Escarlate

1 escarlate


Há romantização demais nessa merda de primeiro amor. Romper as amarras do oceano do primeiro amor é duro e acho que nunca conseguirei enquanto não transpor você inteiro para meu pedacinho particular do cosmos.

Acredite em mim, queria transformar você de cinzas amargas em minha boca a poesia púrpura em minha alma, mas não consigo. Sou a porra de uma bastarda egoísta. Sabe, eu vivo para escrever. O pouco de sanidade que possuo se deve ao fato de que eu transformo o constante furacão que é a minha mente em palavras todos os dias.

Eu sou um ser humano em construção. Um ser humano que não ama fácil, mas que quando ama, se afoga. Eu estou nadando contra a correnteza, e parece que ainda não consegui sentir por completo a vida no oxigênio da superfície.

E agora que está tudo acabado e eu posso respirar de novo, quero quebrar a última corrente. Sempre que encaro a possibilidade de escrever sobre ti, meu coração dói. Acho que sou egoísta demais para dedicar um texto a um homem, ou talvez apenas não esteja pronta. Qual é, eu escrevi para mim mesma durante oito anos e nunca precisei falar de qualquer amor que fosse necessariamente meu. Eu estou tentando, te juro, porque quero que você seja uma lembrança boa. Quero sorrir ao pensar no longo período que passei me afogando em você, por mais que você nunca tenha se afogado em mim. Sou incapaz de sentir qualquer rancor de alguém que eu já tenha amado, por mais que eu tente disfarçar.

Você foi “meu primeiro” muita coisa. Mas toda vez que tento transformar você em poesia púrpura, eu releio e você instantaneamente retorna a virar cinzas. Então, me dou conta de que falhei e que de fato sou a porra de uma bastarda egoísta. Depois eu espero e, passado algum tempo, eu tento de novo. Já fiz isso inúmeras vezes.

Você é um ciclo vicioso — eu não teria sido a lua do seu planeta por dois anos se não fosse. Mas, ei, não pense que isso é uma grande lamentação de uma moça refletindo sobre tudo o que poderíamos ter vivido. Eu não me afogo mais, não em você, mas também há oxigênio nas profundezas do Oceano que é o amor, e é no oceano de amor de seja lá quem for que eu respiro melhor. Nenhum oxigênio se compara a essas profundezas.

Acontece que a superfície também é boa, porque também tem amor aqui. Amor próprio, coisa que infelizmente não havia em mim na época em que nos conhecemos. Passei um longo tempo trabalhando nisso, e é por isso que hoje eu tenho maturidade o suficiente para dizer que você é passado.

E eu não quero rancor desse passado, por isso ainda tenho essa última e fina corrente. A poesia púrpura é tudo o que me falta para que eu me liberte. Quando você virar poesia púrpura, eu estarei livre.

Esta noite eu tentei te transformar em poesia púrpura de novo e, tal como todas as outras vezes, falhei miseravelmente. Mas, no lugar do sucesso, aprendi uma coisa nova sobre você.

Você talvez não dê uma poesia púrpura, ao menos não agora, mas dá uma boa prosa.

Uma prosa verdadeira, sincera, escarlate.

Oxigênio da superfície, coração aberto para me afogar. De novo. No amor da próxima pessoa a entrar em minha vida.

Poesia púrpura,

prosa escarlate.

22/06/2016.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!