Era você
3 Where are you?
Notas iniciais
LEGENDA:
Itálico — pensamento
Negrito — sonho/lembrança
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— Finalmente! – exclamei muito feliz enquanto retiravam as talas de meu braço.
— Você ainda precisa usar a tipoia, porém pode retirar para o banho e quando for dormir. – o Dr. Li começou as recomendações – Suas costelas já estão cem por cento, a luxação no seu ombro vai se recuperar ao longo da fisioterapia. Os cuidados continuam os mesmos, não faça esforço e vamos acompanhar a sua evolução.
— A medicação continua a mesma?
— Sim. Caso sinta alguma dor além do normal ou incômodo que os remédios não deem conta, me ligue ou venha para o pronto socorro.
— Obrigada Dr. Li! – fiz uma pequena reverência – Mande lembranças para Sra. Li e os seus filhos.
— Obrigado. Eles gostaram muito de você. – sorri pelo elogio.
Coincidentemente ou não, a fisioterapeuta que me atendia era a esposa do Dr. Li. Conheci os filhos deles há algumas semanas atrás, enquanto eles estavam na aula de pilates. Fiquei impressionada por crianças tão novas, estarem fazendo aquele tipo de atividade.
Graças a Kami já estava quase recuperada, fisicamente falando. Mesmo afastada do trabalho, minha agenda era apertada. Durante a semana eu tinha duas sessões de fisioterapia, uma com uma psicóloga e outra com uma psiquiatra. Loucura, mas estavam me ajudando tanto, que essas duas áreas de formação distintas estavam me apaixonando.
Descobri que trabalhava, ou trabalho, já que ninguém falou a respeito se estou desempregada ou não, em uma agência de mídia. Lá eram produzidos todos os recursos utilizados em trailers, teasers e qualquer peça publicitária audiovisual.
Já havia conseguido lembrar algumas míseras coisas. Como, por exemplo, o nome do gato que ganhei de Banryu e a senha do sistema do estúdio.
Banryu não havia aparecido ainda, mas também não havia perguntado sobre ele. Ao mesmo tempo em que estava curiosa para conhecê-lo, estava apavorada pela pressão que seria tentar um relacionamento com uma pessoa que não conhecia.
...
— Agora que você esta melhor, poderíamos ir ao festival que terá na escola que Kikyou leciona. – Sango tentava insistentemente me fazer sair de casa, mas eu me recusava. Primeiro porque estava de repouso e segundo porque não gostaria que alguém esbarasse em mim com tanta coisa se recuperando ainda.
— Não sei Sango. – estava brincando com as gêmeas. Elas estavam com sete meses, mas muito espertas.
— Você precisa passear um pouco Kagome! Faz quanto tempo que você não sai de casa? Seis meses? – abri minha boca para responder, mas ela foi mais rápida – Não conta suas consultas médicas, sessões ou as vindas aqui em casa.
— Bom, — bufei – se você levar com conta o tempo que estive no hospital, sim faz seis meses. – Aiko, a gêmea mais velha, agarrou meu dedo e eu sorri pelo contato – Sango, você tem notícias de Banryu? – evitei olhar para ela. Tinha consciência de que meu rosto estava quente, mas precisava de informações desse namorado desnaturado que não havia me visitado nesses meses que estava em casa.
— Ele foi transferido para Londres, uma semana antes do seu acidente e deve voltar em um mês, dois talvez. Ele foi auxiliar na transição de gerência da filial da companhia.
— Ele veio enquanto eu estava no hospital?
— Sim, alguns dias antes de você acordar. Ele quase pediu demissão pra ficar aqui. Seus pais e os Taisho tiveram que conversar muito com ele.
— Meus pais?
— Sim... Ele só tem o irmão, Jakotsu, que mora na África do Sul a alguns anos. Seus pais e os Taisho se tornaram os pais dele.
— Mamãe às vezes fala dele, mas não muito. – aproveitei que as bebês dormiram e fui com Sango para a cozinha.
— Ele é muito simpático, engraçado, simples e principalmente, charmoso. – ela riu e pegou um pote de biscoitos – Você foi bem dura com ele no início, — ela gargalhou – mas foi bom porque ele se empenhou muito para te conquistar.
Corei pelo comentário. Aquela reação realmente parecia comigo.
— Como nós somos juntos? Quero dizer, o que eu comentava com você sobre ele? – perguntei e Sango pensou um pouco.
— Entendo a sua curiosidade, mas continua sendo uma situação engraçada. – ela nos serviu chá e colocou a babá eletrônica próximo de onde nós estávamos – Então, vocês têm várias coisas em comum, como a paixão por filmes e seriados, ele tem paciência para te ensinar a jogar, você se interessa e participa bastante quando ele começa a falar sobre coisas nerds... Que eu, particularmente acho um saco! – ela sussurrou antes de tomar mais um gole de chá – Vocês dois amam cachorros, mas ele te deu um gato porque você não tinha muito espaço no apartamento e gatos são autossuficientes. – ri da forma como ela falou, parecia algo que havia sido repetido exaustivamente – Sim, vocês usaram bastante essa desculpa.
— Engraçado eu estar com alguém que conheço a pouco tempo. – brinquei com meu biscoito mordendo pedaços minúsculos.
...
Chegamos à escola por volta das 18hr. Já havia grande movimentação de pessoas, crianças e pais. Cada turma estava representando um país, sua cultura, comida típica, roupas... Enfim, o máximo que conseguissem.
A feira cultural estava linda. As escolas primárias e secundárias estavam trabalhando juntas, podendo ser visto estudantes de todas as idades correndo de um lado para o outro e arrumando coisas que foram necessárias de última hora.
— Qual é a sala da Kikyou? – perguntei ao Miroku.
— Ela dá aula para as turmas do sexto ano. – ele mudou Emi de braço – Mas não sei onde fica.
— Ela falou segundo andar, quinta sala à esquerda. – Sango bufou impaciente. Aquela agitação estava deixando as gêmeas irritadas.
— Vamos logo, talvez lá esteja mais tranquilo. – ajeitei uma das bolsas das gêmeas em meu ombro direito. Mesmo pesada insisti em ajudar de alguma forma.
Passar por aquele mar de gente não foi fácil, levei alguns esbarrões, mas nada sério. Me senti extremamente nostálgica ao lembrar dos meus anos ali. Das confusões que InuYasha se envolvia, eu me descabelando para acalma-lo, Sesshoumaru indiferente a tudo, Miroku levando tapas a cada hora e Sango sendo bruta com todos. Tudo está quase como sempre, a diferença é que agora temos agregados! Ri de minha própria piada.
— Eu posso falar que ela não bate bem da cabeça? – ouvi Miroku sussurrando para Sango.
— Claro que não! Seria uma piada de muito mau gosto. – ela sussurrou de volta e eu ri mais uma vez.
— Aí estão vocês!
— Olá Kikyou! – sorri para a minha ‘cunhada’. Ela nos cumprimentou e mostrou a sala da turma que estava responsável.
— Juro que passei mal. Mais pela visão, porque o cheiro e o gosto são bons! Bem exótico, mas gostoso. – Kikyou nos serviu um pouco do prato típico local – Se chama feijoada. É um prato salgado feito basicamente com feijão, carnes variadas e temperos... Há algumas variações, mas o básico é esse. – realmente, visualmente falando, não era bonito, mas o cheiro era bom, resolvi arriscar.
— Hun... É bom mesmo! Isso aqui é arroz? – apontei para a parte branca no pequeno prato.
— Sim, e a verde é couve, um tipo de folha que acompanha bem. – ela continuou as explicações sobre o Brasil. Sim, a turma dela ficou responsável por esse país da América Latina.
— E eu achava que Brasil era só futebol, carnaval, samba, mulher bonita e Rio de Janeiro. – comentou Miroku enquanto observava os estandes.
— Sim, todos nós achávamos. – Sango completou o pensamento do seu marido. Percebi que a chupeta de Aiko havia caído e saí da sala para lavá-la.
Passar por aquela cruzada até o bebedouro foi um pequeno inferno, mas graças a Kami ninguém teve força o suficiente para esbarrar em mim. O fato de eu estar deixando BEM à mostra a tipoia não influencia em nada.
— Kagome? – parei. Eu já ouvi essa voz antes... Reparei que a voz estava perto o suficiente para que eu conseguisse ouvir acima daquele pandemônio de vozes. Virei e dei cara com a gola de uma camisa social.
— Hãm? – ergui meus olhos até encontrar com os dele – Kouga?
— Você lembrou! – ele abriu um lindo sorriso e me abraçou com cuidado – Disfarçada de Clark Kent desse jeito, quase não te reconheci. – ele ajeitou meus óculos – Eu soube que você já está em casa. Desculpe por não ter ido te visitar, mas as coisas aqui na escola estão corridas e Ayame não facilita as coisas. – foi minha vez de sorrir pela vergonha do meu antigo colega de sala.
— Eu sei Kouga, ela sempre foi assim.
— Como você está?
— Me recuperando ainda...
— Deve ser difícil ficar longe do Banryu numa hora dessas. – aquela afirmação me pegou de surpresa.
...
O restante da noite nós visitamos outras salas, mas fomos embora mais cedo por contas dos bebês.
— Cheguei! – saudei a todos de casa enquanto tirava os sapatos.
— Sua mão já ia te ligar. – dei um beijo estalado em meu pai.
— Me atrasei um papai, mas não muito. Não achei necessário avisar. – me sentei ao seu lado e encostei a cabeça em seu ombro.
— Como está o braço? Esbarraram muito em você? – ri da preocupação de meu pai.
— Nada de mais.
— Custa avisar que você vai se atrasar? – mamãe reclamou assim que me viu no sofá com papai.
— Boa sorte. – ele sussurrou pra mim.
...
— Finalmente!
— Obrigada por me receber. – antes mesmo que eu pudesse me preparar para abraça-la, Rin me abraçou forte. Tentei conter um gemido de dor, mas foi mais rápido do que eu.
— Ai meu Kami! Desculpe. – ela se afastou de mim e alisou a tipoia.
— Tudo bem. – sorri.
— Você veio! – Rin era a pessoa mais animada que conhecia, e um tanto quanto infantil, mas era a que tinha o maior coração naquele bando.
— Que casa linda! – elogiei. Realmente, aqueles dois que já tinham bom gosto separadamente, juntos, a decoração estava impecável.
— Você também ajudou. – aquela afirmação me pegou de surpresa.
— Eu?
— Tem mais alguém aqui além de nós duas? – revirei os olhos.
— Fiquei surpresa, só isso... Meu gosto não é tão bom assim. – Rin riu de mim e me levou para a sala de estar. Havia uma mesa posta para o café da tarde, repleta de variedade.
— Pedi para que preparassem suas coisas favoritas! – realmente, só tinha coisa deliciosa naquela mesa.
— Obrigada Rin. – apertei sua bochecha como sempre fiz, mesmo ela sendo mais velha que eu.
Tivemos uma ótima refeição, conversamos bastante, rimos, ela me mostrou mais coisas sobre os meses que eu havia perdido.
— Kagome, — Rin chamou minha atenção. Ela estava séria. Meu estômago gelou. Aí vem bomba! Meu Kami — só queria te dizer que você e o Sesshy já me contaram sobre as vezes que vocês transaram. – meus olhos quase saíram das órbitas e eu comecei a suar frio. Isso deveria estar enterrado! Nós prometemos nunca mais tocar nesse assunto! Abaixei os olhos, não conseguia encara-la.
— Me perdoe Rin. – minha voz saiu baixa. Ela segurou minha mão.
— Não quero reabrir feridas, só quero tirar esse peso de você. – ela abaixou a cabeça até que nossos olhos se encontraram, me obrigando a olha-la – Já faz tempo que vocês me contaram, alguns meses antes do casamento. Se eu disse sim ao Sesshy e você continua sendo parte essencial da minha vida, foi porque perdoei vocês. Pra falar a verdade, eu não tinha nada o que perdoar porque foi antes de eu ter alguma coisa séria com ele. Mas agradeço, novamente, por terem sido claros comigo.
Minha cabeça ainda dava voltas. As lembranças das bebedeiras e da época em que aliviávamos a carência um com o outro, vieram a tona. Hormônios, casa vazia e álcool. Péssima combinação.
— Kagome? – olhei novamente pra ela e ela estava sorrindo. – Obrigada. – minhas sobrancelhas se uniram e eu inclinei ligeiramente a cabeça. Ela riu de minha expressão confusa. – Você me deu algumas dicas de como deixa-lo excitado e funcionaram muito bem. – ela piscou pra mim e eu engasguei com minha própria saliva.
— EU FIZ O QUÊ?! – ela continuou rindo de mim enquanto eu estava roxa de vergonha e xingando a mim mesma de todos os nomes conhecidos por ter feito isso.
...
— Por que nós contamos pra ela? – entrei sem cerimônia no escritório de Sesshoumaru.
— Explique-se. – ele nem levantou os olhos dos papéis que estava lendo.
— Aquilo. Nós contamos aquilo pra Rin. Por quê?
— Ela te contou? – ele finalmente olhou pra mim e estava tranquilamente frio como sempre. Balancei a cabeça afirmando – Foi uma decisão nossa Kagome. Rin precisava saber antes que as coisas ficassem sérias demais. – sentei pesadamente em uma das cadeiras que ficavam em frente de sua mesa – Como você reagiu?
— Ainda estou em estado de negação. – apoiei minha testa na mão e fiquei murmurando coisas como “isso foi arriscado”, “somos idiotas”, “essa combinação é uma merda”. Senti quando ele sentou na cadeira ao lado e me obrigou a olhar para ele.
— Não me orgulho do que fizemos, mas também não me arrependo. Não podemos fazer nada a respeito. Graças a Kami, Rin não criou uma tempestade e resolveu guardar esse segredo também. – respirei fundo e voltei a afundar na cadeira.
— Banryu também já sabe?
— Não. – olhei com a expressão confusa pra ele – Você falou que não era a hora. – então as coisas não estão tão sérias. Balancei a cabeça e continuei respirando fundo, olhando fixo para um lugar qualquer. Ao mesmo tempo em que minha mente fervilhava, não conseguia me prender em nada.
— Vamos, — ele me disse – eu te levo pra casa. Se você já se perde normalmente, no estado que está vai ser arriscado demais te deixar sozinha. – ignorei seu comentário e deixei que ele me conduzisse.
...
— Huuuunnn. – meu pai chegou perto de mim espiando as panelas. – Alguém está de bom humor! E o cheiro está delicioso! – ele inspirou o ar mais uma vez – O que está fazendo?
— Alguma coisa.
— Alguma coisa?
— Sim... Peguei o que tinha de gostoso na geladeira e estou vendo o quê que sai. – ouvi meu pai rindo e se sentando em uma cadeira próxima a mim.
— Você e suas invenções... – olhei para ele e ele estava balançando a cabeça em negação. – Já tirou a tipoia?
— Sei que não posso, mas se já é difícil fazer coisas simples com uma mão só, imagina cozinhar! – fiz uma careta – Não dá mesmo!
— Ótimo! Não vou precisar fazer o jantar hoje. – ouvi minha mãe comentar e arrastar a cadeira para próximo de meu pai.
— Ela está de bom humor hoje. – ele comentou.
— Percebi.
— Eu ainda estou aqui! – virei para os dois e eles riram mais ainda. Não entendi a graça e voltei a tentar fazer algo mastigável.
Consegui fazer um jantar razoável, até Souta concordou que estava ‘tragável’. Palavras dele.
...
— Kagome, tem carta pra você! – escutei minha mãe gritando no andar de baixo. Desci as escadas e havia um envelopa em cima da bancada da cozinha.
...
— E então, novidades?
— Nada. – menti.
— Sei... Desembucha. – respirei fundo e olhei para Sango.
— Banryu me mandou uma carta.
— O QUÊ!? CADÊ?
— Não grita! – tampei sua boca. Abri a gaveta do criado mudo e entreguei a carta a ela. Ela arrancou de minha mão e devorou em poucos minutos.
— Ele sempre foi safado, — ela riu – mas até que ele maneirou.
— Maneirou? – levantei uma das sobrancelhas – O que você quer dizer com isso?
— Que vocês dois tem umas piadas internas nesse nível pra pior.
— Meu Deus. – me joguei na cama e por lá fiquei.
— É engraçado esse costume de vocês.
— Qual?
— Mandar cartas um para o outro.
— Eu odeio escrever cartas... Tenho preguiça só de pensar.
— Mas ele insistiu tanto que virou normal pra vocês.
— Hun...
— Você vai responder, não vai?
— Não sei... Quer dizer, eu não vou mandar coisas como: olá querido namorado que eu não faço ideia de quem seja! – coloquei toda a minha ironia pra fora.
— Deixe de ser chata!
— Mas é verdade! Ele sabe o que aconteceu comigo, não sabe? – ela concordou – Então pronto!
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