Escolhas do Destino
3 III. Harry Potter
Notas iniciais
– Cara, isso na sua testa não tá nada bonito.
– Acha que eu não sei, Alex? Além de a estética não estar nada boa, sinto dor o tempo todo.
– Alex, cala a boca. May, como você está se sentindo?
– Melhor com vocês aqui, com certeza.
Já faz dois dias desde o "acidente" da escola. Maddie e Alex tem vindo me visitar desde o primeiro dia, o que com certeza me deixa muito feliz. Meus pais não tem tido tempo de vir até aqui; o disfarce de pais perfeitos durou menos dessa vez.
– Cara, não se fala de outra coisa naquela escola. — Alex, super sensível, se arrumou na cadeira. — Uns garotos do último ano conseguiram pegar o momento exato em que você cai de testa na...
– Alex! — Maddie o repreende com um tapa na cabeça. — O que ele quis dizer, Mason, é que talvez agora você tenha alguns problemas.
– Mais do que uma testa rachada? Duvido muito...
– Pode acreditar que sim, mano. — Alex empurra as mãos de Maddie que estavam apoiadas em seu ombro e ela quase cai. — Sam e a gangue dele foram chamados à diretoria. O menino que empurrou Sam foi expulso e ele só se safou por conta dos vídeos que eu falei e agora parece que eles tem um ódio mortal de você, porque parece que ele era o "líder" deles.
Pisco forte e respiro fundo.
– Eu realmente achava que Sam é quem era o "líder"...
– Não mesmo. — Maddie cruza os braços e coloca os pés na lateral da cama. — Tem pouco tempo que Sam anda com eles. Ninguém sabe o porque, mas de repente ele estava infiltrado no meio daquela corja.
– E com quem ele ficava antes?
Maddie e Alex se olham. Pela expressão em seus rostos, percebo que é algo que eles não deveriam comentar com ninguém. Mas agora eu quero saber.
– Qual é, vocês não vão esconder nada de mim agora, certo? Já falaram tanta coisa...
– Maddie, eu acho que já podemos contar pra ele.
– Você quem sabe, Alex. Você quem sabe...
– Bem, garotão, se ajeita aí porque a história é longa.
Alex puxa a cadeira e a coloca no pé da minha cama. Me ajeito e olho para ele.
– A mais ou menos um ano atrás, Sam Dawkins era um cara brilhante. E quando eu digo brilhante, era realmente brilhante: primeiro aluno da classe em todas as matérias, jogador e medalhista de ouro em vário esportes...Enfim, ele era praticamente perfeito.
– Ele tinha uma namorada, chamada Jullie. Os dois juntos eram como uma explosão de perfeição. — Maddie começa a falar e até Alex se assusta. Percebo pelo tom da sua voz que esse assunto era delicado pra ela. — Um dia, Alex e eu estávamos sendo perseguidos por aqueles idiotas que andam com o Sam. Eles iam...
Maddie vira o rosto e eu posso ver lágrimas brotando em seus olhos. Alex continua:
– Eles realmente são pessoas horríveis. — Alex levanta a camisa e mostra uma marca enorme nas costelas. — Me bateram e queriam levar a Madison para não sei aonde por sermos "esquisitos". Parecia cena de filme: chuva e gritos. Foi realmente um pesadelo. Mas aí o Sam apareceu junto com a Jullie. — Maddie ri e enxuga as lágrimas dos olhos.
– Eles pareciam dois super heróis. Eu juro, nunca vi nada parecido. Sam e Jullie sozinhos derrubaram quatro ou cinco daqueles caras. Eles lutavam várias artes marciais, então já dá pra ter uma noção de como eram...
Faço uma careta pra eles.
– Vocês acham mesmo que vou cair nessa? Vocês parecem estar descrevendo uma cena de livro ou filme...
– É a verdade, Mason! — Alex se levantou e fez uma pose. — Eles davam socos e chutes nos caras e eles corriam feito bebês para as mamães. — Alex agora chorava junto com Maddie, mas já não parecia ser de tristeza. Até os meus olhos começaram a ficar marejados, embora eu segurasse. — Ah, foi glorioso.
– Sam me cobriu com a jaqueta dele e Jullie ajudou Alex. Eles nos levaram até o hospital e ficaram conosco até quando os nosso pais chegaram. Nunca fui tão grata à alguém quanto sou à aqueles dois.
– Depois daquele dias, eles nunca mais nos deixaram desacompanhados. Sam e Jullie iam nos buscar em casa e nos levavam à escola. Andávamos sempre juntos. Era como se eles fossem os nossos irmãos mais velhos.
– Sam Dawkins andava com vocês?
– Ah, sim. — Maddie irradiava alegria. Seu sorriso era imenso. — Éramos inseparáveis. Mas aí... — Sua voz falhou. Ela parecia querer falar, mas a sua boca não emitia som algum.
– Aí o que, Madison?
– Aí tudo mudou. — Alex fechou a cara e se sentou na cadeira, com os joelhos dobrados. — Sam e Jullie foram convidados para uma festa na casa de um dos vários amigos deles. Maddie e eu não pudemos ir, porque era uma festa "privada" mas eles nos davam todos os detalhes enquanto estavam lá. Até foto mandaram. Mas, na hora que estavam indo embora...
Alex engoliu em seco e começou a chorar. Maddie o abraçou e ele encostou a cabeça em seus ombro. Sem saber o que fazer e incapacitado de fazer algo, fiquei olhando aquela cena. Madison e Alex pareciam irmãos e, falando de Sam e da tal Jullie, parecia que nunca poderiam se separar assim. O que será que houve?
– Sam e Jullie estavam voltando para casa. Estavam atravessando a rua para a casa de Jullie quando um carro veio em alta velocidade.
Fecho os olhos e sinto um aperto no coração. Estou forçando esses dois a reviverem o que foi um pesadelo para eles.
– Maddie, não precisa me cont...
– Jullie viu o carro, mas o Sam não; estávamos em uma chamada de vídeo pelo Skype. Jullie só se importava com ele, então ela o empurrou.
– E o carro bateu nela. Com força total. — A sala ficou em silêncio por alguns minutos. — Maddie eu vimos tudo. Depois que Sam largou o celular, só ouvimos os gritos dele.
– O carro fugiu sem prestar socorros à Jullie e, desde então, Jullie está em coma.
– Em coma? — Mason, você é um imbecil.
– Sim. Acho que ela está aqui nesse hospital mesmo...
Passo a mão pelo rosto e, acidentalmente, toco a cicatriz. Ela começa a arder mas não me importo muito com a minha dor agora. Alex percebe que Madison não queria falar mais nada, e então segue.
– Depois do acidente, Sam nunca mais foi o mesmo. As notas dele despencaram e nem conseguia se concentrar nos treinos. Ele foi de perfeito à "desperfeito".
– Soube que às vezes ele ainda vem visitar Jullie, mas ela não responde. Os pais dela só não desligaram os aparelhos dela por causa dele...
– Gente, me desculpa. Eu não sabia que vocês...Eu não queria que...
– Tá tudo bem, May. A gente já se acostumou com a ideia de sermos só nós dois.
– Você quis dizer "Nós três", não é Maddie? Mason agora é um dos nossos! — Ele vai até o meu lado na cama e aperta os meus ombros. O olhar e o sorriso de Maddie confirmam o que ele diz, mas me sinto mal. Me sinto mal por fazê-los reviver o pior momento de suas vidas e por tomar o lugar de seus amigos. Uma enfermeira entra na porta e avisa que já está na hora de eles irem. Ambos se levantam e pegam as mochilas.
– Você vai ter alta amanhã mesmo, não é May?
– Segundo à enfermeira, sim.
A moça sorri pra mim e se vira para eles.
– Sim, ele vai sair amanhã.
– Então a gente se vê amanhã. Falou, Harry Potter!
– Deixa de ser chato, Alex! — Os dois riem e eu os acompanho. -Tchau, May!
– Tchau, galera. Até amanhã! — Eles saem e a enfermeira começa a mexer em alguns papéis na minha bancada.
– Você é um rapazinho de sorte. Eles parecem ser verdadeiros amigos...
– É, são sim. Quem me dera poder dar um pouco de Felix Felicis para eles...
– Um pouco de que?
– Nada, nada... — Olho ao redor do quarto. Graças aos céus vou sair daqui amanhã. Ainda posso ouvir o ecoar do choro de Madison e Alex.
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