Escolhas
10 O depois
Notas iniciais
Janeiro de 2014
Nossa, como o tempo passa voando, hoje faz quatro anos desde que eu descobri que estava grávida e perdi num acidente de carro versus bicicleta, quebrei minha perna e descobri que tinha câncer de útero, pensando agora como tudo foi uma bola de neve. Eu nunca vou esquecer dessa data. Se não fosse por aquele homem louco dirigindo seu carro me atropelar, talvez eu descobrisse tarde de mais o tumor crescendo em mim. Na época me pareceu o fim, mas tudo tem um ensinamento, cada parte do que acontece conosco é para nos ensinar alo, mesmo que seja doloroso e aterrorizante. Tudo passou finalmente, hoje eu só conto para os outros como tive que tomar a decisão de tirar o meu útero por completo sendo tão nova, alguns ficam chocados mas eu tirei proveito dos acontecimentos, amadureci. Participei de grupos de câncer do hospital, apesar de eu ter me livrado do tumor, eu quis conhecer as pessoas que lutam diariamente com isso, e foi lá que eu conheci meu patrão. Finalmente consegui emprego na minha área de formação, estava frustrada e pensando em desistir de vez de procurar, mas ele foi à luz que estava faltando na minha vida.
Quando a doutora me perguntou o que eu queria fazer a respeito do meu tumor dois filmes passaram na minha cabeça, primeiro eu era uma pessoa solitária que tinha vários gatos, como àquela senhora de Os Simpsons com muitos gatos e com cara de louca, pensei que como eu tirei meu útero eu seria sozinha por que não poderia ter mais filhos, minha mãe sempre diz que filhos são para sempre e marido não. Que coisa mais tola, eu não sou sozinha, posso ter, quem sabe, filhos, naquela época eu nem cogitava ter filhos, hoje até penso na possibilidade de adoção, num futuro um tanto distante, mas penso. Outra cena que me ocorreu era simplesmente minha mãe e irmã no meu velório, meu câncer se alastrando e a quimioterapia não funcionando, tá é meio mórbido, mas foi o que passou pela minha cabeça, podia ter tentado? Claro que podia, mas ainda acredito que seria o caminho mais difícil. Afinal qual é a primeira coisa que vem a sua mente com a palavra câncer? É isso mesmo pessoa mórbida na cama de um hospital.
Mas tudo passou, pareceu lenta e gradual, mas agora já se passaram quatro anos, depois que você se recupera fisicamente e mentalmente, passa rápido. Quanta coisa aconteceu no meio desse tempo, arrumei emprego, troquei de apartamento, adotei mais um gato. Foi difícil mudar de apartamento, eu me apeguei aquele lugar, ao meu apartamentinho, meu aconchego, mas sempre tem tempo de mudar. Precisava sair de lá, novos vizinhos, novos ares, já estava cansada dos meus vizinhos enxeridos que cuidava da minha vida, até a senhora dona do apartamento em frente ao meu, me perguntou onde eu estive a noite que não voltei, ela sim é velha com 17 gatos, coitada descobri que faleceu essa semana.
— Maya você está pronta? – pergunta Helena entrando no quarto.
— Tô quase – respondo- falta só retocar o batom.
— Nossa, seu vestido é lindo, mamãe escolheu o melhor vestido para você. – diz ela segurando o tule do meu vestido.
— O seu também não é nada modesto – digo me levantando e nos olhamos no espelho grande que tem na casa de praia.
— Esse seu pedaço de croassonho parece delicioso – disse ela pegando na mão.
— Como vou negar comida pra grávida?! Eu pretendia terminar isso. – falei passando a mão no barrigão dela.
—Esquece, agora Sofia já está degustando tudo. -diz ela limpando a boca com um guardanapo.
Olho para a porta e vejo meu sobrinho todo de terno e gravata, que coisa mais lindinha, pego ele no colo e o esmago até ele se irritar e sair correndo. Helena vai atrás dele com aquela barriga enorme parecendo um pato andando. Ela saiu me xingando porque o amarrotei todo. Olho-me no espelho e meu vestido realmente é lindo, estou apaixonada por mim mesma, mando um beijo para a minha imagem refletida no espelho, me abaixo para colocar meus saltos e sinto uma presença atrás de mim, olho para o espelho e vejo outro reflexo, meu sorriso largo e branco me abraça.
— Não vai amassar o meu vestido – digo e viro para ele e dou um beijo doce.
— Não vai amassir o meu vistidi – repete ele tirando graça de mim.
— Você não deveria estar lá na frente me esperando chegar?- pergunto
— Helena me mandou ver se você estava pronta — responde
— Já estou indo, estou nervosa. – digo pegando na mão dele.
— Casamento é assim, sua mãe está nos nervos também. – diz ele e vamos andando.
Encontro Helena na porta do salão principal, segurando a mão do Antonio, ela fica tão linda grávida. Vou ao encontro dela e ela me entrega o buque, margaridas amarelinhas e lindas. Olho para dentro do salão e estão todos lá, parentes e amigos, sentados nos aguardando. Lá no fundo em frente ao altar improvisado está João o porteiro, tenho que parar de chama-lo assim – anotação mental- esperando em seu terno azul escuro. A musica começa a tocar e os padrinhos entram primeiro, o terno branco do meu namorado deu contraste maravilhoso com a sua pele negra, eu fiz ele escolher o branco porque acho que ele fica muito sexy de branco. Agora é nossa deixa, entramos uma atrás da outra, Helena e Antonio jogando pétalas pelo caminho, seguida por mim com o buquê. Chegamos à frente do altar e avisto lá atrás, na porta do salão, minha mãe com seu vestido amarelo claro, ela está tão linda. Uma lagrima teima a cair do meu rosto, nunca a vi tão feliz desde que meu pai falecera. Não esperava que fosse com o porteiro do meu antigo prédio, mas se a faz feliz, tudo bem, eles namoraram e decidiram fazer uma cerimônia tão rápido que ficamos chocados, mas ela está tão radiante de felicidade que a apoiamos em todo o momento. A musica da noiva começou a tocar e ela vem andando lentamente entre nossos parentes e amigos, alguns deles a julgaram, porque quem diria que aos 55 anos ela namoraria e se casaria de novo, mas mesmo assim vieram em apoio a ela. Ela chega e da a mão para o João, eu entrego o buque e a cerimônia começa.
***
Sentada aqui na mesa vendo as pessoas dançarem musica ao som dos anos 80, Helena está com os pés para cima sentada ao meu lado, Antonio está dormindo deitado em duas cadeiras, exausto. Anderson sumiu tem um tempo, disse que ia buscar umas cervejas, mas deve ter encontrado com algum parente e parado para conversar. Ele e minha mãe demoraram a se entender, mas, Graças a Deus, ela engoliu seu orgulho e preconceito e aceitou o nosso relacionamento, bom, mesmo que ela não aceitasse ela ia ter que nos engolir. Foi complicado apresenta-los, ela fez cara feia, mas depois de tanto tempo eu levando ele na casa dela, nos almoços de família ela se acostumou e aprendeu a deixar o preconceito de lado, claro que demorou muitos almoços para que eles trocassem umas palavras, mas com o tempo eles foram conversando, hoje eles conseguem até ter um dialogo com mais de duas frases.
Lógico que aproveitei que ela estava feliz com seu namoro, que, aliás, eu que incentivei e ela que desdenhou de inicio, para apresentar o Anderson e João me ajudou bastante, mas ainda não conseguimos desconstruir por completo esse conceito de minha mãe, mas ela aceitar o Anderson na família já é um grande passo,o próximo passo é ela aceitar que sou tão negra quando ele. Anderson foi muito paciente, esperou ela o aceitar e ignorava as piadas e caras feias que minha mãe fazia, fico grata por ele não desistir eu o amo muito.
Quando me mudei de apartamento, o primeiro dia em que consegui me organizar, sai para beber e comemorar a mudança, chamei Aline para ir comigo, ainda somos amigas, depois da terceira lata ele sentou do meu lado e começamos a conversar, como se nada tivesse acontecido no passado, assim que continuamos bebendo acabamos deixando minha amiga de lado e não percebemos que ela havia saído – depois fiquei sabendo que ela saiu com um cara para uma festa – saímos do bar e ele me convidou para ir ao apartamento dele, que descobrimos ser do mesmo prédio que o meu, rimos muito da coincidência. Destino? Ele acredita que sim. Continuamos saindo e decidi nos assumir, assumir nosso relacionamento, não era mais apenas sexo, eu estava perdidamente apaixonada por ele, agora faz três anos que estamos namorando.
— Por quê a musica parou? – pergunto para Helena que finge não me ouvir e fica olhando para o lugar onde fica o Dj.
Olho na mesma direção que ela e ao longe percebo que Anderson está com o microfone na mão. Meu coração acelera, já passou faz tempo à hora do brinde, o que ele está inventando. Olho para Helena que está olhando para mim e sorrindo. O que isso significa? Agora uma de fundo está tocando, a nossa musica we belong together. Ele coloca o microfone na boca, suspira.
— Maya, já sei que com seu ouvido aguçado, percebeu que a nossa musica está tocando. – começa ele e eu gelo, sua voz ecoa no salão.
As pessoas estão olhando para mim e se separaram em dois grupos, deixando um espaço no meio do salão, e ele está olhando diretamente para mim, e eu estou sorrindo que nem idiota, minha mão está gelada, suando, sinto meu corpo todo tremer por dentro.
— Maya, depois de muito tempo e conquista – as pessoas riem – consegui conquistar seu coração.
Eu me levanto e vou andando em direção a ele, por instinto ou sei lá, eu ficar ali sentada ouvindo ele falar comigo em meio aquelas pessoas estava me deixando mais nervosa. Chego na frente dele e ele sorri, nervoso. Pega na minha mão e olha nos meus olhos.
— Um dia eu falei para você que daríamos certo no futuro, nosso futuro é agora –sorri – Maya, você quer casar comigo?
Sinto o tempo parar por uns segundos, olho para os lados e as pessoas estão ansiosas esperando a minha resposta, a imagem e as palavras dele no passado resoaram na minha mente “acho que isso poderia dar certo no futuro”, o futuro é agora? Nosso momento chegou? Ele estava certo desde o inicio. Podemos dar certo no futuro presente. Olho de novo para o rosto do meu sorriso branco e pele negra, eu sinto meu coração acelerar e uma lagrima cair, seguro firme na sua mão.
— Sim, sim, sim- repondo e pulo para abraça-lo. Ele me abraça em resposta com o sorriso mais largo que jamais esteve.
— Você pode falar isso no microfone porque acho que o pessoal aqui não ouviu. –diz ele colocando o microfone na minha frente.
— Eu sinto muito pessoal – pausa para o drama – mas esse aqui já tem donaaaa!- largo o microfone e agarro seu pescoço e o beijo como se estivéssemos a sós, ouço palmas e assovios atrás de mim.
***
Lá fora o jardim, consigo ouvir a musica que continua a tocar o salão. Depois de quase uma hora eu consegui parar de tremer, eu vou me casar! Não posso acreditar, eu consigo acreditar, mas foi tudo tão surpreendente, eu não sei explicar o turbilhão de sentimento que estão aflorando em mim, estou tão feliz que a felicidade transborda. Seguro mais firme a mão de Anderson, ele aperta em resposta, estamos ambos olhando o luar, céu estrelado, está batendo um vento fresco nos nossos rostos, sinto a sua respiração calma do meu lado. Olho para ele que está olhando para o horizonte, me pego sorrindo feito boba, ele me olha e sorri.
-Desde quando você estava planejando isso? – pergunto
— Desde que eu tive certeza que te amo. – responde.
— Eu também amo você – digo.
— Que bom porque vamos passar o resto da vida juntos, é bom me amar mesmo. – diz ele fazendo graça, sempre me fazendo rir.
— Seu besta! – digo dando um beijo carinhoso.
— Tenho uma coisa para te contar – diz ele, um tanto sério.
— O que? Teve um caso com a sua colega de trabalho? – digo brincando.
— Claro que não! – diz – para de graça, Maya, quando você esteve internada eu a visitei no hospital?
— Ué! Mas por que você faria isso? Tinha algum parente lá? – pergunto, mas os segundos que olho para ele me lembro da voz que ouvi enquanto estava grogue de medicamentos. Ele é o dono da voz, o rapaz que perguntei para minha mãe quem era , meu coração palpita, mas logo se acalma. – Foi você, eu ouvi você, naquele dia.
— Maya, desculpe demorar tanto para contar, mas era eu naquele carro, e.. – tentou explicar – me desculpe.
— Por que demorou tanto tempo para me contar? – indago
— Eu achei que você se chatearia comigo ou pior. – responde
— Foi bom ter esperado – sorrio – por que se fosse em outra época eu te odiaria, eu estou tão feliz hoje que nada pode me abalar, nem o fato de você ter quebrado a minha perna.
— Não foi por querer você sabe disso, se pudesse mudaria o tempo e não te atropelaria naquele dia. – disse ressabiado.
— Espere ai, a mensagem de um estranho que recebi era sua? – pergunto, lembrando da mensagem sem resposta.
— Sim foi minha, na época fiquei com vergonha, enão queria que você soubesse que foi eu. – reponde ele – Maya, eu sinto muito mesmo pelo acontecido.
— Ei, tudo bem! – digo tocando no seu ombro – se não fosse pelo acidente, eu não teria descoberto no tempo certo o que descobri naquele hospital.
Ele me abraça apertado, deposita um beijo na minha testa, susurra um “sinto muito por aquilo”, e se levanta me puxando pela mão, para dançarmos ao som da musica que toca ao longe.
— Mas, é bom não sair atropelando mulheres por ai, você pode se apaixonar e casar com ela. – digo e ele sorri em resposta, e continuamos dançando iluminados pela lua.
***
Agosto de 2017
— Gabrielaaa, ajuda o seu irmão a encontrar o sapato. – grito, garota que não sai do celular. Não devia ter comprado para ela de aniversário.
— Já vou mãe, que saco! – disse resmugando.
— Olha garota, não me responde! – digo ficando irritada.
— Achei, achei, — gritou Emanuel do quarto – tava de baixo da cama.
— Seu quarto e sua bagunça né, seu Emanuel. – digo passando a mão no seu cabelo cacheado.
— Qual é o problema logo de manhã? – pergunta Anderson.
— Problema nenhuma pai, mamãe que é toda estressada. – fala Gabriela puxa saco do pai.
— Sua mãe estressada? Nunca, quanta calunia. – diz sorrindo
— Sou estressada sim, vocês me deixam louca — digo – Gabriela pode largar esse celular, para tomar café pelo menos?
— Tá! – reponde ela.
— Vê se educa essa garota, que está assim ultimamente, respondona. – falo me dirigindo à Anderson.
— É a fase vai passar. – é o que ele me diz.
— Quando eu era adolescente não era assim, se respondesse era chinelada da minha mãe.
— Tudo na sua época não era assim né mãe, outros tempos. – diz Gabriela rindo.
— Ei, eu nem sou de outros tempos, como você diz – digo entregando café para ela – sou uma jovem ainda.
— Eu e sua mãe estamos super jovens ainda, estamos na flor da idade. – diz Anderson, depositando um beijo na minha testa.
— Falando na Flor da idade é que não é jovem hahaha — ri Gabriela.
Gabriela se levanta da mesa e pega o celular que não parava de vibrar, não sei que tantas mensagens essa garota recebe. Mando Emanuel ir escovar os dentes que ônibus escolar já vai passar, com oito anos já vai para escola de ônibus sozinho, mas achar o tênis não sabe achar. Falo para que ele vá ao banheiro do meu quarto, porque quando Gabriela entra no banheiro para se maquiar parece que demora anos para sair de lá, sempre a ultima a estar pronta, aos 16 anos não me lembro de ser tão vaidosa. Outros tempos, como diz ela, outros tempos. Anderson já saiu para o trabalho, hoje eu trabalho apenas no período da tarde, então tenho tempo para as tarefas da casa, Gabriela se safou dessa hoje.
— Emanueel! Vamos, o ônibus já vai chegar. – olho para o relógio que marca 7:00hrs – são 7:15 você vai se atrasar.
— Já to pronto – diz ele chegando correndo do meu lado, dou um beijo na sua bochecha e ela vai correndo para o ponto de ônibus que fica na esquina da nossa casa. Nem adianta mais eu falar para ele não correr, moleque pertinente.
— Hoje a Aline vai passar aqui para levar eu e Morgana para a aula. –diz Gabriela chegando ao meu lado na oleira da porta. Ouço a buzina e aceno para Aline.
— Depois da aula direto para casa – digo. E ela sai sem me responder, mas tenho certeza que ela revirou os olhos.
A casa fica em silencio, olho ao redor, e bichano — segundo está subindo na mesa para comer o farelo que ficou no prato. Não sei quem é pior as crianças ou esse gato. Taco minha pantufa nele, que sai correndo antes que o objeto chegue. Gato esperto. Vou começar a fazer as coisas, a casa está uma bagunça, sapatos e roupas espalhados por todos os cantos. Ligo o som alto, estimulo para começar. Começo pelo quarto de Emanuel, quanta bagunça. Depois vou para o de Gabriela, depois o meu e o de Anderson. Vou limpando os armários da sala e me deparo com um álbum de fotografias, eu sei que isso não se faz mais, mas nada melhor que poder pegar fotos antigas nas mãos e reviver os momentos.
Pego o álbum na mãe e começo a folhear as paginas de fotos, começa pelas minhas e as de Helena, passando por Helena grávida do seu pequeno, que agora grande Antonio, depois ela segurando a pequena Patrícia no colo no hospital, minha afilhada amada. Uma foto minha com as muletas do lado, meu pé para cima com aquela bota ortopédica ridícula, o Bichano (primeiro) no meu colo, eu nem sabia que ela tinha batido essa foto, mas depois achei ela no meu celular e resolvi revelar para me lembrar sempre, que tudo passa e a gente cresce com isso. Fotos do casamento de mamãe com João, ela estava tão linda, fotos do momento em que Anderson me pediu em casamento, foi tão lindo que olhando essa foto a sensação daquele dia estou sentindo agora. Meu casamento, tudo tão simples, mas foi o melhor momento da minha vida, que depois passou a ser o segundo melhor momento, pois o dia em que a adoção dos meus filhos foi aprovada, passou a ser o momento numero um. Segurando a foto que tiramos no dia em que eles finamente foram nossos, precisávamos registrar aquele momento, uma lagrima escorre do meu rosto, enxugo ela, teimosa. Faz um ano e meio que eles estão morando conosco, mas ficamos um ano com eles passando finais de semana aqui, depois que vieram por definitivo pareciam que eram nossos desde sempre, meu amor por essas crianças foi crescendo a cada encontro e quando eles finalmente vieram para cá, morar aqui, meu amor transbordou. Eu pensava que nunca seria mãe, que não saberia ter sentimentos de mãe, mas chegou o momento e é um amor incondicional. Minha mãe ficou orgulhosa de mim quando decidi adotar, e toda boba por que seria avó de novo. No começo foi difícil, porque Gabriela é uma adolescente abandonada pelos pais junto com o irmão mais novo, eu não podia, com certeza não podia separa-los. Primeiro conhecemos Emanuel por ser o mais novo, depois que nos contaram que ele tinha uma irmã, pedimos para conversar com ela, de inicio ela ficou meio rude, não queria muito papo. Depois de insistirmos para que ela viesse passar um final de semana conosco, ela se abriu conosco e começou a participar mais dos passeios, ela foi mais difícil de conquistar, já tinha passado por alguns pais que a rejeitaram, eu vi nessa menina um pouco de mim mesma, que quer ter uma casca dura, mas é mole por dentro.
Olhando mais fotos, batemos varias juntos e dos dois, para termos vários registros deles, nossas crianças. Lembro do dia em que Gabriela me chamou de mãe, não faz muito tempo mas eu fiquei muito feliz, Emanuel me chamou de mãe na segunda semana em que morou aqui, mas Gabriela me chamava de Maya.
***
Janeiro de 2017
Coloco a garrafa de café na mesa junto com os pães que Anderson comprou hoje cedo na padaria perto da nossa casa, o cheiro de café fresco está delicioso e me faz lembrar mamãe. Agora a ma mãe que faz café sou eu, Emanuel está sentado na mesa e Gabriela no banheiro se arrumando.
— Quer café com leite meu anjo? – pergunto para Emanuel.
— Não, quero Nexscau quentinho! – diz ele com voz de manhoso. Tenho que tirar essa mania dele, mas vou dar mais tempo.
Pego a xícara do Batman dele e preparo um achocolatado morno, entrego para ele que bebe tudo e fica com bigode de leite, rimos. Mando eu vá ao banheiro escovar os dentes para ir para aula e que chame Gabriela para tomar café para não se atrasar. Ouço ela vindo pela sala a passos vagarosos, se seta na mesa e olha o celular, pela milésima vez tenho certeza. estou apoiada na pia observando ela, minha filha mais velha.
—Mãe, pega a minha caneca de coruja. – diz ela.
Fico parada, estática, ela me chamou de mãe? Foi isso que eu ouvi. Estou tão feliz com isso que nãoonsigo me mexer. Reagi, me viro pego a caneca dela no armário e entrego para ela.
— Você me chamou de mãe. — digo quase em um sussurro, parece banal, mas pensei que ela nunca me chamaria assim,já que é mais velha.
— Eu, e... chamei, mas a senhora não quer que chame tudo bem eu.. –diz ela meio gaguejado.
— Não, não, claro que quero, eu desejava isso de você — falei depositando um beijo no seu rosto. Enxuguei a lagrima tímida que caia do meu olho. Ela sorriu e continuou o seu café.
***
Agosto de 2017
Ouço o carro de Anderson que me desperta do meu devaneio. O Anderson chegou do trabalho. O que? O Anderson chegou do trabalho? Ele chegou e eu estou aqui esse tempo todo sentada no chão, olhando essas paginas de fotos e lembrando das historias que simplesmente me esqueci de olhar as horas, já deve passar das onze horas e nem o almoço preparei. Me levanto e ele chega na sala e vê as fotos espalhadas pelo chão, a vassoura largada num canto e os moveis de pernas para o ar.
— Foi interrompida a sua faxina? – pergunta ele.
— Eu fui limpar o armário e encontrei as nossas fotos, olha essa – mostro uma foto tirada com todos nós, os quatro, na portada nossa casa, no primeiro dia em que Emanuel e Gabriela vieram por definitivo morar conosco.
— Que família linda a nossa. – diz ele olhando ao redor – quanto tempo você ficou ai?
— Tempo suficiente para esquecer as horas e do almoço. — digo dando um sorriso torto.
— Vamos pegar as crianças na escola e almoçar no shopping o que acha? – pergunta.
— Nossa, acho uma ótima ideia!. – afirmo.
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