Escolhidos.

3 Capitulo 3


O dia foi longo e cansativo, tudo que eu queria era minha cama, mas nem todos pensavam como eu.

Entrei no quarto e deitei sem pensar duas vezes, Kelly e Joyce entram logo em seguida rindo. Elas são muito amigas e vivem se entendendo, às vezes chego a pensar que não pertenço ao grupo delas, mas se não fossem elas meu único amigo seria meu irmão.

Não sou uma pessoa muito comunicativa, mas estou disposta a ter modos sociais para não ser excluída.

Todas as noites nós temos um momento de lazer após o jantar, podemos fazer o que quisermos até as dez, que é o horário em que devemos ir dormir. Saio do quarto com as meninas só para ser participativa, pois não estava com fome.

O legal das refeições é que não há divisão de turma. Há três turmas, os iniciados que são os jovens de quinze anos e é a turma na qual eu pertenço. Tem os médios, que são os jovens de dezesseis e dezessete anos, eles pertencem ao segundo estágio da escola. Dizem que o estágio médio é o pior de todos, pois você pode repetir o estágio e se você repetir duas será banido. E tem os avançados que são os de dezoito anos, eles são os que mais saem a missões em busca de novos lugares, pois já estão mais capacitados.

É raro algum iniciado ir para missão, mas não é impossível. Até que tem muita gente da turma dos médios que vão para missões, mas a direção da escola prefere os avançados.

Quando você termina a escola pode trabalhar para a escola em algumas áreas, como explorador e caçador de terras, atuar na direção da escola, ser professor ou ser um guarda, caso você não queira atuar nessas profissões você pode desistir da vida de escolhido e viver como um cidadão comum.

Eu dei sorte de deixar de ser uma cidadã, pois cidadãos vivem em condição precária, pois há uns noventa anos atrás houve uma guerra, na qual destruiu tudo e houve poucos sobreviventes. Por causa dessa guerra o sistema de escolhidos foi criado para melhorias. Muito já foi feito, mas há muito a fazer, pois em determinadas épocas como o inverno tem escassez de comida e as casas não são as melhores.

Após o jantar, me reúno com as meninas no jardim que fica atrás do edifico da escola. A escola é como um condomínio, um prédio de quarenta andares. Em volta do edifício tem jardins e um pequeno parque que são monitorados por guardas. Somos proibidos de deixar o complexo da escola, então o local é vigiado e monitorado vinte quatro horas por dia.

Geralmente as meninas ficam sentadas conversando no jardim e alguns meninos, a maioria dos meninos ou vão jogar bola, que parece ser um esporte que era muito popular há uns anos atrás, outros vão ler, estudar. Cada um faz algo diferente e é o que eu queria fazer, pois toda noite as meninas querem ficar no jardim.

Entediada levanto e saio do jardim, Kelly e Joyce nem notam minha saída, o que deveria me afetar emocionalmente, mas isso não acontece. Caminho em direção da entrada do edifício e Vejo meu irmão correndo na minha direção, ele está todo suado e ele vem me abraçando.

– Sai Bryan, você está todo suado e sujo. – Empurro seus braços e dou um passo para trás para me afastar dele.

– Não se faz e metida nojenta maninha, você não faz esse tipo. – Ele tenta me abraças e eu recuo.

– Só porque não sou metida não possa ter nojo de algumas coisas? – Digo passando por ele e entrando no saguão. Ele me acompanha como sempre.

– Você tem razão. Mas não é sobre isso que quero falar.

– E sobre o que é?

– Eu esqueci. – Ele aperta o bota do elevador e me encara com um sorriso bobo no rosto. Eu o encaro e não digo nada.

O elevador abre a nossa frente e Carmem, a diretora da escola sai. Ela é negra com o cabelo curto, quase rapado. Ela é bonita e simpática, porém rígida. Suas roupa social combina com seu cargo, mas é notável que ela não tem esse estilo.

– Andy e Bryan Becker, hora de dormir.

– Sim senhora dona Carmem. – Falamos em uníssono.

Entramos no elevador e ela segue saindo do saguão para chamar os outros alunos. Sinto arrepio quando alguém fala meu sobrenome.

O sobrenome Becker veio do meu pai, segundo a minha mãe ele foi um escolhido, mas abandonou a escola quando viu seu melhor amigo morrer em uma missão para recrutar novas pessoas para a cidade onde vivemos. Ele nunca contou a historia completa, mas disse que seu melhor amigo morreu da pior maneira possível e isso fez com que ele desistisse do seu futuro brilhante na escola. Meu pai abandonou a escola aos 21 anos e tornou-se um cidadão comum aonde conheceu minha mãe. Em menos de dois anos ela engravidou de mim e de Bryan. Eu nasci dois minutos depois de Bryan e isso o faz o irmão mais velho, porém eu sou a mais responsável.

Saio do elevador e dou boa noite a Bryan, ele faz o mesmo e seguimos por corredores opostos, pois meninas dormem para o lado esquerdo e meninos no direito. Nunca fui ao quarto de Bryan, mas sei que ele dorme no mesmo quarto que Jonathan e Kleber, um menino que se acha o melhor, mas é um dos piores dos iniciados. Não tenho nenhuma vontade de ser amiga dele. Jonathan é legal, porém meio bobo e muito inocente, mas inteligente o suficiente pra ser um dos melhores da turma. Identifico-me com Jonathan pelo fato de não ter muitos amigos, ele sempre esta lendo nas horas vagas e o único amigo dele é meu irmão.

No andar do dormitório dos iniciados há quatorze quarto, sete quartos masculinos e sete femininos. Em cada quarto há três pessoas, isso dá um total de quarenta e dois iniciados, mas somos um total de trinta e oito iniciados.

Entro no quarto e troco de roupa, em seguida deito na minha cama. No quarto há um beliche e uma cama, Kelly e Joyce dividem o beliche e eu fico na cama de solteiro no fundo do quarto. Fico olhando para as pequenas rachaduras que há no teto, logo tento dormir, mas minhas companheiras de quarto entram. Eu olho para elas e fecho os olhos,

– Anti-social. – Diz Kelly jogando seu travesseiro em mim.

– Ai. – Não sei se teve um motivo para dizer ai, mas eu disse. Joyce ri. – Não sou anti-social, apenas não estava interessada no assunto de vocês. – Sento na cama enquanto elas trocam de roupa.

– E qual é o assunto que você se interessa? – Pergunta Kelly me encarando com um olhar debochado. Ela é legal e sincera. Às vezes ela é sincera até demais.

Ignoro a pergunta dele com um grunhido e volto a deitar. Joyce boceja e se joga na parte de cima do beliche. Kelly senta na sua parte do beliche e olha para mim. Seus olhos se encontram com o meu e ela diz.

– Está na hora de mudar, Andy. – Ela se deita.

Suas palavras pesam em minha mente, queria não ter ouvido. Fico sem jeito e com peso na consciência.