Escarlate
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Prólogo
-Cadê meu chá, inútil? — berrou com a classe de sempre Catarina Marie III. Ela bateu os dedos com nervosismo na cadeira que estava sentada, toda de ouro. As jóias prateadas que carregava no pulso emitiram um barulho irritante aos ouvidos dos outros, mas que para ela era como o som de sua música favorita, sempre a mantendo calma. Se é que isso é possível. — Cadê. Meu. Chá?
O servo que havia ido buscar o chá finalmente retornou, na maior velocidade possível, tentando equilibrar a xícara de porcelana na bandeja.
— Desculpe, Vossa Majestade, pela demora. A cozinheira...
— Calado. — Vossa Majestade o interrompeu. — Será que não pode simplesmente desaparecer, ou será preciso que eu ordene que lhe cortem a cabeça?
O servo tremeu de pavor.
— Não, V. Majestade. Perdão. — e logo ele tratou de correr dali (fingindo que estava apenas dando passos largos).
— Inútil — ela murmurou sozinha, sentada em sua cadeira de ouro, na enorme sala. Ela levou a xícara de chá até os lábios, e franziu a testa, evitando a todo custo cuspir no chão. Foi tomada pela ira. — Inútil!
O servo veio, novamente, em toda a velocidade, se esforçando para não cair de cara no chão liso.
— Sim, V. Majestade? — ele evitava as lágrimas que iam lhe brotando nos olhos.
— Inútil... Como ousa? — ela gritou, borbulhando com a fúria que lhe ia crescendo no peito.
- Desculpe Alteza. O que fiz de errado?
— O que fez de errado? Essa porcaria! – ela berrou, primeiramente apontando para o chá e depois enfurecida jogando-o no rosto do servo. Ele gemeu, e se contorceu com a temperatura do chá de camomila que lhe atingiu bem nos olhos.
-Ahh! – ele berrou de dor – Socorro! Ajude-me, minha Rainha! Por favor!
A mulher sentou-se novamente, e com um sorriso no rosto, pôs-se a observar a dor do “inútil”. Até que se sentiu entediada. Estalou os dedos e dois homens grandes e feios chegaram.
— Carreguem esse homem daqui e levem-no para o seu aposento. Não o ajudem. Deixe-o... Queimar.
Os homens entreolharam-se. Depois carregaram o homem. Estavam conformados e até acostumados com aquele tipo de acontecimento. Não era nenhuma novidade, muito menos desconforto para eles essas coisas. Estavam ali para cumprir ordens. Tiveram a chance e a honra de poder servir à Catarina Marie III. Não iriam desperdiçar aquilo apenas porque um homem estava tendo os olhos sendo queimados na frente deles. Não mesmo.
Deixaram o homem no quartinho sujo e minúsculo, onde passava as noites, sem conseguir dormir. Ele tinha um grave problema de insônia por causa dos gritos que cortavam a noite. Os berros das pessoas que imploravam para não terem sua cabeça arrancada, seus corpos queimados ou simplesmente seus dedos triturados.
Mas, que tipo de pessoa conseguiria dormir sabendo que pessoas estavam sendo mortas injustamente, apenas por prazer, para um bem não existente?
Apenas uma.
Catarina Marie III.
Obviamente, sendo que ela era quem ordenava as mortes e ela que se sentia bem para dormir com aqueles gritos que para ela eram como uma cantiga de ninar cantada pela mãe quando ainda se é nada além de um simples ser.
Os homens se retiraram do quarto, tristes por estarem fazendo aquilo, mas ao mesmo tempo satisfeitos e aliviados por estarem debaixo da asa da Rainha.
Eles tinham bastante sorte.
Eles não estavam lá fora juntos com todas as outras pessoas infelizes que provavelmente morreriam logo de fome, doenças, ou pela própria Rainha. Embora, eles ainda nem desconfiassem de que a última opção estava em vigor. Fome e doenças as coisas sempre esperadas. São coisas muito comuns, principalmente quando se vive em um lugar como aquele. A Rainha é alguém muito ruim. Nunca se espera ajuda de alguém como ela. E sim que ela corra atrás de você tentando te decapitar. Algo que provavelmente ela já fez inúmeras vezes e com prazer.
Ou seja, a última opção na verdade é um plano que está sendo executado meticulosamente e apenas a Rainha e algumas pessoas em que ela confia sabem disso. Os dois homens grandes e feios também sabem disso, embora Helena não confie neles. Pelo fato de que naquele local as informações vazem muito facilmente, eles ficaram sabendo que Helena está pretendendo algo grandioso, enorme e não tão difícil para alguém como ela. Algo como... Dominar o Mundo. O problema é que... O mundo já está praticamente dominado por ela. Ela tem tudo, ela manda em tudo. O que mais ela pode querer, o que mais ela pode ter? Isso ninguém sabe, apenas a Rainha. A única coisa que se sabe é que tudo está sendo detalhadamente orquestrado e no final as coisas não vão estar boas para ninguém.
Voltando à Catarina...
Ela continuava batendo os dedos na cadeira, pensando...
Sobre a dominação.
Não seria divertido se eu tivesse não apenas esses escravos, mas todos os possíveis? Ela pensava. Não seria interessante se... Talvez, de alguma maneira, eu pudesse fazê-los? Como... Robôs? Isso. Como robôs. Exatamente.
Não queria apenas inúteis para lhe servir uma xícara de chá, lixar as unhas dos pés, fazer comidas grandiosas. Sendo que quase todas as tarefas eram mal-feitas. Como o chá que acabou parando dentro da íris do homem. Você acha que aquilo teria acontecido se quem preparou o chá o tivesse feito de maneira correta, com cuidados, colocando a dose exata de açúcar e esquentando a água na temperatura ideal?
Não.
E se tivesse robôs, lhe seriam muito mais úteis. Por não terem emoções, não iriam começar a chorar a todo o momento com medo do que a Rainha poderia fazer. Não iriam fazer comidas péssimas como as que eram feitas aqui. Não iriam reclamar do trabalho por trás da Rainha que por fim não iria precisar decapitar nenhum robô o que a deixaria muito mais tranqüila e relaxada.
Ela mordeu com força os lábios, enquanto sorria friamente.
Não era uma má idéia. Só precisava saber quem a poderia ajudar com aquilo e quanto tempo demoraria.
Levantou-se da cadeira e foi em direção a uma de suas salas gigantescas, onde ficava um computador de última geração. Digitou algumas frases, e imprimiu 200 cópias em um papel gigantesco. Enquanto a máquina imprimia os papéis, ela chamou alguém de sua confiança, mas que pretendia logo eliminar. Outro inútil.
O rapaz que tinha apenas 18 anos chegou apressado. Ele parecia bastante nervoso.
— Sim, Majestade. Em que a Vossa Senhoria me dar a honra em servi-la?
— Alfred... Por favor. Quando essas cópias terminarem, por favor, espalhe-as pelas as minhas principais cidades, em seus principais pontos. Entendido? Quero isso para no máximo amanhã.
— Claro, Senhorita. – O menino disse, mas a voz dele mostrava insegurança em relação à tarefa lhe ordenada.
— E leve alguns, na verdade quantos você quiser, contigo para lhe ajudar. Quero isso pronto e logo! Não vou querer ter que decapitar alguma cabeça amanhã!
Sei. Com certeza você está é morrendo de vontade de cortar algumas cabeças e/ou outros membros pra fora.
— Sim, Vossa Alteza. – Disse ele se retirando da gigantesca sala. Quando já estava a certa distância, pôs-se a espiar o que estava escrito nos grandes folhetos. Estranhou o que leu.
Senhoras e senhores, prezados hóspedes do reino de Catarina Marie III. A própria Rainha faz um chamado especial, que poderá honrá-los e agraciá-los. Peço-lhes ajuda. Quem souber, tiver qualquer tipo de conhecimento sobre máquinas, e coisas relativas às estas, estará contribuindo. Traga seus conhecimentos para mim, que vou fazer bom uso deles. E é claro, vou recompensá-los, com o melhor prêmio existente: a vida. Aguardo vossa chegada ao meu castelo.
Catarina Marie III, Rainha da Vila do Sul.
O menino estremeceu ao ler o recado. Era óbvio que a Rainha estava planejando algo, e algo muito grande. Ela fazia mais o tipo “Você será recompensado tendo sua cabeça jogada dentro de uma lata de lixo qualquer” do que quem diria “Você será recompensado com a vida”. Ela só daria a honra e o prazer a alguém de viver se este fosse extremamente necessário.
Embora não quisesse e temesse o que havia por vir quando colocasse os cartazes, tratou de arranjar alguns homens e alguns veículos para cumprir logo as ordens da Rainha. Ela costuma ter o pavio curto. E explodir logo após.
Chamou 20 homens para lhe ajudar. Entregou a cada um 10 cópias que ainda estavam quentes. Colocou cinco homens em cada veículo e foi em um próprio em direção à Klaptoville, uma das principais cidades do Reino da Vila do Sul. O curioso é que todas as cidades que são propriedades da Rainha têm sempre um “ville” no meio. O que também é bastante estranho.
Chegando em Klaptoville, o menino tratou de ajudar os homens que estavam ali para colar seus papéis. Colaram em frente de supermercados, a maioria, já que bastante parte da população costumava visitá-lo frequentemente, pois a comida era controlada e você tinha de ir comprá-la todos os dias. Ordens idiotas da Rainha. Ela não se importava com a população, mas sim bastante com a quantidade de comida disponível para ela nas plantações. A população ficou indignada com suas ordens em relação à comida, mas nada fez, pois a temia mais que tudo. Todos a temiam. Seu reino era forte demais. Forte demais para ser combatido.
Rapidamente, terminaram de colar os cartazes e partiram para a próxima cidade, que ficava à 100 quilômetros dali. O pequeno mandou o motorista acelerar, já que esta cidade nem ficava tão distante em relação às outras e também porque não estava a fim de morrer. Pelo menos não pelas mãos da Rainha Catarina Marie III.
Continuou com o trabalho que era cansativo, mas que teria um belo prêmio. E continuar vivo é um belo prêmio para ele.
Notas finais
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Obrigada.
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