Escuridão

3 Capítulo 3: Explicações


Capítulo 3: Explicações

Rodrigo estava vendo Medo matar Henry quando ouviu tiros vindo da biblioteca. "Yumi! Meu Deus! Será que aconteceu alguma coisa com ela? E quem pode ter soltado estes tiros?” Ele correu rapidamente até a biblioteca para ver se Yumi estava bem. Avistou-a caída no chão. Pensou que ela estivesse ferida e se aproximou para ver se apresentava alguma lesão. Para sua sorte, ela estava apenas dormindo.

O Caçador não foi visto por Rodrigo; se escondeu nas sombras e moveu-se silenciosamente até a saída, sem que ninguém percebesse sua presença. Apenas fez um pequeno barulho ao abrir a porta da biblioteca. Rodrigo escutou o som e foi ver havia alguém ali, mas o Caçador saiu tão rapidamente que ele não enxergou ninguém. "Quem será que era? O atirador dos disparos? Mas por que alguém atiraria em Yumi?" Rodrigo procurou por armas, rachaduras ou qualquer indício de que houve um confronto de armas ali, mas não encontrou nada. Era como se os disparos que ouvira fossem apenas alucinações. Também procurou por Allan, mas ele havia desaparecido. De novo. Rodrigo havia visto Allan sair da biblioteca, mas não o viu na frente do colégio quando Henry foi atacado. "Onde diabos foi parar Allan? E de onde vieram aqueles disparos? Ah, deve ser tudo coisa da minha cabeça! Afinal, não é todo dia que uma criatura chamada ‘Medo’ invade o colégio e mata os seus amigos...”.

Rodrigo pegou uma cadeira da biblioteca e sentou-se de frente com Yumi. Ficou lá, vigiando-a para o caso de acordar. Enquanto dormia, Yumi voltou a sonhar. Sonhar com Cólera. Cólera estava próxima dali, e sentiu a presença de Rodrigo. Sorrateiramente, foi por trás dele e colocou sua foice sobre seu pescoço, sem ser percebida. O Caçador de Almas estava por perto, vigiando Yumi de fora da biblioteca, por uma janela. Ele percebeu que Cólera estava tentando ferir Rodrigo. Rapidamente, pegou uma de suas armas e atirou contra Cólera. Rodrigo levou um susto com o tiro. Olhou para a direção de onde veio o disparo e viu o Caçador. "Mas o que é isso? O Caçador de Almas não estava do meu lado?”. O Caçador pegou sua arma novamente e pareceu mirar contra Rodrigo e atirou. Rodrigo abaixou-se rapidamente para desviar-se do tiro. O projétil atingiu Cólera, que estava atrás dele. O Caçador tentou atirar ainda mais uma vez, porém sua arma estava sem carga. “Droga! Esta foi a última bala de minha última arma! Não queria ter que me revelar de novo. Isso já deveria ter acabado há muito tempo. Mas por causa da minha piedade, inocentes começam a sofrer. Por que eu simplesmente não matei Yumi quando tive chance?"

Rodrigo percebeu as intenções do Caçador não eram feri-lo. Rapidamente, pegou Yumi e carrego-a para fora da biblioteca, porém, Cólera impediu sua passagem. O Caçador entrou na biblioteca pela janela e atacou Cólera, sem armas, já que elas estavam sem munição. Com exceção de uma. Uma de suas armas tinha uma única bala.

Cólera estava levando uma enorme vantagem, já que, mesmo muito habilidoso, boa parte da força do Caçador de Almas vinha de suas armas. Ele simplesmente fugia dos ataques de Cólera, se distanciando Rodrigo e Yumi, para que não se machucassem. Cólera tentou cortar o Caçador com sua foice, mas ele usou sua corrente para se proteger, deu um chute em Cólera e derrubou as estantes de livros em cima de dela. As estantes derrubadas acabaram caindo sobre a porta da biblioteca, impedindo que Rodrigo e Yumi fugissem. Cólera reergue-se, retirando as estantes que estavam de em cima de seu corpo. O Caçador tentou atacar Cólera com socos e chutes, mas Cólera desviou-se rapidamente, indo para trás do Caçador. O Caçador tentou se proteger, mas Cólera foi rápida e conseguiu cortar o Caçador com sua foice. Ao contrário do que aconteceu com as outras pessoas, a pele do Caçador foi cortada, e não somente suas roupas. "Sem minhas armas sou inútil! Desse jeito irei morrer!" Cólera tentou cortar o Caçador com sua foice novamente, mas ele se desviou rapidamente e enroscou sua corrente em volta da foice de Cólera, imobilizando-a.

-A menina! — gritou o Caçador — Acorde a menina!

-Como assim? — disse Rodrigo.

-Acorde Yumi! Ela é a causa disto! Se ela acordar, Cólera ira desaparecer!

Rodrigo tentou acordar Yumi, mas ela estava em sono profundo. Cólera fez bastante força e conseguiu se livrar da corrente do Caçador. Ele tentou reagir, mas Cólera lhe o segurou e lançou para longe. Ela percebeu que Rodrigo estava tentando acordar Yumi e foi tentar impedir. Aproximou-se de Rodrigo, estendeu sua foice até o alto, e quando ia cortá-lo, Yumi acordou. A foice de Cólera quase atingiu a cabeça de Rodrigo, antes de ela desaparecer no ar, sem deixar rastros. Rodrigo ficou sem entender nada, simplesmente atônito diante de tudo aquilo.

O Caçador ainda estava caído no chão, sentindo os golpes de Cólera. Havia uma pilha de livros em cima dele. Ele se levantou lentamente, com cuidado para não se machucar. "Cólera é mais forte do que pensei... Yumi realmente alimentou bem Medo Terei que ser breve.". Ao ver o Caçador de Almas, Yumi ficou com atemorizada. Ela rapidamente pegou a arma que estava com Rodrigo e mirou no nele.

-Afaste-se! — disse Yumi — Se você não se afastar, eu atiro!

-Mas o que é isso Yumi? — disse Rodrigo — Ele acabou de nos salvar! Abaixe essa arma!

-Nos salvar? Você deve estar enganado! Há pouco tempo ele tentou me matar!

-Matá-la?

O Caçador aproximou-se rapidamente, retirou a arma das mãos de Yumi e mirou em sua cabeça. Rodrigo reagiu rápido, pegou outra de suas armas e mirou no Caçador também. Os três ficaram parados, esperando um a reação do outro.

-Quem é você, Caçador? E o que realmente quer?

-Pode não parecer, mas apenas quero salvá-los.

-Nos salvar?! Esta arma apontada para a cabeça de Yumi não faz parecer isto...

-Ela é a causa de tudo isto. Somente destruindo-a poderemos sobreviver.

-O quê?! Mas isto não faz sentido!

O Caçador agarrou a arma de Rodrigo e deu um chute em seu abdômen, para que ele a soltasse. Num giro rápido, apontou as armas nas cabeças de Yumi e Rodrigo, que ficaram parados sem fazer nada.

-Por que você acha que me chamo "Caçador de Almas"? Eu não vim aqui brincar. Estou a serviço. Tenho uma presa definida: Yumi.

-Mas por quê?! O que eu o fiz?

-Repito o que já lhe disse: você sonhou.

-Como assim?

-Justamente você, a causadora de tudo isto, não percebe? Será que não vê que seus próprios sonhos estão nos atacando?

-Meus... Meus próprios sonhos?

-Não se faça de tola! Eu a observo há muito tempo. Sei quem você é e sei tudo sobre você. Sei até mesmo seus sonhos... Inclusive o sonho que você tem todas as noites. Aquele sonho com a criança que anda sobre as chamas.

-Aquele sonho... O que ele tem há ver com tudo isso?

-Depois que você tentou o suicídio, aquela criança de seu sonho se libertou. Ela estava apenas esperando que você fosse dominada pelo medo. Aquela criança é o próprio medo!

-O próprio medo? Está se referindo àquela criatura que ronda a floresta?

-Hunf... Aquela criatura é a forma verdadeira da criança. Eu tentei impedir que ela acordasse, mas antes que conseguisse destruí-la, você a libertou. Eu vi quando ela se transformou. Agora, aquele ser esta usando os medos e temores de sua mente para conseguir mais alimento. Aquela criatura se alimenta do medo, por isso, é chamada assim: Medo.

Cada vez que você sonha, cada vez que você se deixa dominar pelo medo, mais pessoas morrem. Cólera é um exemplo disto. Cólera só apareceu depois que você sonhou com ela. Como Cólera não passava de um de seus pesadelos, ela apenas aparece quando você está dormindo. Aliás, você conhece muito bem a figura de Cólera: era assim que retratavam o Vibrião de Cólera na época das Grandes Navegações, quando houve a primeira grande pandemia de cólera.

É tudo culpa de sua mente! Por isso, a minha missão é matar você. Só assim isso vai acabar.

-Ei, espere! — disse Rodrigo se colocando na frente de Yumi — Eu não vou permitir que você a mate. Agora a pouco você estava protegendo a mim e a ela! O que aconteceu?

-O quê? Protegendo ela? Eu estava protegendo você! Minha missão é evitar o máximo possível de mortes. Para isso tenho que matá-la. Saia da minha frente! Vidas inocentes estão em jogo por causa dela!

-Eu não vou permitir que você a mate! Pelo o que eu entendi, a culpa não é de Yumi!

-Como não?! É por causa dela que estamos aqui!

-Yumi é apenas uma vítima! Quem está manipulando-a é Medo! Você deveria destruir Medo, e não Yumi!

-Medo não é como nós. Ele não morre como nós. Enquanto ele tiver alimento, continuara vivo. Para destruí-lo, tenho que destruir primeiro sua fonte de alimento.

-Por que você não nos explica melhor quem ou o quê é Medo? Nós estamos no fogo cruzado sem saber o que fazer. Talvez, possamos ajudá-lo!

-Ninguém pode me ajudar. Somente um Espírito Eterno pode fazer isto.

Rodrigo olhou duramente para o Caçador de Almas. O Caçador colocou a mão sobre o gatilho da arma. Rodrigo fechou os olhos esperando pelo tiro. O barulho da bala ecoou por toda a biblioteca como uma explosão. Ao abrir os olhos, Rodrigo viu que o tiro não o atingiu. Passou de raspão pelo rosto. O Caçador recolheu as armas e foi até andou calmamente até a janela, e a abriu. "Eu sou um tolo mesmo", pensou o ele. "Eu deveria sangrar algumas artérias, matar quem visse pela frente e deixar o resto viver. Mas por causa da minha piedade, mais vidas estão em jogo. Odeio ser humano!"

-... Bem, você já definiu o seu próprio destino. Mas saiba que você acaba de se auto-condenar à morte. Enquanto Yumi estiver viva, mais e mais inocentes morrerão. E em breve sua hora vai chegar. — o Caçador olhou para Yumi — Voltarei para matá-la assim que todos estiverem mortos. A propósito, obrigado pelas armas e munição. Serão muito úteis.

O Caçador de Almas pulou janela a fora e desapareceu na escuridão da noite. "Espíritos Eternos...”, pensou Rodrigo. "Mas o quê é isso? E que tipo de ser é ‘Medo’? Por que logo os sonhos de Yumi o alimentam?".

Yumi caiu de joelhos. Não conseguia se conformar. Saber que todas as mortes e sofrimentos ocorridos até agora eram culpa dela foi um choque grande demais. Rodrigo aproximou-se de Yumi e tentou conforta-la, mas ela ficou indiferente. Ela pegou uma arma que estava no chão e a olhou firmemente. Rodrigo se assustou um pouco com a atitude de Yumi. Não tinha idéia do que ela queria com a arma.

-Yumi... Devolva a arma. Você sabe que as armas são inúteis.

-O Caçador tem razão. É tudo culpa minha. Diga a verdade Rodrigo: você não tem vontade de me matar? Não quer me matar para que tudo volte ao normal?

-Yumi, deixe disso! Largue esta arma!

-Responde! Você não tem a mínima vontade de me matar?

-Claro que não, Yumi! Não é culpa sua! Você é apenas mais uma vítima!

-Mentira!

-Como?

-Mentira! Você sabe que é tudo culpa minha! Você sabe que se eu morrer, tudo vai voltar ao normal!

Yumi pegou a arma e colocou dentro da boca. Colocou a mão sobre o gatilho e começou a apertar levemente. Rodrigo ficou trêmulo e paralisado. Não queria que Yumi se matasse.

-Yumi... Pare com isso! Por favor... Eu não quero que você se machuque. Eu prometo que vou achar uma maneira de te salvar. Mas, por favor, tire está arma da boca.

Yumi retirou a arma da boca e deixou-a deslizar pelas mãos, caindo no chão. Rodrigo pegou a arma e a atirou pela janela. Yumi ficou sentada no chão com a cabeça entre as pernas, chorando incessantemente. Rodrigo não sabia como consolá-la.

-O que nós faremos agora? — disse Yumi.

-... Não sei ao certo, Yumi. Mas acho melhor não contarmos nada disso para ninguém. Podem não compreender e querer matá-la. Para falar a verdade, nem eu compreendi direito ainda...

-E Allan?

-Acho que ele é confiável... Não sei. Eu não me arriscaria, mas se assim quiser... Sei apenas de uma coisa: você não deve mais dormir.

-Então, Yumi é a causa disto tudo? — disse Allan?

-Não! Yumi é só uma vítima! Você compreende, não é Allan?

-Compreendo. Compreendo perfeitamente.

Allan pegou uma arma que estava amarrada em sua cintura. Parecia que ele ia mirar em Yumi, mas ele apenas deu a arma para Rodrigo.

-Livre-se disto. Armas não serão mais úteis. Nossa meta agora é deixar Yumi acordada. Não podemos deixá-la dormir sob circunstância alguma. Vamos fazer dois turnos de 12 horas. Agora são 3 horas da madrugada. Se você quiser, pode dormir um pouco, Rodrigo. Eu me agüento até o outro dia

-Não. Deixa comigo. Eu não ia dormir mesmo...

-Que seja… O fato é que você não pode dormir Yumi... Não até acharmos uma solução.

-A solução é me matar! — esbravejou Yumi.

-... Ah, Yumi... Não fale isso! Sempre há outra solução!

-Pois eu não vejo nenhuma!

-A solução está muito clara. Só não vê quem não quer.

-Então qual é a solução?

-Pare de ter medo. Eu não sei exatamente o que te atormenta tanto... Se é aquele sonho, este lugar, alguma fobia... Mas seja o que for, é isto o que alimenta aquela fera lá fora. Se você parar de ter medo, enfrentá-lo, tudo isso ira acabar.

-Mas... Mas como? Nem eu sei ao certo o que realmente me atormenta... Como enfrentar um medo desconhecido para mim?

-Isso só você pode responder... Leve-a para o quarto dela, Rodrigo. Assim ninguém vai suspeitar ou sentir nossa falta. Vou dar uma volta e procurar comida.

Allan foi embora da biblioteca. Logo depois, Rodrigo e Yumi também saíram. Os dois foram para os dormitórios e entraram no quarto de Yumi. Rodrigo deixou a porta aberta. Não iria ser bom para sua imagem ficar sozinho num quarto com uma mulher. Ele tentava deixar Yumi acordada de todas as maneiras e, ao mesmo tempo, controlar seu próprio sono.

Allan estava no colégio, procurando um pouco de comida. Encontrou uma máquina de doces que poderia lhe servir bem. Pegou alguns trocados em seu bolso, colocou na máquina e esperou algum doce cair. A máquina ficou simplesmente imóvel. Ele começou a socar e bater na máquina para ver se seu doce caia, mas nada. Decidiu tentar de novo, e mais uma vez colocou alguns trocados e esperou algum doce cair. Nada. Tentou uma terceira vez, ainda crente de que a máquina fosse funcionar. Mais uma vez, a tentativa foi em vão. "Droga de máquina que está roubando meu dinheiro! Agora não tenho mais grana! Como vou conseguir comida?". Um menino que aparentava ter a mesma idade de Allan se aproximou da máquina, pegou um machado que havia encontrado, destruiu-a e pegou alguns doces. Allan ficou parado, vendo a cena como um bobo. "Por que diabos eu não pensei nisso?!". Allan aproveitou a situação e pegou alguns doces. Antes de ir até o quarto de Yumi levar a comida, passou na lanchonete e pegou alguns — poucos — lanches que restaram.

-Aqui, Yumi! Aqui tem um pouco de comida para nós! Ei Rodrigo! Tem um pouco de comida para você também! Rodrigo? Rodrigo?!

-Ele está dormindo. Acabou não agüentando.

-Ai, ai! Eu disse para ele me deixar cuidando de você. Imagine se você tivesse dormido enquanto isso?

-Não se preocupe. Não vou dormir.

-... Bem, o único que saíra perdendo é o próprio Rodrigo. Vamos comer o lanche dele, Yumi?

-Não, obrigada... Não estou com fome.

-Yumi, coma um pouco! Você não morreu pelas mãos do Caçador e vai morrer de fome e sede?

-Seria bom, Allan! Como vocês dois são uns idiotas que não pensam e eu não tenho coragem nem para me suicidar, que ao menos a fome e a sede me matem!

-Vamos começar de novo? Por favor, Yumi... Pare de falar nisso! Pare de menosprezar tanto sua vida! Se não percebe, está alimentando ainda mais Medo. A vontade de morrer é o medo de enfrentar a vida. Rodrigo se sacrificou para te salvar... Faça isto por ele! Perca o medo! Por favor! ...Eu vou deixar a comida aqui, para o caso de você ficar com fome.

Allan saiu pela porta, mas logo depois voltou. Foi até Rodrigo e tirou as armas que estavam com ele. Também pegou uma arma que estava na cabeceira da cama.

-Elas ficam comigo. Tenho até medo em pensar o que você faria com elas.