Erased- Astralion e o culto misterioso.
3 Prelúdio da tempestade
Parte 1
Dentro de uma pequena barraca improvisada nas planícies que cercavam Bugres, um homem observava o mapa da cidade com olhar severo. As velas tremulavam, projetando sombras trêmulas sobre o papel amarelado, onde linhas e anotações se cruzavam num emaranhado de estratégias e incertezas.
Para ele, proteger a vida da princesa era mais do que uma missão — era uma questão de honra. Mesmo em território hostil, sabia que qualquer descuido poderia significar o fim não apenas dela, mas de todo o reino.
Já se haviam passado dias desde a chegada da princesa à cidade, mas Kael Roderik não conseguia ignorar a sensação constante de perigo que emanava de Bugres. Seu corpo permanecia em alerta, os sentidos aguçados, como se a própria terra sussurrasse advertências. Mesmo à distância, sentia a presença da cidade crescer — uma sombra viva, que se alargava a cada amanhecer, ameaçando engolir tudo ao redor.
Sua aparência denunciava o peso das batalhas. Mesmo coberto pela armadura, era possível notar cicatrizes antigas, marcas deixadas por combates dos quais sempre saíra vencedor. O cabelo negro curto e os olhos escuros refletiam determinação e frieza, um homem moldado pela guerra e pela disciplina.
Kael deslizou o dedo sobre o mapa, seguindo com o olhar as rotas de patrulha que ele mesmo havia traçado. A expressão era dura, o semblante, inabalável. Ainda assim, havia algo que o inquietava — a ausência de notícias de Darian Veynor, seu amigo e companheiro de armas.
Ele conhecia bem o temperamento do guarda real. Sabia que Darian jamais abandonaria a princesa — nem mesmo diante do impossível. E era exatamente isso que o preocupava.
Kael não era diferente. Em todas as lutas que travara, havia um propósito, e desta vez não seria distinto. A ascensão da princesa Seliora D’Ímpeto era fundamental para a prosperidade do Império.
Kael ergueu o olhar, fitando a cortina de lona que balançava com o vento noturno. Do lado de fora, o som distante de passos e murmúrios dos soldados se misturava ao estalar das tochas.
Sabia que os cavaleiros enviados para patrulha deveriam retornar em breve, trazendo informações cruciais sobre a situação. A posição onde estavam era segura — estrategicamente escolhida para permitir uma resposta rápida. Bastaria um único sinal vindo de Darius Veynor para que pudessem cavalgar rumo à cidade sem hesitação.
De repente, o som de cascos rompeu o silêncio pesado da noite. Kael ergueu a cabeça, a mão indo instintivamente à espada apoiada ao lado da mesa.
A lona da entrada foi empurrada às pressas. Um soldado surgiu, ofegante.
— Senhor...
A voz trêmula bastou para que Kael se erguesse. Não precisou dizer nada — apenas fez um gesto curto com a mão, e o homem se afastou, abrindo passagem.
Logo depois, um cavaleiro entrou. Estava pálido, os olhos fixos no chão, o corpo trêmulo como se tivesse deixado a alma no caminho até ali. Não era medo do comandante — era algo muito pior.
Kael o reconheceu de imediato.
Seu nome era Darius Holt.
Um jovem cavaleiro de aparência nobre, conhecido por sua maestria tanto com a espada quanto com a magia. Desde o dia em que ingressara na cavalaria, seu cabelo vermelho ardente lhe rendera um título que ecoava entre os soldados:
“O Fogo Abençoado de Ímpeto.”
— O que houve, Darius? — perguntou Kael, a voz controlada, porém firme.
— Achamos uma coisa, senhor... mas... —
O vice-comandante percebeu o receio nas palavras. Até mesmo o olhar valente de Darius parecia ter se apagado. O que quer que tivessem encontrado, era grave.
Com um olhar afiado, Kael passou pela entrada da tenda. O vento frio o atingiu, trazendo consigo o cheiro de fumaça e terra molhada. Os soldados se endireitaram ao vê-lo sair — atentos, silenciosos, quase como se aguardassem julgamento.
Ao redor da fogueira, três cavaleiros estavam sentados, as mãos trêmulas sobre pequenas vasilhas de água. O terror estampado em seus rostos falava mais do que qualquer relato.
— Enquanto o senhor analisava o mapa de Bugres, esses três foram cumprir a vigília, conforme sua ordem — disse Darius, a voz trêmula, hesitante. — Mas... acabaram encontrando uma passagem subterrânea. Entraram lá... e viram...
Por mais que a curiosidade o corroesse, Kael conteve a ansiedade. Sentia o peso dos olhares dos soldados à sua volta.
O que poderia abalar guerreiros acostumados a marchar lado a lado com a morte?
Um vento súbito soprou pela fresta da barraca, fazendo as chamas da fogueira vacilarem. O estalar da lenha tornou-se o único som permitido entre eles.
Kael deu um passo à frente, a sombra de sua figura projetando-se sobre os três cavaleiros. Os olhos dele, frios e atentos, buscavam respostas.
— Falaram de uma passagem subterrânea — disse, a voz grave cortando o silêncio. — Quero saber exatamente o que viram lá embaixo.
Os homens se entreolharam, inseguros. Um deles, de rosto pálido e barba rala, apertava a vasilha entre os dedos como se temesse deixá-la cair. Nenhum parecia disposto a falar.
Não era simples hesitação.
Era medo — o tipo de medo que arranca a voz de um homem.
O silêncio se prolongou a ponto de se tornar insuportável. O crepitar das chamas parecia zombar da hesitação deles. Kael manteve-se imóvel, a sombra do fogo desenhando linhas severas em seu rosto.
— Então? — sua voz soou baixa, mas cortante, como aço sendo desembainhado.
Ele não queria forçá-los a falar — mas o tempo não estava a seu favor.
Se fosse algo realmente importante, deveria ser dito agora.
O mais velho dos três, um homem chamado Hedric, respirou fundo e quebrou o silêncio:
— Senhor... a passagem fica ao norte, próxima ao velho poço de pedra. O chão cedeu enquanto patrulhávamos e encontramos um corredor... frio, profundo. As paredes eram cobertas por símbolos. — Ele fez uma pausa, engolindo em seco, o olhar perdido por um instante. — Símbolos que... não reconhecemos.
K Kael franziu o cenho, cruzando os braços.
De fato, ao redor do Ímpeto existiam inúmeros símbolos desconhecidos, mas nenhum deles parecia digno de causar medo. Contudo, havia algo além disso.
— Símbolos? — repetiu, com a voz firme.
Um dos homens assentiu.
O ar pareceu pesar. Um mau pressentimento percorreu o acampamento. O vice-comandante voltou o olhar para o horizonte, na direção do velho poço de pedra.
— Creio que simples símbolos não seriam capazes de assustar os cavaleiros da princesa... — murmurou, a ironia se misturando ao cansaço. — Ou estou enganado?
O silêncio caiu novamente. Os três cavaleiros se entreolharam, talvez em busca de coragem — ou de palavras que pudessem descrever o que haviam visto.
Por fim, o mais jovem deles respirou fundo e começou a falar:
— Nós entramos. Caminhamos pelos becos... e, à medida que avançávamos, percebemos que estávamos sob a cidade de Bugres. — Sua voz vacilava. — Mas nossa satisfação pela descoberta logo se desfez quando vimos o que havia lá.
Ele engoliu em seco antes de prosseguir:
— Ossos, senhor. Estavam por toda parte. — Fez uma breve pausa, o olhar fixo no chão. — Ossos humanos... de crianças, mulheres... e homens. Sentíamos que algo nos observava. Por um momento, achei que não sairíamos vivos. A escuridão parecia... querer nos consumir.
Os cavaleiros estavam acostumados à morte.
Quem escolhe esse caminho aprende cedo que viver como cavaleiro é desafiar a própria mortalidade — lutar dia após dia em campos de batalha, esperando que o sacrifício um dia valha a pena.
Não era a primeira vez que viam ossos humanos; muitos deles já haviam marchado sobre cadáveres e ruínas. Mas, naquele relato, havia algo diferente. Algo que ultrapassava o horror da guerra.
Kael percebeu isso de imediato.
Nos túneis, eles haviam encontrado algo pior do que a morte.
Mesmo com as armaduras ainda presas aos corpos, os olhos dos homens estavam vazios — como se parte deles tivesse ficado lá embaixo, engolida pela escuridão da passagem. As placas metálicas estavam riscadas, amassadas, marcadas por golpes invisíveis. Ainda assim, o que mais chamava atenção não eram as feridas no aço... mas as cicatrizes na alma.
Eles haviam voltado vivos — mas sem vida no olhar.
E Kael se perguntou, em silêncio: o que poderia causar tamanho terror?
Como líder, Kael poderia ordenar que aqueles três o guiassem até a entrada do túnel. No entanto, sabia que isso apenas aprofundaria o trauma que já carregavam. Precisava que todos os seus cavaleiros estivessem prontos — em corpo e espírito — para o que pudesse vir.
Mesmo assim, uma chama incômoda de curiosidade e dever cresceu em seu peito, queimando silenciosamente.
— Deem descanso a esses homens — ordenou Kael, a voz firme, porém contida. — Amanhã será o festival do Novo Deus... mas, antes de partirmos, quero saber o que há sob a cidade.
— Sim, senhor! — respondeu Darius Holt, erguendo o punho sobre o peito em sinal de respeito.
Darius Holt permaneceu imóvel por alguns instantes, observando o vice-comandante desaparecer de volta para dentro da barraca. A chama da fogueira refletia em seus olhos, revelando uma preocupação que ia além da simples obediência militar.
Apesar da juventude, Darius compreendia o peso daquela missão. A segurança da princesa não era apenas uma questão de honra — era o fio que sustentava o equilíbrio do Império.
Nos últimos meses, a popularidade da princesa havia crescido entre o povo, despertando admiração... e inveja. Sua voz, firme e compassiva, começava a ameaçar o poder dos nobres.
A fome e a miséria que se espalhavam pelas províncias não eram fruto do acaso, mas de mãos poderosas que se escondiam atrás de véus dourados.
E por trás de tudo, estava um nome que poucos ousavam pronunciar — o grão-duque August Heavens.
Havia rumores entre os próprios cavaleiros de que o festival do Novo Deus não passava de uma farsa, uma cortina de fumaça para desviar a atenção de Bugres, o centro estratégico do grão-duque. Mas seria verdade?
O grão-duque era um homem envolto em mistério: coberto de glórias e honras, mas com um lado sombrio que poucos ousavam mencionar.
Nem mesmo o desaparecimento de seu filho mais novo — dado como morto — conseguiu abalar sua compostura. Uma frieza quase inumana o mantinha firme diante da tragédia, reforçando a sensação de que havia mais por trás das aparências.
Com o olhar distante, o jovem cavaleiro fitou a cidade de Bugres. Seu estilo gótico, único e iluminado pelos preparativos do festival, conferia-lhe uma aparência deslumbrante.
No entanto, por trás de tanta beleza, havia algo que provocava desconforto em seu corpo — uma sensação sutil, quase imperceptível, de que nem tudo ali era o que aparentava ser.
Os três cavaleiros foram levados a uma pequena barraca para repousarem. Era evidente que haviam passado por uma experiência traumatizante.
Darius conhecia bem aqueles homens. Por mais que nem todos se destacassem em combate por gosto próprio, sempre cumpriam seus deveres com perfeição. Na arte da magia e da espada, cada um deles poderia ser considerado um dos melhores — dignos, sem dúvida, de servirem como cavaleiros da princesa de Ímpeto.
A noite avançava lentamente, e a cidade de Bugres brilhava ao longe, iluminada pelos preparativos do festival do Novo Deus. O som distante de risos e músicas ecoava pelas ruas góticas, criando um contraste inquietante com a escuridão que cercava o acampamento.
Kael Roderik ajustava o cinto da espada, o cabo frio pressionando sua mão com firmeza. Ao seu lado, Darius Holt observava o mapa, traçando mentalmente a rota até o velho poço de pedra, onde a passagem subterrânea se iniciava.
Junto deles, um pequeno batalhão de dezoito homens se preparava. Usavam armaduras flexíveis, feitas de um material de altíssima qualidade, capaz de absorver impactos e refletir magia. Cada detalhe da vestimenta demonstrava cuidado e precisão militar.
— Não podemos subestimar o que encontraremos lá embaixo — disse Kael, a voz baixa e controlada. — Os relatos dos cavaleiros foram claros, mas ainda assim não sabemos tudo.
Darius assentiu, sentindo o peso da responsabilidade. Cada passo dentro daquele túnel poderia ser o último. Mesmo sendo experientes, ambos sabiam que estavam prestes a adentrar algo que não era feito apenas de pedra e escuridão, mas de segredos capazes de abalar o império.
Kael acendeu duas tochas. A luz trêmula iluminou os rostos do grupo, projetando sombras longas e distorcidas contra as tendas.
Eles avançaram silenciosamente pelo acampamento, desviando dos soldados que descansavam. Cada ruído parecia mais alto do que realmente era, cada estalo de madeira ressoando como alerta.
A arqueta da passagem chamava atenção por sua estranheza. Estava aberta no chão, revelando múltiplos túneis e degraus que desapareciam na escuridão. Ao todo, cinco tuneis se ramificavam a partir dali, e ninguém sabia exatamente onde levavam. Alguns pareciam seguir em direção à cidade, enquanto outros se perdiam nas planícies, engolidos pela penumbra.
O vento frio soprava do subterrâneo, carregando um odor úmido e envelhecido. Mas havia algo mais — um cheiro metálico, intenso, quase familiar. Ferro? Não, sangue.
Darius lançou um olhar ao capitão, ansioso por ordens. Ao mesmo tempo, não pôde deixar de sentir o mesmo desconforto silencioso que afligia Kael, uma inquietação que parecia pairar sobre eles como uma sombra invisível.
Era nítido a sensação de desconforto nos cavaleiros, parecia que todos sentiam a mesma coisa.
Observando a escuridão, o vice-comandante sentiu o peso do local. Era difícil compreender como os três cavaleiros haviam entrado ali sem consultá-lo primeiro. Loucura ou coragem? Pensou Kael, franzindo o cenho enquanto estudava cada sombra do túnel.
— Se dividam e vamos verificar para onde isso nos leva. Mas lembrem-se: não hesitem em recuar. Suas vidas são importantes! — ordenou Kael Roderik.
Com um salto firme, o vice-comandante avançou, pousando diante da entrada que se conectava diretamente à cidade de Bugres. Ele esperou pacientemente até que o batalhão se posicionasse, observando cada homem com olhar crítico antes de adentrar a escuridão.
Nos olhos deles havia uma mistura de receio e coragem — o reflexo de soldados prontos para enfrentar o terror, qualquer que fosse sua forma.
Ao lado de Kael marchavam Darius Holt e Gareth Venn, atentos a cada som, cada movimento sutil ao redor.
Kael segurava uma tocha na mão direita; a chama trêmula lançava feixes de luz sobre o caminho à frente. No entanto, quanto mais avançavam, mais parecia que algo invisível bloqueava a iluminação. Uma pressão no ar, como se a própria escuridão engolisse a luz, absorvendo-a em um silêncio denso e opressor.
Gareth Venn mantinha-se mais recuado, os olhos fixos nas imagens gravadas nas paredes do túnel. Nunca havia visto brasões como aqueles. Não eram símbolos de coroas, espadas ou dragões. Eram linhas orgânicas, irregulares, que pulsavam como veias vivas, todas convergindo para uma figura central: um lagarto de olhar penetrante, com garras que pareciam se mover por vontade própria, como se o próprio fundo do túnel respirasse.
De repente, Kael parou, fixando o olhar em um ponto distante do corredor. Gareth, absorto nos símbolos, não percebeu a parada brusca e quase colidiu com o capitão. Por reflexo, pensou em se desculpar, mas ao erguer os olhos, viu Kael e Darius Holt hipnotizados, ambos encarando a imensidão escura do túnel.
Um calafrio percorreu a espinha de Gareth. Ele não teve coragem de perguntar o que viam; ao contrário, manteve o olhar fixo, tentando compreender aquilo que provocava tamanha apreensão nos dois veteranos.
Era estranho. Esquisito. Abominável.
A escuridão parecia respirar, como se sorrisse diante da visita inesperada.
Kael sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se o próprio túnel respirasse sobre ele. Havia algo ali — algo vivo — observando, silencioso, paciente, aguardando o momento certo para invadir seu território. O ar parecia pesado, saturado por uma energia antiga e faminta. Cada batida de seu coração se misturava a uma sensação de perigo absoluto, como se a própria escuridão escondesse dentes afiados e olhos incandescentes, ávidos por sangue.
— Senhor... — sussurrou Darius, a voz quase se perdendo no ar denso do túnel.
— Eu sei... — respondeu Kael, com a respiração pesada. Seus olhos tentavam penetrar o breu. — Ele está sorrindo.
Eles não viam a criatura — a luz das tochas não era suficiente —, mas, de algum modo, ambos sabiam que ela sorria. Era uma certeza instintiva, primal, que não exigia olhos para ser compreendida.
— O que faremos? Recuar ou atacar? — perguntou Gareth Venn, a ansiedade evidente em sua voz.
A verdade era que ele não conseguia sentir o mesmo que os outros dois. Talvez fosse a juventude, ou a falta de cicatrizes de guerra — mas o medo que o tomava era o medo do desconhecido, não o de algo vivo e consciente.
— Não consigo vê-lo... — Murmurou Kael, o olhar fixo na escuridão. — Mas sinto que não é humano.
Um silêncio pesado tomou conta do túnel, quebrado apenas pelo som das próprias respirações e pelo estalo das tochas. Gareth apertou a empunhadura da espada, mas, mesmo ele, percebeu que aquela presença não se comparava a nenhum inimigo já enfrentado.
Se fosse humano, bastaria um golpe para feri‑lo. Mas a sensação que subia pela espinha de cada homem era cristalina: não se tratava de carne e sangue comum.
A escuridão escondia a criatura, mas não a limitava: ela acompanhava cada movimento dos cavaleiros, como se a sombra fosse sua aliada.
Os três trocaram olhares rápidos. A mensagem era clara: qualquer passo em falso poderia despertar algo muito mais letal do que qualquer guerra que já tivessem vivido.
O túnel parecia vivo, respirando junto com eles, observando cada movimento, como se esperasse pacientemente o instante certo para atacar.
— Darius! — a ordem foi dada.
— Sim, senhor! —
Darius guardou a espada e se posicionou à frente da tocha, os olhos fixos na escuridão.
Estendeu a mão direita e recitou a magia:
— “Fogo antigo, guardião do céu e da terra, que vossas línguas de fogo se ergam, para iluminar o caminho e purificar a escuridão.”
Enquanto recitava a magia, uma esfera de fogo surgiu na palma da mão de Darius, brilhando mais intensamente que a tocha. Ele a segurou como se fosse sólida e, com um gesto firme, lançou-a na escuridão.
A magia rasgou o túnel, dissipando parte da escuridão, mas a sensação opressiva não desapareceu. Algo ali não queria ser visto; parecia esperar, atento a cada movimento.
Então, antes que a luz se dispersasse por completo, uma silhueta humanoide emergiu. A magia não a tocou — pelo contrário, parecia atraída pelo fogo, aproximando-se como se desejasse se revelar.
A pele da criatura lembrava a de um lagarto, escamosa e refletindo o brilho flamejante. Seus olhos penetrantes fixaram-se nos três cavaleiros, atravessando-os com uma intensidade quase física.
Erguendo-se quase dois metros, a figura ostentava garras longas e metálicas, capazes de rasgar carne e pedra com igual facilidade. A mandíbula, dividida em quatro partes, abria-se de maneira antinatural, revelando presas que lembravam lâminas afiadas. Sua cauda deformada ondulava como uma corrente viva, transmitindo uma sensação inquietante de movimento constante, pronto a atacar a qualquer instante.
A visão assombrosa fez Gareth Venn tremer. Não havia como culpá-lo; até mesmo Kael Roderik percebeu que, por mais que lutassem com todas as forças, não existia meio de vencer aquela criatura. Não era humano — era algo jamais visto antes. Emitia não apenas uma sensação de perigo, mas também uma presença de sobrevivência, como se estivesse observando e avaliando cada passo dos intrusos.
— Gareth Venn... — sussurrou o vice-comandante.
Enquanto segurava a espada, as mãos do cavaleiro tremiam incontrolavelmente. Ele mantinha os olhos fixos na escuridão, tomado por um terror puro e primitivo.
Mesmo ao ouvir seu nome, não tinha coragem de desviar o olhar. Era como se seu corpo soubesse que, caso o fizesse, sua cabeça poderia ser arrancada instantaneamente.
— O... o... o que é... aquilo...? — gaguejou Gareth, a voz quase um sussurro.
— Sua missão é reunir os outros cavaleiros e sair daqui. — respondeu Kael, a voz firme, carregada de autoridade e urgência.
— Eu não consigo... Eu não consigo! — exclamou Gareth, sentindo o medo crescer a cada instante.
— Sim, você consegue! — afirmou Kael, firme. — Essa é a sua missão! Eu irei detê-lo, junto com Darius.
Então, o som de passos pesados ecoou pelo túnel, seguido pelo estalar da cauda da criatura, que cortava o ar como um chicote. O som reverberava pelas paredes, misturando-se ao batimento acelerado dos corações.
Ele estava se aproximando.
Brincava com o medo deles.
— Vai! — gritou Darius, empurrando Gareth com força.
Por puro medo, Gareth deixou a espada cair, sem se preocupar em pegá-la. Correu desabaladamente, o rosto contorcido pelo pânico, tropeçando em ossos e pedras, mas consciente de que precisava escapar dali o mais rápido possível.
Kael manteve o olhar fixo na escuridão, o corpo rígido, a mão firme sobre o punho da espada, cada músculo preparado para reagir.
— Eu sempre me preparei para lutar de frente contra meus inimigos — murmurou Darius, a voz firme, embora carregada de medo contido. — Mas sinto que, mesmo dando tudo de mim, morreria no instante seguinte. Há algum plano?
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Somente o gotejar distante da água e o estalar irregular da tocha quebravam a quietude. Kael permaneceu em silêncio, talvez porque, diante daquilo, soubesse que nenhum plano seria suficiente.
Um sopro quente percorreu o corredor, apagando parte da chama da tocha que o vice comandante segurava. O ar tornou-se pesado — como se algo invisível comprimisse o espaço ao redor deles.
Darius sentiu a nuca formigar. Um som baixo, gutural, reverberou na escuridão — não era um rugido, mas algo entre uma respiração e um riso abafado, carregado de intenções antigas.
Kael deu um passo à frente, a espada erguida à altura do peito.
— Está perto... — sussurrou.
O ruído da cauda voltou, chicoteando o chão de pedra. Cada impacto soava mais próximo, mais nítido, como se marcasse o ritmo do próprio medo. Uma garra — longa, negra como breu — riscou o chão, deixando um rastro profundo que faiscou brevemente à luz trêmula da tocha.
Então, dois pontos de luz emergiram na penumbra. Não eram olhos — pareciam brasas suspensas no ar, ardendo com uma consciência maligna, faminta.
Darius prendeu a respiração.
— Pelos deuses...
A criatura avançou um passo. A chama revelou fragmentos de sua forma — músculos densos cobertos por uma pele grossa e rachada, de um tom verde-lodo, com partes manchadas de sangue seco e fresco. O corpo pulsava como se algo vivo se movesse sob a carne. Cada passo fazia o chão ranger, o som ecoando como o lamento de algo antigo e profano.
Kael manteve-se imóvel, o olhar fixo.
— Agora entendo o terror dos três cavaleiros... — murmurou, a voz rouca, sem desviar os olhos da aberração que os fitava.
A distância entre eles diminuía, e o silêncio que se formava parecia vivo, denso, sufocante. A tocha projetava sombras disformes nas paredes — sombras que tremulavam como se desejassem escapar daquele lugar.
Kael ergueu a espada. O metal refletiu um brilho tênue, quase apagado pela presença daquela coisa.
Ao mesmo tempo, ele confiava em Darius, que recitava em silêncio a sua magia, os lábios se movendo num ritmo contido, quase desesperado.
Um passo.
Outro.
O chão tremia sob o peso da criatura.
O ar se tornara denso, vibrando como se o próprio túnel respirasse com eles — ou contra eles.
Eles não sabiam.
E não tinham como saber.
Mas a entidade diante deles era um Lacertílias — em sua forma pura.
Aquilo que um dia fora humano já não existia mais.
Seu nome, poucos lembravam — e, de fato, não importava. Nenhum conceito humano o prendia àquilo que um dia fora sua humanidade. Ele era um Lacertílias, um ser nascido para a batalha.
Se algum dia tivera laços de parentesco com August Heavens e Eminence, agora, graças ao Gear, eram apenas lembranças apagadas — ecos de uma linhagem que já não o alcançava.
Eles não sabiam, mas o filho dado como morto de August Heavens estava diante deles. Não havia simplesmente desaparecido — havia sido transformado em uma verdadeira máquina de batalha. Cada movimento seu irradiava precisão e crueldade, cada passo parecia calcular a destruição iminente. O silêncio do túnel, antes sufocante, agora se curvava à presença daquele ser, tornando cada respiração dos cavaleiros uma prova de resistência.
Kael sentiu a aura esmagadora que emanava dele. Darius percebeu, com um arrepio subindo pela nuca, que nenhum treinamento, nenhuma magia, nenhum esforço humano seriam suficientes para enfrentá-lo de igual para igual.
A criatura surgiu diante dos cavaleiros em completo silêncio, como se testasse a coragem dos invasores. Se a tocha apagasse, toda a visibilidade seria destruída; o perigo era absoluto. Kael segurou a espada com firmeza, os olhos fixos na figura que, mesmo emanando um desejo de sangue, parecia analisar cada comportamento, cada hesitação.
Um passo foi dado — não à frente, mas recuando, mantendo distância da figura.
— Humanos... tolos... — sussurrou a criatura.
A palavra, quase um sussurro, fez os cavaleiros estremecerem. Eles não sabiam se a entidade possuía verdadeira capacidade de falar ou se apenas imitava a voz humana, mas o efeito era o mesmo: um medo gelado percorreu suas espinhas.
Mesmo podendo se comunicar, não havia dúvida sobre suas intenções. Ele não estava ali para conversar. Estava ali para matar.
Kael permaneceu imóvel, corpo rígido como uma estátua de aço, os olhos fixos na criatura. A presença dela era esmagadora, paralisante, como se o ar ao redor tivesse se tornado mais denso, mais pesado.
Então, em um movimento rápido e quase imperceptível, a criatura ergueu uma de suas garras. Num ataque brutal, lançou-se contra Kael, buscando rasgá-lo ao meio em um instante.
— “Que vossas línguas de fogo se ergam! Queimar, destruir, devorar tudo à frente! Incendeie o mundo com meu comando!” — recitou Darius, a voz firme, carregada de magia.
Ele encheu os pulmões de ar e transformou cada molécula em chamas vivas. Com um gesto amplo, lançou todo o fogo em direção à criatura. A entidade não recuou, não desviou, não demonstrou qualquer intenção de interromper o ataque. Seu único objetivo permanecia claro: partir Kael ao meio.
O fogo de Darius explodiu pelo corredor, iluminando cada pedra, cada símbolo pulsante nas paredes. As chamas avançaram em direção à criatura, lambendo suas escamas com fúria. Por um instante, parecia que a magia triunfaria — mas não houve necessidade de esquiva. A criatura permaneceu imóvel, como se desafiasse as chamas.
Mesmo com a magia de Darius sendo ineficaz, o feitiço trouxe Kael de volta à realidade. Antes que as garras o rasgassem, ele saltou para trás, sentindo apenas a ponta de uma garra arranhar sua armadura, deixando uma falha profunda em seu peito.
A onda de calor queimava o ar, mas a criatura não se movia, encarando o vice-comandante com olhos que brilhavam como brasas vivas, cheios de inteligência e malícia.
Darius manteve os braços estendidos, concentrando toda a energia de sua magia. O corredor tremeu; pequenas pedras se desprendiam do teto, caindo ao redor, mas ele continuou firme, determinado a manter a chama viva.
Kael, sentindo o ar vibrar com a presença da criatura, respirou fundo e avançou, cada passo carregado de tensão.
Por mais que a magia de fogo de Darius fosse ineficaz contra o Lacertílias, ela iluminava o túnel, revelando cada detalhe das paredes e do corredor. A claridade tremulante facilitava o confronto, mostrando a posição exata da criatura e cada movimento de suas garras ameaçadoras.
O corredor, antes silencioso, agora vibrava com luz, calor e som.
A cauda do Lacertílias chicoteou o ar, espalhando e apagando parcialmente as chamas, como se reagisse à presença do fogo.
Era evidente que, naquele espaço estreito, a criatura possuía uma vantagem tremenda. Mesmo assim, fugir seria quase impossível — cada passo exigia cautela extrema, e a tensão pairava como uma lâmina invisível sobre Kael e Darius.
Kael largou a tocha, segurando a espada com ambas as mãos, cada fibra de seu corpo tensa como uma corda prestes a arrebentar.
Não havia outra saída — era lutar ou morrer. Ele apostaria tudo no próximo movimento.
— MORRAAA! — rugiu, avançando com força total.
A lâmina da espada brilhou intensamente, imbuída de sua magia no ápice do poder. Cada centímetro dela parecia carregado de intenção, pronta para cortar não apenas carne, mas a própria essência da criatura diante dele.
O som das botas de Kael ecoou pelo túnel, abafado pelo rugido grotesco da criatura.
O Lacertílias abriu a mandíbula, e um brilho alaranjado começou a pulsar em seu interior — como um coração de fogo prestes a explodir.
Kael hesitou por um instante, os olhos arregalados, tentando negar o que via.
Aquela coisa não estava apenas rugindo — estava conjurando.
Uma pequena esfera de luz, intensa e viva, formou-se dentro da boca do monstro.
O calor que emanava dela era sufocante, fazendo o ar vibrar e a pele arder.
Um zumbido crescente, cortante, ecoou pelo túnel.
Darius recuou instintivamente.
— I-isso... isso é magia?! — gaguejou, incrédulo.
Antes que pudessem reagir, o feixe foi disparado.
Uma rajada de pura energia atravessou o túnel, rasgando o ar como um trovão comprimido.
O clarão cegou tudo por um instante, lançando faíscas e estilhaços de pedra pelas paredes.
Kael ergueu a espada à frente, tentando se proteger.
A velocidade da magia tornava impossível qualquer esquiva.
Reuniu todas as forças para resistir.
O impacto o lançou contra a parede, o metal de sua armadura gritando sob o peso da explosão.
O túnel tremeu. A fumaça tomou o ar, densa e sufocante.
O cheiro de rocha queimada e ferro derretido dominou o ambiente.
Darius, ofegante, observava.
Por que a criatura não o atacava?
Era como se ela só tivesse olhos para o vice-comandante — como se Kael fosse o único ser digno de sua atenção.
Quando a fumaça começou a se dissipar, Darius sentiu o coração acelerar.
Entre a névoa espessa, uma silhueta surgiu.
Kael ainda estava vivo.
Não havia dúvida disso — ele respirava, mesmo que com dificuldade. Mas sua silhueta parecia... errada. Incompleta.
O vice-comandante estava de joelhos, o corpo curvado, apoiando-se onde antes estivera o punho de sua espada. A lâmina havia desaparecido, reduzida a fragmentos incandescentes espalhados pelo chão.
O mais terrível, porém, era o que restava de seu corpo.
Seu braço direito — junto com parte do ombro — havia simplesmente desaparecido.
Não queimado. Não cortado.
Desintegrado.
A carne terminava em uma borda irregular, luminosa, onde a energia da explosão ainda crepitava como brasas vivas.
O cheiro de ferro queimado e carne carbonizada misturava-se ao ar denso do túnel.
Darius recuou um passo, a voz presa na garganta.
— S-senhor Kael...
Mas o vice-comandante não respondeu.
O material da armadura feita da mais alta qualidade mais parecia papel para a criatura.
Ele apenas ergueu o rosto, os olhos fixos na escuridão, e um sorriso breve — quase insano — se formou em seus lábios.
O sorriso em seu rosto não era por esta vivo, mais sim uma declaração. Era o fim.
A criatura não apenasconheciamagia.
Ele a dominava.
Darius ergueu a espada e avançou em direção ao monstro, gritando por puro instinto — o grito de um homem tentando convencer a si mesmo de que ainda tinha algum controle.
Mas antes que pudesse dar o segundo passo, seu corpo tombou para o lado.
Por um instante, ele não compreendeu o que havia acontecido. Estava certo de que seus olhos haviam permanecido fixos na criatura. Ela o ignorava, permanecendo de costas, imóvel. Nada havia escapado à sua visão, ou ao menos era isso que ele acreditava.
Então, finalmente, olhou para baixo.
Não era que a criatura considerasse Kael especial; simplesmente Darius era tão insignificante aos olhos dele que sequer merecia atenção — alguém digno apenas de desprezo.
O tempo pareceu se congelar ao seu redor. O chão, manchado de sangue, revelava um cenário aterrador: a poucos metros, algo jazia imóvel, coberto pela armadura reluzente do exército real.
Era a sua própria perna.
Darius tentou compreender o instante, questionou-se sobre como e quando aquilo havia acontecido, mas não encontrou respostas. Mesmo com seu olhar treinado para a guerra, a monstruosidade do humanoide era indescritivelmente aterradora, algo que desafia qualquer experiência de batalha que já tivera.
Um grito cortou o túnel, rasgando o silêncio como uma lâmina.
Darius caiu de joelhos, o sangue jorrando em ondas, sua respiração pesada se misturando ao eco distante de seu próprio desespero.
Mas o horror não parou ali. Pelo labirinto de corredores, outros gritos surgiram, altos e dilacerantes. Eram os clamores desesperados de seus companheiros, cada um implorando por socorro, cada um preso em sua própria batalha contra o terror que se escondia na escuridão.
O som reverberava nas paredes como um coro de agonia.
E então, um a um, os gritos cessaram.
O silêncio que se seguiu era mais aterrador do que o rugido da própria morte.
Darius, ainda caído, sentiu seu corpo tremer. Ele reconhecia aquelas vozes — companheiros que haviam lutado ao seu lado, que haviam jurado proteger o mesmo estandarte.
Eles não morreram na glória da guerra, não encontraram paz; foram torturados por criaturas desconhecidas. Seriam esquecidos, abandonados em um lugar úmido, frio e sombrio.
O batalhão estava sendo aniquilado.
Um por um.
Darius, ainda consciente — talvez por capricho da criatura — começou a se arrastar pelo chão frio em direção ao vice-comandante.
Cada movimento arrancava-lhe um gemido abafado, o som do metal raspando contra a pedra misturando-se ao gotejar distante do sangue.
O Lacertílias apenas observava. Seus olhos acompanhavam cada esforço do cavaleiro sem pressa, como um predador curioso diante de uma presa já derrotada. Não havia urgência em matá-lo; pelo contrário, parecia querer medir até onde aquele homem suportaria, saboreando cada esforço inútil enquanto Darius lutava para alcançar seu comandante.
Darius continuou apoiando-se nas mãos e no que restava da perna esquerda, deixando um rastro escuro de sangue no chão.
Quando finalmente conseguiu se aproximar do vice-comandante, Darius estendeu a mão ensanguentada — quase tocando o chão onde Kael permanecia ajoelhado.
Então, o ar pareceu se comprimir. Um assobio cortou o túnel, seguido de um estalo seco e único.
A cauda do Lacertílias moveu-se com uma velocidade quase impossível de acompanhar. Num único e fulminante golpe, atravessou o espaço entre eles, decepando a mão direita de Darius antes que pudesse reagir.
O Lacertílias o observava em silêncio, com a mesma serenidade de quem corta um galho seco.
Um grito ensurdecedor percorreu por todo o túnel. Um grito agonizante de dor.
Mesmo com o corpo dilacerado e o sangue escorrendo pelo chão, Kael se moveu.
As pernas tremiam, o ar fugia dos pulmões, mas ele ainda tentava ficar de pé.
Para ele, a luta ainda não havia acabado.
Com o olhar turvo e o rosto coberto de sujeira, ergueu o punho vazio — o lugar onde antes existia uma espada. O gesto era inútil, mas carregava uma força que a criatura pareceu menosprezar.
Por um instante, o Lacertílias inclinou a cabeça, curioso.
Como se aquele ato — pequeno, inútil, porém teimosamente humano — fosse digno de atenção.
Não era respeito. Pelo contrário, parecia simples interesse mórbido: queria ver até onde aqueles homens conseguiria entretê-lo antes de morrer.
Então, repentinamente, a criatura se curvou.
Não era em resposta ao vice-comandante.
Não era respeito à luta...
Era por algo mais majestoso, digno de sua existência.
— Então é só isso que a princesa tem a oferecer? —
A voz surgiu na escuridão — a voz carregada de desprezo, vibrando pelas paredes do túnel.
Do fundo, dois olhos amarelos acenderam-se como brasas vivas, fixos sobre o campo de batalha.
Por um instante, pareceu haver outro lacertílias. Mas o que emergiu das sombras não era uma criatura humanoide de quase dois metros...
Era algo muito pior.
Era Eminence.
Apesar da aparência juvenil, Eminence emanava uma aura mágica esmagadora.
Seus passos calmos ecoavam pelo túnel como tambores, marcando cada instante com uma presença inescapável. Um sorriso largo e cruel se desenhava em seu rosto, revelando a confiança absoluta que possuía.
O simples fato de estar ali fazia o túnel tremer. Kael e Darius sentiram, com nitidez, que a aura mágica emitida por aquele garoto era ainda mais opressiva e aterradora do que a do lacertílias que acabavam de enfrentar.
Eminence atravessou o Lacertílias como se ele não existisse, seus passos ecoando pelo túnel como se ditassem o próprio ritmo do tempo. Sem qualquer hesitação, aproximou-se de Kael, o vice-comandante da cavalaria da princesa Seliora D’Ímpeto, seus olhos brilhando com uma mistura de diversão e crueldade contida.
Ele era soberano.
Nem mesmo o grão-duque August Heavens detinha poder comparável ao seu.
Graças ao gear, sua existência era uma síntese impossível: possuía a alma de um Lacertílias, um corpo humano e o sangue puro de um mago — um verdadeiro precursor.
Ele era aquele que seria chamado de Hieratic — mas não de forma natural.
Sua existência era uma aberração.
Darius permaneceu em silêncio. Mesmo dilacerado pela dor, sentia que não tinha direito de demonstrá-la diante daquele ser. Kael abandonou qualquer pensamento ofensivo; era inútil.
Eles não compreendiam completamente o que enfrentavam, mas ambos percebiam uma verdade inegável: aquela criatura, majestosa e monstruosa, era o rei entre os lacertílias.
— Há muito tempo venho observando vocês... — disse o rei, a voz carregada de desprezo.
Ele lançou um olhar frio à figura ferida, quase sem vida, como quem avalia um brinquedo quebrado e sem valor.
— Dreizehn, mate todos os que estão no acampamento. — Ordenou o rei.
A ordem soou simples, quase casual — mas naquele instante era uma sentença irrevogável. Ele queria assistir ao desespero do vice‑comandante, impotente diante da carnificina que se anunciava.
Kael tentou protestar, mover os lábios, mas nenhum som saiu. Seu corpo parecia feito de chumbo; cada músculo negava-se a obedecer.
O cheiro de queimado ainda queimava suas narinas, mas algo mais capturou sua atenção: um clarão intenso, súbito, que recortou a escuridão do túnel. Um prenúncio de destruição, tão brilhante que fazia a própria sombra do vice‑comandante tremer.
O clarão não vinha do rei, nem do lacertílias.
Era obra de Darius.
Seu recital de magia chegara ao clímax. Com a única mão que ainda possuía, ele reuniu toda a energia do seu corpo, concentrando-a em uma esfera de poder incandescente. Cada músculo tremia, cada veia pulsava com a força que ele ainda podia invocar.
O olhar do jovem cavaleiro estava fixo no rei, cheio de determinação e desespero. Era uma última aposta — um ataque que carregava toda a sua coragem, mesmo sabendo que poderia ser insuficiente.
A luz da magia iluminou o túnel, projetando sombras trêmulas nas paredes, como se o próprio corredor contivesse o fôlego diante do poder prestes a se libertar.
O rei percebeu a magia, mas nem ao menos se moveu. Nada ali era capaz de perturbá-lo. Observando o esforço titânico que Darius colocara em cada gesto, sua única reação foi um suspiro calmo, quase entediado — como quem observa uma tentativa patética de desafiar o inevitável.
O rei possuía inúmeros meios para evitar o golpe, mas escolheu o mais desprezível: permanecer imóvel. Ele lançou um olhar desdenhoso por sobre o ombro para a grande esfera de fogo que vinha em sua direção, e nada fez.
A magia colidiu com seu corpo em cheio. Pela distância e intensidade, o estrago deveria ter sido devastador — mas nada aconteceu. Nenhuma queimadura, nenhum recuo, nenhum efeito visível.
Dreizehn permaneceu de joelhos, a cabeça baixa, consciente de que não havia ordens para se mover. O silêncio pesava no ar, e até a magia, antes tão vibrante, parecia ter sido engolida pela presença esmagadora do rei.
— É isso? — questionou o rei, a voz carregada de desprezo.
Darius engoliu em seco. A esfera de fogo que representava toda a sua esperança, todo o poder que podia reunir, não havia sequer arranhado o rei. Seus olhos, antes ardentes de determinação, agora estavam vazios, desprovidos de qualquer resquício de esperança.
— Dreizehn, antes de ir ao acampamento… mate‑os, lentamente. — A voz do rei deslizou pelo túnel como lâmina fria, cada palavra medida para prolongar o terror.
Dreizehn ergueu a cabeça. Por um instante, a figura permaneceu imóvel — uma estátua de metal e vento — depois moveu‑se com a precisão calculada de algo que nunca havia conhecido misericórdia. Os joelhos se ergueram num movimento controlado; os passos que seguiram foram silenciosos, quase cerimoniais.
A figura do rei desapareceu na escuridão do túnel, abandonando apenas os três sobreviventes, imersos em um silêncio pesado e sufocante. A ordem fora proferida, mas era evidente que suas chances de resistir eram mínimas — e, no entanto, isso pouco importava.
A poucos quilômetros dali outros cavaleiros aguardavam, atentos e prontos para seguir o retorno do grande líder. O que eles não sabiam era que nem o vice-comandante nem o batalhão retornariam.
Dreizehn movia-se com uma precisão cruel, cortando membros, satisfazendo seu lado sádico e desprezando cada um daqueles homens que ousaram cruzar seu caminho. Quando enfim terminou, finalizou o ato com a decapitação do vice-comandante.
O Lacertílias carregava a cabeça de Kael pelo túnel, cada passo pesado e deliberado ecoando nas paredes como uma sentença de morte anunciada. O silêncio o seguia, denso e inevitável, prenunciando o terror que se aproximava do acampamento.
Parte 2
Kairo Lenhart, um jovem aventureiro, observava com curiosidade o movimento intenso do grande festival em Bugres.
Mesmo escondido sob uma máscara de lobo, era fácil notar a simplicidade de sua aparência: uma camisa azul gasta e um calção do mesmo tom — roupas que contrastavam com o brilho e o luxo da cidade. O azul, porém, não era uma escolha aleatória. Como mago que dominava a água, sentia-se mais à vontade envolto nessa cor, como se ela refletisse sua própria essência.
Em suas mãos, equilibrava um prato apimentado comprado em uma das barracas, mas o sabor forte já não lhe importava. Havia algo muito mais interessante diante de seus olhos — e era para isso que toda a sua atenção se voltava.
A cidade havia se preparado por uma semana inteira para o festival. Era visível o empenho dos moradores e comerciantes em deixar Bugres à altura de um grande evento. Bandeiras coloridas tremulavam sobre as ruas, o aroma de especiarias se misturava ao som de risadas e música, e até mesmo os viajantes mais cansados pareciam contagiados pela atmosfera vibrante.
Diziam que até a princesa de Ímpeto estaria presente — um rumor que aumentava ainda mais a expectativa no ar.
No entanto, talvez por estar em um ambiente diferente, aquela alegria contagiante lhe parecia… estranhamente desconfortável. Havia algo que o inquietava, ainda que não soubesse dizer o quê. Seu olhar permanecia atento — quase clínico —, acompanhando cada gesto, cada sorriso e cada voz que se perdia na multidão.
Ele não poderia afirmar ser um grande mago, capaz de enfrentar os membros da Rosa-Cruz ou mesmo os prodígios do Colégio de Magia. Ainda assim, possuía seu próprio valor — e talvez fosse justamente isso que o tornava sensível ao que outros não notavam. Entre risadas e aplausos, percebia sutilezas incômodas: moradores com expressões tensas, sorrisos que não alcançavam os olhos, olhares desviados rapidamente quando alguém os encarava por tempo demais.
Talvez fosse apenas impressão. Ou o cansaço de dias longos e repetitivos. Mas, no fundo, Kairo sabia — algo naquela cidade não dançava no mesmo ritmo da música.
Na lateral do grande palco de madeira, erguia-se uma imponente torre de relógio construída especialmente para o festival — sua função era simples: marcar os minutos que restavam até o início do grande espetáculo. Faltavam apenas quatro horas.
Ainda assim, Kairo pouco se importava com as barracas de comida ou com as melodias festivas que ecoavam pelas ruas. Seu verdadeiro interesse estava em algo muito mais distante — e, talvez, inalcançável. Ele desejava, mesmo que por breves palavras, conseguir falar com a princesa.
Mas, antes disso, havia outro motivo que mantinha seus olhos fixos no alto da torre: o surgimento do novo deus. Ouvira tantas histórias a respeito, mas nenhuma parecia descrever o que realmente aconteceria. Seria uma invocação mágica? Uma aparição divina? Ou apenas um símbolo criado para entreter o povo? Não sabia dizer. Apenas sentia que o espetáculo ficaria gravado em sua memória por muito tempo.
A cidade, vibrante e acolhedora, irradiava uma energia quase mágica. As ruas coloridas recebiam viajantes com sorrisos gentis e gestos amistosos, exibindo com orgulho o espírito hospitaleiro de Bugres. Cada detalhe — das bandeiras tremulando ao som das risadas às luzes refletidas nas janelas — parecia conspirar para um único propósito: encantar, cativar e fazer todos acreditarem que nada de ruim poderia acontecer sob aquele céu.
Enquanto observava o palco a poucos metros, ele se perguntou se teria, ao menos uma vez na vida, a chance de conversar com a princesa. Não havia nenhuma menção honrosa para justificar seu desejo, apenas o fato de ser um grande fã.
No exato momento em que estava perdido em pensamentos, o Mago de Valor passou à sua frente, completamente distraído. Ele vestia um blazer de corte impecável, confeccionado em tecido negro que parecia absorver a própria luz. As costuras discretas formavam padrões geométricos quase invisíveis, lembrando constelações ocultas — símbolos de mistérios silenciosos. A gola levemente alta reforçava sua imponência, e os ombros estruturados emanavam a presença de alguém moldado pela autoridade.
Não havia dúvidas sobre a identidade daquele mago, mas sua presença em Bugres era estranha. Afinal, ele era um aluno do Colégio de Magia e líder dos Promissores. Contudo, essa surpresa era mitigada pela alegria de vê-lo demonstrar ser um homem de cultura.
Astralion podia não saber quem era o aventureiro, mas Kairo Lenhart o conhecia.
Kairo Lenhart se aproximou devagar, tentando não chamar a atenção, mas a experiência do mago tornou impossível passar despercebido. Antes que desse mais um passo, Kairo percebeu que o mago o estava encarando.
Astralion ergueu os olhos, desconfiado. Kairo não parecia uma ameaça, mas, ao mesmo tempo, despertava nele uma sensação estranhamente familiar — uma nostalgia difícil de definir.
Ao perceber que fora notado, o aventureiro tentou disfarçar, mas em vão. Sua atitude evasiva apenas aumentou a suspeita do Mago de Valor.
Astralion cruzou os braços e o encarou em silêncio, estudando cada movimento.
Houve apenas um suspiro vindo do mago da água, que havia desistido de tentar disfarçar. Astralion podia não saber, mas os dois já haviam conversado muito tempo atrás.
— Boa tarde, mestre... faz quanto tempo? — disse Kairo, sem jeito, coçando a cabeça.
Astralion franziu o cenho.
A atitude repentina o deixou em alerta. Ele não tinha memória alguma de quem era aquele homem à sua frente; talvez a máscara contribuísse para dificultar a lembrança. Apesar disso, as palavras ou, quem sabe, a voz soava estranhamente familiares.
Apesar de a curiosidade quase o obrigar a bancar o detetive, Astralion tinha plena consciência do que realmente precisava ser feito. Descobrir quem era aquele mago ou quais eram suas intenções não era prioridade. Não era hora de perder tempo.
Afinal, quando o festival chegasse ao auge e o relógio marcasse dezenove horas, Onoken deveria aparecer em frente a Eminence — e ele precisava impedir esse encontro.
Nesse exato momento, Astralion tinha em seu alcance o nobre que precisaria derrotar. Por mais que o Grão-Duque August Heavens estivesse por trás da organização do festival, ele não passava de um peão nos planos de Eminence.
Astralion não sabia dizer o que Eminence realmente era, mas tinha certeza de que a entidade representava a destruição. Não apenas isso, a origem de Eminence — por mais estranha que fosse — revelava uma verdade sombria sobre os Magos-Puros, uma linhagem pouco conhecida.
Mesmo que se curvasse para aquele que se autodenomina rei, Astralion, em seu interior, continuava o mesmo, com o mesmo objetivo.
As barreiras que um dia separaram Astralion e Eminence já não existiam — ou, pelo menos, era essa a tática que Astralion usaria a seu favor.
Mas dentro dele, apenas uma coisa permanecia clara: Mesmo que Eminence afirmasse que o festival serviria para trazer o Árbitro, a verdade era muito mais sombria. Seu verdadeiro propósito era usar as partículas mágicas espalhada por Bugres para acelerar o processo do Gear e restaurar os corpos originais de seu exército.
Astralion sabia disso porque mantinha contato constante com Onoken. Ele tinha consciência de que havia muitas mentiras em Bugres que talvez nunca pudessem ser confrontadas.
Não havia nada de nobre nas intenções de Eminence — apenas a ânsia fria e metódica pela conquista.
O desabotoar dos botões internos de seu manto negro poderia, para qualquer um, simbolizar rendição ou até mesmo traição. Mas, na verdade, era apenas o prelúdio de algo maior — a forma de mostrar a Eminence o real motivo de sua presença em Ímpeto.
Ele não seria iludido por falsas promessas, nem olharia por muito tempo o abismo. Entretanto... Havia uma hipocrisia em sua parte que precisava aceitar.
Se fosse necessário mentir, ele mentiria. Se fosse necessário curvar-se, ele se curvaria. Mas sua lealdade jamais mudaria. Sua índole permanecia inabalável: servir à Rainha Elizabeth III.
Apesar de toda essa certeza, havia uma parte da situação que Astralion não compreendia — e, no fundo, preferia não compreender.
Talvez o verdadeiro motivo de ter sido convocado para o lado do Grão-Duque August Heavens estivesse, de alguma forma, ligado a Onoken. Não havia outra explicação, pois, por tudo que viu na cidade de Bugres, ele era completamente descartável.
Em outras palavras, somente Onoken fazia parte do plano de Eminence.
Se isso fosse verdade... onde exatamente se encaixava Onoken nisso tudo?
Talvez fosse uma pergunta para a qual Astralion jamais encontraria resposta. Ou, melhor, preferia não descobrir, pois, se descobrisse, sua missão se daria como um fracasso. Seria Onoken um gatilho essencial no ritual?
De certo modo, a existência dela quebrava todos os paradigmas conhecidos.
Assim como o Lacertílias, Onoken não era algo natural — e muitos acreditavam que tivesse ligação com os magos puros, os precursores da magia.
Ela era o ponto de interseção entre ciência e magia, uma criação envolta em uma camada de complexidade inimaginável.
Mesmo entre os mais sábios, não havia resposta sobre como fora criada, qual seu propósito ou de onde viera.
Talvez ela fosse mais antiga do que o próprio mago Primordial.
A existência de Onoken era uma afronta às leis conhecidas — um erro que respirava, pensava e andava entre os vivos.
Havia tantas perguntas sobre Onoken que jamais deveriam ser feitas. A própria verdade se negava a respondê-las, por não ser o momento certo. Tudo que Astralion sabia era que todas as coisas seriam respondidas em seu devido tempo.
Não podia forçá-la, pois Onoken era mais forte que Astralion.
Afinal, na morte do Rei, de certa forma, quem havia salvado Valor fora o próprio Onoken.
Naquela época, ele era apenas um mago comum, que tinha um pai, uma irmã e um amigo. Mas agora, tudo que lhe restava era um fragmento do seu nome e de suas lembranças... Seu verdadeiro nome...
Astralion suspirou, talvez entendendo que não adiantaria questionar o que estava além de sua compreensão. Afinal, ele tinha algo para fazer agora, mas primeiro, sua atenção curta atenção seria voltado ao mago em sua frente.
Astralion olhou o aventureiro à sua frente dos pés à cabeça, quase como se analisasse sua capacidade mágica. Ele não podia dizer que aquele mago fosse fraco, mas a interrogação em sua mente persistia, questionando o que, de fato, o homem desejava.
Por um breve momento, a lembrança da empregada que o aguardava irrompeu em sua mente. E então, teve uma ideia: talvez pudesse conseguir algum dinheiro.
Astralion levou a mão à cabeça e ergueu uma delas em um gesto lento, como se ensaiasse um feitiço contra o aventureiro à sua frente.
— Dinheiro não compra lembranças... — murmurou, movendo a mão lentamente. — Mas ajuda a refrescar a mente.
Por um breve momento, ao presenciar aquela atitude canalha, Kairo se arrependeu de ter puxado conversa. O aventureiro suspirou, cruzando os braços, e chegou a uma conclusão óbvia: o que Astralion realmente queria era apenas dinheiro fácil.
— Continua o mesmo aproveitador de sempre, hein? — questionou Kairo, recuando alguns passos enquanto levava a mão ao bolso onde estava o dinheiro.
Percebendo a atitude repentina, Astralion desviou o olhar, voltando a si. Ele notou, de repente, o tempo precioso que havia perdido sem sequer se dar conta.
— Talvez — respondeu Astralion, com a voz curta e sem inflexão.
Kairo o observou em silêncio. Sentindo o desdém do mago, comentou, visivelmente irritado:
— Tá de sacanagem?
Astralion sorriu de canto de boca, mal percebendo a silhueta com o canto dos olhos. De repente, a lembrança pairou em sua mente, trazendo consigo o nome do aventureiro e sua origem. Talvez fosse por isso que ele estivesse prestes a quebrar todo o protocolo de sua missão em Bugres.
Não era como se Astralion desejasse que todos em Bugres morressem; ele apenas não tinha conhecimento de como reverter a situação. O mal já havia se infiltrado: talvez até mesmo as almas inocentes que iriam nascer já estivessem contaminadas com o Sistema Gear. O horror afetava até mesmo aqueles que não demonstravam agir como mortos-vivos, pois o Gear era uma praga que poderia levar anos para se manifestar.
Era necessário impedir o mal, antes mesmo que ele nascesse.
Nenhum ser deveria conhecer um ritual tão profano, mas em Bugres, alguém ousou usá-lo.
— Então posso te vender um conselho. O que acha? — disse Astralion, estendendo a mão, mas dessa vez em um gesto de auxílio.
Ao ouvir aquelas palavras, Kairo estranhamente percebeu que algo estava errado. Não era algo errado com Astralion; talvez o motivo maior de ele estar em Bugres fosse justamente esse. Mas...
— Geralmente conselho não se dá de graça? — questionou o aventureiro, enquanto via o sorriso sarcástico desaparecer do rosto de Astralion.
Kairo ficou em silêncio, atento.
— É porque, quando se paga, o conselho tem mais valor. Você passa a dar mais credibilidade a ele. O que acha? — explicou o Mago de Valor.
Por mais que houvesse desconfiança, não era como se Astralion estivesse falando de um valor absurdo; afinal, ele nem sequer mencionou o preço, podendo ser qualquer coisa de valor.
Kairo retirou do bolso uma pequena bolsa e depositou três moedas de bronze nas mãos de Astralion — um valor quase insignificante para ele. Apesar disso, o Mago de Valor renegado aceitou.
O mago observou as moedas por um instante antes de guardá-las no bolso interno do blazer.
— Então, qual o aviso? — perguntou Kairo, impaciente.
A resposta de Astralion não veio de imediato, mas como um sussurro:
— Se eu fosse você, sairia da cidade.
Dito isso, Astralion virou-se para partir.
— Espere! — Exclamou Kairo, confuso.
Astralion parou, sem se dar ao trabalho de se virar.
— O que quer dizer com isso? — insistiu o aventureiro.
— Exatamente o que ouviu. Saia enquanto ainda há tempo. Há algo crescendo nesta cidade — respondeu Astralion, com a voz apressada.
Talvez, no fundo, Kairo entendesse que havia algo de errado, mas ele preferia acreditar que era apenas cansaço. Agora, porém, mais do que nunca, um sentimento alarmante percorreu sua espinha. Ele começou a observar o redor, questionando tudo.
Todo o festival seria uma mentira? Com qual objetivo?
Kairo viu Astralion retomar a caminhada, indiferente às suas palavras. O Mago de Valor não se importava se seria ouvido — apenas que o tempo já estava contra eles.
As ruas, cobertas de bandeirolas e tecidos coloridos, escondiam o que realmente se acumulava sob seus alicerces — uma concentração colossal de ou mágiculas, fios invisíveis de poder entrelaçando o ar. Seriam usadas no auge do festival, quando o céu se abriria para um espetáculo que poucos entenderiam... e que muitos temeriam. Outros, simplesmente, morreriam.
De dentro do blazer escuro, Astralion retirou uma máscara branca, lisa, sem adornos.
O reflexo do entardecer projetou sombras sobre seu rosto antes que ele a posicionasse entre os dedos, observando-a por um breve instante — como se nela visse o peso de todas as decisões que o trouxeram até ali.
Sua missão era simples em palavras, mas devastadora em essência: recuperar os livros perdidos e eliminar qualquer um que ousasse ameaçar Valor. Ele sabia que cada passo o aproximava de uma fronteira sem retorno — e, ainda assim, não hesitava.
Cada passo era um mergulho sem volta em suas decisões. Se um dia ele sonhou em ser herói, esse tempo já havia passado. Mas, se o destino o quisera como vilão, ele aceitaria o papel sem arrependimento.
Ele não negava: houve um tempo em que sentiu simpatia pelos mortos-vivos, por se comportarem como se ainda estivessem vivos. Afinal, ele sabia que não era diferente deles.
Hoje, contudo, ele reconhecia: a empatia estava morta. Em seu cerne, não havia mais distinção entre ele, Eminence e o Grão-Duque August Heavens — todos meros reflexos de ambições que pulverizaram os limites do certo e do errado.
Para salvar Valor, sacrifícios seriam inevitáveis. Astralion compreendia isso melhor do que ninguém. Ele não possuía poder para salvar civis, tampouco tempo para hesitar diante do caos. E era exatamente por isso que os membros da Rosa-Cruz o desprezavam — pois por onde quer que Astralion passasse, deixava atrás de si o rastro frio da morte e uma colina de cadáveres.
Bugres era um território dividido por lealdades frágeis e sorrisos disfarçados. Mesmo sendo, no papel, aliado de Eminence e do grão-duque August Heavens, Astralion sabia que a confiança entre eles era tão volátil quanto as magículas que pairavam sobre a cidade. A cada esquina, ele sentia os olhares daqueles que fingiam humanidade, mas cujo semblante deixava transparecer algo… quebrado, antinatural. Não era como se Astralion desejasse perdão ou redenção — há muito entendera que nada disso traria o rei de Valor de volta. O arrependimento não curava feridas, e a culpa não restaurava o passado. Tudo o que lhe restava era o propósito — frio, inflexível e tão pesado quanto a coroa que um dia jurara proteger.
Enquanto se perdia em pensamentos, notou a empregada se aproximando. A expressão em seu rosto era inconfundível: tristeza e desapontamento. Para ela, talvez ele não passasse de mais um homem cuja lealdade havia sido comprada.
Antes de colocar a máscara, Astralion a fitou e esboçou um sorriso frio.
Não havia necessidade de palavras. Naquele momento, seriam apenas um desperdício. Astralion não seria o herói de Bugres — tampouco o da empregada. Ele estava em território hostil, cercado por inimigos disfarçados: incontáveis, invisíveis e persistentes.
Ainda assim, ele tinha meios para enfrentá-los. E, se o destino exigisse, usaria as próprias magículas espalhadas por Bugres contra seus criadores.
Afinal, era isso que já estava fazendo, desde o momento em que colocou os pés na cidade.
Não era somente Onoken que constituía sua força. Havia algo mais. Embora a Onoken fosse inegavelmente poderosa, Astralion guardava magias ainda mais formidáveis, pois fora, por um período, aluno de Aleister Crowley, o temido Mago Primordial.
Contudo, não era o selo de Crowley que o tornava diferente. Sua verdadeira distinção residia nas habilidades adquiridas em anos de batalhas entre a vida e a morte. Não foram pergaminhos ou rituais que o moldaram, mas sim o corte da lâmina e seu próprio caminho da magia.
Astralion podia ter perdido a honra, a coroa, e o rei que jurou proteger, mas uma coisa ele ainda possuía: ele estava vivo.
Ele havia sido um nobre, sim; o responsável exclusivo pela proteção do rei Valor. Essa falha o havia despojado de tudo, exceto do seu instinto de sobrevivência e da sua capacidade de lutar — e de usar cada magícula de Bugres em seu favor.
Era fogo contra fogo. Magia contra magia.
Ele sabia que um mago comum morreria em uma situação como aquela — até mesmo os membros da Rosa-Cruz poderiam encontrar a morte diante de tamanha desvantagem.
Mas ele… ele era diferente.
Não temia a morte. Apenas a reconhecia como algo que jamais o tocaria.
Enquanto Astralion avançava lentamente em direção ao palco, a cidade se estendia abaixo dele como um tabuleiro silencioso, cada rua e edifício refletindo a luz do entardecer. Do alto, Eminence observava tudo com um sorriso frio e satisfeito, consciente de que seu grande objetivo estava prestes a se concretizar — e que nada poderia impedir o desenrolar de seus planos.
Nas sombras, Dreizehn permanecia imóvel, um joelho dobrado no chão e a cabeça baixa, como uma estátua silenciosa. O ar ao seu redor parecia vibrar com a expectativa contida de uma tempestade prestes a explodir, enquanto aguardava as ordens que poderiam decidir o destino de muitos.
Ao mesmo tempo, na segurança do prédio, a princesa Seliora D’Ímpeto recebia uma mensagem inquietante de Darian Veynor: as comunicações enviadas aos cavaleiros permaneciam sem resposta. Um arrepio percorreu sua espinha. O silêncio ao redor dela parecia mais pesado, como se o próprio ar estivesse consciente do perigo que se aproximava.
Enquanto a princesa ponderava o que aquilo poderia significar, Astralion alcançava o palco, cada passo ecoando como um tambor no silêncio expectante da cidade. O vento parecia sussurrar alertas, levantando pequenas folhas e poeira ao redor, como prenúncio de algo maior.
Eminence ainda observava do alto, a luz do entardecer refletindo em seus olhos, que brilhavam com uma determinação fria e quase predatória. Ele não apenas antecipava o desenrolar de seus planos, mas saboreava a sensação de controle absoluto sobre o caos que se aproximava.
Dreizehn finalmente ergueu a cabeça, os olhos sombrios fixos no horizonte. A qualquer momento, um gesto seu poderia desencadear uma série de eventos cujo alcance se estenderia por toda a cidade. O silêncio que o envolvia era mais ameaçador do que qualquer grito de guerra — era o prelúdio de uma tempestade iminente.
Enquanto isso, a princesa Seliora apertou a carta contra o peito, sentindo o peso da responsabilidade sobre seus ombros. Cada segundo que passava aumentava a sensação de urgência, como se o próprio tempo estivesse conspirando contra ela. E em algum lugar entre o palco e as sombras, a primeira fagulha de conflito estava prestes a incendiar o destino de todos.
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