Errar é Divino
8 7. Bonecas, bonecas e mais bonecas!
Loukás foi liberado após uma hora de chá de cadeira na sala de espera na delegacia, e mais um papo de trinta minutos com o pobre do escrivão que ficou incumbido de lidar com o seu caso. Todo esse tempo ele permaneceu ao lado dos policiais que efetuaram a sua prisão, tentando vez ou outra puxar papos aleatórios com os dois, e sendo imediatamente frustrado por Roger, que não dava a oportunidade nem para o pobre do Pereira socializar.
— Eu não sou homem de ficar de conversinha com outro homem nu. – Justificava o grandalhão, com os braços cruzados sobre sua pancinha de cerveja.
— Por quê? Tem medo de gostar? – Loukás abriu um sorriso travesso, recebendo um olhar de soslaio tão carregado de ódio que o seu lado brincalhão enfiou o rabinho entre as pernas e ele logo parou de sorrir – brincadeira, seu guarda, eu não sou maricas não.
— As pessoas não falam mais assim – Paris acudiu.
— É bom mesmo, que eu detesto esse tipo de piadinha – Roger grunhiu por outro lado, tornando a desviar o rosto.
Ele obviamente se referia à tal brincadeira, e não ao desuso da palavra "maricas" que para ele tanto fez como tanto faz.
O escrivão, um homem magro e deprimido, ouviu aquela chuvarada de absurdos às plenas oito e pouca da manhã com a expressão solene e conformada do pobre trabalhador assalariado ao iniciar um sofrido expediente de sexta-feira. Certa tinha sido a delegada que despachara aqueles três idiotas para a sua sala, decidida a não gastar os seus preciosos neurônios com um caso ridículo como aquele. Mas ele infelizmente não tinha muito por onde escapar.
Tentou tomar o depoimento daquele que já estava sendo apelidado de "peladão" por toda a delegacia, e não pôde conter um suspiro ou dois ao ouvir do próprio que ele não tinha ficha criminal, e nem documentos, ou sequer um sobrenome. Filiação? Eros, deus grego do amor. Idade? Cento e dezenove anos. Endereço? Ah, não adiantaria nada te dizer, é em outra dimensão.
Roger e Pereira se entreolhavam suando frio, enquanto o escrivão os lançava um olhar com o peso de milhões de almas proletárias furiosas, e Loukás narrava aos risos sobre a vez em que sem querer flechou um padre e um senhor casado nos anos mil novecentos e dez (o que resultara num divórcio escandalosíssimo e uma excomunhão ainda mais escandalosa, se levar em conta que o episódio se dera numa cidade pequena e a pobre idosa religiosa que flagrou o casal aos amassos precisou ser levada às pressas para o hospital).
Laudo pericial: doido de pedra. O oficial ordenou que lhe arrumassem qualquer porcaria para se cobrir e sumissem com aquele moleque da sua frente.
— Vão me arrumar roupas? Nossa, muito obrigado! – Loukás permanecia com aquele sorriso ingênuo no rosto enquanto Pereira mais uma vez o pegava pelos braços, forçando-o a se levantar – foi um prazer falar com o senhor, seu polícia. Lembranças à família, um beijo para a esposa, e tenha um excelente dia cheio de desgraças legais pra investigar, tá? – A porta já se fechava quando ele ainda fez a questão de pôr a cabeça para dentro e gritar – Cuidado com essa cara feia que se der um vento frio ela fica assim para sempre! Até a próxima!
"Até a próxima não, por favor...!" Ainda mentalizou o escrivão enquanto a porta enfim se fechava de vez atrás deles.
Às nove e tantas da manhã, Loukás enfim saiu da delegacia trajando uma bermuda jeans larga e surrada, assim como um colete caindo aos pedaços que foram encontrados nos achados e perdidos. Despediu-se dos dois policiais prometendo qualquer dia os convidar para uma boa feijoada, enquanto Roger virava as costas com resmungos de impaciência e Pereira lhe dava tapinhas amigáveis no ombro murmurando um "se cuida, filho" sorridente antes de ser chamado aos gritos pelo colega grandalhão.
O cupido voltou-se para a rua, respirando fundo. Paris parara ao seu lado.
— Bom, isso foi... interessante – murmurou o mais velho, com uma careta – mas se quisermos levar esse teatrinho adiante, precisamos começar a tomar algumas precauções.
— Tipo devolver a túnica do seu irmão pelado, para evitar que ele acabe no xilindró? – Loukás o lançou um olhar irônico.
— Bom, para começar, você precisa parar de falar sobre a sua vida para esses mortais – prosseguiu Paris, ignorando-o – eles vão sempre achar que você enlouqueceu. Não se esqueça que a maioria deles sequer acredita na existência de cupidos, quanto mais que você é um de nós!
— Hum... faz sentido – ele suspirou – desculpe, eu me empolguei lá dentro.
— Depois, você definitivamente precisa de roupas novas.
Loukás baixou os olhos para analisar suas vestes, constatando que o irmão estava bem certo quanto a esse detalhe. Ele mais parecia um daqueles tios dos filmes dos anos noventa que não aceitavam ter mais de quarenta anos na cara, e insistiam em tentar se vestir como um adolescente desesperado para cometer um crime de ódio contra a moda.
— Mas onde vamos arrumar dinheiro para isso? – Lamentou o mais velho.
— Ora, mas essa é a parte simples. Você não pensou que eu pretendia alugar um quarto sem ter pelo menos um pano pra manga, pensou? – Sorriu àquele seu modo arteiro e levemente assustador, lhe estendendo uma das mãos. – Vamos, me dê uma das suas flechas.
Paris estranhou; olhou para a mão do caçula, depois para aqueles olhinhos travessos, e aí para a mão novamente. Bom, não estava lá em posição de questionar muita coisa a essa altura do campeonato, não é?
Levou uma mãozinha sobre o ombro e, repetindo aquele tal gesto que só os cupidos conhecem, fez aparecer uma flecha entre seus dedos, a qual ele prontamente colocou sobre a palma de Loukás. Este, assim que a recebeu, segurou-a firme nas duas extremidades e as forçou para baixo, quebrando-a em duas – o corpo brilhante do projétil tornou-se opaco e completamente físico enquanto a ponta de ouro maciço pesou em sua mão, fazendo-o abrir um sorriso todo convencido para a face surpresa do irmão.
— Vamos ver quanto que a gente consegue com essa belezinha.
Foi fácil encontrar um comprador para suas quase duzentas gramas de ouro puro, uma vez que os centros de cidade, por algum motivo, sempre têm aqueles tiozinhos barbudos que andam para cima e para baixo com um banner colado ao corpo escrito "COMPRAMOS OURO E PRATA" em letras garrafais e desesperadas. Loukás parou um desses numa esquina, foi levado a um empresarial tão chique e supimpa quanto aquela viatura moderna, e enfim saiu pelas ruas com os bolsos da bermuda meio gordinhos pelas notas em dinheiro vivo, deixando para trás um avaliador muito feliz.
E como a prioridade inicial era ficar parecendo um ser humano decente, o primeiro lugar que ele foi depois da venda da ponta da flecha foi uma bonita loja de roupas, cuja vitrine repleta de peças coloridas e modernas havia lhe chamado a atenção. Uma vendedora com piercings e um moicano vermelho o atendeu com uma simpatia meio agressiva, percebeu o gosto do rapaz pelas cores vibrantes e divertidas dos modelos em exposição, e saiu para lhe arrumar algo "irado" para usar, conforme ela mesma falou.
Foi assim que, minutos depois, Loukás sorria feliz para a sua imagem refletida no provador da loja, usando um blusão oversized verde limão com estampas roxas em mangá, uma calça quadriculada em preto e verde, e muitas correntinhas e colares presos aos bolsos e pescoço. Paris quase caiu para trás ao ver aquilo. Deu-lhe um longo e chatíssimo sermão sobre o quanto os anjos deveriam se dar ao respeito, detonou uma por uma daquelas peças, e por fim o mandou "parar de agir como criança e arrumar logo algo discreto para vestir".
Loukás detestava quando o chamavam de criança. Por isso, com um suspiro, agradeceu o suporte da vendedora e vestiu novamente suas roupas surradas de delegacia para procurar uma loja que gritasse "PARA GENTE CHATA" em sua vitrine.
— Aqui, tome – antes de sair ele sacou umas duas notinhas de cem reais e entregou para a jovem, que as recebeu boquiaberta – pra você fazer um lanche mais tarde, brotinho.
A moça ficou para trás passadíssima, porém já pensando em mil e uma formas de como não gastar aquele dinheiro num lanche.
Minutos depois o jovem cupido encontrou uma loja que parecia chata o suficiente, na qual foi estupidamente bem-tratado e paparicado logo após ser quase escorraçado por causa das suas vestes. Mas, bem, tudo muda de cenário quando você se irrita, tira um bolo de dinheiro do bolso e grita um "eu posso pagar!" na cara daqueles vendedores de nariz em pé.
Foi assim que, um pouco mais tarde, Loukás bateu na porta do apartamento de Elisabete vestindo aquele conjunto branco supercareta que consistia em uma camisa social de manga longa, e calças compridas de tecido de altíssima qualidade. Aqueles vendedores insuportáveis o empurraram tanto aquelas roupas, e Paris aprovou com tanta veemência que ele não teve nenhuma escolha a não ser levar. Sentia o pescoço meio sufocado pela gola e era estranho a sensação de usar cuecas, mas ele não reclamou – pelo menos estava vestido como um anjo supostamente deveria se vestir afinal.
— Desculpe por não agendar uma visita antes – prosseguiu o cupido, orientado pelo irmão sobre como conduzir aquela conversa agora que se via diante dos olhares maravilhados de Emiko e Elisabete à porta da casa – eu não sou muito bom mexendo nessas coisas de... hã... internet.
Abriu um sorriso largo e sem graça que enfim fez a pobre da Emi lembrar de soltar a respiração. A velha, porém, o respondeu com a risada franca de quem reconhece um companheiro do famigerado grupo de idosos confusos com a tecnologia.
Embora, é claro, não tivesse idoso nenhum por ali.
— Ah, meu filho, eu também sou péssima nessas coisas! – Exclamou, divertida. – Mas por mim não tem problema nenhum, seja muito bem-vindo. Se você quiser podemos ir ver o quarto agora mesmo.
— Seria perfeito! – Ele respondeu, e sentiu logo a mão enrugada da velha tocar levemente um dos seus braços, indicando que deveria a seguir para dentro do apartamento. – Estou precisando de um lugar pra ficar com certa urgência, sabe? – Disse, deixando-se guiar agora pelo corredor dos quartos, repleto de quadrinhos simpáticos de flores e algumas fotografias emolduradas. – Acabei de chegar na cidade e mal tenho onde dormir.
— Nossa, pobrezinho. Eu imagino, hoje em dia está um pesadelo alugar qualquer lugar nessa cidade. É tanta burocracia, tanta dificuldade, sem falar nos preços que são um absurdo! — Exclamou, meneando a cabeça em reprovação, mas sorrindo logo em seguida. – Sorte que a Betinha aqui existe para salvar a pátria – Piscou – Eu alugo mais pra estudantes, coitados, que só precisam de um lugarzinho barato pra dormir. A maioria depois consegue vaga numa república, mas pode ir ficando o tempo que quiser, que eu adoro companhia.
— Ah, eu não sou estudante – ele apressou-se em corrigir, assim que ambos pararam diante de uma das últimas portas do corredor – eu sou... bem... um viajante.
Os olhos de Elisabete brilharam.
— Oh! Um viajante! Que emocionante! Querido, já vi que vamos ter muito o que conversar.
E aí foi a vez do próprio Loukás sentir o coração bater com força ao notar a sinceridade no tom empolgado da voz daquela simpática humana. Ela queria mesmo conversar com ele. Sem nenhuma careta de desgosto, nenhum sinal de impaciência, ou sequer fazer menção a ficar batendo a testa repetidamente na parede (coisa que já havia acontecido com alguns dos seus irmãos cupidos, inclusive. Mais de uma vez. Mais de duas também).
— Supimpa! – Ele respondeu, sorrindo todo emocionado – Eu adoro conversar!
Elisabete não pôde evitar um sorrisinho de canto. "Supimpa"! Há quanto tempo não ouvia essa palavra.
Sua mão tocou a maçaneta fria e ela enfim abriu a tal porta com toda a pompa de uma dona de casa orgulhosa ao exibir o seu cômodo favorito para as visitas. O loiro não pôde evitar um arregalar de olhos enquanto a anfitriã sorria derretida de amores.
— Não é lindo...?
Loukás nunca tinha visto coisa mais feia em toda a sua vida.
Assim que a porta do quarto se abriu, muito pomposamente segurada por Elisabete, ele se viu diante do que parecia ser a visão do inferno particular de alguém ou muito traumatizado na infância, ou talvez só muito lelé da cuca mesmo.
Para não assustar o leitor da madrugada, podemos então começar devagarzinho, pela linda bonequinha de pano delicadamente encostada ao travesseiro todo cobertinho por uma fronha azul cheia de babados, combinando perfeitamente com o seu vestidinho bufante da mesma cor.
Fofo, não é? Vamos, aproveite a vista, eu espero aqui.
Pronto, agora vamos abrir mais o nosso campo de visão e dar um oi para o restante das quase duzentas bonecas absolutamente horripilantes espalhadas pelo restante do cômodo.
Loukás mordeu o interior das bochechas dolorosamente, se esforçando muito para não soltar uma exclamação de terror semelhante à do anterior pretendente a locatário, que resultara numa pobre idosa dormindo a tarde toda chapadíssima de remédio para pressão, e uma dolorosa semana desligando na cara de universitários zombeteiros tentando marcar visitas no quarto só para tirar uma com a sua cara e ganhar alguns likes no Instagram.
Porém, hum... não podemos culpar ele: aquele lugar era sim extremamente bizarro. Era uma mistura perfeita de quarto super pequeno e muitas, mas muitas bonecas, a maioria de pano, outras de porcelana, todas com aquelas bochechas pintadas, vestidinhos bufantes e olhinhos de tinta que mais pareciam ameaçar matar você e toda sua família enquanto dormem. E estavam em todos os lugares possíveis: do travesseiro da cama à cabeceira, nas prateleiras, nos detalhes do espelho, no parapeito da janela, no topo do frigobar, e por fim num enorme baú perto da porta, com várias delas sentadinhas em sua tampa com o comportamento tranquilo de quem jura de pé junto que não está possuído por nenhuma entidade maligna.
Loukás engoliu em seco. Ave Nossa Senhora do Autocontrole, que venha em seu socorro.
— Nossa, é... – hesitou. Levou o indicador à gola da camisa, deu aquela ajeitada para circular melhor o ar, e se forçou a sorrir. – I-Impressionante.
Mentira não era, né?
— Você gostou? – Elisabete se pôs em seu campo de visão, estupefata.
— Bem... – ele respirou fundo – é incrível!
— Você achou?!
— Com certeza.
— Ah! – Ela levou as mãos bobamente às próprias bochechas, os olhos brilhando em imensa alegria. Era a primeira vez que alguém elogiava o seu cômodo preferido, ela mal podia acreditar. – Ai, mas que maravilha! Que maravilha! Venha, vamos entrando, pode vir.
Paris se agarrou ao ombro do irmão enquanto este caminhava para dentro do pequeno cômodo, olhando meio nervoso para todos os lados em busca do mínimo movimento. Parou ao lado da cama, engolindo seco mais uma vez, mas retirando forças das profundezas de sua cara-de-pau para permanecer pleno. Ao seu lado, Elisabete mal sabia por onde começar a falar, tão empolgada estava por finalmente poder conversar sobre o lugar com alguém que não iria o esculhambar ou começar a rezar baixinho em latim.
— Certo, aqui nós temos essa cama bem confortável, um guarda-roupas, esse armário aqui também para você guardar as suas coisinhas... – explicava, se atropelando um pouco e apontando cada um – também tem um frigobarzinho caso você queira guardar suas comidas com mais privacidade, sabe, mas aqui não tem frescura não, se quiser pode também pegar alguma coisa da geladeira lá da cozinha. Eu gosto de tratar todo mundo como família. Mas se você gostar mais de ficar no seu cantinho, também não tem problema.
Foi até a janela, mostrando a vista que dava para a rua da esquina, sem lá muito movimento de pedestres naquele horário. E então, voltando-se novamente para o interior da casa, abriu um sorriso largo e enfim perguntou:
— Reparou nas bonecas?
Mas mulher, se ela não fala ninguém ia nem notar!
— Fui eu mesma que decorei tudo com elas – prosseguiu a velha, orgulhosa – por isso é o meu quarto favorito da casa inteira. Todas essas bonequinhas foram minhas, de quando eu era menina, e eu guardei cada uma porque são preciosas demais pra jogar no lixo como uma tralha qualquer. Aí para trazer esse toque familiar para os inquilinos, coloquei todas aqui dentro.
— Ah! Quer dizer que eram suas?
— Todas elas, querido, todas elas! – Caminhou até o baú, pegou duas bonecas cuidadosamente nas mãos e observou com nostalgia os seus rostinhos de porcelana. Pouco a pouco, porém, sua expressão iluminada ganhava um quê de melancolia; algo bem sutil, quase imperceptível, que Loukás demorou um pouco para captar. – Quero dizer... minhas e da minha irmã. – Ela abriu um sorrisinho imprensado e meio distante ao completar. – Nunca tive coragem de jogar as dela fora também.
— Bom, mas pelo visto ela teve essa coragem né, se deixou todas elas com a senhora – ele riu.
Elisabete voltou o olhar para ele.
— Minha irmã está morta – disse.
Uma bela maneira de se passar uma primeira impressão.
O sorriso morreu no rosto de Loukás, com o perdão do trocadilho infame que vou fingir não ter pensado. Ele entrou em um estado de minipânico interno, sem saber como proceder com o tamanho daquela gafe, quase enxergando seus pequenos divertidamentes correndo para lá e para cá dentro de um cérebro pegando fogo. E agora, e agora? Ele era novo demais nesse negócio de falar com humanos. O que se diz para eles em uma ocasião assim?
— Parabéns – balbuciou, todo besta. Paris lhe deu um beliscão no braço e ele acordou para a realidade – D-digo, meus pêsames?! Meus pêsames!
Elisabete abriu um sorrisinho triste para ele.
— Tudo bem – disse ela, mais baixo – você não sabia, não precisa ficar sem graça. E sabe, com certeza a Benvinda teria jogado essas bonecas fora – riu, um pouco mais alegre – eu é que sempre fui meio... excêntrica mesmo, podemos dizer.
Ela devolveu as bonecas para o lugar e sorriu para ele, como se estivesse perfeitamente satisfeita em ter acabado de se definir como "esquisita" para um completo estranho. Isso, por algum motivo, o fez sorrir também.
— E... hã... faz tempo que a sua irmã morreu? – Ele arriscou perguntar então, só de curioso mesmo.
— Vinte e dois anos. – Elisabete diminuiu o sorriso, prensando os lábios. – Fazem exatamente vinte e dois anos.
— É a idade do Benjamin – Paris sussurrou no ouvido do irmão.
Este não pôde disfarçar um leve arquear de sobrancelhas ao ouvir tal informação.
— Bom, eu... eu acho lindo que a senhora tenha guardado as bonecas dela. É... hã... uma bela homenagem – engoliu um pouco em seco. Ainda era muito estranho mentir. – Prometo que não vou estragar nenhuma delas durante o meu tempo aqui.
— Quer dizer que você vai ficar?!
— Se a senhora quiser, já podemos fechar negócio.
— Ah, que boa notícia! Que ótimo! Fantástico! – Ela se aproximou do rapaz, sorrindo de orelha a orelha, quase dando pulinhos de tanta alegria. E então, do nada, tascou-lhe um tapão no braço. – Primeiramente, nada de “a senhora”, que assim pareço uma anciã – reclamou, séria, enquanto ele alisava o local dolorido com uma careta de espanto. E aí ela voltou a sorrir toda fofa. – Meu espírito é jovem como um adolescente! Pode me chamar de Elisabete, Betty, ou até tia, mas “senhora” não. Entendido?
— S-sim senhora! – Titubeou – Q-quer dizer, Betty. Elisabete. Dona tia.
— Sem o “dona”, querido.
Eles voltaram para o corredor, dando de cara com uma Emiko que permanecia bobamente parada ali pertinho deles, os seguindo como uma sombra apesar de não ter reunido coragem o suficiente para entrar no tal quarto. Loukás sorriu simpático para ela, e Elisabete ergueu uma sobrancelha que parecia dizer um “ué, mas tu não tava de saída, menina?” em um silêncio sugestivo.
A moça sorriu toda sem graça.
— Eeeerr... eu acho que já vou – disse, dando um aceno tímido com uma das mãos. – Ittekimasu!
Se virou, quase deu de cara com a parede, soltou outro sorrisinho amarelo e enfim acertou o rumo da porta.
Ai ai, essa juventude...!
— A propósito, é bom você já saber que também vai dividir a casa com mais duas pessoas, assim, mais ou menos da sua idade – Elisabete aproveitou para comentar – Sei que só tem eu e mais uma no anúncio, mas esses dias o outro quarto também foi ocupado, justamente por aquela mocinha simpática que acabou de sair. O outro é do meu sobrinho. Eu apresentaria vocês agora, mas ele tá meio... – Lembrou da figura do rapaz incensando a sala com aquele cheiro de titica, e abriu um sorriso meio sem graça – indisposto.
— Ah – Loukás imitou a sua expressão, também todo desentendido – indisposto, é...
— Enfim, parece que seremos como uma pequena república. Mas geralmente os horários impedem que a casa fique cheia, então...
— Oh não, não, pode ficar despreocupada – O cupido não pôde conter um esfregar de mãos, soltando os ombros num sorrisinho com um leve toque de travessura. – Vai ser divertido passar um tempo com vocês.
As engrenagens da sua cabecinha peculiar giravam e rangiam a todo vapor, enquanto pequenos rascunhos de planos mirabolantes brincavam em sua fértil imaginação. Estava pronto para encher o saco daqueles pobres mortais até que eles não tivessem outra escolha senão caírem de amores um pelo outro – isso ou tacar ele varanda abaixo. Ainda não tinha descartado essa possibilidade.
Mas ah, fazer o quê? Estava disposto a correr o risco. Precisava correr o risco.
Sim, sim. Seria de fato muito divertido estar ali.
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