Errar é Divino

10 9. Panelas, defuntos e duzentos ml de água


Notas iniciais
Sim, eu ressurgi das catacumbas tal qual Jesus após três dias - embora aqui tenham sido quase três anos. Não sou nenhum messias, daí a coisa foi mais precária mesmo ._. Enfim, boa leitura!

— É... meus parabéns – Paris se aproximou do corpo inerte de Benjamin sobre o piso, apoiando as mãozinhas nos quadris para o observar com mais propriedade. – Agora você matou ele.

O pobre humano jazia imóvel, todo torto, com uma vassoura sob a mão direita e a fatídica frigideira assassina jogada a alguns centímetros da sua cabeça. E bom, por enquanto vamos deixá-lo aí mesmo, porque, como já sabemos, tudo começa pelo começo: e para isso devemos voltar para algumas horas mais cedo, quando o contrato foi assinado, Elisabete e Loukás apertaram as mãos, e ele foi autorizado a se mudar.

Ironicamente, até que tinha sido um dia agradável até então. Com a desculpa de ir organizar as suas bagagens – afinal seria muito estranho um “viajante” andar por aí sem suas malas –, Loukás passara o fim de tarde passeando na orla ao lado do irmão, logo após este voltar de mais uma rodada de buscas infrutíferas nos confins dos Arquivos.

Quanto a Paris, chegou já reclamando que precisava de pelo menos um mapa para se localizar em meio àquele emaranhado de estantes e prateleiras que mais pareciam não ter um fim. Ter Rogério e Luciana o seguindo para todos os lados também não era lá o detalhe mais agradável do mundo; todos os dias ele tinha que lutar contra uma vontade quase irresistível de roubar um vidrinho de inseticida da dispensa de Elisabete, e todos os dias o casal de insetos agradecia de patinhas juntas ao deus das baratas pelo livramento.

O irmão, por sua vez, alheio aos desejos assassinos do mais velho, ouvia as reclamações dele sem realmente prestar tanta atenção assim. Na verdade, quase podia achar engraçado. Se Paris já achava aquela confusão familiar de corredores tão complicada, imagine só quando descobrisse sua primeira passagem secreta!

— Passagem secreta?! – O mais velho se espantara, enquanto o outro admirava algumas ecobags expostas num estande à beira do calçadão.

— Aham. Centenas delas. Aquele lugar é, sabe, milenar, e guarda muitos segredos que deuses e anjos queriam muito fazer desaparecer... mas que sempre tem algum fofoqueiro para registrar. – Loukás comentara com uma piscadela, examinando uma bolsa com a pintura de um cachorrinho com polegares para cima. Em letras gigantes e coloridas, os dizeres “Me sinto fAUtástico” se exibiam alegres sobre a pintura. – Uma vez encontrei uma atrás da prateleira de registros humanos do século nove. Foi assim que descobri que Zeus já foi banido de três panteões diferentes por “conduta inapropriada em eventos oficiais”.

— Zeus fez o quê?!

— Pois é, isso que dá flertar com mulher casada nas reuniões, é o que eu digo. Milagre ele ter sido aceito no velho Olimpo.

Paris aguardou, em respeitoso silêncio, o momento em que um raio divino desceria dos céus para reduzir o irmão a uma mera lembrança pedagógica.

Nada aconteceu.

O lugar onde tinham escolhido passear se revelava terrivelmente turístico, aliás. Os comerciantes, que não eram nada bobos, montavam suas barraquinhas repletas de balangandãs dos dois lados de uma rua ricamente iluminada por postes amarelos e luzinhas em fios. Mais à frente ainda haviam umas dezenas de pessoas que, aglomeradas em semicírculo, batiam palmas para um grupo local de capoeiristas se apresentando sob um canto que envolvia algo como trocar a mão pelos pés e os pés pelas mãos.

Fazia muito, muito tempo que Loukás não via tantos humanos juntos. Música de verdade, do tipo que não saía metalizada de uma máquina de fitas. O som dos berimbaus e a brisa salgada do oceano embalavam a noite que nascia, provocando os sentidos do anjinho a cada instante, chamando-o para o meio do povo – mas ele os ignorava num esforço heroico para permanecer indiferente e focado, como um bom anjo responsável em uma missão divina deveria ser.

Um saco.

— Ok, acho que dispenso saber sobre mais dessas fofocas dos deuses – Paris balançou a cabeça como se pudesse fazer aquela informação sumir. – Também não encontrei nenhuma passagem secreta, se quer saber.

— Tudo bem, eu também não devo ter encontrado nem metade delas ainda.

— Isso é... bem pior, na verdade.

— Aqui, brotinho – Loukás estendeu uma nota para a vendedora atrás do estande. Ela usava um bonito turbante estampado e o encarava como se ele tivesse sido recém liberto do hospital psiquiátrico mais próximo. – Vou ficar com essa sua bolsa fAUtástica aqui, tá bom?

— Você vai mesmo gastar dinheiro com isso? — Paris resmungou — Além de tudo, é o trocadilho mais ridículo que eu já vi.

— Ah, me deixa! – Loukás exclamou de repente. A moça pulou de susto. – Não é ridículo, viemos atrás de uma bolsa, e é essa aqui que eu vou levar. – Decidiu, franzindo o cenho para o irmão. Depois sorriu para a vendedora mais uma vez – desculpe, estou tendo um dilema com as vozes da minha cabeça. Elas são muito irritantes às vezes. Vou querer a bolsa sim.

A moça alargou o sorriso. Uma gota fina de suor escorria pelas suas costas enquanto ela entregava uma sacola lentamente, evitando movimentos bruscos.

Loukás se voltou então para a confusão de barraquinhas, souvenirs, luzes e música que se desenrolava ao seu redor, mais do que pronto para ir à casa de dona tia. Ele encheu a bolsa com alguns pergaminhos, uma túnica extra e várias quinquilharias turísticas super úteis que havia comprado, e cruzou as ruas e avenidas cada vez mais movimentadas ainda ouvindo o tagarelar descontente do irmão em seu ouvido.

— Volúpia me encontrou quando eu estava tentando descer para cá – contava ele, todo nervoso – ela me perguntou de você. Tive que mentir, fui obrigado a mentir. Você tem ideia do que é isso? Um ser puro e angelical como eu, contando mentiras soltas por aí que nem um... um... um humano! – Bufou, indignado – Fim dos tempos!

Sim, sobre isso, Volúpia fazia parte da Trindade do Conselho. Junto com seus trigêmeos Volúptas e Eros II, formava o conjunto seleto de filhos únicos da lendária união de Eros e Psiquê. Eles eram os chefes de todos os cupidos, os supervisores, os manda-chuva do pedaço quando o pai não estava presente para bancar esse papel – o que acontecia, bom... basicamente o tempo todo.

Acontece que o poderoso deus do amor preferia gastar seu precioso tempo em badaladas passagens pela Terra, festejando, galinhando, e fabricando novos irmãos híbridos para Loukás, Paris, e as outras centenas de filhos que colecionava por aí. Sorte que nem todos nasciam com os requisitos necessários para ser Cupido, ou então aquele lugar já estaria parecendo mais uma creche celestial superlotada do que um estabelecimento sério para cuidar das questões amorosas da humanidade. Não que conseguisse realmente parecer muito sério mesmo assim.

O que nos interessa, afinal, é que Paris tinha ficado nervoso com o encontro. Se retesara todo para não gaguejar. Sob o olhar analítico da irmã, renunciou temporariamente ao juramento de “não levantarás falso testemunho”, e levantou sim um testemunho bem falso para se safar:

— O Loukás? – Perguntou, mesmo sabendo que não precisava perguntar. – E-eu... eu o levei de volta aos Arquivos assim que terminamos a missão! Ele diz que quer entregar sua lista pessoalmente a Eros assim que a Revista começar. Sabe como é – sorriu amarelíssimo – mostrar serviço e tudo mais...

— Sei... – Volúptia respondera, tamborilando a ponta da caneta sobre sua prancheta. – Bom, Paris, eu vou acreditar só porque é você. Não consigo acompanhar missões extraoficiais aqui pelo sistema, mas se você disse que está concluída... então está concluída! – Ela abriu um sorrisão, fazendo um gesto de “urras” com o punho. – Uhu!

Paris conseguira sorrir, embora estivesse se peidando todo de nervoso. Sorte que a tal túnica que deixava livre o bumbum o possibilitaria culpar qualquer outro que estivesse passando por ali, caso fosse perguntado.

Deu uma leve espiada sobre a prancheta de Volúpia – coisa fina, alta tecnologia, a quantidade de flechas atiradas fazendo subir ou descer em tempo real os seus respectivos cupidos classificados em ranking – e percebeu que seu nome ainda permanecia lá, todo pomposo em primeiríssimo lugar da lista. Sentiu um quentinho orgulhoso no peito ao ver aquilo. Ele ainda era ele, o imbatível, o melhor artilheiro por mais um ano inteirinho! Ah, iria matar Eros de orgulho quando ele viesse mesmo dessa vez para os supervisionar no próximo natal.

— Se cuida, hein, maninho! – Volúptas, o terceiro gêmeo, se intrometeu ao surgir das catacumbas-dos-não-chamados-na-conversa. Paris não gostou do tamanho do seu sorriso ao completar – eu também estou no páreo dessa vez, sabia? E bem na sua cola.

Porcaria.

Você? – Paris esganiçou – Pensei que já estávamos perto de bater a meta do ano.

— Ah, é, mas você sabe: fim de ano, grandes festas, todo um clima especial no ar... humanos desesperados para salvar a vida amorosa aos quarenta e cinco do segundo tempo... é o cenário perfeito para alguns corações extras serem tocados, não acha?

Paris achava que era o cenário perfeito para sua mão voar na cara dele, mas não ia dizer isso.

O que importava era que Volúptas estava trabalhando como artilheiro. Mal sinal. Péssimo sinal.

O trabalho dele consistia em — como Loukás delicadamente dizia — ser um grandessíssimo chato de galocha. Ele era bom em pressionar, definir, cobrar e dobrar as metas, e adorava ver o desespero estampado entre as tão mordíveis bochechas rosadas dos seus irmãos. Se estava querendo entrar na jogada dessa vez, é porque algo estava sabendo – algo que nem ele nem seus gêmeos intocáveis iriam compartilhar com os demais, é claro.

O pior, porém, é que o filho da mãe era bom. Horrivelmente bom. Das vezes em que disputara com Paris, seu detestável combo Mira + Velocidade + Química Perfeita o tinha garantido o primeiro lugar em cinquenta por cento delas – o que era absolutamente inaceitável.

— É claro... – Foi tudo que o desafiado conseguiu responder entre os dentes trincados, se forçando a sorrir.

Afinal, Volúptas era um dos anciões. Paris jamais peitaria um ancião.

Sobrara para os pobres ouvidos de Loukás, portanto, ouvir a torrente furiosa de palavras que correram da garganta do mais velho.

— ... E ele está a apenas umas dezenas de casais atrás de mim! – Ralhava ele, as mãos se fechando em furiosos punhos adoráveis chacoalhando no ar – não posso deixar Volúptas me vencer dessa vez. Simplesmente não posso! Se ele está na artilharia é porque quer números, e se quer números, com certeza tem algo a ver com Eros. Eu aposto em como ele vai vir na Revista dessa vez. Só pode ser! É por isso que quer tanto me passar!

— Que tristeza – Loukás sorria admirando sua bolsa com estampa de cachorro.

— Tantos anos para o nosso pai aparecer! Tantas Revistas feitas por Eros II, que ele mesmo é que devia ter feito! Mas nããão... ele tinha que vir justo quando eu estou preso na Terra com o idiota do meu irmão sem juízo. Ele tinha que me ver fraquejar, é claro que tinha.

— Hum. Eu acho que você está um pouquinho maluco com isso.

Ele não tinha aprendido nada com o episódio do médico e a peruca.

— Eu? Maluco?! – Paris sentiu sua pálpebra tremer. Contou até três para se lembrar de respirar. – É claro que você não ia entender, nunca nem chegou perto de ganhar algo parecido.

— Você sabe que a gente não “ganha” nada de verdade com isso, não é?

— Ah, é? E você sabe que absolutamente nada me impede de dar um chute nessa sua bunda agora mesmo?

Pois agora ele estava sabendo. Calou a boca só para demonstrar.

Os irmãos pararam então diante da porta do apartamento de tia Betty. O tapetinho felpudo ainda os desejava boas-vindas sob o preto lustroso dos sapatos do cupido-humano ali parado, que, encarando a campainha, gastou um segundo ou dois contemplando a ironia daquilo. Ele nunca era bem-vindo em lugar nenhum.

Mas ah, quem se importa mesmo?

— Vai dar certo – murmurou então, esperançoso e feliz ao tocar a campainha.

— Estamos fritos.

— Calado.

— Calado você!

Tia Betty atendeu a porta segundos depois, um sorriso grande e luminoso colorindo seu rosto de orelha a orelha. Ela tentou puxar Loukás pelos ombros, e ele se envergou inteiro para alcançá-la em seus singelos um metro e cinquenta e pouco de altura. Seu prêmio por isso foram dois beijinhos estalados nas bochechas, e um sorrisinho meio surpreso brincando no rosto.

Aquela era a primeira vez que alguém parecia tão alegre em o ver. Bizarro.

— Venha, venha, meu querido! – Exclamava a velha enquanto o puxava pelo pulso – venha que eu já deixei tudo prontinho aqui para receber você!

Uma mesa farta de jantar estava posta na cozinha, com Emi já devidamente acomodada em uma das cadeiras de madeira clara. Ao vê-lo, ela se levantou e se apressou em lhe apertar a mão, não sem antes inclinar um pouco a cabeça em um velho hábito de cumprimento oriental.

— Seja oficialmente bem-vindo, Loukás! – Disse a moça. Seu sotaque fazia o nome do cupido soar mais ou menos como um “Luukás” muito fofo de se ouvir.

— Ahh, muito obrigado. Vocês são sempre tão gentis!

— Não sabia se você já tinha jantado, então eu fiz uma coisinha aqui para nós – a velhinha se explicou, apontando a refeição. – Fique à vontade para se juntar também.

— Ah, que é isso – ele sorrira, todo modesto enquanto ouvia o irmão o mandar recusar – eu vou aceitar sim!

Paris suspirou baixinho, se perguntando pela milionésima vez onde é que tinha errado em suas escolhas de vida até então.

A mesa ostentava uma bela lasanha, dourada, cheirosa, a fumaça bruxuleando com a graça de um dançar dos deuses. Os olhos de Loukás dobraram de tamanho ao olhar para ela. Ansioso, ele ocupou uma das duas cadeiras restantes e olhou brevemente para a outra vazia, curioso.

— Acho que meu sobrinho não vem comer conosco hoje – tia Betty leu seus pensamentos, sorrindo sem graça enquanto puxava uma cadeira para se sentar. – Ele ainda está meio adoentado, sabe? Pediu que o desculpasse.

— Ah, é claro – o loiro sorriu educadamente – desejo melhoras para ele.

E estava prestes a atacar a maravilhosa lasanha com o apetite de mil e um Garfields famintos, quando ouviu Emi cumprimentar:

— Hum, tia! Essa recheio de frango está cheirando tão bem!

Loukás estacou no mesmo lugar, garfo e faca com as pontas voltadas dramaticamente para o teto.

Frango?

Frango tipo... galinha?!

Daquelas que tem penas, cristas, asas, fazem cococó e tudo mais?!

Loukás observou a garota se deliciar com a primeira garfada, Elisabete a imitando em seguida. Elas mastigavam com prazer, saboreando a comida. Frango desfiado começava a se espalhar pelo prato, entre o macarrão, o queijo e o molho vermelho escarlate, como vísceras de um preparo mórbido que agora parecia um insulto ser tão convidativo.

O anjo sentiu o estômago revirar.  Aquela simples refeição havia mandado várias alminhas empenadas fazer cococó no céu das galinhas agora.

Quando Elisabete fez menção de lhe perguntar se havia algo de errado – o tanto que ele tinha ficado uns três tons mais branco de repente! – o cupido abriu um sorriso nervoso e afastou a cadeira da mesa alegando que tinha esquecido completamente que era alérgico a lasanhas. Pediu mil desculpas, depois um “com licença”, e conseguiu seu aval para escapulir para o quarto sem maiores perguntas.

— É claro, meu bem, eu imagino que esteja cansado – Elisabete dissera, com uma expressão de sincera empatia entre as rugas do rosto. – Vá se deitar. Depois, se bater alguma fome de madrugada, venha beliscar algo na cozinha se quiser.

E aqui está explicado, portanto, o que raios que Loukás estava fazendo na cozinha naquela fatídica madrugada daquele nosso primeiro começo. Ignorando os sermões de Paris, que voava sempre irritado ao seu lado, ele decidira que iria sim acatar a sugestão de sua anfitriã e comer alguma coisinha; algo, de preferência, com menos gosto de morte. Afinal, ele era humano agora, tinha estômago e intestinos supostamente funcionais que faria questão de ver funcionar.

Paris tentara o demover. Loukás insistira na ideia. Paris se colocara em seu caminho. Loukás agarrara uma panela. Paris a segurara pela outra ponta – e assim eles começaram a disputá-la, cada um a puxando para seu lado, numa discussão intensa e ridícula que parecia não ter mais fim.

Foi quando a luz do cômodo foi acesa, Benjamin pulou para dentro, Loukás gritou, ele gritou, Paris gritou, a panela escapou com um impulso das mãos do caçula, e alçou um voo certeiro e poético em direção a alguém que, pela primeira vez desde o início dessa história, não era para ser um alvo. O barulho de “Tain!” do encontro do metal com o crânio calou os três ao mesmo tempo.

E bom, é agora que voltamos de onde partimos, com o rapaz desfalecido no chão, Paris com as mãos na cintura, e Loukás se aproximando devagarzinho dos dois. A cozinha mergulhara em um silêncio atônito; ele se abaixou para pegar a frigideira arremessada e a abraçou firme contra o próprio corpo, o rosto alcançando agora um quarto tom de branco. Ainda não parecia ter sido capaz de absorver completamente a situação.

— E-eu...– arriscou indagar, todo trêmulo. – Eu matei...?!

Paris se afastou jogando os bracinhos para o alto.

— Como se já não tivéssemos problemas o suficiente!

— Papagaios, eu matei!

— E agora, o que é que a gente faz com esse moleque estirado aqui no chão?!

— AARGHH, por que esses humanos tinham que ser tão frágeis?! – O caçula enfim largou a frigideira e agarrou os próprios cabelos – Uma bomba eu até que entendo, mas uma panela?!

— Já sei – O mais velho correu para os pés do garoto – venha rápido, antes que o anjo da guarda apareça. Você pega por aí, eu pego por aqui, a gente joga ele pela escada e finge que foi um acidente!

Loukás o olhou como se o visse pela primeira vez na vida.

— O QUÊ?!

E foi aí que outro som começou a se destacar entre o piado dos passarinhos anunciando o raiar do dia: passos rápidos, fofos e leves como os de uma lebre se aproximavam de onde os irmãos estavam, estáticos e desesperados, olhando um para a cara do outro.

Os pequenos Bob Esponja no cérebro de Loukás começaram a atear fogo na sala de controle. O anjinho levou as mãos à cabeça.

— Ai, minha nossa senhora dos anjos sem sorte! – Exclamou ele aos sussurros, dando logo um chute no braço do humano. – Acorda!

— Você quer parar de bater nele?!

— Disse o cara que queria jogar o corpo pela escada!

— Eu ouvi gritos! – Elisabete Lago apareceu de repente na ponta do corredor, os olhinhos apertados por causa da falta dos óculos – quem tá aí?!

Os irmãos voltaram os olhos para ela, bem a tempo de ver sua pequena figura franzina toda enrolada num robe de seda cor de rosa, de touca de cetim nos cabelos, e uma máscara verde cobrindo a face. Nas mãos, a cabeça de um manequim preto era empunhada com a confiança de quem segura, no mínimo, uma AK-47 fortemente carregada.

— Lucas, é você? – Indagou ela, apertando os olhos. O cupido piscou, mudo de susto, tanto que nem pensou em corrigir o nome. – O que foi, meu filho? O que aconteceu?

— E-eu... ele... eu...

Só deu tempo de chutar a panela com o calcanhar para debaixo do fogão, pois bastou mais dois passos em direção à bancada para Elisabete enfim ver.

— Benjamin! – Gritou a mulher, largando a cabeça de manequim e correndo para se abaixar ao lado do sobrinho. Ela até tentou pegá-lo no colo, mas era um peso grande demais para os seus jovens bracinhos, então foi a sua vez de distribuir tapas em suas bochechas. – O que aconteceu?!

Paris meneou a cabeça. Loukás tentou pensar em como começaria seu discurso de pêsames. Mas aí o próprio defunto interrompeu todos os presentes, soltando um leve murmúrio de quem até que quer acordar, mas segue perdendo uma luta travada com a pacificidade da inconsciência.

Nosso anjinho desabou num suspiro de imediato alívio. Ele não tinha matado o humano, afinal; tinha apenas o nocauteado.

O que, pensando melhor, ainda continuava bem ruim.

— Eu vou chamar o Samu! – Tia Betty saiu correndo em direção ao telefone fixo.

Loukás olhou para Paris.

— Esse Samu é da família?

Paris o encarou em silêncio, com a famigerada pálpebra tremendo, e uma cara de quem não parecia nada a fim de responder. Sobrou ao mais novo então, apenas procurar em sua memória recheada de verbetes de enciclopédias médicas pela palavra “desmaio”, que tinha que estar ali. Depois de tanto tempo, até a sua mente parecia um pouco com os Arquivos: um grande emaranhado de estantes e gaveteiros, guardando velhas memórias de campo, curiosidades dos deuses, doenças, vírus e fungos, tudo com uma trilha sonora do ABBA tocando no fundo em algum lugar.

Ele olhou para o humano desmaiado no chão. Se perguntou o porquê daquela cena parecer tão familiar. E foi aí que lembrou: aquela história que tinha contado para o escrivão, na delegacia, sobre a velhinha estirada na sacristia após flagrar o padre e um fiel se agarrando aos pés de santo Antônio.

Loukás ainda esperava que pelo menos o santo casamenteiro estivesse um pouco orgulhoso daquele seu feito.

— Já sei! – Exclamou para Paris.

E saiu em uma busca frenética pela casa, sua memória o fazendo reviver os doces momentos em que rolava de rir assistindo aos frades tentarem reanimar a pobre idosa desacordada com uma técnica curiosa de álcool e algodão. Não demorou muito para encontrar um vidrinho modesto de álcool em gel, presentinho de uma época pós-pandêmica, o qual agarrou com força de cima da prateleira, e correu de volta para junto do mortal.

O loiro se ajoelhou ao lado dele; começou a erguê-lo pelo torso, todo sem jeito enquanto ouvia Elisabete falar aos berros com alguém no telefone.

— Ok, acorda – pediu baixinho, segurando o vidrinho destampado sob as narinas de Benjamin – acorda, acorda, acorda...!

— Tem certeza que isso está certo? – Paris perguntou.

Não estava.

— Está sim – respondeu o menor – eu vi fazerem uma vez.

— Checa o pulso dele! – Elisabete Lago ressurgiu de repente, agarrada ao telefone cujo status de fixo já tinha ido com Deus. Loukás ergueu os olhos para ela – não, quer dizer, ele tá respirando? Bateu a cabeça? – Corrigiu. E pelo visto ainda não estava acertando no tal procedimento, porque logo assumiu uma expressão irritada e se virou novamente em direção à varanda. – Minha querida, eu não quero perguntas. Eu quero socorro! Qual parte de “o meu sobrinho está morrendo” você não entendeu?!

Bateu o telefone de volta no gancho e caminhou decidida em direção aos armários da cozinha. Danem-se os primeiros socorros, iria apostar na boa e velha reanimação tradicional.

— Acorda, vamos, por favor...! – Loukás, porém, insistia.

E foi assim que, atordoado, dolorido, e com estrelinhas piscando em sua visão periférica, Benjamin enfim começou a abrir os olhos debilmente, piscando repetidas vezes, dando um impulso brusco para trás a fim de se livrar daquele cheiro insuportável de álcool. Sua cabeça girava, o mundo não fazia o menor sentido. Tentou perguntar o que estava acontecendo, que gritaria era aquela e se alguém tinha anotado a placa, mas tudo que conseguiu foi soltar murmúrios confusos e piscar a fim de tornar a visão menos turva, porque podia até não estar lá na melhor das suas faculdades mentais, mas míope pelo menos ele lembrava que não era.

Um borrão branco de cabeça dourada começou a tomar forma em seu campo de visão. De costas para o LED amarelo da cozinha, seus cabelos pareciam captar a luz como os primeiros raios de sol, emoldurando um rosto ainda desfocado que o observava de cima.

Benjamin piscou, e piscou de novo, embasbacado. Teve a certeza momentânea de que estava muito que bem morto, e aquele seria o anjo que tinha vindo lhe buscar.

— Eu vou pro céu?! – Perguntou então com certa surpresa.

Loukás sorriu aliviado. Tinha aberto a boca para responder quando de repente lá estava Elisabete de volta, chegando apressada por cima do seu ombro.

— Sai da frente! – Ordenou ela.

E aí tacou um baita copão de água na cara do sobrinho.

— ARGH!! – Benjamin gritou, sentando num pulo enquanto Loukás caía para trás no susto.

Tia Betty estufou o peito, orgulhosa. Hah! Toma essa, primeiros socorros.

— Graças a Deus eu acordei você!

— Tem meio litro de água no meu pulmão!

— Ora essa. A gente vem ajudar com toda boa vontade e no final não recebe nem um obrigado!

Ela bateu o copo de vidro com uma força descontente sobre o balcão e se virou para buscar algo com que o rapaz pudesse se secar. Este, para trás, escorria raivosamente as mãos pelo rosto encharcado, reclamando em sua mente do quanto que o universo parecia revoltado com a sua mera existência naqueles últimos dias. Talvez devesse apelar para um padre.

— Hum... tecnicamente aquele copo tem no máximo uns duzentos ml.

Benjamin se deixou respirar mais um pouco enquanto processava a novidade daquela voz. Ainda estava molhado, mas agora conseguia pelo menos enxergar.

— O que disse? – Murmurou, olhando de esguelha para o loiro.

— O copo – o estranho repetiu – tem no máximo uns duzentos ml. Meio litro seriam quinhentos. E não daria para você aspirar tudo isso desse jeito, a não ser que a sua tia abrisse seu nariz e despejasse o copo inteiro dentro, mas isso seria realmente muito estranho e improvável, então acho que de se afogar você está bem livre por enquanto.

Ele sorriu um sorriso cheio de dentes, e o jovem mortal permaneceu quieto, o estudando. Acabou chegando à brilhante – e errônea – conclusão de que ele era bem humano, afinal de contas; por mais estranho que parecesse ser.

Estranho, sim. Em todos os sentidos da palavra. E não era nem só o fato de ele estar aleatoriamente na sua casa numa manhã qualquer de novembro, surgido de lugar nenhum, e nem pela observação completamente desnecessária sobre o volume do copo.

É que ele tinha todo um ar. Quase uma aura. Um quê de inocência e esperteza que se misturavam de uma maneira inusitada demais para conseguir processar assim de cara.

E Benjamin não conseguia tirar os olhos dele.

— Q-quem é você?

— Loukás!

— Lucas?

— ... Não.

— Aqui – Tia Betty se colocou entre os dois de repente, oferecendo um pano para o sobrinho. – Tome isto, pode se secar.


Notas finais
*AK-47: É um rifle/fuzil criado pelos soviéticos. Talvez lembre sutilmente a cabeça de um manequim. Ou talvez não. Beijo, até!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.