Se você percorresse os arredores da praça municipal Eduardo Bloch naquela madrugada você veria dois mendigos dormindo sob os bancos de madeira, se você prestasse atenção nas arvores atrás perceberia que atrás delas havia um jovem casal de rapazes particularmente bêbados praticando felação, poderia também ver também um cachorro vira-lata correndo atrás de um pombo de um lado a outro, e você definitivamente notaria o rapaz sentado aos pés da estátua de anjo no meio do parque com a cabeça entre os joelhos se sentindo miserável.

O nome dele era Eric e naquele momento ele achava que deveria estar chovendo, nos filmes toda vez que o casal principal se separava havia uma grande chuva para o herói ficar para embaixo sentindo pena de si mesmo. Mas naquela noite quente de primavera não havia nenhum sinal de alguma chuva vindo, na verdade o céu estava completamente estrelado e a lua cheia, mas mesmo com o universo não lhe favorecendo o clima ideal Eric conseguiu ficar sentado ali sentindo pena de si (e imaginando uma tempestade caindo em sua cabeça).

Alguns minutos depois se você estivesse ainda observando aquela praça você veria uma garota sair de um taxi e ir na direção do rapaz sentado aos pés da estátua de anjo, com seus sapatos de salto alto fazendo barulho ao entrarem contato com os ladrilhos que formavam o piso do local, Eric só notou a presença dela quando ela havia parado na sua frente, ele não se virou para cima para ver seu rosto.

“Como você me achou ?” ele perguntou.

“Você é embaraçosamente previsível” Alice disse.

“Mas porque você veio ? Porque não ela ?”

“Sua irmãzinha ligou para mim e disse que você não tinha voltado para casa e eu não ia deixar você estragar ainda mais a festa de aniversário da minha melhor amiga, então eu vim te procurar pra te levar pra casa”

“Você perdeu o seu tempo, eu não vou sair daqui” ele disse finalmente levantando seu rosto para encará-la.

“Você está sendo ridículo. Vamos embora, já passam das duas da manhã, se você ficar aqui você pode ser roubado, espancado, estuprado ou pior”

“Eu não ligo, eu não vou”

“Tudo bem, então eu vou ficar aqui com você”

“Isso é ridículo”

“Aparentemente você é contagioso”

Alice bateu um pouco a poeira do chão antes de se sentar desconfortavelmente ao lado do rapaz.

“Como você fazer isso vai me convencer a ir embora ?”

“Para começar você está fazendo com que eu suje o meu vestido, e você já fez com que eu saísse de um lugar que eu realmente queria estar para te levar de volta para casa”

“Como eu sou previsível ?”

“O que ?”

“Você disse que você descobriu que eu estava aqui porque eu era previsível, eu não vejo como eu sou previsível”

“A Sabrina havia me contado que vocês se beijaram aqui pela primeira vez, e eu sei que você é sentimental ao ponto de cruzar a cidade só para ficar sentado no chão se afogando em autopiedade, previsível, previsível e previsível”

“Eu não sou sentimental, eu sou um romântico”

“Não você é um sentimental”

“Tanto faz, é tudo a mesma coisa no fim”

“Não exatamente, segundo F. Scott Fitzgerald um sentimental é aquele que acredita que as coisas vão durar para sempre, um romântico sabe com uma desesperada confiança que elas não vão. E você mesmo após estar há mais de um mês separado dela pirou quando você a viu com outro, você ainda acha que vocês vão voltar”

“Você realmente decidiu citar o escritor de O Grande Gatsby para tentar fazer com que eu supere uma garota ?”

“Porque não ? Se ele não tivesse ficado obcecado por uma garota que ele namorou por um mês cinco anos atrás ele não teria acabado morto”

“Nós namoramos por seis meses”

“Eu estou falando sobre Gatsby, não sobre você, deveria ser óbvio, você está vivo”

“Apenas por fora”

“Ótimo Bukowski, mas a questão é eu não estou tentando fazer com que você a esqueça hoje a noite okay ? Só que você deixe de ser idiota se levante e vá para casa antes que o plantão da sua mãe termine e ela chegue em casa não te encontre e chame a policia”

“Eu não sou idiota tá bem, eu sei que eu vou ter que sair daqui eventualmente, só não agora”

“Quando então, em dez minutos ? Vinte ?”

“Eu não sei, Okay ?”

“Não Eric, não está okay”

“É que eu não sei o que eu seria sem ela”

“Provavelmente ainda um virgem”

“Hilário”

“Eu sei”

“Eu estava sendo irônico”

“Não você não estava”

Ele respirou fundo.

“Porque você adora me insultar ?”

“Eu não adoro, é apenas que você torna muito fácil os insultos surgirem em uma conversa”

“Outras pessoas conseguem falar comigo muito bem para a sua informação”

“Então os seus amigos tem uma paciência bem maior do que a minha para ouvir você falando sobre o seu épico amor colegial por Sabrina Nunes”

“Eu não tenho mais amigos agora, a Sabrina ficou com todos eles após a separação”

“Claro que você tem, eu já vi você com um monte de gente, já vi você jogando xadrez no intervalo com aqueles caras que estão sempre na biblioteca da escola, na entrada você está sempre conversando com a sua irmã e deve haver pelo menos uma pessoa que você encontre toda vez que você saí para matar aula”

“Sim, mas não dá pra falar sobre essas coisas com a minha irmãzinha, e eu tenho uma reputação a manter com os caras”

“Você pode falar comigo”

“Engraçado”

“Eu não estou brincando, você pode falar o que quiser comigo porque minha imagem de você já é péssima, se bem que depois dessa noite essa não deve mais ser uma das minhas peculiaridades”

“Você não quer falar comigo”

“Eu quero sim se essa for a maneira de conseguir te tirar do chão, ir pra casa, e francamente tomar um banho, sério Eric até grunges se sentiriam enojados pela quantidade de sebo no seu cabelo”

“Tá bem, eu falo com você se você prometer não falar com a Sabrina o que eu te disser e se você parar de me insultar pelo resto da noite”

Alice considerou a proposta por um momento.

“Tudo bem,vai ser difícil a parte dos insultos, mas eu vou tentar”

“E só pra constar, eu lavei meu cabelo antes de ir pra festa hoje, é só que no meio do briga o novo namoradinho da Sabrina pegou um copo com refrigerante de uma das mesas e jogou na minha cara e pegou muito no meu cabelo, e eu não pensei em lavar antes de sair de lá, pode encostar e você vai sentir que está melado e não ensebado”

“Eu vou acreditar na sua palavra, embora seja mais porque eu não quero ter que encostar no seu cabelo melado, sentar no chão é o máximo de sujeira que eu estou disposta a entrar em contato por você essa noite”

“Você é tão esnobe”

“Não é esnobismo, é higiene básica. E por um acaso você pode me insultar ?”

“Sim eu posso, não tinha nenhuma parte do acordo que dizia que a regra de não insultos era mutua” ele disse satisfeito.

“Você vai ser um advogado bem irritante um dia, bem-sucedido mas irritante”

“Isso conta como um insulto também, mas eu vou deixar passar. E também eu não quero mais ser um advogado”

“Então oque você quer ser ?”

“Eu não sei”

“Não tem nenhuma idéia ?”

“Bem, tem uma, mas você vai achar idiota”

“Provavelmente. Mas dada as circunstancias eu provavelmente não vou conseguir expressar isso da mesma forma que faria em outras circunstâncias”

“Bem, eu queria ser um professor, mas o salário é uma droga, crianças e adolescentes parece uns monstros as vezes, e todo mundo acharia estúpido”

“Você seria bom nisso”

“Sarcasmo conta com o insulto também”

“Essa é uma regra muito injusta, mas para a sua informação eu não estava sendo sarcástica. Você seria bom nisso, mesmo, nas vezes em que nós acabamos na mesma sala e tinha aquelas apresentações na frente da classe as suas eram umas das poucas que eram assistiveis e provavelmente a única interessante mesmo. E pessoas são sempre difíceis, é parte da condição humana, e você parece saber lidar bem com os seus irmãozinhos então essa também é uma área que você deve levar uma certa facilidade”

“Isso foi muito legal, você bebeu algo antes de vir aqui ?”

“Não. Eu posso ser gentil, as vezes”

“Então você deve realmente querer me tirar daqui pra adular o meu ego desse jeito”

“Sim eu quero, mas eu não estava mentindo, eu já te disse isso, não tem porque você ser tão inseguro o tempo todo, e antes que você comece a citar a regra, isso não conta como um insulto, é uma característica apenas”

“Eu sei. Obrigada”

“De novo : não precisa agradecer eu só estou dizendo oque eu acho de verdade, você está mais lento que o normal”

“Não por isso, por vir aqui, e por escutar, eu não estava esperando isso de ninguém na verdade”

“Você vai chorar ? Tudo bem se você quiser, a nossa clausula de confidencialidade cobre reações emocionais mais fisicas”

“Quer saber de uma coisa, talvez eu chore, e quer saber o porque : eu não gosto de você, verdade eu não gosto de tantas pessoas assim, mas eu particularmente não gosto de você, tem momentos que eu acho que eu poderia começar a minha própria religião baseada no quanto eu não gosto de você. Sabe você é tão irritante, e controladora...”

“Okay eu proponho que a regra dos não-insultos se torne mutua agora porque se não você vai acabar não só miserável, mas com os dois olhos roxos”

“...E você está me interrompendo, e você acha que você está sempre certa, você é tão competitiva, você dizia o tempo todo pra minha namorada que ela conseguiria alguém melhor do que eu, isso era tão humilhante, e você é pratica ao ponto de ser um defeito porque você parece considerar qualquer tipo de sentimentalismo uma bobagem, e tem pouquíssimas coisas no mundo que eu ame tanto agora quanto a droga da sua presença aqui, e eu não quero ir porque eu sei que ninguém me ouviria do jeito que você está ouvindo agora amanhã. Agora esse é o motivo principal pra eu não poder sair daqui. Então é talvez eu chore Alice”

Eric esperou que ela o socasse assim que terminasse de falar, ou que talvez o abraçasse, mas ela só continuou o encarando, como se o estivesse analisando. Até que finalmente disse :

“Se houvesse alguém pra você despejar todas as suas angustias amanhã, você iria pra casa agora ?”

“Não tem ninguém que faria isso”

“Eu vou. Ser sua babá emocional não é exatamente como eu estava planejando passar o final do meu último semestre, mas se você vier comigo nesse segundo eu prometo que eu vou. E eu realmente estou ocupada com a comissão da formatura, a presidência do grêmio, e eu tenho a minha preparação pro vestibular, mas eu tenho certeza que eu posso arranjar uma ou duas horas por dia pra ouvir sobre os seus sentimentos sobre o seu trágico amor épico, até que você sinta bem e feliz de novo ou até que você ache alguém melhor pra cumprir essa tarefa do que eu. Mas eu reservo a mim mesma o direito de te insultar quando eu achar necessário”

“Você odiaria isso”

“Provavelmente. Mas não mais do quanto eu odeio estar aqui agora. Nós temos um acordo ?”

“Sim”

“Bom, então seja um cavalheiro uma vez na vida e me ajude a levantar”

Ele se levantou do chão e lhe estendeu a mão. Ela a pegou e assim que estava de pé a largou.

“Sabe você realmente poderia ter feito o seu argumento sem acrescentar a sua listinha dos meus defeitos” Alice disse.

“Desculpa” Eric disse um tanto embaraçado.

Ela não respondeu, só continuou andando para o outro lado da praça, aí parou e disse :

“Não. Não. Não. Não. Droga. Não. Não. Não”

“O que foi ?”

“Eu disse pro babaca do taxista me esperar por dez minutos que eu já voltava, não é possível que já tenha passado dez minutos.”

Ela respirou fundo e começou a desamarrar as tiras de suas sandálias.

“Você carrega as minhas sandálias” Alice disse enquanto as tirava de seus pés ficando descalça.

“Porque eu deveria fazer isso ?” Eric disse olhando para as sandálias suspeitamente.

“Porque nós vamos ter que andar por dois bairros até o próximo ponto de taxi em funcionamento a essa hora, e esses saltos acabariam com os meus pés. E como foi a sua demora que fez o meu taxi ir embora você vai carrega-los , e você devia se sentir com sorte por eu não estar fazendo você me carregar de colo até lá”