Errar É Humano, Eu Não Sou
4 Still Human
Notas iniciais
Maggie: Bom dia, flor do dia.
Chloe: Bom dia. Que horas são?
Maggie: Dez e quarenta e oito.
Abro os olhos e me deparo com uma mesinha de madeira sobre o meu colo com um prato de ovos mexidos com bacon, duas torradas, um copo de chocolate quente com marshmallows e duas rosquinhas. Há alguns dias adoeci e desde então, Maggie traz o café para mim.
Chloe: Café na cama de novo? Não estou reclamando, adoro a idéia, mas já estou me sentindo melhor.
Maggie: Paul disse que você precisa descansar.
Chloe: Eu estou dormindo desde ontem a tarde.
Ela ri.
Maggie: Coma tudo. Um “amigo” seu vem te visitar daqui a pouco.
Chloe: Um “amigo”?
Maggie: É. Eu não sabia que você tinha um “amigo”.
Chloe: Nem eu. Por que estamos usando aspas mesmo?
Maggie: Deixa pra lá. Eu te amo, querida.
Chloe: Também te amo, mãe.
Ela sorri e deixa o quarto fechando a porta em seguida.
Como tudo rapidamente, me levanto, visto uma legging preta, uma blusa de manga comprida e um sweater verde e azul, calço um sapato confortável azul, escovo os dentes, molho o cabelo, passo creme e penteio os cachos embaraçados.
– Flasback On -
Chloe: Mãe.
Maggie: Sim, querida.
Chloe: Por que o meu cabelo é tão embaraçado?
Maggie: Por que os cachinhos são carinhosos como você. Eles adoram se abraçar.
Ela segura mais uma mecha e a penteia.
Eu rio.
Chloe: Eu gosto de abraços.
Maggie: Não disse?
– Flashback Off -
Sorrio com a lembrança e deixo a escova em cima da pia do banheiro. Volto ao meu quarto e me deito novamente na cama.
***
Ouço batidas na porta.
Chloe: Pode entrar.
A porta se abre e Dylan entra.
Chloe: Oi, Dylan.
Dylan: Você não parece muito contente em me ver... Esperava outra pessoa?
Chloe: Não! Eu só... Fico meio mal humorada de manhã.
Dylan: Ahh.
Ele se senta aos pés da cama.
Dylan: Como você está?
Chloe: Ontem eu estava pior. Acho que sobrevivo.
Ele ri.
Dylan: Senso de humor intacto... É, você sobrevive.
Nós rimos.
Dylan: Achei que você ficava "meio mal humorada de manhã".
Chloe: Geralmente não tem um Dylan pra me animar de manhã.
Ele sorri.
Dylan: Então esse é o seu quarto...
Chloe: Não é assim que você imaginava?
Dylan: Mais ou menos... Caramba! Quantos livros!
Chloe: Eu gosto de ler...
Dylan: Estão em ordem alfabética?
Chloe: Sim.
Dylan: Foi você que organizou?
Chloe: Sim.
Dylan: Nossa! Que falta de coisa pra fazer. Quando eu estou entediado eu fico deitado ouvindo música e jogando videogame.
Eu rio.
Dylan: Você sempre faz algo produtivo? Nunca fica de bobeira?
Chloe: Bem... Eu assisto Netflix.
Dylan: Você precisa relaxar de vez em quando. Quando você voltar pra escola eu te dou uma ajuda. Por enquanto você tem que descansar. Ordens da dona Margareth.
Eu rio. Conversamos a tarde inteira, ele me conta o que eu perdi nesses dias, falamos sobre o aquecimento global, nossas bandas preferidas, filmes, séries e muitas outras coisas, parando para almoçar e agora vamos jantar.
Lavamos as mãos e descemos as escadas. Maggie e Paul já estão sentados à mesa, nos esperando.
Chloe: O que tem para o jantar? Estou faminta.
Maggie: Risoto de calabresa, seu preferido, querida.
Chloe: Oba, obrigada mãe.
Dylan puxa a cadeira para mim e eu me sento.
Chloe: Obrigada, Dylan.
Maggie: Não sabia que ainda existiam cavalheiros assim. Não é, Paul?
Ela da uma cotovelada em Paul e sorri. Dylan cora e Paul o encara secamente. Dylan engole em seco.
Dylan: Obrigado, Senhora Montgommery.
Maggie: Me chame de Maggie.
Ela sorri. Nós nos servimos e conversamos enquanto comemos.
Maggie: Quantos anos você tem, Dylan?
Dylan: Dezesseis.
Maggie: E vocês estudam na mesma sala?
Dylan: Sim, senh... quer dizer, Maggie.
Paul: Você tem irmãos, Dylan?
Dylan: Não senhor, mas eu sempre quis irmãos.
Maggie: Huh, e o que os seus pais fazem?
Dylan: Minha mãe é professora e o meu pai é dentista.
Paul: E você tem planos pro futuro?
Dylan: Na verdade... Eu ainda não me decidi.
Terminamos de comer, Paul toma uma xícara de café e Maggie, Dylan e eu tiramos a mesa e lavamos a louça.
Maggie: Você não precisava ajudar, Dylan.
Dylan: Que isso, a senh... Maggie já teve o trabalho de fazer a refeição.
Ela sorri.
Maggie: Obrigada, Dylan. Você é muito prestativo.
Seu telefone começa a tocar.
Dylan: Com licença.
Ele atende.
Dylan: Oi mãe.
Dylan: Eu sei.
Dylan: Aham.
Dylan: Tá bom, mãe.
Dylan: Tá. Tchau.
Ele desliga.
Dylan: Minha mãe está vindo me buscar.
Chloe: Já?
Dylan: Ela já está lá fora me esperando. Espero que você volte logo, Chloe... A escola fica chata sem você. Quer dizer, mais do que o normal.
Eu rio.
Dylan: Até logo senh... Maggie e senhor Montgommery, obrigada pelo jantar.
Maggie: Não foi nada, obrigada pela sua companhia. Chloe, seja educada e acompanhe ele até a porta.
Chloe: Sim, mãe.
Nós deixamos a sala de jantar, eu abro a porta e atravessamos o jardim em direção ao carro de sua mãe.
Chloe: Eu jurava que quando eu sentasse você puxaria a cadeira.
Ele ri.
Dylan: Sua mãe é legal, mas seu pai me dá medo.
Eu rio.
Chloe: Ah, e desculpe pelo interrogatório...
Dylan: Ah, tudo bem.
Chloe: Obrigada por ter vindo, eu me diverti.
Dylan: Eu também.
Dylan me dá um beijo no rosto.
Dylan: Até logo, Chloe.
Ouço-o dizer antes de fechar a porta. Sua mãe acena e eles vão embora.
Gostaria de ter mais amigos como o Dylan... Mas acho que isso comprometeria a minha discrição... Entro em casa, tranco a porta e subo para o meu quarto. Me sento na cama.
Ouço batidas na porta.
Chloe: Pode entrar.
Paul entra.
Paul: Se sente melhor?
Chloe: Sim, só um pouco de dor de cabeça.
Ele coloca a mão sobre a minha testa.
Paul: A febre já passou, que bom.
Chloe: Acha que eu posso ir para a escola amanhã?
Paul: Os sintomas apresentados são estáveis, nada além de incômodos...
Chloe: ... Então...?
Paul: Sim, amanhã você pode ir à escola.
Chloe: Obrigada, pai.
Paul: Mas beba bastante água e não se esqueça de levar agasalhos, ok?
Chloe: Ok, ok.
Ele me abraça.
Chloe: Pai?
Paul: Sim?
Chloe: durante esses dias eu senti uma coisa diferente...
Paul: Diferente? E o que seria?
Chloe: Não sei... Ausência, algo faltando, como uma peça perdida de um quebra-cabeça...
Paul: Saudades?
Chloe: Saudades... O que é isso?
Paul: Quando se sente a falta de alguém, quando se quer ver alguém que te faz feliz.
Chloe: Saudades. Estou com saudades.
Paul: Alguém da escola?
Chloe: Sim...
Paul: Então você vai matar essa saudade amanhã.
Chloe: É. Amanhã.
Ele se levanta, caminha até a porta e a fecha.
Chloe: Pai, espere.
Ele abre uma fresta e olha para mim.
Chloe: como é matar a saudade?
Paul: É bom... Libertador... Mas as palavras não são boas para explicar. Acho que você terá de esperar até amanhã para descobrir.
Chloe: Ah... Ok.
Ele sorri e fecha a porta.
Ando até a minha estante e pego um dicionário. Procuro a palavra “saudade”. Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas. Nostalgia.
Saudade é um sentimento perfeitamente comum. Eu sorrio. Um sentimento humano. Meu lado humano ainda vive.
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