Ernestine sem País das Maravilhas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura ;)
— Que diabo de fantasia é essa, Ernestine? — perguntou, surpresa, a professora Karmen, docente responsável pela classe do jardim II. Percebendo que havia utilizado um vocabulário inadequado para se comunicar com uma criança de seis anos, prontamente deu alguns tapinhas na boca antes de se corrigir. — Desculpe, querida, mas do que está fantasiada?
A festa a fantasia era tradição entre os pequenos do Colégio Alfredo Lannister. Todos os anos, havia um dia em que os meninos podiam vestir-se como seus super-heróis favoritos enquanto todas as meninas desfilavam pela sala com luxuosos vestidos dignos de princesas.
Todas as meninas, exceto uma. Ernestine Muller.
Com sua pequena cartola comprada em uma loja de fantasias baratas e um traje inteiramente preto que ela havia pedido que a mãe costurasse a mão, a pequena menina de olhos azuis e cabelos negros andava despreocupada entre seus colegas de classe.
— Ué, prófi Karmen, eu sou uma mágica de cartola. — respondeu com sua doçura infantil como se aquilo fosse extremamente óbvio. Sério mesmo que aqueles adultos realmente julgavam-se inteligentes?
Não era a primeira vez que Ernestine Muller não seguia os costumes das outras meninas de sua série. Na escola, ela sempre ficava quieta — para não dizer “isolada” — em um canto enquanto as outras conversavam sobre maquiagens, bonecas e suas primeiras paqueras. Aqueles eram assuntos que não interessavam nenhum um pouco a Tine.
— Querida — a professora falou suavemente enquanto se ajoelhava ao lado de sua aluna mais... peculiar. — Por que não veio vestida de Branca de Neve, como a Olga? Ou de Cinderela, como a Paula? Ou até mesmo de Chapéuzinho Vermelho como... o Jorge??? — surpreendeu-se ao notar que precisaria ter uma conversinha com outro aluno depois que terminasse seu assunto com Tine. Aquelas crianças estavam ficando cada vez mais malucas!
A menina apenas a encarava com os olhos bem abertos, atenta a todas as palavras da mulher. Ao notar que a professora não falaria mais nada, resolveu se pronunciar:
— Eu não gosto de princesas, prófi. Elas são burras. — explicou de forma breve.
— Ernestine, não fale assim! As princesas não são burras, elas são bonitas e... — Karmen suspirou, admitindo a derrota. — Ah, deixa para lá. Divirta-se, Tine. — ela sabia que não adiantava insistir. Nada mudaria a opinião daquela criança.
Ernestine pode ver a frustração no rosto de sua professora quando ela se levantou e começou a caminhar até Jorge. Ela não compreendia. O que havia de errado em não gostar das princesas? Elas eram mesmo burras.
Apesar de ser muito nova, a menina jamais comeria uma maçã oferecida por um total estranho no meio da floresta. Também não se casaria com qualquer menino apenas se ele a devolvesse um sapato perdido. E, ela tinha certeza absoluta, saberia diferenciar a própria avó de um imenso lobo. As princesas eram tão idiotas!
Ela gostava mesmo dos mágicos... Ah, os mágicos! Rodavam o mundo tirando coelhos de cartolas, fazendo coisas desaparecerem diante dos olhos atentos de uma imensa plateia e levitando copos e até outros objetos maiores. Poderia existir algo melhor que isso? Ernestine duvidava.
***
11 ANOS DEPOIS...
O relógio indicava 09h00min da manhã daquela ensolarada quarta-feira e todos os alunos — ou melhor, quase todos os alunos — do terceiro colegial do Colégio Alfredo Lannister estavam sentados em suas carteiras, lamentando-se, enquanto ouviam as repetições do insistente professor de matemática.
“Um dia tão bonito, por que perdê-lo trancados em uma sala de aula?”. Era exatamente o que Ernestine Muller havia pensado naquela manhã ao sair de casa. O argumento perfeito para convencer a si mesma que deveria matar aula só mais dessa vez.
Não haveria mal algum. Afinal, ela nunca entendia nenhum dos fundamentos da matemática mesmo, de qualquer forma.
Agora, recostada na parte externa do muro que cercava os fundos da escola, ela fumava despreocupadamente um dos baseados que carregava na mochila.
Pensava em seu passado e lembrava-se de todas as vezes que se sentiu desencaixada entre os jovens de sua idade. Pensava em seu presente, repleto de inutilidade, constatando, pela milésima vez, estar fazendo tudo totalmente errado e sentia-se até um pouco preocupada por, na verdade, não estar nem um pouco preocupada. Pensava em seu futuro e não via nada. Absolutamente nada.
“Uma rebelde sem futuro... Belo nome para um filme.” Divertiu-se com o pensamento enquanto dava mais uma longa tragada.
Os minutos estavam se passando mais rápido que de costume e logo teria que ir embora. A mãe provavelmente perguntaria sobre o dia na escola e ela, como sempre, responderia apenas com uma palavra: “normal” — o que não deixava de ser verdade, já que ela normalmente matava aula, mesmo.
De repente, Tine foi despertada de seus devaneios por um barulho vindo da direção de um dos arbustos que havia a seu redor. Ela levantou-se com agilidade, prendeu a respiração e ficou encarando o local de onde o som era proveniente. A diretora já havia lhe avisado que se alguém a visse matando aula novamente, seria expulsa sem dó nem piedade.
“Estou frita. Definitivamente, frita. Vão me dedurar!”
Após longos e torturantes segundos, o causador do barulho resolveu finalmente aparecer. Um coelho. Apenas um pequeno coelho, nada que pudesse encrenca-la... Mas, peraí... O coelho estava usando paletó e óculos?
— Mas que porra...? — Ernestine sibilou, observando o animal com mais atenção. — Cara, eu realmente preciso parar de fumar essa droga. — disse a si mesma enquanto encarava o cigarro de maconha preso entre seus dedos.
O pequeno animal de grande estranheza começou a correr como se estivesse procurando por algo. Ao avistar a garota — Ernestine podia jurar — uma expressão repleta de surpresa surgiu em sua pequena face e o coelho mudou a direção de sua corrida.
Dominada por uma curiosidade vertente, a menina passou a perseguir o coelho mata adentro.
***
É sempre tão doloroso quando se cai em um buraco? As costas de Ernestine doeram tanto ao se encontrarem com o chão que fizeram com que ela perdesse, por alguns segundos, a noção do que estava fazendo.
Embora tentasse recapitular os últimos minutos de sua vida, ela não conseguia se lembrar do instante exato em que perdeu o coelho de vista e acabou despencando até parar no imenso salão em que estava agora.
O imenso local encontrava-se vazio, exceto por uma pequena portinha da altura da canela de Tine e uma delicada mesa de madeira forrada com uma toalha brega de piquenique. Sobre ela, haviam apenas alguns biscoitos e uma pequena garrafinha contendo um líquido azul onde, no rótulo, podia-se ler “Beba-me”.
— Eu não vou beber nada. — garantiu a quem quer que tenha escrito a mensagem — Eu, hein? Parece até coisa de filme... Aí eu bebo esse negócio, caio desmaiada no chão e um psicopata me leva para Prússia onde serei obrigada a me prostituir para sobreviver. — possivelmente sob o efeito das drogas que havia acabado de consumir, ela dramatizou para si mesma antes de jogar a garrafa em direção à porta minúscula que havia no salão.
A embalagem de vidro se rompeu com o choque, fazendo com que o líquido se espalhasse e banhasse a porta que, como em um passe de mágica, aumentou o suficiente para que Ernestine conseguisse passar por ela.
Surpreendida com o crescimento inexplicável daquela passagem, mas ainda assim muito curiosa para prosseguir, Tine girou a maçaneta e, sem pensar muito, entrou pela porta. E como se aquele dia já não estivesse estranho o suficiente, pode ver que do outro lado havia uma imensa floresta, repleta de árvores desconhecidas com flores e frutos de todas as cores imagináveis.
Boquiaberta com o lugar que havia acabado de encontrar, a garota começou a andar sem rumo enquanto apreciava a bela vista que a rodeava.
***
Tine estava tão absorta com a paisagem que nem ao menos reparou que se aproximava de uma enorme mesa de pedra coberta com pãezinhos, bolos, diversos tipos de chá e várias outras guloseimas que só poderiam ser encontradas nas melhores padarias.
Ela só percebeu a existência do banquete quando esbarrou bruscamente em uma cadeira, o que fez com que ela desviasse seu olhar do céu e das altas copas das árvores e contemplasse as comidas organizadas a sua frente.
Um estranho homem, sentado em uma das pontas da mesa, também só notou a presença de Ernestine ao ouvir o barulho de seu impacto com a cadeira. Apreciando com atenção um livro grosso de capa dura aberto em seu colo e com a visão parcialmente encoberta pela cartola posicionada no topo de sua cabeça, ele não percebeu a aproximação da jovem.
Quando seus olhares se encontraram, era impossível dizer quem estava mais surpreso. O homem levantou-se e seguiu em direção a Tine, esticando receosamente uma das mãos para tocá-la, como se não tivesse certeza de que ela era real.
— Alice? — ele perguntou. — O que houve com seu cabelo? Por que está tão escuro?
Ernestine ainda o encarava sem reação. Ao ver sua cartola, ela foi inundada por boas memórias da infância — quando adorava mágica e tudo que remetia a ela — e permitiu-se sorrir por alguns segundos antes de finalmente responder.
— Alice? Eu não sou Alice.
— É amiga de Alice? — o homem insistiu.
Ela estava confusa. Por que raios ele estava falando dessa tal de Alice?
— Não! — ela respondeu enfática. — Nem sei quem é Alice.
— Oh... — o homem parecia decepcionado com sua resposta. — Então, quem é você?
— Sou Ernestine. — disse desconfiada. — E você? Quem é?
Segurando a cartola frente ao corpo com uma das mãos, o rapaz reverenciou Tine.
— Eu sou o Chapeleiro Maluco. Prazer em conhecê-la.
— Chapeleiro Maluco? — ela repetiu, em tom interrogativo. — Vejo o porquê de ser “Chapeleiro”, mas poderia me explicar o “Maluco”?
O Chapeleiro abriu um sorriso cortês antes de responder.
— Ora, minha cara, estou sozinho no meio da floresta do País das Maravilhas tomando uma xícara de chá. Isso não é maluco o suficiente para você? — disse com naturalidade. — Mas você também está aqui, então acredito que seja maluca também. Estou certo? — completou, sorrindo.
Buscando assimilar a pergunta, Ernestine pensou em sua vida. Sempre fora julgada pelas outras pessoas por pensar de maneira diferente, por não se encaixar no grupo, por ser... louca. Pensou, também, no dia que estava tendo... No coelho de paletó, na floresta encantada e, principalmente, no homem parado a sua frente.
— Está sim. Eu também sou maluca. — respondeu retribuindo o sorriso.
— Que ótimo! — comentou o Chapeleiro. — Estou sozinho com minhas próprias maluquices há tanto tempo que será bom ter alguém para conversar.
Eles trocaram um olhar de confidência digno de duas pessoas que se conhecem há muitos anos. Mas Ernestine pode notar quando a animação se esvaiu completamente do rosto de seu novo amigo.
— Você não pretende ir embora, não é? — o Chapeleiro perguntou temeroso, lembrando-se de Alice e de como ela havia o deixado para trás. De como havia dito que precisava viver sua vida em outro lugar. De como prometeu voltar para vê-lo e de como nunca chegou a cumprir com suas palavras.
— Não pretendo ir a lugar algum. Pelo menos não antes de terminarmos nossa conversa. — ela respondeu, tomando coragem para tocar-lhe a face suavemente.
— Então não irá embora nunca, pois sinto que teremos assuntos para uma vida inteira. — ele disse, recuperando o brilho em seu olhar.
E foi nesse momento que Ernestine se viu provando a existência de uma de suas principais descrenças. E, não, não estou me referindo ao País das Maravilhas, ou ao animal usando trajes de gente e nem mesmo à porta que muda de tamanho sozinha.
O que ela desprezava mesmo era a ideia de romances e paixões instantâneos — como aqueles dos contos de fadas que sempre odiou —, mas, olhando nos olhos do Chapeleiro, assim como Tine tinha certeza de que o céu era azul e de que o sol era quente, também tinha certeza de que aquilo que sentia era amor.
Notas finais
Mereço reviews? Por favor, quero saber o que acharam!
Ah, e se acharam erros, me avisem!
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