos. E eles pareciam tão estranhos! Atordoados, deprimidos, desorientados... Será que não sabiam que estavam mortos e que eram almas penadas? Eu me senti como um homem são preso em um manicômio e rodeado por doentes mentais. Aquela sensação me dava calafrios!

Eu os seguia por horas, mas eles não faziam nada além de se arrastar de um lado para o outro, às vezes resmungavam coisas que eu não conseguia entender. Comecei a me perguntar se éramos mesmo capazes de algum tipo de comunicação. Eu me sentia cada vez mais oprimido, deprimido... Esperava encontrar respostas, mas estava cada vez mais perdido naquele cemitério escuro.

Eram pateticamente tristes. Seus olhos que deviam refletir suas almas – a única coisa que lhes restava – estavam embotados, embaciados, apagados. Por que continuavam ali? A pergunta me voltava sempre que eu me deparava com um novo rosto apático e translucido. E um novo desespero me sacudia. Eu não queria ficar igual aqueles pobres espíritos! Mas o que seria de mim, se eu sequer era capaz de lembrar quem eu era? Perdi muito do meu tempo concentrado na minha preocupação com o futuro. Qual era o futuro que me esperava? A mim? Um mero fantasma sem memoria e sem destino, que sequer sabia ser um fantasma?

Aqueles olhos vazios, aquela postura triste... Aquilo era assustador. Eu temia me tornar um deles. O que me garantia que aquele não seria o meu futuro? E se fosse a única opção? Eu queria simplesmente saber... Mas a morte parecia-se demais com a vida nesse aspecto. Não tinha regras, nem constantes, nem certezas! A única verdade aparente era que eu estava morto e era uma alma penada!

O mais desanimador era o fato de que eu não tinha um corpo e ainda não conseguia falar. Eu me sentia completamente impotente. Meu sono, ou aquilo que eu chamava de sono, parecia se tornar cada vez mais longo. Eu estava ficando cansado de tudo aquilo, de ver aquelas almas perdidas, doloridas... Os resmungos pareciam ecoar dentro de mim, ressoar como sinos desafinados, retinir como a melodia de uma velha caixa de música; uma canção sombria que se repetia sem pausa.