Orleans é uma cidade pequena e fria, onde todos sabem tudo o que acontece. Certeza que o que aconteceu naquela noite, todos iriam ficar sabendo no outro dia. Então resolvi me calar e não contar nada até que eu achasse que chegou a hora.

A casa do lago de John estava pegando fogo. Eu sai de lá toda suja de fumaça. Eu sou branca, cabelos longos e preto, mas naquela noite eu estava marrom quase camuflada com o céu escuro da noite.

Voltei correndo para a minha casa, sem me importar se John estava dentro da casa pegando fogo. Cheguei em casa e quando minha mãe me viu daquele jeito, se assustou.

– O que aconteceu com você, Dakota? – minha mãe perguntou

– Nada — subi para o meu quarto.

– Como nada? volte aqui — ela foi atrás de mim.

Entrei no quarto e deitei na cama. Ela surtou.

– Levanta dessa cama agora, você está toda suja.

– Ótimo — me levantei e entrei no banheiro.

Minha mãe continuou resmungando.

– Por que você esta toda suja? onde você estava? que cheiro de fumaça é esse?

Não respondi, fui tomar banho e fiquei no banheiro até que ela se cansasse e saísse do meu quarto. Depois de tomar banho, me olhei no espelho e senti um alívio de estar limpa novamente. Nem quis comer, depois de tudo aquilo perdi a fome. Então tranquei a porta do meu quarto e dormi, só acordei no outro dia com minha mãe batendo na porta.

– Abre a porta, a polícia está lá em baixo.

Me levantei rapidamente assustada, troquei de roupa e desci. Havia dois policiais conversando com meu pai.

– O que houve? – perguntei.

– Houve um incêndio na casa do lago da família Horn, e o senhor John Horn deu entrada ontem no hospital, pois ele estava dentro da casa durante o incêndio – o policial falou.

– E o que minha filha tem haver com isso? — disse assustada, ela sabia que eu tinha tudo haver com isso, já que na noite passada eu cheguei suja.

– O senhor John disse que você estava lá ontem a noite, e que conseguiu sair primeiro que ele.

– E dai? – perguntei

– E dai que ele disse que você provocou o incêndio, por isso precisamos que você nos acompanhe até a delegacia

Eu seria levada? Sinceramente, não temi. Mas minha mãe começou a ficar apavorada, isso seria assunto para várias semanas na cidade. Meu pai, Benjamin Connor, é um dos melhores advogados da cidade. Ele vive viajando pois tem bastante clientes em outras cidades também, inclusive nas cidades grandes. Mas para minha sorte, e da minha mãe, meu pai estava em casa, e ia me acompanhar até a delegacia. Voltamos para a casa, minha mãe estava preocupada.

– Como foi? – Minha mãe perguntou curiosa.

– Consegui fazer com que sua filha não fosse presa. – Ele falou com um tom irônico, afinal, eu também era filha dele.

– Presa? mas ela é de menor ainda.

– Mas ela ia ser levada para febem

– febem? — olhou assustada para mim.

Eu agi como se nem ligasse para a situação.

– E o que ela disse? – minha mãe perguntou

– Nada.

– Como nada?

– Parece que a sua filha confirma a historia que o senhor Horn contou – meu pai continuou com aquele termo “sua”.

– E qual foi a historia?

– Que ela colocou fogo na casa com a intenção de feri-lo.

– Por que ela faria isso? – minha mãe perguntou.

– Segundo ele, sua filha é problemática.

Por causa da influência do meu pai, ele havia impedido que me levassem para a febem, porém eu ainda seria a culpada para toda a cidade, principalmente para a familia Horn.

– Dakota – Minha mãe Samantha me chamou com um tom irritado.

Olhei sem dizer nada.

– O que você fazia ontem a noite na casa de lago do John? o que ele fazia lá?

– A casa começou a pegar fogo, é normal eu tentar sair de lá né? infelizmente aquele velho não teve a mesma sorte que eu.

– Foi isso a única coisa que ela disse para a policia.

– Tô começando a achar que você é culpada – minha mãe falou num tom triste.

– Eu não sou — disse firme.

– Então fale a verdade – meu pai me encorajou.

– Essa é a verdade, me deixem — subi nervosa.

Meus pais não iriam aguentar a pressão. Por mais que tudo aparentemente estava bem, todos da cidade me culpavam, a família de John me culpava. Todos comentavam que subornamos a policia. Enfim, viramos motivo de conversa por vários dias.

O John não morreu, mas seu rosto estava todo deformado, e havia cicatrizes pelo corpo. Aquele homem que era saudável, hoje não saia mais de casa por vergonha. Todos estavam com pena dele. Todos me odiavam. Mas eu não disse nada a respeito.

Em casa morávamos eu, meus pais, minha cachorra pepa — que era minha companheira e melhor que muita gente por ai — e a Bebel, uma senhora muito humilde que era a nossa empregada. Na verdade, ela já era da familia.

Meus pais resolveram que iríamos nos mudar para uma cidade grande, que ficava a seis horas de Orleans. Eu havia completado dezesseis anos a pouco tempo, e ia começar a fazer o segundo ano na Orleans School. Mas, meu pai logo pediu transferência para um colégio na cidade grande. Eu não queria ir, mas também não queria ficar. Meus pais não tocaram mais no assunto, mas a cidade inteira sim.

Lolla era minha melhor amiga. Não quis ir me despedir dela pois teria que explicar detalhes, e nem para ela eu queria contar algo. Apenas deixei uma carta com a mãe dela, onde eu me despedia e dizia que a amava muito. Muito covarde da minha parte, eu sei. Mas eu iria embora e não queria que ninguém me procurasse.

Dito e feito, nos mudamos e tudo se tornou novo. Ninguém de Orleans sabia o nosso endereço e nem o nosso telefone. Aquele assunto, havia ficado em Orleans. Vivi ótimos dias com a minha familia na cidade grande.

Uma ano depois, aqui estava eu novamente. Eu que já estava acostumada com o sol e o calor da cidade grande, tenho que me acostumar com o frio e o tempo nublado de Orleans. Aquela noite já não era mais motivo de conversa na cidade, mas quando todos viram que voltamos, aquela historia voltou com a gente.

Eu estava no meu quarto organizando as coisas quando alguém bate na porta. Era a Lolla.

– Oi Dakota, tudo bem? – Lolla falou.

– Oi Lolla, que bom te ver.

– Acho que você pode começar a me explicar.

– O que? — gelei.

– Por que você foi embora e nem se despediu de mim?

– Ah — senti um alívio — claro.

Lolla Fields é minha melhor amiga. Seu jeito tão feminino, muito branca como eu (também, nessa cidade não existe sol), e seu cabelo curto e loiro conquista qualquer um nessa cidade. Mas o coração dela pertence apenas a Peter, o filho de John.

– Você sabe que me culpam pelo que aconteceu com o John – perguntei.

– O Peter me contou, mas eu não tenho nada haver, John é meu sogro mas você é minha melhor amiga.

– Eu sei, a gente teve que ir embora rápido por isso não deu tempo de te ver – falei.

– Pelo menos você deixou uma carta dizendo que ia embora, só não disse o porquê e nem para onde.

– Me desculpa.

– Tudo bem — sorriu — o importante é que você está de volta.

Já estava a noite, depois do jantar fui para o meu quarto terminar de arrumar algumas coisas e me preparar para dormir, já que no dia seguinte eu iria voltar para Orleans School, começar o meu último ano no ensino médio. A janela estava aberta, e quando fui ver, Peter já havia entrado.

– Oi – Peter falou sorrindo.

– Ai que susto – falei.

– Tá assustada?

– Sim, acabei de crer que essa Janela não é segura.

– Pois é, essa árvore bem do lado ajuda um pouco.

– Vou colocar grades.

– Tá com medo de que? – ele falou.

– Não sei, últimamente não sou a preferida da cidade né?

– Eu posso ser muito mais perigoso que muita gente aqui.

Olhei assustada.

– O que você quer? – falei

– Você foi embora sem falar comigo.

– Lolla não te falou?

– Sim, mas eu queria saber por você.

– A sua família me odeia agora – falei.

– Mas eu não.

– Eu não voltei por você, Peter.

– Não? – ele perguntou surpreso.

– As coisas mudaram.

– Você que decidiu isso?

– Sim – falei com tom seco.

– Só vai mudar quando eu concordar.

– A Lolla é minha melhor amiga, e ela te ama.

– Ok, eu já entendi — subindo na janela.

– Peter..

– Relaxa Dakota, isso não vai ficar assim.

Peter Horn, filho de John e Vanessa Horn. Um dos garotos mais lindos da escola e até da cidade. Sua pele branca, seu cabelo escuro e seus olhos verdes hipnotizava qualquer uma.

No outro dia, acordei assustada e com muito frio. Eu dormi e deixei a janela aberta, agora toda aquela neblina estava dentro do meu quarto. Me arrumei, tomei café e fui para a escola. Uau, eu estava muito animada, só que ao contrário. Na escola, todos me ignoravam. Por onde eu passava, tinha alguém falando de mim. Eu só não estava proibida de entrar na escola, porque o governo obrigava todas as crianças e adolescentes a estudar. Porque se dependesse do diretor. Fiquei sozinha, suportando aqueles mal olhados, quando Lolla chegou.

– Oi Dakota, viu o Peter? – Lolla falou.

– Ainda não – falei.

– Será que ele vem?

– Acho que sim.

– Dakota, me conta o que ocorreu na casa de lago do Peter? – ela falou.

– Como? — assustei.

– Você colocou fogo na casa com John dentro?

– Não quero falar sobre isso.

– Eu sou sua amiga.

– A casa começou a pegar fogo e eu sai correndo, felizmente consegui escapar, mas ele não, quer dizer, conseguiu sair sim, mas um tempo depois.

– Ele está todo deformado.

– Você o viu?

– Peter me contou, não deixam ninguém ve-lo, nem ir lá mais eu posso.

– Que pena.

– E o que você fazia la dentro?

– Nada demais.

– Tá faltando informação nessa historia, Dakota, como a casa pegou fogo?

– Eu não sei.

– Você não confia em mim.

– Lolla..

– Tô começando a achar que..

– Lolla.. eu não sou culpada.

– Será?

– Não acredito nisso — me levantei nervosa — até você?

– Dakota, pensa comigo. – ela falou.

– Não — fiquei nervosa — não vou pensar nada, até logo.

Fui para a sala chateada com Lolla, até minha melhor amiga não acreditava em mim. Fiquei a manhã toda sem falar com ela. Acho que vou começar a dizer o que todos querem ouvir. "Sim, eu coloquei fogo com John dentro porque eu sou problemática. E eu não vou ser presa porque minha família subornou a polícia."