Chegou cansada de mais um dia terrível de trabalho, ou o que as pessoas costumam chamar de trabalho. Sempre se arrependera de não ter seguido o que queria, mas foi sufocada pelas necessidades.

Arremessou os sapatos para algum canto, jogou o casaco e a camisa no chão e se deitou no sofá, se acomodando ao redor da bagunça e da frustração.

Erza era uma mulher jovem, tinha seus vinte e cinco anos, mas suas feições tornaram-se apáticas com o tempo. Não tinha filhos, mas colecionava relacionamentos fracassados, era loira, a beleza que restava desde o último episódio de sua vida ainda servia para tirar alguns trocados de bêbados. Trabalhava numa lanchonete de beira de estrada e dera graças por ainda conseguir arranjar algo para sustentar seus erros passados, mas ainda assim não era algo que pudesse se sentir satisfeita.

Saiu de casa aos dezesseis, se meteu aos dezessete com um vadio, os dois furtavam pequenas lojas e com o dinheiro viajavam como se não houvesse o amanhã. Relacionou-se com ele até os dezoito. Numa discussão, embriagada pela raiva, o esfaqueou e fugiu. Com identidades falsas e morando em lugares interioranos, conseguiu ter uma nova chance, novamente desperdiçada.

Envolveu-se com Raphael, um cara com a ficha criminal maior do que se pode imaginar, e foi justamente pelo perigo que se sentiu atraída. Quase morre nas mãos do marginal, não poderia contrariá-lo. Na última discussão dos dois saiu com uma bala de raspão no braço e só fugiu porque havia feito amizade com Mariah, que a ajudou.

E aí estava ela, num lugar úmido e extremamente bagunçado que chamava de casa, dormindo num sofá que uma vizinha quase jogara no lixo, mas por muito Erza implorar, a mulher o deu.

Enquanto a jovem dormia, a luz da cozinha fizera um leve chiado e apagou. Erza em seu aprendizado com a vida descobriu que ter um sono leve é sinal de boa audição e qualquer sentido aprimorado é mais um passo para a sobrevivência.

Ela abriu os olhos azuis, a casa estava um breu, passou o pensamento em voltar a dormir novamente, quando a linha de raciocínio fora interrompida por passos. Os olhos arregalaram-se, as sobrancelhas estavam arqueadas e o seu corpo paralisado, não era algo comum de se ouvir em um lugar tão ermo e ela havia trancado muito bem a porta.

O coração começa a entregar o medo, a respiração começou a ficar mais densa e em meio aos pensamentos de possíveis coisas a se fazer o frio a envolve e um leve arrepio a faz levantar involuntariamente.

Erza correu para o quarto para pegar a lanterna, o quarto estava trancado por fora, correra para a cozinha, acabou caindo em uma mesinha de vidro e cortando-se com alguns cacos. Ela ouve risadas próximas, um riso másculo. Ela sentia o calor do medo e do perigo a abraçando. Continuou correndo para a cozinha, pegou um revolver taurus 82 oxidado num armário e ficou a espera de algo que a pudesse fazer reagir.

Alguém roubou a arma de suas mãos, foi empurrada para o chão. Sem defesa, Erza tentou correr, mas foi puxada pelos cabelos e numa chave de braço o ar que já lhe era rarefeito estava cada vez mais longe que chegar aos seus pulmões. Um sentimento de contentamento lhe consolava indicando-a que era realmente o fim tão esperado.

O alguém sussurrou em tom de zombaria em seu ouvido “Surpresa, meu amor! Sentiu saudade?”, ela novamente tentou reagir, mas o cano frio de sua arma agora estava em sua têmpora causando calafrios. A única coisa que poderia fazer era fechar os olhos e esperar e assim o fez.

Só se ouviu o disparo da arma. A poça de sangue escarlate adornava a cozinha e as pegadas do coturno do sujeito davam continuidade ao resto da história.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!