Eric & Alice
2 Capítulo 2
Eric Mena amava Sabrina Nunes, a amava desde a primeira vez que a tinha visto ao entrar naquela escola aos doze anos, ele amava os seus longos cabelos ruivos, as sardas que haviam sobre seu nariz. Ele amava o jeito que ela abraçava as pessoas com mais força do que seria esperado de uma garota magrela como ela, e apesar de não ter muito interesse em futebol gostava de assistir os jogos de seu time com ela porque ela ficava toda empolgada quando este marcava um gol e bem irritada quando o arbitro fazia algum julgamento com o qual ela não concordava. Ele amava os seus olhos verdes e o seu sorriso que o fazia ter vontade de sorrir também. Mas nos seis meses em que namorou com ela o que mais amava era o fato dela o amar de volta, ou pelo menos era isso que ele gostava de acreditar nos seus melhores dias, ela nunca havia dito as palavras, e nem ele, mas ele tinha certeza nos bons dias e nos dias restantes torcia para que fosse verdade. Frequentemente nesse período ele se encontrava a encarando e se perguntava se não estava tendo um sonho louco e maravilhoso em que ela tivesse no inicio do ano sido posta na mesma classe que ele e por coincidência escolhido o lugar logo atrás do dele para se sentar, e tivesse começado a conversar com ele sobre coisas casuais, e que no dia de uma visita escolar a universidade do outro lado da cidade ela tivesse sugerido que eles fugissem da mini excursão e fossem dar um passeio pelo bairro e que na praça ali perto bem embaixo da estátua de anjo ela tivesse lhe beijado, e que no ônibus de volta para a escola ela tivesse dito que sim quando ele perguntou se gostaria de namorar com ele. Ele olhava, sorria e não conseguia acreditar, embora tentasse se conter um pouco porque se fizesse isso por tempo demais com certeza Alice Amaral estaria lá para lhe informar que ele estava sendo estranho de novo. Não que não houvesse coisas sobre Sabrina Nunes que ele não gostava. Ele não gostava de como o olhar dela seguia qualquer cara atraente que passasse por ela na rua, ele não gostava muito do seu habito de manter as unhas bem grandes porque no calor do momento ele sempre acabava arranhado, ele não gostava dos risinhos que ela dava quando reclamava de ser arranhado. E ele não gostava que a cerca de um mês atrás ao lhe perguntar porque ela estava terminando com ele ela ter lhe dito que ele olhava para ela como se o sol brilhasse de seu sorriso, o que para ela isso era muita pressão.
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Quando Alice tocou a campainha da casa dos Mena naquela tarde foi Liz, a irmã mais nova de Eric que atendeu. Liz era uma garota baixinha com cabelos negros com corte channel, estava no primeiro ano mas já fazia parte do grêmio estudantil e Alice viera a passar um número razoável de tardes na companhia da outra garota, as duas não eram melhores amigas e dificilmente falavam sobre outra coisa além do grêmio mas Alice gostava dela, a achava organizada e responsável, provavelmente a mais indicada a ocupar o seu lugar no grêmio após a sua graduação.
“Oi. O seu irmão está em casa ?”
“Sim. Obrigada por ir buscá-lo ontem de noite”
“Hum, de nada. Como ele está ?”
“Ele está escutando a música I don’t wanna get over you da banda The Magnetic Fields. Repetidamente. No volume máximo. No quarto ao lado do meu”
“Então você não vai querer ouvir a música pelo resto do ano, não é ?”
“Provavelmente pelo resto da minha vida”
Alice riu.
“Eu tenho que sair agora, você sabe onde fica o quarto dele não sabe ?”
“Sei. Tchau”
“Tchau” Liz disse fechando a porta atrás dela.
Na verdade Alice não se lembrava direito, só havia estado dentro daquela casa uma outra vez mas conseguiu se guiar pela música que vinha do corredor então achou o quarto em questão rapidamente e bateu nas porta duas vezes.
“Eu já te disse Liz : Dor exige ser sentida. Em volume máximo em alguns casos” Eric disse de dentro do quarto.
“Não é Liz. E nós temos essa maravilhosa nova tecnologia chamada fones de ouvido, você devia procurar”
A música foi desligada e Eric abriu a porta devagar.
“Você está aqui” ele disse.
“Sim”
“Na porta do meu quarto”
“Brilhante poder de observação, não é a toa que você costumava tirar as segundas melhores da classe”
“Na verdade eu sou o primeiro nos últimos dois anos”
“Claro que sim, afinal nós acabamos em turmas diferentes nesses últimos dois anos”
“Exibida”
“Você faria o mesmo no meu lugar”
“Mas novamente : Você está no meu quarto”
“O nível de inteligência da sua classe deve ser bem baixo nos últimos dois anos”
“Ha ha. O que eu quis dizer é : porque você está aqui ?”
“Eu te disse que ia te ajudar com a Sabrina”
“É mas você disse isso só pra que eu viesse para casa e cala-se a boca”
“Você está enganado. Eu fiz isso exclusivamente para que você viesse para que você viesse pra casa, tentar fazer com que você se cale é algo que eu já sei ser impossível. Mas independentemente disso eu tento manter o hábito de cumprir a minha palavra, mesmo que seja só com você. Eu estava esperando poder realizar isso no intervalo no colégio hoje, mas não consegui te encontrar”
“Eu não fui. Como você foi ?”
“Eu peguei o ônibus como sempre”
“Eu não to falando disso. É que só deve ter dado pra você dormir umas três horas depois de você ter me deixado aqui”
“Duas horas e meia na verdade”
“Eu estou impressionado”
“Isso não é necessário”
“Claro que é, eu não conseguiria ir para escola depois de ter ficado acordado tão tarde”
“Eu tive o auxilio de café. Mas sobre você, se o seu drama tivesse ocorrido durante a tarde ao invés da madrugada você teria ido pra escola hoje de manhã ?”
“Yeah... eu achei que as pessoas iam ficar falando do que eu fiz ontem”
“Algumas falaram”
“A Sabrina falou alguma coisa ?”
“Ela também não foi a aula hoje, mas no caso dela o sono foi provavelmente o único motivo”
“Mas oque você acha que ela vai falar ?”
“Eu não sei, eu sou amiga dela mas eu não vivo na cabeça dela”
“Oque você faria no lugar dela ?”
“Pediria uma ordem de restrição, ou ligaria para a sua mãe a informando do seu comportamento”
“Meu deus você é cruel”
“Vai me dizer que não seriam medidas eficientes?”
“Você acha que ela faria isso ?”
“Não, eu já sugeri pra ela, e não fique com essa cara emburrada, foi antes do nosso acordo”
“Tudo bem” Eric disse ainda irritado.
“Bom, então sobre oque você quer falar a respeito ?”
“Ela ainda fala sobre mim ?”
“Meu deus você não pensa em nada além dela ?”
“Sim, eu penso, mas não muito no momento, mas da pra responder ?”
“Sim, as vezes, ela diz que você manda poemas pra ela”
“Ela te mostrou eles ?”
“Não ela disse que eu riria, ela provavelmente estava certa, mas ela disse que eram bem bonitos”
“Não fui eu que os escrevi, foi Pablo Neruda”
“Bem, isso explica porque ela gostou, você devia colocar o nome dele em parênteses no final para evitar confusões como essa”
“Yeah...”
“Você fez de propósito ?”
“Não, quer dizer mais ou menos, eu realmente sinto as coisas descritas neles, então não é falso”
“Eu tenho certeza que as pessoas que lidam com direitos autorais discordariam”
“Mas nenhuma delas está aqui agora. E você realmente quer arrumar uma briga por causa da moral de plagiar autores em e-mails para a minha ex?”
“Isso não é briga, é uma discussão sobre um assunto que você mencionou, é bem diferente”
“Tá”
“Mas eu não acho que seja tão errado assim, fica pelo menos na área moralmente cinza”
“Eu vou considerar isso uma vitória”
“É mais um empate”
“Eu estou mal, não da pra você me deixar ter uma vitória ?”
“Tudo bem, mas não se acostume”
“Eu nem sonharia com isso”
“Bom”
“Yeah”
“Então...eu sei que você provavelmente não vai gostar do que eu vou dizer agora, mas eu tenho que dizer, ela pode achar os poemas belos, mas isso não significa que ela gosta de recebe-los, principalmente depois das coisas que rolaram ontem”
“Oque você recomenda que eu faça”
“Sei lá, deixar Neruda de lado por uns tempos e vá ler algum mistério da Agatha Christie, tentar tirar um pouquinho o romance da sua cabeça por algumas horas”
“Isso soa agradável”
“Isso significa que eu você vai fazer ?”
“Significa que eu vou pensar a respeito”
“Okay, você parece bem, e eu tenho coisas a fazer fora daqui, ou você quer que eu fique mais tempo porque não tem nada no mundo que você ame mais do que a minha maldita presença na sua vida nesse momento?” ela disse com uma voz melodramática e depois rindo ao ver a expressão irritada de Eric.
“Não. Tchau. Você nunca vai me deixar esquecer essa frase ?”
“Provavelmente não” ela disse.
Eric pensou que talvez devesse acompanha-la até a porta da frente mas quando ainda estava pensando em fazer isso ela se virou e foi embora.Ele colocou Magnetic Fields para tocar assim que ouviu o som da porta da frente se fechando, mas dessa vess era All my little words ao invés de I don’t wanna get over you, o que honestamente não era tanto progresso assim, mas era alguma coisa.
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