Escrevendo O Destino
17 16. Minha inspiração
Notas iniciais
No capítulo passado, estava tão afoita pra postar, que acabei postando sem o link da música que a Mô canta no vídeo. Depois eu arrumei, mas imagino que muita gente deve ter lido o capítulo antes disso. Então, vai aqui o link: http://www.youtube.com/watch?v=EGn8dxochbQ
No capítulo de hoje, haverá muitos flashbacks, mas eles são importantes pro raciocínio que o DC tá construindo. Vcs vão entender ^^
Então vamos ao capítulo, né!
Boa leitura!
Capítulo 16
Minha inspiração
Corri como louco pra conseguir embarcar a tempo. Na bagagem, somente meu passaporte, meu notebook e as cartas da Mônica.
Meus avós, felizmente, acreditaram na minha história de ir pra Okinawa. Eu já tinha viajado com a banda antes, então eles já estavam acostumados com isso. Eu não queria contar a eles que estava indo ao Brasil, porque eles contariam pra minha mãe, e ela me encheria de perguntas. Eu precisava ver a Mônica antes de qualquer coisa. Depois eu me entenderia com minha família.
Dentro do avião, enfim, relaxei. Com 27 horas de viagem pela frente, eu finalmente teria tempo de ler todas essas cartas. Eram 72 cartas ao todo, contando com o último envelope, que tinha o vídeo e a passagem.
A primeira datava de 3 de junho de 2013.
Era uma letra de música impressa: a tradução de Wonderwall, do Oasis. Algumas linhas estavam grifadas com marca-texto:
Há tantas coisas que eu gostaria de te dizer
Mas eu não sei como
Me lembro da conversa que tivemos no Skype no dia do meu aniversário de 16 anos, três dias antes desta carta:
– Tem tantas coisas que eu queria te contar, Do Contra… mas não posso. Eu não sei como… não sei como dizer o que sinto.Naquele dia, eu sugeri que ela se expressasse com músicas, e ela disse ter tido uma ideia genial. Naquele exato momento nascia o plano infalível dela.
Mais uma linha grifada chamou minha atenção:
E, acima de tudo, você é minha inspiração
Me lembro do dia em que ela me beijou pela primeira vez, e de como eu a questionei por ela parecer tão experiente na cama:
– Mônica, eu nunca fiz isso antes…
– Tecnicamente, nem eu.
– Pois parece que você sabe muito bem o que tá fazendo.
– É que você é minha inspiração.
Essa foi a última coisa que ela falou antes que o Ângelo nos interrompesse.
Ela se lembrava daquela noite. Ela me garantiu que havia se esquecido, mas era mentira.
Me lembro da conversa que tivemos no dia seguinte, quando eu disse a ela que a odiaria pra sempre se algum dia eu descobrisse que ela estava mentindo. Ela começou a chorar imediatamente, e por fim disse:
– DC… eu sinto muito por não poder me lembrar de nada do que houve entre a gente. Me desculpa.
– Tudo bem, Mô. Eu sei que não é culpa sua.
– Eu… queria. Queria poder me lembrar.
Ela disse que queria poder se lembrar. Ela não disse que não se lembrava.
Ela mentiu o tempo todo sobre isso, pra enganar o Ângelo. Ela tinha tanto medo assim de se esquecer daquela noite?
Ou era outra coisa que ela tinha medo de esquecer?
A segunda carta, de 10 de junho de 2013, tinha a tradução da letra de Open Your Eyes, do Snow Patrol:
Levante, vá embora, saia de perto desses mentirosos
Porque eles não entendem sua alma ou seu fogo
Pegue minha mão, entrelace seus dedos nos meus
E nós sairemos dessa escuridão pela última vez
Cada minuto a partir de agora
Podemos fazer o que quisermos, em qualquer lugar
Quero tanto abrir seus olhos
Porque eu preciso que você olhe dentro dos meus
Me diga que você vai abrir seus olhos...
Tudo isto parece tão estranho e irreal
E eu não vou desperdiçar nem um minuto sem você
Ela teve medo de que eu não abrisse meus olhos. De que eu não enxergasse a verdade por trás de todas as mentiras que ela contou.
Tantas vezes ela me pediu que eu lesse nas entrelinhas tudo que ela dizia. Que ela só podia falar por enigmas.
Roberto Daniel Júnior, na minha festa de despedida, disse que a Mônica estava desesperadamente tentando mandar uma mensagem. Ele tinha razão. Foi pra mim que ela cantou aquela música:
Porque, quando houver dúvida
Você se lembrará do que eu disse:
Eu não vim aqui acreditando que algum dia eu estaria longe de você
Eu não vim aqui para descobrir que há uma fraqueza em minha fé
Fui trazida aqui pelo poder do amor
Essa foi a mensagem que ela deixou logo antes de partir meu coração. Ela estava me dizendo que, sempre que eu tivesse dúvida do sentimento dela por mim, eu deveria me lembrar do quanto ela lutou por mim.
E depois disso nós brigamos.
– Você não percebeu ainda, Do Contra? O que você tem que fazer é fugir de mim. Eu sou uma vaca egoísta.
– Acho que eu não posso discordar disso.
– Eu errei, e eu lamento muito por isso, e peço desculpas. Eu não devia ter te dado esperanças de nada. Não antes de você ir viajar.
– Achei que a gente tivesse algo especial, Mônica.
– Eu te falei mil vezes que a gente não podia ter um compromisso, DC. Que a gente ia conversar sobre isso depois que você voltasse.
– Pois pode ficar tranquila, Mônica. Porque eu vou viajar, e não vou voltar.
– Como assim, não vai voltar?
– Eu tô indo pro lugar deste mundo que é diametralmente oposto ao Limoeiro. É a maior distância que eu consigo estar de você nesta Terra. Então, enquanto você estiver aqui, eu vou ficar no Japão. E, quando inventarem uma residência no espaço, eu vou dar um jeito de ir morar lá, pra poder ficar ainda mais longe de você. Se lembra quando eu disse que eu não queria nenhuma menina além de você? Pois agora é exatamente ao contrário. Agora, eu quero ficar com qualquer menina do mundo, menos você.
– A gente não pode ser nem amigos, Do Contra?
– Não, Mônica!! Eu não quero te ver nunca mais!! Você não foi minha amiga quando me arrancou dos braços da Amanda naquele dia e começou essa novela toda. Eu tava quieto no meu canto, quando você veio me perturbar. Durante um mês, você me fez acreditar que sentia algo por mim. E pensar que eu quase desisti da minha viagem por você!
– Um dia você vai entender o que eu tô fazendo, Do Contra. Vai ser melhor assim pra nós dois.
– Acho que eu já tô cansado de ouvir você falar isso.
Não consegui me esquecer da expressão dela quando eu falei que não voltaria. Era uma expressão de surpresa e dor. Esse era o maior medo dela, no fim das contas. Que eu nunca mais acreditasse nela, nem mesmo quando o dia certo chegasse.
É claro que ela ficou com medo. Eu disse palavras tão duras naquele dia.
Eu duvidei dela. Eu falhei com ela.
Mas ela queria que eu duvidasse dela. Ela me induziu a pensar o pior dela. Porque ela não queria que eu desistisse da minha viagem por ela.
Me lembro do que ela disse quando recusou meu pedido de namoro:
– Pense no quanto isso vai ser importante pra você. Pense no quanto você vai aprender, no seu crescimento profissional. Seu futuro depende disso. E talvez não só o seu, mas o dos seus avós lá e da sua família aqui. E também da futura família que você vai formar um dia. Você não nasceu pra ficar aqui no Limoeiro, Do Contra. Você nasceu pra alçar voos mais altos. Você vai aprender a voar agora. E, quando aprender, pode voltar pra me buscar.
O tempo todo ela falou que nós ficaríamos juntos depois que eu voltasse do Japão. Eu, teimoso, não escutei. Eu não queria entender porque eu tinha que ficar longe dela pra poder ficar junto dela depois. Mas a Mônica não fez tudo isso por mim, nem por ela. Ela fez pelo futuro da família que a gente vai formar. Pela menininha que falou comigo em sonho:
– Papai, você tem que perdoar a mamãe. Ela tá fazendo isso por mim.
E eu disse todas aquelas coisas horríveis pra ela naquele dia. Não por acaso ela adoeceu. Ela realmente achou que tinha estragado tudo, e que eu não fosse voltar.
As primeiras cartas tinham letras de música que mostravam esse medo, esse desespero que ela sentiu.
A de 15 de julho tinha a tradução de Runaway, do The Corrs:
Diga que é verdade
Que não há nada como eu e você
Não estou sozinha
Me diga que também sente isso
Ela estava tão assustada. E eu, magoado, com raiva, não lhe dei nenhum alento.
Mesmo assim, conforme as semanas se passavam, a Mônica parecia mais calma. As músicas que ela escolheu falavam basicamente de saudade. A de 25 de novembro era Sete Cidades, da Legião Urbana:
Já me acostumei com a tua voz, com teu rosto e teu olhar
Me partiu em dois e procuro agora o que é minha metade
Quando não estás aqui sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu
Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo
Quando não estás aqui tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu
Vem depressa pra mim que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
Já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe...
As últimas letras eram cheias de esperança e otimistas. A de 4 de agosto de 2014 era In A Little While, do U2:
Daqui a pouco
Em breve você será meu
Daqui a pouco eu estarei aí
Daqui a pouco esta ferida não vai doer mais
Eu estarei em casa, amor
A de 15 de setembro era... erótica. I Touch Myself, do The Divinyls:
Eu me amo, e quero que você me ame
Quando estou pra baixo, te quero em cima de mim
Eu me procuro, quero que você me encontre
Eu me esqueço de mim mesma, quero que você me recorde
Não quero mais ninguém
Quando penso em você, eu me toco
Não, eu não quero mais ninguém
Minha nossa. Eu precisava chegar logo em casa.
Durante a conexão em Dallas, telefonei pra minha avó, antes que ela ligasse no meu celular e descobrisse minha fuga. Se ela desconfiasse, colocaria a Interpol atrás de mim.
Ainda faltavam nove horas de viagem. Eu já tinha lido todas as cartas da Mônica, pelo menos dez vezes cada uma. O vídeo dela, então, eu perdi a conta de quantas vezes vi. E, quanto mais eu lia, mais perguntas surgiam.
Ela disse que teve sonhos com o futuro. Ela, uma vez, provou que as previsões dela estavam corretas. Mas algumas peças ainda não se encaixavam.
A resposta de tudo devia estar naquele dia em que ela começou a mudar. Aquela fatídica sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013.
Naquele dia, ela me ignorou na escola, como sempre fez, e estava se preparando pro encontro dela com o Cebola. Ele a pediria em namoro naquela noite. Ao meio-dia, os dois estavam na porta da escola, protagonizando um beijo cinematográfico. A Mônica, então, foi pra casa, e às cinco e meia, ela aparece na minha garagem. Ela me flagra com a Amanda e grita comigo, me acusa de traí-la.
Naquele momento, ela acreditava estar num compromisso comigo.
Quando ela percebeu o deslize que cometeu, ela simplesmente disse:
– Você tem razão. Nada a ver essa minha crise de ciúmes. Afinal, nós não estamos noivos nem nada parecido.
Ela disse que não éramos noivos. Foi com isso que ela sonhou aquela tarde. Ela viu o nosso futuro juntos, como noivos. Essa seria a única explicação pra que ela mudasse de ideia tão depressa com relação ao Cebola e a mim.
Muitas vezes ela disse que queria cumprir o destino dela. Que não queria mudá-lo. Era a mim que ela se referia, afinal. Disso eu não tinha mais dúvida.
Mas um simples sonho não justificaria tudo que ela fez. Não explicaria a avidez com que ela me agarrou logo depois do nosso primeiro beijo, nem o esforço tão grande pra me mandar embora pro Japão e depois pra me trazer de volta. Também não explicaria o fato de o Ângelo querer apagar a memória dela. Afinal, se fosse só um sonho, não haveria motivo pra tanta preocupação.
Ela viu algo mais do que um sonho. Algo que o Ângelo não queria que ela visse.
Talvez ela tenha estado no futuro. Talvez ela tivesse alguma prova de que o que ela viu era real, e não sonho.
Ela deve ter visto algo muito grandioso, muito incrível, pra estar tão decidida a garantir que o destino se cumprisse.
Sei que a Mônica nos viu juntos no futuro. Sei que, quando estivermos juntos, vai ser incrível. Vai ser grandioso. Tão grandioso que ela enfrentou um ser celestial, ela enfrentou o próprio destino, pra fazer com que o que ela viu se tornasse realidade.
Ela me ama mais que tudo.
E pensar que eu duvidei dos sentimentos dela por mim.
Me lembro de uma coisa que ela me disse certa vez:
– O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.Ela passou por tanta coisa sozinha. Ela preferiu guardar segredo a me contar o que estava acontecendo.
Se fosse eu no lugar dela, como eu teria agido?
Se eu soubesse que a pessoa que eu amo me corresponde, mas que, pra garantir meu futuro ao lado dela, eu deveria guardar segredo sobre o que sinto, o que eu faria?
Provavelmente, eu faria a mesma coisa.
Ficaria calado e então morreria de angústia, sufocado pelo meu próprio sentimento.
Mas não ela. Ela é forte. A menina mais forte do mundo. A dona da rua. Ela suportou tudo sozinha, e ela venceu.
Ela venceu o Céu pra ficar do meu lado.
Os trens de pouso finalmente tocam o solo. No horário local, são 16h30 da sexta-feira, dia 10 de outubro de 2014. O dia em que estarei, enfim, ao lado do amor da minha vida.
A fila da alfândega parece interminável. Eu preciso sair logo desse aeroporto. Eu não posso mais esperar nem um minuto.
Finalmente atravesso o portão de desembarque. Ela está lá, me esperando. Eu a vejo de longe. Ela me vê de volta, sorri e faz menção de andar em minha direção, mas só o que ela consegue é cair de joelhos. Eu corro até alcançá-la, me ajoelho ao lado dela e a abraço, segurando sua cabeça contra meu peito.
Ela levanta o rosto e me olha nos olhos. No olhar dela, uma dor infinita, bravamente contida.
Ela me aperta com as mãos, como que conferindo se eu sou real.
– Você veio… tive tanto medo que você não viesse.
– Eu tô aqui. Você pode chorar agora.
Ela sorri.
– Todo mundo me diz pra não chorar…
– E eu estou te dizendo pra chorar. Você pode desabar agora, eu tô aqui pra te pegar, ok? Não segure essa dor dentro de você.
Ela, finalmente, se desfez em lágrimas e soluços. Tanto tempo segurando esse sentimento tão forte certamente doeu demais.
Eu a peguei no colo e andei até o ponto de táxi.
Entramos no carro e dei ao motorista o endereço da casa dela.
Já mais calma, ela enfim falou:
– Meu amor… me perdoa por tudo que te fiz passar. Eu tenho tanta coisa pra te explicar…
– Eu tô bravo com você, Mônica.
Ela arregalou os olhos em desespero.
– Você devia ter explicado tudo no início, linda. Eu teria entendido. Mas você, com essa mania de bancar a forte, enfrentou tudo sozinha. Você podia ter morrido, sabia? Ficando deprimida daquele jeito, você poderia não escapar. Eu não quero nem pensar no que poderia ter te acontecido!
– Mas, se eu tivesse te contado tudo, as coisas não aconteceriam como era pra ser. Você não teria ido pro seu intercâmbio.
– Talvez não, mas a gente ia enfrentar o Ângelo juntos. E, se você me contasse que eu devia ir pro Japão pra garantir o futuro da nossa família, dos nossos filhos, eu teria ido sim.
– O que importa é que acabou. Estamos juntos agora – ela me abraçou apertado.
– Me promete uma coisa?
– Prometo o que você quiser, amor.
– Promete que não vai mais escrever o meu destino sem me contar antes.
Ela sorriu.
– Prometo.
– E promete que você vai dividir tudo comigo. Que você não vai mais lutar sozinha. Nunca mais. Promete que vai contar comigo, que vai me deixar lutar do seu lado.
– Prometo.
Nos beijamos por um longo tempo. Quando vi, já estávamos entrando no Limoeiro.
Acariciei seu rosto com as mãos e olhei em seus olhos.
– Acho que agora você aceita meu pedido de namoro, né?
– Eu já sou sua namorada. Sempre fui.
Não consegui conter o sorriso.
– Ah, é? Desde quando?
Quando ela falou, não havia nenhum traço de dúvida na voz e nos olhos dela.
– Desde que o mundo é mundo. Desde a criação do Universo. Estava escrito nas estrelas. Você é o meu destino, Do Contra.
Notas finais
O próximo será o penúltimo ou o último capítulo... vou decidir conforme eu for escrevendo.
Mas, de qualquer forma, será a primeira vez deles... estou super nervosa pra escrever essa parte! Quero que seja lindo e especial...
Me contem o que acharam! Comentem, please!
Beijos a todos! =*
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