Escape

17 Restarting with you


Notas iniciais
Olá, pessoal! ♥ Esse capítulo devia ter saído na semana retrasada, pois já estava 80% pronto, porém, infelizmente alguns problemas me impediram de conseguir concluí-lo. Passei por uma semana bastante complicada e peço perdão não só pela demora, mas se também não ficou tão aceitável. Espero que curtam! ♥

Terminava de por a jaqueta quando viu Sinbad destravar a pistola que Ja’far havia deixado ali. Judal conseguia ver a tensão fazer o delegado empalidecer. Completamente tenso, seus dedos tremiam enquanto ele escondia a arma por baixo do terno.

— Fique calmo! Ja’far está armado também! — Judal relembrou na tentativa de tranquilizá-lo.

— Você não entende! — refutou Sinbad. — Barbarossa faz execuções. Ele não faz as coisas por si mesmo, aquele covarde! — ele explicava rangendo os dentes. — Ja’far não teria como se defender sozinho!

— Como foi com…

Cabisbaixo, o mais jovem mordeu o lábio inferior. Lembrava-se bem do que aquele homem era capaz.

As lágrimas caíam sem parar. Judal havia desistido de tentar contê-las. Era em vão.

Por mais que não fizesse um pio sequer, podia sentir os rastros cruzarem seu rosto.

Durante os quinze minutos que ficou ali, sentado, encarando aquela porta a sua frente, ele ponderava sobre quando despertaria daquele sonho. Ou melhor, daquele terrível pesadelo.

Não. Ele sabia que era real.

Mais do que ninguém ele sabia do que havia acontecido.

Enquanto Sinbad ainda se apresentava na recepção, Judal fora chamado para reconhecer o corpo, ou melhor, o que sobrara daquela moça.

Para Sinbad, tudo o que haviam contado era que Serendine tinha sido levada para o hospital. E com um largo sorriso em seu rosto, ele se perguntava, durante o trajeto, se seu filho, mesmo faltando pelo menos uns 3 meses, ia nascer. Mantendo-se em silêncio, Judal mal conseguiu encará-lo até seu destino.

— Judal!

Ele piscou quando viu o homem que vinha correndo como podia, mesmo tendo uma idade um pouco avançada. Os cabelos e a barbicha loira balançavam a cada passo que deu até o rapaz que ele conhecia bem.

O moreno se levantou para receber aquele que era mais que um grande amigo de Sinbad. Era seu padrinho de casamento e ex-professor na faculdade de Direito: Rashid Saluja.

— Onde ele está!? — ele tentava recuperar o fôlego, havia corrido bastante.

— Já tem mais de dez minutos que está lá dentro. — com uma expressão melancólica, Judal respondeu. — Espero que ele esteja bem...

Rashid suspirou balançando a cabeça. Não podia acreditar que havia acontecido tamanha tragédia com aquele rapaz que lhe era tão querido.

A porta se abriu para revelar um catatônico Sinbad. Os pés do delegado se arrastavam pelo chão, a mão trêmula apoiada ao batente de ferro. O rosto úmido e pálido confirmavam que ele já havia recebido a pior notícia.

Ao seu lado estava a moça que, outrora, levou Sinbad para aquela sala. A assistente social do hospital que era responsável por dar aquela notícia de uma forma mais sutil o acompanhava.

Sinbad!

Rashid correu até ele, um tanto quanto chocado com a expressão que ele carregava.

— O que aconteceu?! — o advogado se voltou àquela moça.

— Sinbad-san precisa descansar. — ela falava com serenidade. — Não foi fácil para ele saber o que aconteceu. Ele deseja ver sua esposa.

— Não! Por favor, não! — Judal deu um passo à frente. — Tudo menos isso!

Eu… preciso ver a Serendine… — Sinbad murmurava, as lágrimas caíam.

Quando se sentir melhor, Sinbad. — foi a vez de Rashid protestar. — Mal está conseguindo andar. Precisa se acalmar!

Vamos levá-lo para tomar um calmante. — a assistente social se manifestou. — Ele vai se sentir melhor.

Deviam ter feito isso antes de tudo! — o loiro tomou a frente, segurando o braço de seu aluno. — Não vêem que ele está em choque?

Não… — Sinbad insistiu. — Ninguém vai… me dar nada… A Serendine… Minha Serendine… — ele chorava apoiado nos braços daquele homem que lhe era como um pai.

Sinto muito, mas a essa hora estão conduzindo o corpo para a autópsia. — a assistente social se apiedou. — Não vai...

Mesmo distante, ele pôde ouvir o atrito daquelas rodinhas no chão.

Uma maca era conduzida por dois funcionários do hospital. Não havia dúvidas, ele sentia: era ela.

Sinbad não saberia dizer de onde tirou forças para se afastar de Rashid unicamente para interromper o trajeto daqueles que atravessavam o corredor.

Não houve qualquer hesitação quando puxou aquele lençol que não era mais tão branco, manchado de vermelho por toda sua extensão, para descobrir o corpo que havia ali. E o mundo de Sinbad pareceu simplesmente parar ao ver o rosto de sua esposa, tão belo, perfurado por dois tiros. Um entre os olhos e outro próximo aos lábios.

Sangue. Estava suja de sangue por todas as partes.

Os fios róseos estavam tingidos com o vívido escarlate que ainda escapava daquelas perfurações que seguiam por todo seu corpo. Sete tiros que garantiram a morte de Serendine.

O pouco de cor que havia em seu rosto foi completamente drenado.

Seus lábios se abriram e, balbuciando coisas ininteligíveis, ele tentava clamar por sua mulher. As mãos que tremiam freneticamente tocando, receosas, o rosto ferido. As pontas dos dedos deslizando pelas mechas rosadas endurecidas pelo sangue seco que ia se dissolvendo com as lágrimas que caíam sobre, uma a uma.

O desespero não pertencia apenas a Sinbad. Rashid e Judal estavam chocados da mesma forma. Foi quando o loiro percebeu que era absurdo demais continuar assistindo àquela tortura e puxou Sinbad pelo ombro.

— Já chega!

— ME SOLTA! — Sinbad vociferou. — EU QUERO A SERENDINE! E MEU FILHO! ESSA NÃO É A SERENDINE! — com convicção ele balançava a cabeça negativamente. — NÃO É! TRAGAM, MINHA ESPOSA E MEU FILHO! ELA VAI TER UM FILHO MEU, SABIA?! — ele tentava sorrir em meio às lágrimas para aquela desconhecida. — Nós… Nós vamos ser felizes, ela disse! Eu… Eu disse a ela que as coisas iam melhorar, eu… eu prometi...

A voz falhou e aquele sorriso tão incerto esmaeceu.

Sinbad abraçou, com todo seu amor, aquele corpo sem vida. Apoiando-a em seu peito e afagando os cabelos que tanto amava, mas sentia como se ela não passasse de uma boneca, amolecida, contra si.

Ninguém teve coragem de separá-los vendo o quão difícil estava sendo para o delegado.

Ele chorou o máximo que pôde, entregue totalmente àquela dor inexorável.

Por que o destino havia sido tão cruel com eles? — Judal se questionava enquanto assistia àquele triste fim. E por mais que amasse tanto Serendine, que a considerasse quase uma mãe, jamais poderia imaginar o que Sinbad estava sentindo. Eram mais que marido e mulher, eram um casal completamente apaixonado, melhores amigos e cúmplices.

— Então está aqui.

A chegada inesperada do superintendente da polícia, Takeruhiko Yamato, surpreendeu a todos, menos Sinbad que, sem ao menos perceber a presença de outrem, permaneceu a abraçar sua amada, sentindo aquele resquício de calor — ou a negação não o permitia sentir a frieza daquele cadáver? — que terminava de deixar seu corpo.

Mas Yamato não estava só. A equipe que Sinbad costumava coordenar estava presente e, apesar de terem armas em punho, suas expressões demonstravam o quão insatisfeitos e entristecidos estavam, ainda mais ao encontrarem seu chefe naquela situação.

— Revistem logo, rápido!

Seguindo a orientação de seu superior, o homem bastante alto e forte, de repicados cabelos ruivos, se aproximou de Sinbad. Contorceu o lábio em desagrado ao ter de se mostrar tão insensível.

— Me perdoe, Sin-sama.

Foi tudo o que disse antes de afastá-lo do corpo de sua esposa. E tão mais forte como era, Masrur não oferecia nenhuma possibilidade de o delegado resistir. Ele apenas urrou ao ser afastado de Serendine. Ao ver aquilo, Hinahoho, um dos policiais que apontavam a arma ao seu superior, desviou o olhar, evitando testemunhar aquela terrível cena.

Enquanto Masrur o segurava, o oficial de pele bronzeada se aproximou para apalpar, dos pés à cabeça, o delegado. Retirou, então, as duas pistolas do coldre de Sinbad e as levou para a parceira, Yamuraiha. As mãos enluvadas depositaram as pistolas em um saco plástico que foi, imediatamente, lacrado. E apesar de executarem seu trabalho com excelência, ambos não escondiam o pesar que sentiam.

— O que significa isso?! — Rashid cerrou os punhos.

Foi quando Masrur segurou firme os pulsos do choroso Sinbad, puxando-os para trás.

— O quê?! — o moreno arregalou os olhos sem nada entender.

Ele rapidamente foi algemado pelo próprio Yamato, que suspirou ao cruzar os braços.

— Sinbad, você está preso acusado de assassinato.

— QUÊ?! — Judal piscou. — Como assim?!

— Ele é o principal suspeito da morte da inspetora Serendine. — a assistente do superintente, Nanaumi, explicou.

— Estão loucos?! — o moreno praticamente cuspiu. — Não vêem o estado dele?! Acham que ele mataria a mulher?!

Estamos apenas cumprindo ordens. — Yamato encarou os olhos dourados.

Me… me devolvam a Serendine… Eu não fiz nada… — a voz trêmula de Sinbad se perdia. — Nunca… nunca faria…

— Como advogado do Sinbad, eu exijo que o soltem imediatamente! — um furioso Rashid estufou o peito para se dirigir ao superintendente. — Onde estão as provas para essa prisão?! Fora que ele tem direito de se despedir da esposa, é um momento delicado! Posso processá-los!

— Apenas se ele não fosse o assassino da mesma. — o homem de repicados cabelos escuros o encarou. — Sinbad encomendou o assassinato por ciúmes.

— É MENTIRA! — Judal refutou. — Sinbad amava Serendine de todas as formas…

— Por que está fazendo isso comigo?! — num sussurro Sinbad questionou Yamato.

— São ordens, Sinbad. Está preso.

— JUDAL?! OE!

Ouviu ao longe aquela voz chamar e lhe trazer de volta à realidade.

Vendo-se de volta àquele apartamento, o moreno encontrou um preocupado Sinbad.

— Hm? — ele piscou os olhos vermelhos.

— Ficou parado do nada! Sente-se bem?

Ele assentiu, ainda parecendo um tanto quanto aturdido. Aquele fatídico dia estava tão nítido em sua memória que às vezes se sentia preso nele.

— Então vamos!

Sinbad se aproximou da porta, mas assim que o fez ela se abriu, revelando Ja’far. O inspetor foi surpreendido, subitamente, por um forte abraço. O que estava acontecendo?

— S-Sin?!

— Graças a Deus você está bem! — exclamou o delegado, depositando um beijo no topo dos fios esbranquiçados. — Estava tão preocupado!

— Por que, Sin?! — Ja’far riu ao se afastar um pouco para encará-lo. — Esqueceu que tenho porte de armas? — ele perguntou, divertido.

— Tsc, não brinque assim! — e voltou a abraçá-lo firmemente. — Quero que tenha muito cuidado a partir de hoje!

Ja’far nada entendia, mas com a cabeça lateralmente apoiada no peitoral do mais alto, ele podia ouvir o coração acelerado do moreno. As mãos que o abraçavam tremiam.

— O que aconteceu? — o psicólogo se afastou, encarando-o.

— Ja’far, Barbarossa voltou. — explicou um aflito Sinbad.

— Barbarossa?! — Ja’far exclamou. E apesar de não conhecer pessoalmente aquele homem, sabia que ele era o motivo de toda a tragédia que acontecera na vida de Sinbad. — Como sabe?! Ele…

— Ele me mandou uma foto sua. Estava o seguindo.

O alvo se assustou. Nem ao menos havia percebido que havia alguém atrás dele, o que era uma falha terrível sendo um policial.

— Se tivesse feito algo com você…

Sinbad não ousou terminar de falar, afastando-se para se sentar naquele largo sofá. Ele esfregou o rosto, nitidamente angustiado. Ja’far o seguiu.

— Sin, acalme-se. Eu teria me defendido. Você sabe que eu trein…

— Você nem ao menos percebeu que estava sendo seguido! — o moreno retrucou de uma forma bastante ríspida, que assustou até mesmo Judal, que assistia à discussão dos dois. — Ja’far, eu vou afastar você do cargo de inspetor!

— O quê?! — foi a vez do alvo elevar o tom de voz. — Está louco?!

— Não, só estou querendo protegê-lo e você é um mero psicólogo, não um…

— E você é só um advogado então! — retrucou um furioso Ja’far que cruzou os braços. — “Mero psicólogo”? — ele repetiu as palavras de Sinbad. — É assim que me vê?!

Os olhos de Judal dançavam de um lado para o outro, como se assistisse a uma partida de tênis, tentando acompanhar aquela discussão. Aquilo estava saindo do controle e precisava por um ponto final.

— Não me leve a mal, — Sinbad se levantou, talvez porque estava se sentindo inferiorizado agora. — mas você estudou para ficar atrás de uma mesa conversando com as pessoas e não...

Um disparo e o subsequente estilhaçar de mil pedaços de um jarro assustaram Sinbad e Judal, que viu o belo bibelô, minúsculo sobre o aparador ao lado da porta, ser estourado por uma única bala, certeira.

Nem sequer haviam percebido o momento em que Ja’far puxara a arma do coldre, destravou-a e atirou com precisão.

Mas Judal não estava nem um pouco preocupado com a discussão ou com o fato do inspetor estar armado, mas sim de ver aquele adorno, comprado em uma viagem que fizera à Índia, com Kougyoku, completamente despedaçado.

— Acha que qualquer psicólogo faz isso, Sinbad?! Eu realmente só sirvo pra ficar atrás de uma mesa conversando com os outros?! — retrucava Ja’far, os olhos esverdeados faiscando.

O delegado gelou dos pés à cabeça, ainda mais porque Ja’far estava fazendo questão de não chamá-lo pelo apelido usual e, sim, seu nome completo. Era sinal de que ele estava muito, mas muito irritado.

— JÁ CHEGA!!!!! — vociferou Judal. — Vão continuar essa briguinha de marido e mulher de vocês fora daqui!

Foi só então que Ja’far se tocou de que estava com a arma em punho. Corou imediatamente.

— M-me perdoe, Judal! Eu não queria…

— Você pode ficar, sardento, e só porque quero saber o que Hakuryuu falou! — ele cruzou os braços. — Sinbad pode ir embora!

O delegado apenas suspirou, recostando-se no sofá, ignorando o que Judal ordenava. De fato, ele ignorou tudo o que era dito por Ja’far e o rapaz ouvia atentamente. Estava completamente absorto naquela preocupação, o retorno de Barbarossa e a fotografia que ele usara especificamente para provocá-lo.

As habilidades de Ja’far eram incríveis, mas as de Serendine eram tanto quanto. E se o perdesse como acontecera com sua falecida esposa, certamente não suportaria.

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Com um largo sorriso estampado em seu rosto, Hakuryuu terminava de se vestir com a ajuda da enfermeira. Vendo seus objetos separados ao pé daquele leito, ele se preparava para, finalmente, deixar aquele hospital.

— Parece estar bastante feliz, Hakuryuu-san. — ela comentou, terminando de abotoar sua camisa, o curativo ainda cobrindo o ferimento recém-cicatrizado em seu peito.

— Sim! Pode deixar que termino de arrumar tudo!

— Não pode fazer nenhum esforço ainda! — relembrou. — Está recebendo alta para ficar em casa descansando.

— Mas posso fazer algo tão fácil quanto terminar de me vestir! — Hakuryuu protestava quando olhou o relógio sobre a cama. — O Alibaba-dono está atrasado! Disse que chegaria às dez...

— Seja paciente, Hakuryuu-san.

A moça sorria quando se agachou para calçá-lo, o que alarmou Hakuryuu. Ele corou completamente constrangido ao ver uma mulher ter de se prostar para colocar seus sapatos. Afoito, ele tentou impedi-la.

— Não se incomode, senhorita! Por favor!

— É meu trabalho, Hakuryuu-san. Não se preocu…

— Pode deixar que eu ajudo ele, enfermeira.

O coração de Hakuryuu falhou por um instante. Não podia acreditar que havia escutado aquela voz.

Foi quando girou a cabeça em direção à porta e encontrou ele. Vestindo uma camisa vermelha e uma calça larga preta, Judal se apoiava ao batente da porta quando seus olhos se encontraram. Fazia dias que não se viam e Hakuryuu jamais poderia imaginar que ele viria buscá-lo.

— J-Judal?! — as bochechas claras ganharam um tom avermelhado ainda mais forte.

— B-bem, acho que estou atrapalhando.

Levantando-se rapidamente, a enfermeira se curvou antes de deixá-los. Mas, para os dois, era como se estivessem apenas eles ali, naquele quarto, desde sempre.

Encaravam-se fixamente, receosos, como se temessem qualquer ação, qualquer palavra que pudesse voltar a afastá-los. E como Judal estava feliz meramente por estar ali, encarando Hakuryuu. Mais ainda ao vê-lo bem, o rosto já corado e saudável.

— P-Pensei que o Alibaba-dono vinha me buscar. — foi quando os olhos azuis desviaram dele.

— Não está satisfeito por eu ter vindo? — será que Hakuryuu preferia o loiro ali?

— Claro que estou! — ele voltou a sorrir. — Só pensei que… não queria me ver mais depois do que disse…

Judal podia ver os dedos de Hakuryuu se fechando sobre os joelhos, criando fendas no moletom escuro. Estava tenso.

Constatando aquilo, ele se aproximou daquela cama, adentrando a abertura entre as pernas do rapaz. Então tocou a maçã de seu rosto e o ergueu para encará-lo. A vermelhidão dominava o rosto de Hakuryuu.

— Você confia em mim?

Ele assentiu sem pensar duas vezes. As lágrimas acumulando no canto de seus olhos.

Como temeu perdê-lo! Como temeu voltar a ficar sozinho!

Quando as lágrimas começaram a cair, agarrou-se ao corpo de Judal e chorou com tudo o que pôde, abraçando-o firmemente.

Como havia sido doloroso ficar afastado dele! Como o amava!

— Shhh!

O mais alto tentou acalmá-lo — odiava vê-lo chorar (e como ele chorava!) — afagando os fios azulados antes de se afastar pouco, o suficiente para depositar um selinho em seus lábios.

Tão doce e sutil, era surpreendente ver que alguém como Judal poderia ser assim. Mas talvez fosse aquilo que cativasse tanto Hakuryuu, a possibilidade de descobrir novas e inimagináveis facetas daquele que tanto amava.

— Senti tanto sua falta! — entre soluços Hakuryuu ainda se agarrava às vestes dele.

— Sem choro, sem choro. — o mais alto dedilhou aquelas lágrimas. — Vim aqui para que ficasse feliz e não para que chorasse. — riu. — Chorão!

— P-pára! Não me chame assim! — ele rapidamente engoliu as lágrimas e Judal riu mais ainda.

Ele logo se agachou e calçou cada tênis em Hakuryuu. Ambos sorriam abertamente, como se estivessem dominados pela felicidade de estarem na companhia um do outro. Mais do que isso, parecia que estavam saindo dali para viverem uma nova vida.

Era estranho — Hakuryuu pensou — mas a ansiedade lhe trazia alegria e não angústia. Então, certamente, era algo bom.

— Bom, — Judal se levantou após amarrar os sapatos do mais baixo. — já está tudo arrumadinho aqui. Falta só colocar essas últimas coisas na bolsa, não?

— Sim! Eu posso terminar de colocar tudo.

Judal sabia que o rapaz não gostava de ficar ocioso, então apenas ficou a observar Hakuryuu depositando tudo naquela bolsa de viagem pequena, mas o suficiente para guardar as poucas roupas e livros que o distraíram naquela inesperada estadia no hospital.

Mas o sorriso satisfeito foi arrancado dos lábios do moreno quando viu aquela moça aparecer na porta. Vestindo um taiê rosa-claro, recatada, ela tinha os longos cabelos que eram da mesma cor dos de Hakuryuu bem soltos. De início Judal pensou ser Ren Gyokuen, mas havia uma sutil diferença entre ambas.

— Hakuryuu?

Os olhos azuis dele brilharam ao ver a irmã ali. Judal piscou, desentendido, apenas observando o que acontecia.

Aneue!!!

Então aquela era a irmã mais velha de Hakuryuu? — pergutnando-se a si mesmo, Judal cruzou os braços.

— Não acredito que veio!

— Claro que vim! Tenho que levar meu irmãozinho para casa, não?

O coração do moreno falhou uma batida. Não só o dele, mas também o de Hakuryuu. Um tanto quanto desconcertado, ele tentou cortar aquele assunto.

— J-Judal, — foi impossível não gaguejar. — esta é a minha irmã, Hakuei.

Mantendo-se sério, aliás, bem mais sério do que quando a moça havia adentrado o quarto, Judal observou Hakuei se aproximar e lhe estender a mão. Ela sorria com bastante simpatia.

— Muito prazer!

— O prazer é meu. — Judal se viu refletido naquele par tão idêntico ao de Hakuryuu.

— Obrigado por ter feito companhia ao meu irmão. Fico muito feliz que ele esteja fazendo bons amigos! Ficarei muito feliz se for nos visitar!

Desviando o olhar para encarar Hakuryuu, Judal parecia esperar uma resposta que confrontasse a certeza que aquela mulher tinha de que seu irmão voltaria à mansão dos Ren com ela. E Hakuryuu, por sua vez, sabia que precisava se manifestar. Ou se acovardaria novamente? Voltar àquela casa estava fora de questão, afinal, se ficara entre a vida e a morte, a culpa era justamente de sua família.

— A-Aneue… — ele começou.

— Diga, Hakuryuu! — sorridente, a moça se voltou ao caçula. — Está com fome? Que tal passarmos em um restaurante aqui perto? Judal-san, você é meu convidado!

— Na verdade… eu fiquei muito feliz que tenha vindo me buscar, aneue, mas… eu não vou voltar mais para aquela casa.

— Hm?!

A jovem mulher se surpreendeu com aquela afirmação. Para onde Hakuryuu iria, então?

— Não estou entendendo, Hakuryuu. Aquela é nossa casa, onde está nossa mãe e nossos primos.

Judal decidiu não se envolver, ao menos por ora. Hakuryuu precisava realmente mostrar de que lado estava. Mas, realmente, sua irmã não tinha a menor noção do que acontecia em sua casa? Seria ela tão ingênua assim? Enquanto mantinha os braços cruzados, ele apertava os cotovelos.

Aneue, o Judal veio me buscar. Eu vou ficar com ele agora!

— Continuo sem entender! Por que você vai morar com um amigo? Aquela casa também é sua!

Aneue, você não entende… — Hakuryuu respirou fundo. Não podia ser intimidado, então a encarou. Precisava ser franco, por mais que ela rejeitasse a verdade. — Eu não posso voltar àquela casa porque quem me…

— Porque nós estamos apaixonados!

Judal o interrompeu. Ele sabia que o melhor, naquele momento, era evitar conflito com aquela mulher. Porém, assim que ouviu aquilo, Hakuryuu foi tomado por uma vermelhidão sem par. Ainda mais quando o mais alto passou o braço por seus ombros, trazendo-o para bem perto.

Hakuei parecia em choque. Não conseguia dizer nada, apenas a observar a forma como seu irmão mais novo era abraçado por aquele rapaz. Hakuryuu tremia, o rosto tomado pelo rubor enquanto encarava o chão.

Não podia ser verdade! Jamais seu irmão poderia se envolver com outro homem, ela pensava. Era absurdo demais pensar naquela hipótese, afinal, haviam sido criados de uma maneira tão severa. Não. Seria um ultraje à lembrança de seus irmãos que confiaram nela para cuidar do caçula da família. Seu olho esquerdo, mas tentava demonstrar tranquilidade.

— Q-Que brincadeira é essa?!

— Não é brincadeira nenhuma, Hakuei-san. — Judal estufou o peito. — Hakuryuu e eu vamos viver juntos porque ele é meu namorado!

Notas finais
E nossos pombinhos finalmente estão juntos, mas... que maneira é essa de declarar o relacionamento? Aliás, o Hakuryuu ao menos sabe que é namorado do Judal? XD Futuramente voltaremos mais vezes ao passado de Sinbad/Serendine/Judal. E por mais impressionante que pareça, finalmente nosso casal está entrando nos eixos em pleno capítulo 20. E eu que planejava uma fic de 5... Estão gostando? Se sim, é o que importa! ♥ Lembrando que reviews - mesmo que eu esteja suuuuper atrasada pra responder - são sempre bem vindas e podem elogiar, criticar, dar sugestões! ♥ Um beijo e até o próximo capítulo!