O Choque do carro na água me lançou contra o painel de controle. Uma dor dilacerante subiu pela minha perna e eu trinquei os dentes para não gritar. Na minha frente o botão vermelho escrito adaptar piscava furiosamente. Sem ver direito, bati a mão nele e lentamente o carro foi estabilizado na horizontal. Todo o painel começou a se modificar, assim como o carro a expandir.

– Estão todos bem? — perguntei tentando manter minha voz calma, não confiava em mim mesma para olhar para trás. Quando eu projetei esse carro não foi para tantas pessoas.

– Ai! eu acho que sim. — ouço a Clara falar

– Como é possível? o carro não entrou água? — Pergunta o Tobias.

– Dei uma turbinada nele!. — digo e começo adaptar o carro para o modo aquático, as rodas dão lugar a pequenas hélices. Lentamente começamos a nos movimentar. Aciono um botão e do teto desce uma poltrona ocupando o espaço entre os bancos da frente e os de trás. — Alguém passe pra frente, ai deve estar muito apertado para quatro pessoas.

– Claire! Você está ferida. — ao meu lado o Uriah aponta para minha perna.

– O que? Claire! — a Sarah se levanta e tenta chegar até mim.

– Está tudo bem! acho que foi só de raspão. Tobias, embaixo do seu banco tem um kite de primeiros socorros, pega por favor.

Toco em uma pequena tela no painel e começo a colocar as coordenadas, em seguida aciono o piloto automático.

– Pra onde estamos indo? — o Tobias me pergunta enquanto me passa o kite.

– Para o Porto Waldo Point Harbor, ele ainda funciona. Podemos pegar a Interestadual El Camino Real e seguir para Chicago, sem ninguém atrás de nós. Assim espero.

Retiro do meu bolso a adaga que sempre levo comigo,e com ela rasgo a calça. A bala não ficou alojada, mas o corte foi profundo. Abro a caixa e começo a limpara a ferida.

– Pensei que iríamos morrer, quando o carro despencou da ponte. — Quando olhei para trás encontrei o Gabriel me encarando.

– Eu sei o que faço Gabriel. Jamais faria vocês correrem riscos desnecessários!

– Estou vendo!

– Se não estiver de acordo, pode ir pra onde quiser assim que chegarmos ao porto.

Ele ficou pálido e depois olhou pela janela do carro. Nesse momento estávamos passando por cima de um corais, como se fossem uma floresta colorida. Os peixes fugiam assim que percebiam a nossa presença.

– É lindo. — um sorriso ilumina o rosto da Sarah enquanto ela contempla as maravilhas que existem no fundo do mar.

– Fiquem atentos! não acho que o perigo tenha acabado.

Lentamente o carro para de navegar.

– Como vamos conseguir sair da água para a terra firme? — A Clara pergunta.

– Dê uma olhada! — digo e quando estamos dentro do pequeno porto, aperto um pequeno botão amarelo. Uma parte da plataforma a nossa frente começa a se abaixar no nível do carro. Agora com rodas e não mais hélices subimos a plataforma.

– Quando você fez tudo isso? — a Sarah parece fascinada, com um enorme sorriso no rosto.

– Tive seis anos pra fazer isso!

Deixamos o porto para trás e seguimos em direção a interestadual.

– O plano nunca foi sair de lá nos caminhos da amizade não é mesmo.

– Não! esse plano tinha algumas falhas, como acabou acontecendo. Mas ele daria um bom plano B.

– Por que não me contou? — ela pergunta e percebo um pouco de magoa na sua voz. Entendo, uma vez que nunca houve segredo entre nós, salvo esse e o seu romance com o Uriah.

– Não queria sobrecarrega-la, você já tinha problemas demais impedindo que eu não virasse carne moída, quando dirigia. — digo rindo.

– ok. — ela diz.

Após alguns minutos percebo que não estamos sozinho como pensava, aqueles abutres nos encontraram. Faço uma careta de dor enquanto piso no acelerador.

– Quer que eu dirija? — o Tobias pergunta.

– Não, preciso da sua ajuda. Temos companhia. Sarah procure atrás dos bancos, lá tem algumas armas. Dê uma para cada.

O Velocímetro está marcando 250 km/h, mas mesmo assim eles continuam se aproximando cada vez mais.

– Mais rápido! eles estão vindo. — o Gabriel grita apavorado.

– Eles devem ter pegado carros mais potentes!

– Então acho melhor pisar fundo! — a Sarah diz e me passa uma arma menor.

Um dos carros de trás bate no nosso, balas passam voando pela janela do nosso carro. Piso mais fundo no acelerador, mesmo assim os dois carros nos bloqueia nas laterais e começam a atirar sem parar. Pelo retrovisor vejo um terceiro carro na parte de trás.

– Esse é seu conceito de riscos desnecessários? — O Gabriel grita. — Nos vamos morrer e a culpa é sua.

– Cale a boca! — Gritamos eu e o Tobias juntos, ele acena a cabeça para mim. As balas para um pouco, então baixo um pouco as janelas e começo a disparar com a mão esquerda enquanto dirijo com a direita. Aponto para os pneus. O Motorista do carro ao lado perde o controle e sai da estrada. Pelo retrovisor eu o vejo capotando.

– Isso! Toma seus idiotas! — A Clara grita entusiasmada, lanço um olhar duro, que a faz parar imediatamente.

Do outro lado, o cara da audácia joga o carro em cima do nosso. O Choque entre os dois nos lança cada vez mais para fora da estrada. Agora estamos a 350 por hora, o carro de trás não aguentou o pique! Agora somos só nos dois. Olho para o motorista do outro carro, é o mesmo que nos barrou quando chegamos na Erudição.

– Cretino! vai se arrepender disso. — Cerro os dentes, a dor na minha perna parece ficar cada vez mais intença.

– De onde você tirou todos esses palavrões? Cretino, vadia... — O Tobias me pergunta.

Olho pra Sarah e ela está se segurando para não rir.

– Por ai! — digo e jogo o carro pra cima do outro, sei reconhecer um bom piloto quando vejo e esse é um deles.

– Será que dá pra avisar quando for fazer isso? — pergunta o Gabriel irritado.

– Se você não calar essa maldita boca, a próxima bala vai ser pra você.

Do outro lado a Sarah explode em uma risada.

– Pelo menos alguém está se divertindo aqui. — o Uriah faz uma careta enquanto fala.

– Se você queria sombra e água fresca, não deveria ter se apaixonado pela Sarah. — digo rindo.

– Como assim? — ouço o pânico na voz da Sarah.

– É eu já sei! — piso no freio abruptamente e fico atrás do outro carro. Somos jogados para a frente. Acelero e começo a bater no carro tentando fazer o máximo de estrago possível. — Mas não é hora pra isso! Que tal eles provarem do seu próprio remédio?

Disparo minha arma, o vidro de trás se quebra. Do meu lado o Uriah faz o mesmo, seguido pelo Tobias e pela Sarah. Eles disparam de volta, mas dessa vez nos pneus. Eles já perceberam que o carro é blindado. Nosso carro dá um solavanco violento, a Sarah vem parar no colo do Uriah no banco da frente e eu bato com minha cabeça no volante. Tento controlar o carro que sai rodopiando pela pista, estou tonta, começo a perder o controle do carro. Saímos da rodovia e batemos de frente com uma lanchonete. Cacos de vidro voam para todos os lugares.

– Todos estão bem?

– Ai! — na parte de trás vejo que o Tobias cortou o braço e a Clara parece meio desorientada.

– Peguem as armas e saiam do carro. — ordeno e todos começamos a sair, corremos para atrás de um pequeno muro que deveria ser um balcão. A cada passo que dou é como se tivessem cravando uma faca na minha perna. Sinto os braços do Tobias a minha volta, praticamente me arrastando. Os tiors começam antes mesmos de conseguir nos proteger. Uma das balas acerta o meu ombro direito e ambos vamos ao chão.

A Sarah e o Uriah nos ajuda a chegar até o balcão rapidamente. A partir desse momento, as coisas ficam meio confusas. Ouço muitos disparos e gritos, parece interminável. A arma que esta na minha mão escapa dos meus dedos e eu tento colocar a mão nos ouvidos para que o som pare. Quando tento fazer isso uma dor aguda explode no meu ombro e eu cerro os dentes.

Ouço alguém me chamando, mas não consigo reconhecer a voz. Minha visão fica embasada, sinto alguém me levantar do chão e gritar ordens.

– Ela está perdendo muito sangue! Se continuar assim vamos perdê-la! — Sinto os braços que estão a minha volta me apertarem com mais força.

Me sinto como se meu corpo estivesse flutuando, lentamente na escuridão começa a surgir pequenos pontos de luz. Que vão ficando cada vez mais brilhante, é tão lindo que dá vontade de chorar, tamanha beleza. Estrelas! Pequenas luzes na escuridão, nós somos a luz em um mundo escuro, injusto e cheio de maldade. Mas nunca deixaremos de brilhar, por que temos brilho próprio, um brilho que não se apaga nem mesmo após a morte.