Nessa noite, quando me despedi, ficou combinado encontrar-me com a Alice e com o irmão dela, Martim.

Na manhã seguinte, por volta das 10h fui ter com eles. Fomos à piscina, pois estava muito calor e divertimo-nos imenso. O Martim ainda estava um pouco ressentido por eu ter mostrado ser mais forte do que ele, apesar de toda a ajuda que prestara ontem e do diálogo, quer pessoalmente, quer mentalmente, mantido desde então. Também estava em sintonia mental com a Alice, e, de vez em quando mas mais raramente, com a Rosa. Rapidamente me apercebi que, apesar das suas aparentes diferenças, mantidas escondidas por um feitiço para impedir que os humanos duvidassem do parentesco fingido, estavam juntos desde há muito e viviam em harmonia, tal como uma verdadeira família.

Quando saímos da piscina fomos conversar e passear um pouco pelo jardim, e o Martim, pelo caminho, tentou pregar-me uma rasteira da qual me desviei sem dificuldade e fingi não ver, apesar de, desde aí, ter ficado mais atenta.

Convidaram-me para ficar a almoçar. Passei toda a tarde com eles, tal como nas semanas que se seguiram, pois estavamos nas férias do Verão.

No início da segunda-feira da terceira semana, à noite, enquanto observavamos as estrelas e discutiamos a sua origem, os seus nomes e o porquê destes últimos, vi-mos passar uma estrela cadente. Apesar de todos sabermos que, na realidade, aquilo não era uma estrela a cair, nem um cometa a passar a alta velocidade e perto do sol, nem um amuleto ou um símbolo de sorte, mas sim um sinal, uma mensagem de um Deus nalguma viagem muito rapida para algum lugar, todos pedimos um desejo, em honra do costume humano. Nesta altura, os três tinhamos fechados a mente uns aos outros, pois os nossos desejos mais profundos tinham de ser secretos para se realizarem.

No dia seguinte fomos fazer um piquenique a um jardim que eu conhecia nas imendiações. Como queriamos poder usar magia, subimos a uma densa árvore e escondemo-nos lá. Passamos a tarde toda a fazer macacadas e pequenos truques de magia. O Martim voltou a tentar usar o seu Dom comigo.

Ó, pois foi. Esqueci-me de dizer que alguns vampiros e alguns mágicos, e ás vezes alguns humanos, têm um Dom. O Dom é um poder especial tal como ler os pensamentos, ver o futuro, perceber se alguém está a mentir, etc... Esse Dom é normalmente descoberto um pouco depois da magia e os mágicos aprendem a controlá-lo desde então, mas os humanos raramente se apercebem que têm um Dom, pois este pouco se sobressai ou tem opurtunidade de ser testado.

Também me esqueci de mencionar que grande parte das criaturas mágicas, exepto os vampiros e outros seres cujas as transformações ou os períodos mágicos são temporários e raramente fazem parte deles desde nascença, nascem com um elemento/poder atribuído. Normalmente este revela-se aquando o ínicio dos estudos mágicos. Se esta revelação ocorre mais cedo, a criança inicia os seus estudos mais cedo e é afastada das outras crianças, a não ser que já tenha maturidade suficiente para não usarem os seus poderes erroneamente ou divulgar para o resto da comunidade o que é a magia. Quando se inicia os estudos mágicos, por volta do 5ºano de escolaridade, as aulas são genéricas pois muitos ainda não descobriram o seu elemento. Assim que alguém descobria o seu elemento avançava para o liceu, onde eramos divididos em turmas que albergavam só os mágicos com o mesmo elemento. No final do liceu, havia a Academia, o último status de ensino do elemento. Como a idade mínima para se entrar na Academia era de 17 anos eu estava inscrita para o ano, tal como todas as criaturas mágicas que tivessem um elemento. Na Academia eramos divididos em turmas aleatoreamente, misturando criaturas mágicas diferentes e com elementos diferentes mas, em algumas disciplinas mais específicas, eramos novamente separados por elementos.

O Martim têm o Dom de ler os pensamentos. Nós, os elfos, na nossa cultura, achamos que invadir a mente de alguém é estremamente indelicado, mas desde pequenos que somos treinados para fazer isso, tal como somos treinados a proteger a nossa mente contra qualquer possível ameaça.

O Martim, ao ver a sua tentativa frustada, propôs uma corrida, confiante que iria ganhar, visto ser um vampiro. A corrida seria trepar desde o solo até ao topo da árvore onde nos encontravamos e depois saltar de àrvore em àrvore em todo o comprimento do jardim. A Alice, como estaria em desvantagem se concorresse, ficou de ver se todas as regras eram cumpridas: não era permitido agredir o adversário, não era permitido usar armas, incluindo o Dom, e só era permitido usar feitiços defensivos ou inofensivos. Ou seja, não podíamos magoar o adversário. Enquanto nos punhamos na nossa posição, Alice transformou-se numa coruja para poder ficar atenta a toda a prova, e deu a partida.

Enquanto começava a trepar à arvore, liguei o meu relógio. Este relógio servia para muitas coisas excepto dizer as horas. Além dum cronómetro e dum calendário, este relógio fora mágicamente alterado para ser um reservatório de energia solar, pois o meu elemento é fogo, que eu possa utilizar, para não gastar as minhas própias energias. Rapidamente trepei pela àrvore e, transformando-me numa àguia, fiz o percurso em redor do parque. Por várias vezes, durante o percurso, senti o meu escudo ser abalado por rajadas de vento e feitiços paralisantes mas não respondi na mesma moeda nem uma vez, visto que queria fazer jogo limpo.

Aterrei na base, ao pé das nodosas raízes, retransfigurei-me em elfa com a forma humana, devido ao feitiço que mantinha sempre, e voltei a trepar à àrvore, atá ao tronco onde tinhamos escondido o cesto de piquenique e onde se encontrava a grande coruja de pelugem castanho-claro que era, na realidade, a Alice. Quando cheguei perto dela, transformou-se em humana e deu-me os parabéns, confidenciando-me que tinha esperanças de que, agora, o seu irmão fosse menos convencido, ou pelo menos mais contido.

-O teu elemento é o Fogo, não é?-perguntou-me a Alice

-O que te faz pensar isso?-tornei eu, espantada

-O facto de, quando te transformas-te em àguia viu-se, por milésimos de segundo, a forma de uma exuberante fénix com penas vermelho-alaranjadas.

-Sim, realmente é esse o meu elemento.-concordei eu-E tu? Tens algum?

-Claro! O meu elemento é a Água.-disse a Alice, toda feliz

-Vais para a Academia no próximo ano?-Perguntei, esparançosa

-Claro. Toda a gente vai! Estou um bocado ansiosa...-respondeu ela

-É normal. Quer dizer, se nós fossemos normais...

Passou uns minutos enquanto observávamos o luar. Durante a nossa conversa, o Martim enviara uma mensagem telepática a Alice, que a transmitira a mim, a dizer que ia caçar.

-Que disciplinas extracurriculares estás a pensar ter?

-Ainda não sei bem. Talvez Astrologia e História Antiga da Magia...-respondi

-Também gostava de saber mais sobre as nossas origens.-concordou a Alice.

àààFicamos algum tempo a contemplar a lua, o céu e a “pacividade” da noite, até que, de repente, se ouviu um uivo. Qualquer humano confunde um uivo de um cão com o de uma criatura mágica, mas qualquer ser em cujo o sangue percorra uma réstia de magia nota as diferenças entre os diferentes tipos de uivos. E mesmo entre os lobisomens, os feiticeiros, os vampiros, os semi-deuses e outras criaturas mágicas existem diferenças, não só no tipo de uivo, como também na pelagem, no modo de ataque, de movimentação, na vastidão da mente e no poder sobre a forma animal. Nem todas as criaturas mágicas distinguem os diferentes tipos de uivo entre as espécies, mas eu, desde pequenina sempre o consegui. Não era algo em que pensasse, apenas um instinto.

Quando ouvi aquele uivo, reconheci-o como sendo de um vampiro. Logo de seguida veio outro uivo, proveniente de um feiticeiro. Depois o de um semi-deus, e a seguir o de uma alcateia inteira de lobisomens.

-O que se passará para tamanha algazarra?-perguntei eu, curiosa

-Não sei-respondeu a Alice

-Vamos ver?-inquiri novamente

-Bora-incentivou ela.