Errante
1 único
Acho incrível quando estamos mal e vem a vontade súbita de vagar pelo mundo, e foi exatamente isso que eu fiz depois que falhei com Deus. Eu peguei meu carro e dirigi até que ele morresse, depois andei a pé pelo deserto de Califórnia, não sentia sede e muito menos fome. Não havia alma naquele corpo e muito menos um homem.
Meu orgulho havia morrido depois de ouvir aquelas palavras proferidas pela boca de Deus, dali em diante, minha mente entrou no piloto automático e só parei quando um guarda pegou no meu ombro.
Ele me encarava preocupado, até porque minha roupa estava encardida e havia fuligem em meu rosto. A poeira me deixou amarelo e o sol vermelho. Eu era branco.
Durante minha caminhada, eu vi estrelas muito brilhantes, carros e alguns traficantes se aglomerando para fazer negócios, motoqueiros com bandanas, uma língua estranha que se parecia com o espanhol, indígenas, um falcão cruzando o céu azul, o sereno da noite, o vento formando pequenos furacões, flores de cactos desabrochadas uma vez por ano, solidão.
Era lindo, pelo menos acharia lindo se eu estivesse vivo.
O guarda conseguiu contatar um amigo meu e pediu para que eu esperasse meu anjo chegar. Ele estava muito preocupado por eu ter demorado para falar algo e estava surpreso por eu ter conseguido andar por muito tempo.
Os registros de minhas viagens estavam marcados na minha pele, eu sofria de insolação e estava desidratado também. Havia buracos nas solas dos meus sapatos, no bolso algumas moedas e um maço vazio.
— É um milagre você estar vivo, algum coiote poderia te comer cedo ou tarde. — O anjo dizia enquanto segurava o volante do carro. — Graças a Deus o guarda te viu a tempo.
— Eu vi um falcão. — Respondi pela primeira vez desde a sua chegada. — Ele cruzou o céu.
O anjo piscou os olhos e ficou feliz por ouvir minha voz, que saíra muito rouca e agarrada. — É? Viu mais alguma coisa? — Ele me fez tal pergunta só para que eu continuasse falando, mas veio na minha mente tudo o que vi no deserto e comecei a chorar.
Tudo que eu queria era ser normal e não mais um errante perambulando pela Terra, com peso na consciência e sobretudo na alma. Eu era insignificante.
— Era tudo muito lindo... — Murmurei com minhas mãos cobrindo meu rosto, tentando impedir minhas lágrimas de descer. — Eu estando lá ou não, não faria diferença. Tudo continuaria lindo.
O anjo tocou meu ombro e sorriu. — Claro que faria.
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