PERTURBAÇÃO

O Homem na Estação

Quem visse o homem parado próximo aos guichês de compras das passagens pensaria que ele estava dormindo em pé. Sua compleição robusta e atraente indicava um alto grau de compenetração, mas por trás de seu chapéu Fedora de veludo preto os olhos estavam mais despertos que nunca.

Ele não estava sozinho. E quando digo isso não me refiro às centenas de pessoas amontoadas à espera do próximo trem. Crianças com seus brinquedos; mães de variados níveis sociais se revezavam para contar as fofocas mais quentes; pais fumando charutos importados e trajando casacos típicos dos filmes noir tão frequentemente lançados nos cinemas; mendigos espalhados com roupas tão sujas e rasgadas quanto os trapos de chão usados para tentar conter as goteiras que insistiam em aparecer mesmo no subsolo.

O homem não estava sozinho pois outra figura, tão encapuzada quanto ele, se mesclava com as sombras das passagens subterrâneas. De longe não era possível vislumbrar seu rosto ou seu contorno definido, mas pela maneira como parava e pelo tamanho avantajado da sombra era outro homem. Seu aspecto soturno e sorrateiro não atraiu atenção de mais ninguém, e foi por isso que nosso personagem soube imediatamente que era com ele que deveria falar.

Aproveitando a chegada do trem e a distração esbaforida da multidão ele se esgueirou por entre os canos grossos e enferrujados tomando cuidado com as poças de urina e outras substâncias inomináveis. Poderia ter dinheiro, mas era zeloso com cada uma de suas coisas e as botas de couro não eram diferentes.

O homem andou pelas passagens encardidas seguindo a outra figura. O local só não era mais escuro porque a cada cem metros uma pequena lamparina queimava com sua luz fosca e azul, banhando o chão e os ratos que por ali corriam.

O barulho do trem despertou sua atenção que por um momento vacilou, recordando o que o levara até ali.

A carta aparecera debaixo da porta em sua casa. Estava selada com um brasão de espadas cruzadas e grafada em uma caligrafia desenhada e cursiva. Dizia exatamente o seguinte:

Meu caro Sr. Galaway

Encontro-me sob constante pressão. Não posso explicar por esta carta pois o governo monitora tudo que entra e sai, mas requisito seus serviços.

Esteja na Grande Estação Central ao meio dia de amanhã. O senhor saberá quem sou assim que olhar.

Não leve ninguém e seja discreto.

Atenciosamente

H.

A carta o deixara intrigado, mas de modo algum receoso. Alguém que o tratasse com tal deferença não poderia ser inimigo, e Galaway desejava ter serviço há tanto tempo que sonhava com isso.

Era perdido nesses pensamentos cobiçosos que ele andou por mais de dez minutos até chegar em um espaço aberto, cercado de canos grossos que desembocavam em uma corredeira pútrida e sumiam na escuridão.

O outro homem parou com as costas viradas para Gallaway e fitou as paredes por um tempo absurdamente longo antes de começar a falar, a voz carregada de mistério e a rouquidão de um fumante compulsivo:

—Sr. Gallaway. Sinto-me extremamente honrado por ter sua presença aqui comigo.

—Por favor, sem delongas. O que quer de mim?

—Ora, por que a grosseria? – ele se virou de lado e a luz de uma claraboia incidiu sobre seu perfil anguloso. – Estou na condição de contratante. Gostaria de requisitar seus serviços.

—Há anos que eu não trabalho com a espionagem.

—Portanto essa é sua oportunidade de adentrar novamente no mundo perigoso e sorrateiro da espionagem. O que me diz? – ele concluiu, ficando frente a frente com Gallaway.

O homem não era o que se poderia chamar de belo. As maçãs do rosto caíam em rugas por cima da boca murcha. Seus bigodes quase desapareciam debaixo do nariz achatado e largo. Mas os olhos... duas fendas da cor do âmbar, que pareciam enxergar cada recôndito da alma de Gallaway e arrancar cada um de seus segredos... esses eram belos. Não da mesma forma que as curvas de uma mulher ou o sorriso sincero de uma criança. Mas como uma pantera. Ameaçadores, felinos, perigosos... duas facas perfurando o rosto da figura elegante e pragmática.

—O que eu receberia em troca?

—Ah! Então cogita a ideia? – um sorriso torto rasgou seu rosto.

—Ainda não disse se aceito ou não. Primeiro quero saber qual o pagamento e se vale a pena.

—Digamos que... a quantia a ser paga ultrapassa e muito qualquer quantia que já lhe pagaram na Scotland.

Gallaway fez as contas de cabeça. A Scotland Yard lhe pagara muito bem durante os vinte e três anos em que prestou serviços de espionagem e investigação. Se aquele homem lhe prometia um bom pagamento, Raymund Gallaway não poderia recusar. Necessitava tanto do dinheiro quanto de mulher.

—Tenho outras perguntas a fazer.

O homem revirou os olhos de pantera, mas não fez nenhuma objeção.

—Primeiramente, qual o seu nome? Ou pelo menos como posso chama-lo?

—Meu nome é tão secreto quanto as páginas perdidas da Bíblia. Prefiro que me chame de “Caçador”.

Um alerta vermelho piscou na mente de Raymund. Um homem cujo apelido seja “Caçador” não poderia ser de confiança, mas muitas coisas naquele serviço também não eram confiáveis. Se tinha uma coisa na qual Raymund era bom ela não se chamava fracasso.

—Muito bem. Caçador. De onde você veio e como conseguiu me contatar?

—De onde eu vim não importa ainda. Fiquei sabendo de seus serviços através das bocas de Londres. Essa cidade tem muitos fofoqueiros e não dorme nunca. É impossível morar aqui e não ficar sabendo de um ou outro mafioso ou espião. Londres é tão transparente e ao mesmo tempo tão oblíqua que engana qualquer desavisado. Se você não tomar cuidado acaba caindo no meio de uma rede de intrigas e assassinatos e nunca mais consegue sair. Como sou muito cauteloso e racional, sabia onde encontra-lo de tal forma que jamais precisaria pisar em um lugar ruim.

—Se antes eu não confiava no senhor agora confio menos ainda. Não o deixaria cuidando nem do meu jardim. Qualquer pessoa estrangeira que saiba andar por Londres como se fosse habitante local não pode ser digna da confiança nem de senhoras idosas.

—Desse jeito me ofende. Sr. Gallaway. Eu o chamei unicamente para contratar meus serviços, não ficar especulando sobre quem sou e qual meu objetivo principal em Londres.

—Eu sou um espião aposentado, Caçador. Só a minha insistência em conhece-lo melhor já deveria dar pistas de que trato meu trabalho com muito zelo, discrição e dedicação. Um espião precavido e desconfiado é um espião que nunca fracassa.

O Caçador ficou quieto. Quase foi possível ver as engrenagens girando no seu cérebro, buscando falhas na lógica de Raymund, mas como não as encontrou deixou a questão de lado e esperou que Gallaway fizesse mais perguntas.

Ele não se decepcionou.

—Ouso perguntar, ainda, se esse trabalho envolve assassinato, estupro, violência ou qualquer outro crime que venha a me causar transtornos com a polícia ou com a Igreja. Na Scotland eu procurava informações e pessoas, mas não com a intenção de leva-las para a morte ou para a tortura. Se eu aceitar o trabalho que ele seja limpo e para algum bem maior.

—Pode acreditar, meu caro Gallaway – o Caçador colocou a mão direita sobre o coração como uma forma de juramento e confiança – que não quero lhe trazer problemas nem machucar seriamente alguém. Se estou contratando seus serviços é para trazer paz e contentamento para minha alma perturbada.

Gallaway colocou as duas mãos nos bolsos do casaco bege, analisando a situação. Ele pesou o que era mais importante no momento. O dinheiro era necessário, mas sua segurança também era. Contudo, sempre fora um investigador de mão cheia, capacitado e competente em qualquer trabalho que lhe dessem. Não duvidou por um minuto sequer de seu talento... o que duvidava era das intenções do Caçador.

Se pensasse demais ia acabar recusando, e a tentação em aceitar era maior... mesmo se levasse em conta os perigos e consequências... se bem que caso um policial ou padre se intrometesse no trabalho ele poderia alegar necessidade extrema ou pressão psicológica e acabaria saindo com paz na consciência... mas sem o dinheiro...

—Eu aceito o trabalho.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
A história está quase concluída e preciso do retorno de vocês!
Desde já agradeço ♥