Chegando em casa, uma notícia me esperava.

– Você vai ter que ajudar no parque de diversão – Meu pai falou

– Como? – perguntei

– Serviço comunitário.

– Por quê?

– A policia quer que você preste algum serviço comunitário para pararem com isso de que você saiu imune.

– Não remunerado?

– Não.

Todo o ano, o prefeito de Orleans trazia um parque de diversão para a cidade para arrecadar dinheiro, sabe lá pra que. No outro dia faltei na escola. A tarde fui para o parque. Eu ia ter que ficar a tarde toda controlando a roda gigante, pegando os ingressos e ajudando com os assentos. Mesmo que não pareça, era uma grande responsabilidade. Eu estava indo para o parque quando encontrei Peter.

– Ei, espera – ele falou

– O que foi? – perguntei.

– Segundo dia de aula e você já faltou?

– Quis descansar porque vou trabalhar hoje, como não tô acostumada.

– Sei.

– Ótimo — continuei andando.

– Espera, não terminei.

– Diga — parei e respirei fundo.

– Me conta o que houve com meu pai?

– Por que você quer saber? Todos falam que você é o único que não tá ligando pra essa historia.

– Como a casa pegou fogo?

– Eu não sei, eu estava dentro da casa, você acha que se eu quisesse matar seu pai eu não seria esperta o suficiente pra estar do lado de fora?

– Ok, pode ser que pegou fogo naturalmente, mas o que você fazia com ele lá dentro?

– Tô atrasada — sai andando.

– Tô começando a achar que você culpada – ele falou.

Parei. Pirei.

– Você também? Já não basta a sua namoradinha achar isso? – falei alterada

– A minha 'namoradinha', é sua melhor amiga.

– Melhor amiga que não acredita em mim.

– É difícil né?

– Que pena, tenho que trabalhar.

Sai e nem falei mais com ele. Meu primeiro dia foi horrível, precisei de muita ajuda. Ainda bem que foram apenas quatro horas. Quando cheguei em casa, só queria minha cama. Mas minha mãe queria conversar.

– Espera – ela falou.

– O quê? – Respondi.

– Senta.

Me sentei.

– Filha, por favor, me conta o que houve? – Ela perguntou um pouco afilta.

– Nada.

– Se você é inocente, é injusto você tá trabalhando de graça.

– "Se" eu sou inocente? Você não acredita também?

– Eu e seu pai conversamos sobre isso, e estamos tentando acreditar, você sabe que seu pai é um ótimo advogado e por isso você não foi para a febem, mas você tá fazendo serviço comunitário e diz que não é culpada.

– Eu não sou culpada – falei devagar para ela entender.

– Você não tá presa, mas continua sendo acusada de invadir a propriedade de John e tentar matá-lo.

Respirei fundo e não falei mais.

– O que aconteceu? – ela falou, mas eu permaneci quieta — é difícil acreditar na sua versão se você não me conta uma — continuei quieta — a versão dele é a única, por isso considerada verdadeira.

Eu fiquei quieta. Ela acendeu um cigarro e saiu. Fui para o meu quarto. Pepa percebeu minha tristeza e deitou perto da minha cama. Bebel bateu na porta.

– Posso entrar? – Bebel falou.

– Sim.

– Vou limpar aqui tá?

– Posso continuar deitada aqui? –perguntei.

– Claro menina.

Ela começou a passar pano no chão.

– Bebel, sabia que meus amigos me acham culpada?

– Quem?

– A Lolla e o Peter.

– Sério?

– E o pior é que meus pais não acreditam em mim também.

– Não liga pra isso não.

– Você acredita em mim?

– Ah, acho que você não seria capaz disso. – ela falou e eu me tranquilizei um pouco, ao menos alguém acreditava em mim.

– É, parece que a Pepa também acha isso — passando a mão nela.

– O senhor Horn não sai de casa e todos estão proibidos de entrar lá, parece que ele esta todo deformado.

– Mudando de assunto, minha mãe não para de fumar.

Minha mãe fuma já faz alguns anos, ainda mais quando meu pai vai trabalhar em outra cidade e ela fica sozinha, só que depois que voltamos pra Orleans, ela está fumando o dobro.

– Ela anda muito estressada ultimamente. –Bebel justificou.

– Pois é — continuei pensando.

No outro dia de manhã, minha mãe me acordou para ir a escola.

– Fumando logo cedo? –revirei os olhos quando falei.

– Estou nervosa.

– Por quê?

– Tenho que resolver tudo sozinha, seu pai está viajando.

– Quando você vai parar?

– Quando eu decidir eu te falo.

– Que ótimo — ignorei.

Me arrumei, tomei café e fui para a escola sem falar com ninguém. O colégio era perto — aliás, tudo era perto — dava para ir de bicicleta ou a pé. Nessa cidade pequena, não tinha um lugar que eu passasse, que as pessoas não arrugassem a cara para mim. Cheguei na escola e olhei o meu horário no caderno — hoje eu tinha aula de informática — fui direto para a sala. O professor pediu para que a gente sentasse em dois, já que não tinha computador suficiente para todo mundo. Eram os mesmo alunos de sempre, então todos se juntaram com seus pares e ninguém quis sentar comigo. Só me restou o aluno novo.

– Posso me sentar aqui? perguntei envergonhada.

– Claro — sorriu.

Me sentei e permaneci quieta.

– Todos estão te evitando?

– Deu pra perceber?

– É por causa do caso do John Horn né?

– Você também já sabe?

– Até agora só houve perguntas entre a gente, e nenhuma resposta.

– Não adianta dizer, as pessoas acreditam no que elas querem.

– Eu acredito em você.

– Mas você nem me conhece.

– Essa cidade é pequena, faz duas semanas que me mudei pra cá e já sei tudo sobre você.

– Será? – perguntei arqueando minha sobrancelha.

– Bom, sei o suficiente para acreditar que você não teve culpa – ele falou de uma forma tão confiante que se eu fosse culpada até eu acreditaria.

– Você acredita em mim sem eu precisar argumentar nada?

– Sim — sorriu.

Sorri. Até que enfim alguém nessa cidade que pensa.

– Então você é novo aluno? – falei para puxar assunto.

– Parece que o único, são poucos alunos e todos se conhecem.

– São uns idiotas.

– Eu te vi desde segunda, mas você nem me notou, sentei atrás de você na aula.

– Desculpa, minha cabeça não estava na aula.

– Também notei que você faltou ontem.

– É que eu tô trabalhando, serviço comunitário.

– Viu? parece que eu não sei tudo sobre você ainda.

– Pois é — sorri.

O professor começou a aula. No intervalo, Lolla e Peter estavam juntos. Resolvi ir falar com ela.

– Percebi que a nossa amizade não significa nada pra você – falei com ironicamente, mas tinha um pouco de pesar também.

– Do que você tá falando?

– Você percebeu que eu to chateada com você?

– Sim, porque eu disse que..

– E tá de boa? — interrompi.

– Achei que tivesse me evitando.

– Ótimo, agora eu tô.

– Ai Dakota — se levantou — sem drama, por favor.

– Onde você vai amor? – Peter falou puxando um pouco o branco de Lolla.

– Buscar um refrigerante.

Lolla saiu.

– Fez amigos novos? – Peter falou sorrindo.

– Do que você tá falando? – Perguntei, agora tenho vigias?

– Do menino novo.

– Ele é legal.

– Que bom.

– Diferente de vocês, ele acredita em mim.

– Ele é um desconhecido.

– Você viu a ironia? Um desconhecido acredita em mim, mas minha família e meus amigos não.

– Se a gente não acreditasse em você, a gente nem conversaria com você.

– Ah ótimo argumento – revirei os olhos.

– A gente só não entende direito o que aconteceu, já que você não quer contar, pelo menos aceite nossa reação quanto a isso.

Respirei fundo e não disse nada. Depois da aula, fui para a casa. Minha mãe havia saído, então almocei sozinha. Fui para o meu quarto descansar um pouco antes de ir para o parque. Peter atingiu minha janela com uma pedra. Abri a janela nervosa.

– O que foi? – perguntei.

– Preciso falar com você. – ele mordeu seu lábio inferior revelando seus dentes brancos.

– Ok.

Bebel abriu a porta para Peter.

– O que você quer? – perguntei um pouco chateada, certamente a Lolla não gostaria de vê-lo lá em casa.

– Por que você tá me tratando assim?

– A Lolla é minha amiga.

– Você nunca ligou pra isso.

– Claro que liguei.

– Você não tá chateada com ela?

– Sim, mas ela continua sendo minha melhor amiga.

– Dakota..

– Peter, ela te ama.

Ele respirou fundo.

– Você está me tratando assim por causa do meu pai?

– Tudo bem que o seu pai me odeia, mas eu estou te evitando pela a Lolla.

– Você vai embora e volta diferente. – ele falou abaixando os olhos, havia tristeza nas suas palavras.

– Eu não estou diferente.

– Então me conta o que aconteceu naquela noite, você nunca me escondeu nada.

– Eu já disse que não — falei firme.

Peter respirou fundo e foi embora sem dizer nada. Me arrumei e fui trabalhar. Quando eu cheguei em casa, meu quarto estava todo revirado. Me assustei.

– MÃE!! MÃE!! — ela não estava em casa.

– Sua mãe foi no banco. – Bebel me respondeu imediatamente ao ouvir meus gritos.

– Foi a Pepa que fez isso no meu quarto?

– Não, eu sai a tarde para passear com ela.

– Então alguém entrou aqui — minha respiração estava ofegante.

– Eu falei para o seu pai colocar grade nessa janela.

– E agora Bebel? o que foi isso? — disse chorando.

– Calma menina, ninguém levou nada.

Será que fizeram isso para me assustar? Quando minha mãe chegou, ela ficou indignada. Aquela noite eu dormi com minha mãe — que vergonha — mas eu estava com medo de ser alguém tentando me ferir. No outro dia de manhã, não fui para a escola, fiquei em casa arrumando meu quarto. Minha mãe foi trabalhar na parte da manhã. Bebel me ajudou. Não senti a falta de nada, ainda bem. Nem consegui almoçar direito. Era um dia nublado, frio e infeliz — como todos os outros. Então eu fui trabalhar. Duas horas de tédio depois, eu estava controlando a roda gigante, quando Peter chegou e disse que queria andar.

– Cadê seu ingresso? — falei como se fosse qualquer outro.

– Aqui — me entregou dois.

– Duas sessões?

– Uma, eu e você.

Respirei fundo.

– Não posso.

Um dos homens que administrava o parque, estava do meu lado me supervisionando.

– Moço, estou pagando dois ingressos, quero que ela vá comigo.

– Eu estou trabalhando.

– Eu sou cliente.

"Ele é cliente, Dakota, faça a vontade do cliente" — disse aquele homem infeliz. Respirei fundo, peguei os dois ingressos e entrei na roda gigante com Peter.

– O que você quer? — a roda começou a girar.

– Queria falar com você.

– Então fala rápido — disse nervosa.

– Olha o que eu achei — ele tirou meu último diário da bolsa.

– O que você tá fazendo com isso? — tentei pegar, mas ele desviou.

– Esse é o seu último diário?

– Sim.

– Por que parou de escrever?

– É coisa de criança.

– Aham, sei — sorriu.

Depois que eu me mudei de Orleans, nunca mais escrevi em diário, pois o meu último terminou com uma tragédia na última página.

– Foi você que invadiu meu quarto?

– Eu sabia que você tinha as respostas que eu procurava.

– Você leu?

– Não li inteiro, mas li o que me interessava, a última página.

Respirei fundo de nervosa.

– Agora eu sei tudo que aconteceu naquela noite.

Permaneci quieta.

– Isso é invasão de domicílio e de privacidade sabia? – Falei chateada.

– Por que você não me contou antes?

– Porque ele é seu pai.

– Então contasse pra outra pessoa.

– Não dava pra contar pra outra pessoa sem contar sobre eu e você.

– Você tá aguentando isso sozinha?

– Meu pai já resolveu com a polícia – revirei meus olhos.

– Você continua sendo acusada e tá pagando por isso trabalhando aqui.

– Aqui até que é legal.

– Dakota..

– É pela Lolla..

– Ela não faria o mesmo por você.

– É por mim também, minha família não iria aceitar isso.

– Se eles estão preocupados com o nome da sua família, saiba que o que você tá fazendo da na mesma, manchou o nome deles.

– Desde quando você se preocupa comigo?

– Eu me preocupo até demais.

A roda parou e tivemos que descer.

– Acabou.

– Ainda não, continuamos depois.

Ele saiu do brinquedo, agradeceu o supervisor e foi embora. Terminou meu turno, então fui embora pra casa. Minha mãe estava nervosa.

– O que foi agora? – perguntei.

– Como o que foi? Voltamos para essa cidade e nossos problemas voltaram – acendeu um cigarro — e o seu pai? Foi viajar por causa do trabalho.

– Que problemas?

– A cidade inteira não dá crédito pra nossa família, porque você tentou matar um dos homens mais importantes da cidade.

– Nossa, e por que ele não fez nada?

– Ele te denunciou, e o seu pai "subordinou" a policia, como dizem as más linguas.

– E isso é verdade?

– Claro que não, a policia te deixou livre, mas você tá pagando por isso – ela falou triste.

– Por algo que não fiz.

– Então por que você não conta a verdade?

– Se eu te falar você promete pra mim que vai parar de fumar?

Ela respirou fundo.

– Sim.

– Procura o meu diário, eu escrevi lá.

O meu diário ainda estava com Peter. Tomei banho, jantei e cai na cama. Estava muito cansada depois de um dia cheio. Ainda bem que a semana já estava acabando. Estava com tanto sono que dormi e deixei a Janela aberta. Peter, muito esperto, entrou pela janela. Eu já estava dormindo, quando acordei assustada.

– O que você tá fazendo aqui? — ele estava deitado do meu lado.

–Shiu — passando a mão no meu rosto.