Escrito em Escarlate
1 Prólogo
Notas iniciais
A mulher estava presa a cadeira com uma mordaça sobre a boca. Um filete de sangue escorria do meio de seus cabelos loiros e se juntava com as lágrimas, que transbordavam em abundância dos seus olhos, chegando até o pano Preto que lhe tapava a boca.
Ah! O doce gostinho da vingança! Finalmente, eu aguardei por isso muito mais do que achei que aguentaria esperar. Finalmente eu posso concretizar o meu plano. Tantos anos remoendo isso em minha mente, e agora, finalmente ela está aqui, a primeira, vulnerável, amedrontada e confusa. Não achava que ela estaria confusa, afinal, ela havia provocado isso. E como isso me irrita. A porra da minha vida toda eu aguardando esse momento e ela não demonstrava nem sequer lembrar do que havia ocorrido.
A loira começou a soltar muxoxos, impossíveis de serem compreendidos por culpa do pano que amarrava a sua boca.
Maldita vadia, será que até agora vai ter que me atrapalhar? Será que até agora ela vai continuar me enchendo o saco? Ela não percebe que eu não terei pena e que eu não a soltarei nunca — pelo menos não viva?
A mulher soltou um grito abafado quando recebeu o tapa, e teria caído com o impacto deste se não estivesse presa à cadeira. Mais lágrimas lhe escorriam pela face, agora avermelhada.
−Então, você lembra de mim, hein − Disse aproximando o rosto da vítima. Nos olhos desta pode-se ver compreensão. − Ah, finalmente me reconheceu? Sabe, talvez você não saiba o porquê de estar aqui, nesse exato lugar, mas o motivo e a culpa são todos seus.
As luzes esverdeadas davam um certo tom macabro ao lugar que, de dia, era de uma beleza encantadora. A Gruta Natural era uma área verde com muita grama e árvores altas. A parte da "gruta" em si era mais ao fundo, uma pequena entrada na rocha alta onde havia um altar básico. A imagem de nossa senhora toda iluminada, uma cruz e uma mesa de concreto branca, alguns bancos, também de concreto branco serviam de acento para os espectadores de uma possível missa.
A vítima estava sobre essa rocha de quase 20 metros onde se encontrava a gruta. Acima da sua cabeça um galho grosso de uma frondosa árvore. A corda, presa em seu pescoço, prendia-se a ele também. A sua frente uma queda diretamente para a morte.
−Eu esperei por muito tempo. Tive que adquirir força para conseguir estar aqui, mas finalmente estou concretizando o meu plano. Finalmente a minha vingança! − A loucura brilhava em seus olhos.
A vítima sentiu a lâmina percorrendo a sua pele, não podia ver as longas e profundas marcas em suas costas, mas sabia que elas nunca iriam cicatrizar, mesmo que tivessem tempo para isso. Coisa que duvidava que fosse acontecer. E só então a mulher compreendeu: não importa o que fizesse, nem o que tentasse falar, nada convenceria aquela pessoa louca, ela estava indo para a morte certa, nada mudaria aquele fato.
Subitamente ela parou de tentar gritar, canalizou a dor para outro lugar, não era mais com ela aquilo. Aceitou a morte e a aguardou pacientemente.
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