Escola de sangue

1 A professora de matemática


I

01 de fevereiro de 2016. Os colégios voltavam a ficar lotados de materiais e pessoas novas, até mesmo os professores. O replanejamento das escolas de São Paulo foi uma boa oportunidade para Vinícius conhecer novos amigos, mas não esperava encontrar seus antigos companheiros Caio, Erick, Felipe e Thaís.

Precisamente às oito da manhã o sinal tocou, dando início ao primeiro dia de aula. A lista do bimestre mostrava a programação de aulas, tendo aquele horário sido reservado para matemática.

— E ai, pessoal, quem vocês acham que vai ser a nova professora? — Vinícius indagou, puxando papo com os antigos amigos sentados ao seu redor.

— Alguém legal, eu espero — respondeu Thaís, sem ânimo algum.

Todo o resto do grupo concordou com a cabeça. O burburinho dos alunos continuou por alguns minutos, pois, assim como o grupo de Vinícius, outros alunos também se conheciam de outras escolas — o barulho cessou quando uma mulher alta, de expressões fortes e óculos arredondados entrou na sala.

Ela carregava diversos livros debaixo dos braços, todos sobre matemática aplicada para alunos do ensino médio. Alguns dos livros, no entanto, eram revistas da Avon.

— Mas… mas, não pode ser! — exclamou Erick, deixando seu estojo cair no chão.

— Ela não tinha ficado na outra escola? — Caio perguntou para si mesmo.

— Bom dia a todos, meu nome é Ana Clark — disse a mulher, antes de dar início a aula.

II

Os cinquenta minutos de aula passaram lentamente. Todos saíram da sala reclamando da professora que não explicava quase nada, ainda mais em uma matéria chata como matemática.

— Por que ela tinha que vir dar aula logo aqui? — Vinícius perguntou, dando um murro na parede externa da sala.

— Eu não sei… estou sem reação… só sei que ela veio! — Felipe respondeu.

— Ela deve ter visto que estavam nessa sala, não pode ser! — Caio teorizou.

— Calma gente, é só uma professora… Meu Deus, estão tratando como se fossem um demônio — Thaís tentou trazer lucidez ao grupo.

— Não é uma qualquer professora, Thaís. Você sabe muito bem quem é a Ana Clark! — gritou Erick, talvez um pouco mais alto do que deveria.

— Um terror de professora — Felipe completou, rindo de nervoso.

— Viu como ela continua não explicando a matéria, isso já no primeiro dia para mostrar ao que veio. Depois manda a gente resolver os exercícios sozinhos, sem consultar na internet.

— Ela pode ter mudado, não? Vocês têm muita pouca fé. — Thaís ajeitou a bolsa para falar, procurando seu celular.

— Ana Clark mudar? — Todos riram, enquanto Thaís observava a cena bizarra — É mais fácil o diabo voltar para o céu — ironizou Vinícius.

Eles agora lembravam dos tempos na antiga escola. A memória clara, como água, mostrava os primeiros momentos de Ana Clark como estagiária da professora titular de matemática, Laudicéia. Não demorou muito para Laudicéia ser afastada e Ana virar a única professora da matéria em toda escola.

Ana Clark era o cão em si, sadicamente gostando de passar seus exercícios diabólicos e sem ter explicado a matéria. Todos ali gostavam de pensar que ela era a pessoa mais louca que eles já tinham conhecido.

Uma mulher de muitos bordões, como: "Larga a mão de ser besta", "Porque você é trouxa" e "Está aqui para aprender ou para copiar?", ela conquistou os memes nos grupos de WhatsApp dos alunos.

Agora ela estava na nova escola, mas será que ainda era a mesma pessoa? Thaís parecia ser a única a achar que ela havia mudado… e estavam prestes a descobrir, pois, lá vinha Ana Clark se aproximando dos antigos alunos:

— Não é uma coincidência agradável? — disse.

Todos se viraram para ela com olhares assustados.

— Opa, professora! É uma baita sorte! — disse Caio, sem graça.

— Eu fiquei muito surpresa ao ver vocês. Bem, como são alunos antigos, já adianto que vai ter um trabalho sobre a hipotenusa para entregar dia dez, hein. — Ela riu ao falar, tendo que ajeitar os óculos com a mão vaga, já que a outra segurava uma garrafa d’água.

— Obrigado por nos avisar, não é mesmo pessoal? — disse Felipe. Todo o resto do grupo sorriu e disse que sim.

— Até amanhã, e depois também porque eu tenho aula com vocês todos os dias da semana. — Ela abriu um largo sorriso, mostrando os dentes brancos e brilhosos. Despediu-se dos alunos

Os cinco se entreolharam e repetiram, em uníssono, uma das frases dita por ela:

— Todos os dias da semana?

III

No final do dia, os cinco se despediram na porta do colégio. Felipe e Erick foram os primeiros a ir, pois pegavam outro caminho por causa do ônibus. Enquanto, Caio, Thaís e Vinícius iam a pé, conversando sobre o retorno de Ana Clark.

— Eu pensei que dessa vez nós íamos estar livres dela! — disse Vinícius.

— Quem sabe na próxima, não é? — concordou Caio.

— Poxa, gente… vamos ser paz e amor. Ela pode ter mudado, ela até nos adiantou que vai passar um trabalho. — apaziguou Thaís.

— É, um trabalho que ela passou ano passado e ano retrasado! — disse Vinícius.

— Bem... — Thaís tentou encontrar uma resposta rápida, mas não conseguiu.

— Só temos uma coisa que podemos fazer… — Caio sorriu.

— O quê?

Caio não respondeu.

— Fala logo, Caio! — implorou Thaís.

— Matá-la! — Caio soltou uma gargalhada maléfica.

— Você é muito louco... — disse Vinícius, caminhando na frente dos dois e indo em direção a sua casa.

IV

No dia seguinte, todos estavam arrumados para ir à escola, e os cinco torciam muito para Ana Clark faltar. Eles conversam no WhatsApp:

Thaís: Gente, estava no Facebook e encontrei um post dizendo que ela morreu...

Vinícius: Morreu? Como?

Thaís: Sim! Por duas facadas no rim e uma perto do coração!

Caio: Thaís, para de mentir! Está falando sério?

Thaís: Não estou brincando, está no Facebook. A família dela está de luto.

Felipe: Que loucura tudo isso...

Erick: Gente, ela morreu mesmo, está passando na televisão agora.

Vinícius correu para ligar a TV e ver as notícias do dia, quando uma das legendas do telejornal informa: "Professora morta a facadas durante a madrugada". Ana Clark havia sido morta, mas quem será que havia matado ela?