Escola de Etiquetas
1 Capítulo 1 - A Número 100
Notas iniciais
— Sara, devolve meu espartilho!
— Grear, solta... meu... colar!
— Helenaaaaaaa... esse livro é meeeeeeuuuuuu!!!
O barulho tomava conta da modesta casa das irmãs Hall. Eloise tentava se concentrar na ioga diária e Alyse rabiscava sem parar em seu pequeno bloquinho de anotações, mas até mesmo o canto dos pássaros era prejudicado pela gritaria que dominava a casa. O anúncio das escolhidas para o Programa de Etiquetas seria naquele dia no castelo, e as irmãs se alvoroçavam até mesmo com os mínimos detalhes.
Para piorar, Jenny estava ensaiando com sua clarineta no momento, e o barulho das vozes estridentes de três irmãs desesperadas misturado ao som agudo do instrumento tornava o local um verdadeiro inferno. Por isso, Eloise, perdendo a paciência, dirigiu-se ao quarto das mais velhas, com o rosto assumindo um tom de vermelho e as mãos fechadas em punhos.
—Chega! — gritou, para espanto de Sara, Grear e Helena, que se enganchavam de maneiras nada femininas para recuperar o que lhes pertencia. — Desde quando vocês querem se tornar princesas com comportamentos tão estúpidos? — indagou, retoricamente, ao que as irmãs baixaram o olhar, envergonhadas e finalmente se dando conta da futilidade de suas ações. — A hora que minha sessão de ioga acabar, quero ver este quarto organizado e vocês três em um consenso. — e ao terminar sua fala, retirou-se do aposento pisando duro.
O restante da sessão de ioga transcorreu sem complicações, e Eloise já retirava seu tapete quando Sara apareceu na sala, com um pente em uma mão e na outra segurando um nó angustiante no cabelo.
— Pode me ajudar com isso aqui? Você é a mais calma para esse tipo de coisa.
Com um sorriso de paciência, Eloise suspirou profundamente e indicou uma das poltronas para que Sara se sentasse. Tomou-lhe o pente da mão e começou a desembaraçar os fios com a familiaridade de quem fez isso a vida inteira.
— Você acha que uma de nós será escolhida? — Sara inesperadamente perguntou, tentando assumir um tom despreocupado e falhando miseravelmente.
— Eu não acho que uma de vocês será escolhida. — esperou que o silêncio se assentasse no cômodo. — Eu tenho certeza de que todas serão escolhidas. — e ao deixar as palavras no ar, terminou de pentear os cabelos dourados e encaracolados de Sara.
Antes que a irmã mais velha respondesse, porém, Eloise colocou o pente no colo de Sara e saiu do cômodo, deixando pelo caminho um cheiro suave de madeira.
Atravessou metade da casa até o quarto que dividia com Jenny e Alyse. As três camas eram dispostas lado a lado, o que ressaltava as diferenças entre as irmãs mais novas. Enquanto Eloise era organizada e arrumava sua cama baseada no modelo que aprendera com o Mestre Xi, Alyse dividia o móvel com incontáveis cadernos e canetas repletos de cálculos de química e nomes científicos, juntamente a desenhos detalhados com precisão impressionante. Jenny, por outro lado, deixava suas partituras espalhadas pela cama e seus instrumentos ora tirados das respectivas caixas e ora repousando pacientemente, esperando serem tocados. O sol batia em seu violino de uma maneira tão deslumbrante que por um momento Eloise quis que Jenny o tocasse.
Aproximando-se do armário único, Eloise tirou suas faixas e sua roupa de ioga, e de dentro do móvel separou um vestido relativamente longo, justo e estampado, com mangas de princesa e que acompanhava uma faixa estreita e delicada para cabelo. Vestiu-o rapidamente e passou um brilho nos lábios, apertando as bochechas no caminho até a sala.
Ali, todas as cinco irmãs já se encontravam paradas, esperando somente por Eloise. Sara, com seu jeito de querer sempre seduzir, usava um vestido excessivamente colado, que deixava seus seios mais à mostra, e sua boca adquirira um tom escalafobético de vermelho. Grear, mais básica, vestia um conjunto de saia com um lindo corpete, ambos em tons de azul pálido, e na boca aplicara apenas uma camada muito discreta de brilho. Helena, em suas roupas costumeiras, trajava um vestido que ia um pouco abaixo dos joelhos e de um tom tão forte que Eloise quase desviou o rosto. Não era nada anormal ver Helena com trajes em vermelho sangue e usando pulseiras que tilintavam ao simples andar, e, portanto, o tom roxo e descabido do batom aliado às roupas fazia de Helena a mais chamativa das irmãs. Alyse usava um vestido verde creme que deixava parcialmente os ombros de fora, e na boca não passara nada. Já Jenny, por ser sóbria como musicista, optara por usar um vestido curto, na altura dos joelhos, preto e salpicado com pequenos pontos brilhantes por todo o corpo, e a boca, rosa, dava um brilho extra ao conjunto.
— Estão todas lindas! — uma lágrima escorreu dos olhos enervantemente azuis de Eloise, no que todas as irmãs foram ao mesmo tempo abraçá-la.
— Oh, Eloise, não chore! — dizia uma.
— Por favor, maninha, hoje é dia de alegria. — confortava a outra.
E assim foram as seis irmãs, abraçadas e dividindo no coração um sentimento de esperança por tudo que ainda viria. Atravessaram a vila até o castelo e lá adentraram, sentindo um misto de ansiedade e medo do desconhecido, mas sabendo que juntas enfrentariam qualquer coisa.
O castelo estava em um clima eufórico. Pequenas bandeirolas enfeitavam o lustroso e alto teto, e os tronos reluziam, um ao lado do outro, no salão principal. Várias damas, de estilos e aparências variados, vestindo do mais simples ao mais suntuoso traje permaneciam prostradas e espalhadas por todo o aposento. O burburinho e os olhares curiosos preenchiam o ambiente e deixaram as irmãs Hall completamente aturdidas ante a perspectiva de ver a família real.
— Olhem, aquele não é o príncipe de Toujour? – Helena apontou, com um suspiro apaixonado, ao que suas irmãs, com exceção de Eloise, acompanharam, com os olhos brilhando de deslumbramento.
— E aquele outro se parece com o de Sir Patrick! – Sara quase gritou, enquanto puxava rapidamente seu leque e se abanava de forma obscena.
— Meninas! Comportem-se! – Eloise repreendeu, baixando a mão antes levantada de Grear, que apontava para um dos príncipes. – Como querem que eles as notem agindo dessa maneira?
Sob o olhar quase assassino de Eloise, as três irmãs (Sara, Grear e Helena) pararam com o comportamento exagerado, e se limitaram a simplesmente olhar para o salão, procurando, silenciosamente dessa vez, por futuros pretendentes.
O burburinho somente cessou quando as cornetas tocaram, anunciando que a família real de Florenza estava chegando. As pessoas se curvaram instantaneamente à primeira vista da realeza, e as Hall imitaram a todos.
A rainha era de uma beleza sublime. Os cabelos absurdamente loiros presos em um coque revelavam a correta postura e destacavam a singela coroa. Seus olhos em um tom cinza observavam e absorviam cada movimento das damas no salão, e suas mãos repousavam no dobra do cotovelo do rei. Este possuía uma elegância austera. Os cabelos perfeitamente alinhados não escondiam sua enorme e brilhante coroa. Os olhos eram de um preto selvagem quase intimidador, e o bigode, mesmo grande, estava muito bem arrumado, de modo que o rei atraía a atenção de uma parcela significativa das damas no recinto.
Diferentemente do pai, o príncipe, filho mais velho do casal, não era de uma aparência brusca e crua. Ele usava, sim, a coroa, embora menor se comparada às dos pais. Mas o rosto parecia entalhado, de tão ridiculamente perfeito. A boca exibia um sorriso reluzente e os lábios estavam coloridos de carmim suave. As bochechas estavam coradas e os olhos perturbadoramente azuis contrastavam com a roupa escura – para os padrões do evento.
A beleza altamente superficial do príncipe causou estranhamento por parte de Eloise, mas suas irmãs nem se abalaram com o fato, tanto que continuaram a admirar o mais velho dos filhos do casal real. Somente quando a corneta tocou mais uma vez foi que as três irmãs despertaram do torpor e se atentaram às palavras do ministro.
— Caras moças, — a voz grave e retumbante do homem roliço e sério correu por todo o salão – hoje vocês todas estão aqui para presenciar um dos eventos mais importantes da história de Florenza.
As palavras se assentaram pesadamente, deixando as moças presentes um uma expectativa quase palpável.
— Há mais de mil anos, ocorre nesta cidade um Programa de Etiquetas da Família Real. Ele tem como principal objetivo integrar as dez damas mais refinadas e inteligentes às famílias reais de todo o país. O programa foi criado pelos ancestrais da família real de Florenza em uma aliança permanente com outras nove famílias.
“Este ano, contudo, teremos pequenas alterações.” – isso causou um rebuliço que percorreu todo o salão e deixou os presentes mais do que afobados. – “Uma das regras antigas era a de que qualquer dama poderia participar do programa. Agora, devido aos acontecimentos na última versão, fica estipulado que somente mulheres com talentos exóticos poderão ingressar no Programa de Etiquetas”.
As últimas palavras do ministro foram como uma foice no coração das jovens com talentos comuns. Grear, especialista em cálculos, se pôs a chorar copiosamente no ombro de Alyse. Sara tentava convencer a si mesma que sedução era um talento raro, e que, portanto, ela poderia participar.
No salão, a mesma cena se repetia. Moças que acreditavam que seus talentos comuns pudessem levá-las longe em razão do esforço que dedicavam a eles debulhavam em lágrimas, e algumas emitiam gemidos sofridos de dor.
— Silêncio, damas! – a voz altiva do rei ressoou, calando a boca das mulheres que ainda se acabavam em lágrimas. – Prossiga, ministro.
— Além desta mudança, agora as moças e os príncipes poderão manter relações carnais quando tiverem vontade. No entanto, qualquer gravidez que possa vir a acontecer será imediatamente comunicada aos reis e a possibilidade de um casamento será anulada. – o ministro retirou um papel de um dos bolsos do casaco e começou a ler. – "Eu, príncipe Vittorio Alenzeti, declaro que qualquer dama poderá manter relações sexuais sem compromisso com minha pessoa, e digo estar disposto a assumir o filho, ainda que não me case com a mãe dos filhos que possa vir a ter fora do casamento. Ainda, ressalto que para haver relação carnal é estritamente necessário o consentimento de ambos. "
O anúncio, embora não tão surpreendente quanto o anterior levou várias garotas ao completo delírio. Eloise, porém, considerava tudo aquilo muito absurdo, porque de que adiantava ter o filho assumido, mas não se casar de fato com o príncipe? Claro que, aquelas "sortudas" por manterem tais relações, ganhariam regalias que outras não teriam direito, mas mesmo assim, ela pretendia casar-se por amor, e não por benefícios.
— Ainda, o decreto número 10.786, criado para a nova versão do Programa, diz que as dez felizardas serão agraciadas com tudo o que desejar, exceto com a coroa. Embora casadas, só se tornarão rainhas após a morte das mães de seus respectivos príncipes. — o ministro pigarreou para continuar. — E, por último, a partir de hoje, as cem moças participantes serão escolhidas através do histórico de observação de suas vidas, feito pelos reis de Florenza, os organizadores do evento.
— Como assim? — era o que grande parte das moças diziam entre si.
— Nós estivemos sendo vigiadas esse tempo todo? — Jenny questionou, entendendo as entrelinhas na fala do ministro.
— Isso quer dizer que — ele continuou após colocar novamente a ordem no salão — desde seus nascimentos, os reis estiveram observando cada passo e cada conquista de vocês, para que, quando chegasse este momento, soubessem escolher dentre as mais adequadas e talentosas.
Quando o ministro terminou de falar, uma linda mulher surgiu da porta que levava ao andar real. O cabelo era cortado de forma reta e ela parecia estar com um cabo de vassoura nas costas, pela postura ao andar. A mulher trajava um conjunto de tailleur azul escuro, e ela empurrou os óculos de meia lua com o indicador assim que se posicionou no centro do patamar mais alto que era na área dos tronos. Retirou um grande papel do bolso e iniciou a leitura:
— Nós, rei Francesco e rainha Angelina, em acordo com o príncipe Vittorio, estivemos juntando informações acerca de todas as moças residentes de Florenza, e, devido seus talentos, mesmo que exóticos, estipulamos que, as cem mais apropriadas a se casarem com os dez príncipes mais cotados do país, incluindo nosso filho, são... — e nisso, ela foi lendo todos os nomes das felizardas, que saltitavam ou choravam de alegria ao escutarem ser chamadas. Outras, tentando mostrar compostura, apenas acenavam com a cabeça, em um gesto de euforia contida.
Alyse, Helena e Jenny foram chamadas como número 56, 72, e 91, respectivamente, e abraçaram as irmãs antes de se juntarem às damas na área reservada às escolhidas.
Eloise se ocupava em observar o comportamento das que eram chamadas. Algumas empinavam o nariz enquanto se dirigiam ao local reservado, mostrando arrogância. Outras baixavam o olhar em um misto de submissão, vergonha e respeito. E tinham mulheres que, como Alyse, se limitavam a sorrir, docemente, olhando diretamente nos olhos do público.
Contudo, quando chegou ao número 100, a candidata escolhida caminhou lentamente ao reservado, surpresa. Achara ter escutado errado quando a mulher séria e rígida leu, no papel, com sua voz clara e inflexível:
—Candidata número 100: Eloise Hall.
Eloise e suas irmãs ainda não acreditavam. Se bem que, levando em conta o talento nada comum de Eloise, era para ao menos cogitarem a ideia dela ser uma das cem. Assim, quando todo o processo de anúncio das escolhidas terminou e a família real se retirou do salão, o burburinho foi tão intenso que foi de extrema dificuldade para Sara e Grear chegarem ao reservado.
—Não acredito! Vocês foram escolhidas! — exclamou Sara, abraçando coletivamente as três irmãs, enquanto Grear tagarelava sem parar:
— Ai meu Deus! Já imaginou se os príncipes se encantam por vocês três? Daí teremos princesas na família! Todo o pessoal da vila vai comentar e os duques vão correr atrás de Sara e de mim...
Eloise não ouviu mais nada depois de três. O fato de ter sido escolhida era enorme só de pensar. Agora ela teria de viver no castelo e ter aulas na Escola de Etiquetas para, quem sabe, conseguir um marido e dar o melhor futuro possível a suas irmãs. Mesmo ela não sendo a mais velha — na ordem de nascimento era Sara, Grear, Eloise, Helena, Jenny e Alyse — se sentia mais responsável por elas que Sara. Desde as coisas mais simples, como varrer o chão, até os eventos mais raros, como festas em sua casa, era Eloise que organizava e corria atrás de quaisquer preparativos. Portanto, enquanto estivesse fora, no Programa, não teria ninguém que pudesse ajudar as irmãs em suas necessidades.
E pensar nisso a deixava cabisbaixa.
Frustrada.
Temerosa.
Ela ainda tentava conciliar seus sentimentos quando outro burburinho, mais baixo dessa vez, preencheu o salão, fazendo com que as irmãs se desvencilhassem na tentativa de observar o que acontecia.
Outra mulher, baixinha, mais rechonchuda, usando uns óculos de grossa armação e com uma franja que lhe cobria toda a testa surgiu de outra porta na extremidade distante do salão. Ela tinha uma espécie de microfone enrolado em seu pescoço, e parecia falar sozinha. Somente quando ela pressionou um botão aparentemente escondido foi que as Hall perceberam que ela não era louca, e sim uma assessora, e logo conversava com alguém do outro lado da linha.
Ela se dirigiu ao reservado, onde as escolhidas sussurravam ou abraçavam seus parentes, felizes. Ali, ela assobiou e isso fez com que todas calassem a boca, esperando pelo que seria falado.
— Moças, eu sou a Cristal e vou auxiliá-las em qualquer necessidade durante o Programa. Sou a responsável por marcar reuniões, aulas, cronogramas e jantares sociais, e encaminharei todas vocês a seus respectivos quartos, os quais dividirão com outras cinco garotas, mas também as levarei para suas salas de aula, nos horários determinados. Podem se despedir de suas famílias e sigam-me, que todas as instruções serão fornecidas quando já estiverem na Escola de Etiquetas.
— Mas e nossos pertences? — questionou uma das escolhidas.
— Eles serão levados a seus quartos assim que a noite cair. Nós tomamos todo o cuidado com nossas escolhidas, e por isso qualquer item que seja usado para aprimorar seus talentos será levado na hora mais escura, para evitar saltimbancos e ladrões.
Assim que ela parou de falar, as seis irmãs Hall abraçaram-se, com lágrimas nos olhos e o coração apertado, fazendo promessas de sempre tentarem se comunicar. Sara e Grear, então, dando um beijo na bochecha de cada uma e andando na direção da saída, acenaram com a mão.
Quando o salão havia se esvaziado e só restara as cem escolhidas, Cristal as conduziu por um corredor longo e largo o suficiente para dez se enfileirarem. As moças não diziam nada, só observavam os retratos nas paredes e passavam as mãos nas cortinas felpudas.
Andaram calmamente até chegar em uma bifurcação no corredor. Cristal pegou a da direita, ao que as cem garotas a seguiram. Logo, depois de atravessar imensos corredores e pegar caminhos cada vez mais estreitos e escuros, Cristal e as moças se depararam com uma porta de prata, e nela um entalhe no formato de roda brilhava mesmo no escuro. Ao abri-la, vinte carruagens esperavam por elas, cada uma mais linda que a outra.
Cristal pegou uma carruagem e outras quatro garotas a seguiram. Eloise, Helena, Jenny e Alyse ocuparam uma das últimas, juntamente a outra garota, com um ar divertido e enormes olhos verdes.
— Oi, eu sou a Gwen, número 14. — a garota se apresentou, com uma voz musical.
Eloise respondeu pelas irmãs:
— Eu sou Eloise, número 100. Esta é Helena — falou apontando para a irmã, que permaneceu séria e pegou na mão de Gwen, provavelmente lendo suas linhas da vida e do amor -, número 72. Esta é Jenny — ela acenou um oizinho -, número 91. E esta é Alyse — a mais nova apertou a mão de Gwen -, número 56.
— Prazer! Estou muito empolgada para iniciar as aulas. — pelo brilho em seus olhos, ela realmente estava eufórica e extasiada em poder participar do Programa. — Quais são os talentos de vocês?
— Eu toco clarineta, harpa, violino e piano, mas também canto em tavernas. — Jenny foi a primeira a responder.
— Gosto de ver as pessoas. — Helena disse, misteriosamente.
— Como assim? Eu também vejo as pessoas! — Gwen exclamou, intrigada.
— Eu tenho o dom de ver as pessoas por dentro. Clarividência, minha cara!
— Aaahhh... — o olhar de Gwen dizia que ela já havia compreendido.
— Eu sei tudo sobre bichos. Sei desenhá-los, caracterizá-los e nomeá-los. — Alyse não disse nada mais, e Gwen não fez nenhuma pergunta.
Eloise falou seu talento:
— Eu luto, jiu-jitsu, kung fu, karatê e qualquer outra arte marcial que você possa chegar a conhecer.
— Ooohhh! Sério??? — Gwen cobriu a boca com as mãos, espantada.
— Sim. E você? — Eloise questionou.
— Ah, o meu talento?
— Sim!
— Eu desenvolvo dispositivos tecnológicos ultradimensionais, capazes de teletransportar coisas em um determinado espaço. — Gwen respondeu, tentando parecer modesta e corando sob os olhares maravilhados que lhe dirigiram.
Ninguém mais falou pelo restante do caminho. A carruagem atravessava a floresta, sacolejando suavemente. Eloise observava, contemplativamente, as árvores, o céu azul repleto de passarinhos e ficava atenta às reações das irmãs. Todas estavam tentando disfarçar, mas era perceptível a ansiedade e alegria pelo modo como Jenny batucava o pé ao ritmo de alguma música clássica e Alyse ficava desenhando na palma da mão. Helena, por outro lado, estava de olhos fechados, pensativa, e estralava os dedos enquanto o fazia. Gwen, com os olhos verdes ainda mais esbugalhados, respirava ofegante, com uma das mãos repousada no coração.
Eloise já parecia prestes a se entediar quando a carruagem parou, calmamente. Um cocheiro abriu a porta para que saíssem, e as cinco andaram até a entrada, onde todas as outras escolhidas já estavam esperando Cristal começar a falar.
— A partir de agora, vocês farão parte da Escola de Etiquetas de Florenza, e agirão como moças comportadas, no mínimo. Ao entrarem, não toquem em nada que esteja em cima da mesa de jantar. Terão guias espalhados por todo o castelo auxiliando-as a chegarem a seus quartos e a qualquer outro lugar que desejarem ir. As regras serão ditas hoje, no jantar, que será servido às sete. Não se atrasem. — ao dizer isso, Cristal empurrou a pesada e dourada porta, e as cem escolhidas adentraram no castelo que poderia mudar suas vidas para sempre.
Eloise, Helena, Jenny e Alyse foram acomodadas em um quarto próximo aos jardins, no andar de baixo. A quinta cama ainda estava vazia, o que indicava que a outra escolhida já havia descido para o tour ao castelo. Portanto, as Hall estavam atrasadas.
— Andem logo! — Eloise apressou. — Se vocês demorarem mais, iremos perder tudo!
— Espera, já estou indo. — o atraso, obviamente, era de Helena, que lia as cartas para ver o que o destino lhe reservara. — Pronto! — concluiu, após um breve momento de interpretação e contemplação.
As quatro andaram depressa pelo corredor e viraram à esquerda ao ouvirem as vozes das outras escolhidas. E, vendo que estavam distraídas ouvindo atentamente o que Cristal dizia, encostaram-se a uma das paredes mais distantes e tentaram fazer o mínimo de barulho possível.
— Aqui, meninas, é a Biblioteca para Moças. Somente as escolhidas e as damas podem utilizar o acervo daqui. — o espaço devia ser realmente enorme, porque as cem damas e Cristal couberam ali. — Como podem ver — falou, apontando para as prateleiras e abrindo caminho para as escolhidas observarem tudo um pouco melhor — contamos com mais de meio milhão de livros dos mais diversos, desde os guias de etiqueta até os grandes clássicos da literatura mundial.
"Além disso, a área reservada à leitura acomoda até vinte e cinco damas de cada vez, e, portanto, o acesso será limitado a, no máximo, duas horas para cada uma todos os dias, para que todas possam desfrutar do espaço. Estamos entendidas?" — terminou com uma pergunta, virando, seriamente, para as cem refinadas e talentosas mulheres prostradas a sua frente.
— Sim. — responderam, em uníssono.
— Sim, Cristal. — corrigiu, com ênfase.
— Sim, Cristal. — consertaram, quase entediadas.
— Muito bem! — bateu palmas, subitamente animada — Agora, quero mostrar a vocês uma das áreas mais incríveis de nossa escola. — o comentário deixou todas as presentes curiosas, um sentimento concreto que quase pode ser percebido no ar.
Cristal, então, tomou a frente, de cabeça erguida e um pequeno sorriso de canto de lábios. As Hall a seguiram imediatamente, tão intrigadas que nem perceberam que estavam à frente das outras.
Viraram mais uma série de corredores, passando por guardas armados que simplesmente acenavam com a cabeça. Algumas das escolhidas piscaram de forma obscena para eles, e desceram mais o corpete do vestido.
De repente, Cristal para diante de uma larga porta, decorada com variadas formas de expressão e arte: instrumentos musicais, comidas, animais, objetos para esporte, para costura, e tantas outras que Eloise não conseguiu discernir.
— Esta, é a Sala dos Talentos. — disse simplesmente, com voz musical, enquanto abria a porta.
O lugar era maravilhoso, deslumbrante, esplêndido, suntuoso e emocionante. Ali, haviam pequenas divisórias de vidro blindado. Em cada uma, instrumentos, materiais e bancadas específicos para cada área do conhecimento humano. O olhar de Eloise parou em um canto com colchonetes e inúmeros roupões e faixas coloridas, um espelho enorme e sacos de pancadas espalhados. Jenny viu, em uma salinha, tantos instrumentos musicais que não soube nomear a maioria. Clarinetas, violinos, violoncelos, pianos, órgãos, trombones, baterias, harpas, guitarras, violões, microfones e painéis com infinitos botões ocupavam o espaço. Em outra parte separada por divisórias, algumas mesas e cortinas decoravam misteriosamente a sala, de modo que Helena não conseguiu enxergar tudo que havia ali. E, para Alyse, seu espaço era aberto. Uma parte da Floresta Limity era distinguivel até onde a vista podia alcançar. Havia, ainda, largas e compridas bancadas de mármore com béckeres, tubos de ensaio, microscópios e frascos contendo partes de animais mortos. Um verdadeiro laboratório de biologia.
— Aqui, damas — Cristal falou, interrompendo os devaneios de todas as damas, que ansiavam por trabalhar naquele lugar -, vocês desenvolverão, após as aulas, projetos e pesquisas independentes, e aprimorarão seus talentos até o máximo. A Sala dos Talentos fica sempre aberta, e conta com dois turnos de supervisão. Temos salas para música, literatura, artes marciais, biologia, esportes, culinária, física, artes obscuras, moda, teatro, dança, artesanato, química, invenções e artes plásticas. Todas são de exclusividade de vocês e não podem ser substituídas. Isso quer dizer que, caso alguém tenha mais de um talento excepcional escondido, não pode fazer parte de duas salas enquanto estiver neste castelo. Estamos entendidas? — perguntou, olhando por cima de seus oclinhos.
— Siiiiim, Cristal. — responderam, animadas.
— Agora que o tour de vocês acabou, podem se dirigir aos seus quartos, arrumar as malas e descansarem. Às sete em ponto, quero todas no Salão de Jantar. — contudo, vendo que ninguém havia se mexido, ordenou mais firmemeente. — Vão logo! Vocês terão muito tempo para olharem tudo. — e, mesmo que resistentes de início, se moveram lentamente na direção da saída.
As Hall imediatamente pegaram outro caminho, para terem tempo de conversarem entre si.
— Vocês viram minha sala? — Alyse praticamente gritou, ansiosa.
— E a minha? — Jenny indagou.
— Não dava para ver a minha muito bem, mas meu espírito sentiu. As cartas me diziam algo muito promissor. — Helena acrescentou, de sua maneira misteriosa.
— Meninas, tudo isso é muito bom, mas lembrem-se que vocês estão aqui para aprimorarem seus talentos, e não para ficarem paparicando o castelo. — Eloise alertou.
— Ai Eloise, pare de ser tão chata e curte mais! — Alyse esganiçou, irritada.
— Eu não estou tentando acabar com a diversão, quero simplesmente que entendam o motivo de estarmos aqui. — Eloise esclareceu, calma.
— Tudo bem, Eloise. Nós entendemos. — disse Jenny, acalmando os ânimos levemente exaltados pela expectativa.
E, em silêncio, seguiram até o quarto. Agora, as cinco camas já estavam ocupadas. O recinto era bem organizado e claro, com um lustre muito grande e uma varanda da qual se podia chegar ao jardim. Em outra extremidade, havia uma porta estreita que abrigava a suíte com cinco banheiras de prata. Em frente à porta havia uma mesa redonda, polida e suficiente para cinco pessoas. Duas camas ficavam em paralelo ao maior lado do quarto, enquanto três se organizavam em fileira. Todas eram arrumadas com a mesma cor creme de lençol, cobertores rosados e travesseiros de mesma cor. E, ao pé de cada cama havia um baú relativamente grande, onde poderiam guardar seus pertences, que já estavam dispostos em cima das respectivas camas.
A porta do banheiro se abriu bruscamente, ao que saiu uma garota excepcionalmente linda. Os cabelos levemente cacheados e negros como piche caíam pelas costas eretas. A boca carnuda se abriu em surpresa genuína e os olhos muito escuros se arregalaram. Ela trajava um vestido acinturado com decote em V e em tons de azul variados. Quando falou, a voz extremamente doce ressoou pelo quarto.
— Oi, eu sou a Blair.
— Eloise.
— Helena. — e esta já puxava discretamente as cartas de seu bolso, verificando as pretensões da garota.
— Jenny.
— Alyse, muito prazer! — respondeu, animada.
— Parece que iremos dividir o quarto, né? — perguntou, retoricamente, enquanto tirava as coisas de sua mala, na cama mais próxima ao banheiro, e guardava no baú.
— É, parece. — Eloise constatou.
— Eu vou tirar um cochilo, tudo bem para vocês? — anunciou, já tirando os sapatos e deitando na cama, cobrindo quase completamente a cabeça.
— Claro. — responderam, em uníssono.
Logo em seguida, Blair já fungava suavemente, e as Hall tentaram arrumar suas coisas em silêncio absoluto. E, vendo que ainda eram duas horas, decidiram deitar e descansar um pouco. Desde que acordassem a tempo de irem ao jantar estava ótimo.
Quando Eloise acordou, às seis e meia, suas irmãs já estavam de pé, terminando de pentear os cabelos ou passando mais um pouco de batom. Então, ela foi rapidamente ao banheiro lustroso, lavou o rosto, escovou os dentes e penteou os cabelos, prendendo-os em uma trança perfeita. Quando voltou ao quarto, percebeu que em cima da linda mesa havia um vestido deslumbrante.
— De quem é? — perguntou alto.
— É para você. Quando acordamos, havia cinco vestidos em cima de cada cama, e como ficamos com medo de você derrubar ele ao acordar e acabar amassando, colocamos na mesa. — Jenny respondeu.
— É lindo! — exclamou, correndo para o banheiro e vestindo-o rapidamente, ao mesmo tempo em que tomava cuidado com a trança.
Ao voltar, todas as quatro garotas — incluindo Blair — já estavam prontas e brilhantes. Elas exclamaram, ofegantes, ao ver Eloise arrumada. O vestido era longo, simples e lindo. O decote era redondo e portanto admitia uma gargantilha que veio como acessório. As sandálias eram de salto baixo e douradas, combinando perfeitamente com o vestido em tons de amarelo e laranja claro. A cor ressaltou os olhos azuis de Eloise e abrilhantou seus cachos castanho-acobreados, presos na trança.
— Vamos! — disse, prática, já se dirigindo à porta.
Elas chegaram no Salão de Jantar faltando um minuto para as sete. Todas as outras moças estavam reunidas, lindas e se portando como verdadeiras damas. Cristal sentava em uma ponta e um mulher de feições orientais sentava relaxadamente na outra.
— Ah, por pouco, hein? Da próxima, se adiantem! — Cristal avisou, arqueando as sobrancelhas.
As seis se sentaram nos lugares restantes, e Eloise ficou entre Helena e Blair. Assim que se acomodaram, garçons surgiram de uma portinhola, depositando travessas, pratos e jarras em uma rapidez surpreendente. A comida, como esperado, estava deliciosa, e as cem damas comeram sem conversar, guardando suas perguntas para depois da refeição.
Quando terminaram, enfim, Cristal pigarreou, tomou um longo gole de vinho tinto e começou a falar:
— Boa noite, damas.
— Boa noite, Cristal. — como sempre, responderam em uníssono.
— Sejam bem vindas, oficialmente, à Escola de Etiquetas. — ela depositou um papel no espaço vazio onde antes estavam os pratos, e continuou falando baseada no que estava escrito ali. — Espero que tenham sido bem acomodadas em seus quartos e que possam desfrutar adequadamente da estadia aqui. Amanhã, as aulas começarão às sete e meia, e todas devem estar no Salão do Desjejum antes das sete. Seus cronogramas estão sendo entregues — enquanto falava, serviçais passavam entre as damas, entregando-lhes um calhamaço de papéis com cronogramas, mapas e instruções, tudo detalhado. — e estarão valendo a partir de amanhã.
"Neles, além de horários das aulas e nomes dos professores, há mapas de cada andar do castelo e instruções contendo regras de convivência e de horários, além de um capítulo especialmente com o perfil das cem candidatas, levando em conta suas preferências, hobbies, curiosidades e fotos. Através disso, poderão se manter atualizadas e terão a base para se conhecerem melhor."
"Também, temos outra pessoa responsável por auxiliá-las. Esta, é Martha Fong — à menção de seu nome, a delicada oriental meneou com a cabeça, calmamente. -, professora sênior da Academia para Damas, em Vicenza, e que irá ensinar a vocês informações básicas como: quais roupas colocar em um evento, como tratar autoridades de qualquer natureza, de que maneira podem conversar naturalmente com alguém mesmo não suportando tal pessoa, qual o melhor corte de cabelo para cada tipo de rosto, como escrever discursos e como saber qual príncipe é o mais adequado para você."
"Martha será como uma amiga para vocês, e devem tratá-la com cordialidade e naturalidade. No castelo temos, além disso, regras. Elas são importantes para o funcionamento de qualquer tipo de aula, evento e reunião. Portanto, precisam segui-las à risca. Eu irei ler algumas para vocês e, se houverem reclamações, façam agora, porque depois as regras serão afixadas em cada quarto para leitura mais atenta."
Levantando o óculos com o indicador, Cristal começou a leitura:
"1: Respeite qualquer pessoa dentro e fora do castelo; 2: Jamais saia na floresta depois do entardecer. Não queremos damas sujas, perdidas ou em perigo; 3: Vistam-se de acordo com a ocasião, evitando roupas escuras exceto para funerais e tons sóbrios apenas em eventos comuns; 4: Tratar os príncipes com humildade e nunca contestá-los; 5: As relações sexuais com qualquer príncipe devem ser relatadas à assessora real ou à assessora sênior; 6: Brigas dentro do castelo são terminantemente proibidas, e podem causar expulsão imediata do Programa; 7: Uma vez inscrita no Programa, não será permitida a desistência do mesmo; 8: As 'etiquetadas' podem se locomover por qualquer parte do castelo, mas não podem entrar em locais reservados após o anoitecer; 9: Jantares, reuniões, eventos e outros são frequentes e exigem alto grau de treinamento; 10: Faltar às aulas acarreta em advertências, limitações e, em casos mais extremos, expulsão do Programa."
"Essas são as regras básicas e é preciso que as sigam à risca. Alguma pergunta?"
Uma mão timidamente se ergueu. Uma garota ruiva, repleta de sardas por seu rosto e colo esperou que Cristal acenasse com a cabeça antes de, enfim, perguntar:
— O que quer dizer não contestar os príncipes?
— Significa, senhorita...
— Rayssa. — respondeu, prontamente.
— Senhorita Rayssa, isso quer dizer que todos os pedidos feitos pelos príncipes devem ser aceitos e imediatamente obedecidos, sem reclamações.
— Por mais absurdo que seja? — a voz elevou-se levemente, em um tom indignado.
— Príncipes não fazem pedidos absurdos, somente... diferentes. — sorriu, sarcástica.
Depois disso, as sobremesas igualmente deliciosas foram servidas, e todas as moças, cansadas, foram liberadas do jantar, e se dirigiram a seus quartos.
Eloise, já deitada, ouvia suas irmãs respirando profundamente. Antes de adormecer, ainda, imaginou, com ansiedade, o dia de amanhã. E, naquela noite, sonhou que Helena lera as cartas, e estas diziam que algo muito bom, e ao mesmo tempo assustador, estava prestes a acontecer.
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