Era uma vez uma babá...
3 Capitulo 2 - A sereia que vive no mar
Notas iniciais
No dia seguinte consegui acordar mais cedo e fazer tudo no tempo certo. Cheguei à escola um pouco adiantada e fiquei sentada na mesa do jardim com as meninas até bater o sinal.
—Foi o pior encontro da minha vida – Becca se lamentava – Definitivamente eu não nasci pro amor.
—Ele beija mal? – Nicole perguntou – Tem bafo?
—Aposto que você falou espanhol com ele e ele não entendeu merda nenhuma – disse rindo e ela fechou a cara.
—Foi o contrario, ele tentou falar espanhol comigo pra me impressionar e pareceu que ele estava falando árabe, me levou a um restaurante horrível e tentava imitar um sotaque péssimo, ele parecia estar drogado – ela choramingou – Meu Deus quero esquecer a noite de ontem.
—Eu também quero – sussurrei avoada. Minha cabeça ainda estava presa na vergonha que eu passei ontem, eu mal dormi essa noite. Não sabia com que cara ia trabalhar hoje.
—O que houve ontem? – Nicole perguntou encarando meu rosto.
Eu suspirei.
—O filho mais velho dos Miller chegou. Eu estava correndo atrás do irmãozinho dele que resolveu dar um passeio pela casa pelado quando eu esbarrei com ele e cai no chão igual uma idiota. Eu mal consegui responde-lo quando ele falou comigo – disse.
—Eu nem sabia que os Miller tinha outro filho além dos gêmeos – comentou Becca.
—Nem eu, e olha que trabalho com eles há um ano. – disse – Foi tão vergonhoso.
—Porque ele é bonito por acaso? – Nicole fez uma cara maliciosa pra mim e eu revirei os olhos.
—Cara, você não faz ideia.
Olhei no relógio e faltavam dez minutos pra bater o sinal e eu ainda não tinha pegado minhas coisas no armário. Eu e as meninas começamos a levantar pra ir pra aula quando uma Range Rover toda preta parou perto da gente. Meu coração disparou quando Cold desceu dali.
—Misericórdia é ele – eu disse com a voz engasgada e as meninas seguiram meu olhar.
Eu não estava crendo que além de trabalhar na casa dele agora teria que estudar com esse garoto. Só podia ser brincadeira, não é possível.
Tentei não ficar encarando muito, mas ele chamou a atenção de todos ao chegar. Estava com uma calça jeans preta caída na cintura que mostrava a barra da cueca vermelha, uma camiseta branca, tênis vermelho e uma touca que escapava a franja do cabelo rebelde dele e só pra completar óculos escuros. Ele era um pecado ambulante.
—Madre de Dios! – Becca disse olhando com a boca escancarada – Que homem.
—Parem de encarar merda. – pedi entredentes.
Eu praguejei umas 5 vezes nesse meio minuto em que ele apareceu. Ele estava distraído com um amigo quando me viu. Eu gelei e engoli em seco, ajeitei a bolsa no ombro pronta pra correr quando ele veio na minha direção ainda conversando com o garoto.
Ele sorriu quando me viu olhar de volta e tirou os óculos.
—Oi Vivi – me cumprimentou. Eu apenas acenei com a cabeça e forcei um sorriso pra ele.
Ele seguiu conversando com o amigo e entraram na escola. Eu fechei os olhos com força, inconformada.
—Nossa amiga arrasou hein. Agora entendi a vergonha que você passou ontem – Nicole disse se abanando. – Eu ia era cair de boca nesse homem.
Eu ignorei os comentários idiotas dela e fomos pra aula. Tentei não ficar pensando em Cold estudando na mesma escola que eu, eu não queria ter contato com ele, apenas o necessário, então evitei falar sobre ele o dia todo, mas as meninas pareciam não entender isso.
-Lá vai a piranha da Amber dar em cima da carne nova – Nicole disse na hora do intervalo. Estávamos sentadas em uma mesa no meio do refeitório e Cold estava a duas mesas de distancia da gente, ás vezes ele me olhava e eu desviava o olhar disfarçando. Mas agora eu não conseguia evitar, Amber estava sentada do lado dele balançando a cabeleira loira na sua direção e distribuindo sorrisos. – Como ela consegue ser tão oferecida?
—Até que eles combinam, ela tem cara de quem faz o tipo dele – eu disse os observando.
—Eu já to shippando vocês dois – Becca disse naturalmente.
Eu a encarei.
—Se controla Rebecca, se controla. – disse olhando nos olhos dela e ela gargalhou.
—Amiga ele olha pra você toda hora e você parece uma idiota quando ele esta por perto. Sei não heim – disse ela sorrindo.
—Você tem problema, para de ser louca. – disse. – Ele me olha porque sou babá dos irmãos dele e paguei micão na frente dele ontem. O que você queria?
Ela deu de ombros e agradeci quando ela deixou o assunto morrer. Me concentrar nas próximas aulas foi muito difícil pois tive todas elas com Cold, me sentei afastada dele e fingia não ver quando ele estava olhando pra mim.
Na hora da saída eu sai como um morcego fugindo do inferno. Ainda tinha que buscar Ariel na escola, pois hoje levaria ela pra trabalhar comigo. Passei em sua escola e ela estava elétrica hoje, provavelmente tinha comido muito açúcar. Não parava de falar na apresentação de balé que ela iria ter e como queria que todos estivessem lá.
—Eu vou convidar todo mundo pra ir me ver dançar – disse ela enquanto eu a tirava do carro.
Entrei com ela na casa da família Miller e pelo silencio eles estavam trabalhando na empresa hoje. A única pessoa em casa era a faxineira May que estava com as crianças.
Ariel foi brincar com os gêmeos de esconde esconde enquanto eu fazia o almoço deles. Estava distraída na cozinha quando de repente ouvi o barulho da porta e imaginei que fosse Cold, mas continuei fazendo o que estava fazendo e tentei não me incomodar com a presença dele.
Minutos depois quando o almoço já estava na mesa fui chamar as crianças.
—Ben, onde esta as meninas, esta na hora de vocês almoçarem – disse a ele que estava que nem um doido revirando todo o sofá.
—Eu não sei Vivi, não acho elas. – disse fazendo cara feia e correu pra cozinha olhando dentro dos armários.
Eu suspirei e fui procura-las no andar de cima. Olhei no quarto de Anna e Ben e até no quarto do Senhor e Sra. Miller e nada delas. Meu Deus, elas estão ficando boas nesse jogo.
—AAh – ouvi um grito vindo de outro quarto e não soube distinguir de quem era. Sai correndo toda atrapalhada e abri a porta abruptamente e meu rosto ficou imediatamente vermelho que nem um pimentão.
Cold estava todo molhado se cobrindo apenas com uma toalha em sua cintura e encarava Ariel com uma cara assustada. Ela olhava pra ele que nem uma boba, quando me viu no quarto deu um pulo do guarda roupas dele da onde ela provavelmente deveria estar escondida.
Ele me olhou franzindo o cenho.
—O que ta acontecendo aqui? – perguntei num fio de voz.
—Essa garotinha estava escondida dentro do meu guarda roupa – disse coçando a cabeça sem graça.
—Ele me assustou Vivi – disse apontando o dedinho minúsculo pra ele com cara de brava, eu ri pegando na mão dela e a puxando pra mim.
—Me desculpe, mas eu não esperava encontrar uma criança que não fosse meus irmãos dentro do meu guarda roupa. – disse ele – Afinal quem é você?
—É minha irmã – eu respondi — Ás vezes eu preciso trazê-la pra trabalhar comigo. Desculpe, vou mantê-la longe do seu quarto.
—Relaxa ta tudo bem – ele disse dando de ombros e se aproximou de nos duas se ajoelhando na frente dela. Eu engoli em seco. Merda, minha irmã mais nova estava conversando com ele enquanto ele estava só de toalha e seus ombros e cabelos estavam molhados. Ele deveria ter acabado de tomar banho, pois eu senti de longe um cheiro forte de sabão. Eu tentava desviar o olhar pra não passar mais vergonha do que já passei ontem. – Qual o seu nome? – perguntou.
—Ariel e o seu?
—Meu nome é Cold, e o seu nome não é de menino? – disse ele confuso e ela revirou os olhos.
—Não! – disse cruzando os braços – É nome de plincesa, e o seu é frio!
—É verdade, meu nome significa frio. Mas não estou lembrado de nenhuma princesa com o mesmo nome que o seu – disse ele pensativo brincando com ela.
—Ah meninos – disse ela batendo a mãozinha na testa com uma cara de indignada. Eu ri. – É aquela que vive no mar, a seleia.
—Oh é verdade. – disse ele sorrindo pra ela – Perdoa minha falta de conhecimento com as princesas.
—Você precisa melhorar – disse ela colocando a mãozinha no seu ombro, como se desse um conselho extraordinário. Ele riu.
—Nossa mãe é um pouco fã da Disney e quis descontar isso na gente – expliquei a ele.
—Existe alguma princesa chamada Viviana? – ele perguntou se levantando e me encarou com um sorriso torto. – Ou você é a primeira princesa com esse nome que conheço?
Eu quase não consegui responde-lo, o que ele quis dizer com aquilo? Que eu era uma princesa? Meu deus que clichê. Eu espero que isso não seja uma cantada. Deus que isso não seja uma cantada.
Eu respirei fundo antes de respondê-lo.
—Meu nome do meio é Aurora. – disse e ele continuou me olhando com cara de confuso. – Qual é, aquela que só dorme e é despertada pelo beijo verdadeiro. Uma palhaçada.
—Não acredita no beijo verdadeiro, Viviana Aurora Robins – Disse meu nome destacando cada silaba dele com um prazer estranho. Me deu as costas e foi até o seu guarda roupa, jogou uma camiseta por cima do ombro e uma bermuda e depois me encarou de novo.
Eu revirei os olhos.
—Sinceramente, não. E eu não te contei meu nome do meio pra você usa-lo contra mim.
Eu odiava meu nome completo. Odiava princesas e tudo que envolvia o conto de fadas ou coisas sobre o amor. A vida real não era bem assim.
—Prometo que vai ficar só entre nós Aurora – disse dando uma piscadinha.
—Não me chame assim. – disse seria.
—Tudo bem dorminhoca – disse com um sorriso torto e eu bufei.
Eu ia respondê-lo a altura quando Ben apareceu do nada todo suado e eufórico no quarto, parecia que tinha tomado três litros de café sozinho.
—Ah, achei a Ari! Eu achei ela! – gritou e saiu correndo e Ariel correu atrás dele.
Porque crianças correm tanto?
Eu bufei cansada, pois ate consegui alcança-los e fazer com que eles ficassem menos elétricos pra comer levaria a tarde toda.
Percebi que ainda estava no quarto de Cold e ele estava olhando pra minha cara com um meio sorriso.
—Garoto frio eu vou indo, tenho que cuidar dos seus irmãos – disse apressada.
E sai do quarto dele sem espera-lo responder. Evitei o dia todo passar pelo quarto dele, e quando ele descia as escadas eu arrumava um jeito de fazer alguma coisa no andar de cima. Não sei por que, mas sinto que não vai ser uma boa ideia ter contato com ele.
Durante a tarde as crianças dormiram o que me deu uma folga pra fazer meus trabalhos da escola. Nesse meio tempo vi Cold saindo de casa, onde será que ele ia? Droga, isso não era da minha conta.
Quando as crianças acordaram dei banho neles, depois brinquei de boneca com as meninas. Ser babá na maioria das vezes é ter que voltar a ser criança. Eu curtia isso, amava os gêmeos como amava Ariel e não poderia pedir emprego melhor.
Quando o senhor e a senhora Miller chegaram a casa por volta das 7 e meia as crianças já tinham jantada e estavam na cama dormindo.
—Você é tão maravilhosa Vivi, como consegue coloca-los tão cedo na cama? – a mãe deles me perguntou assim que chegou. Eu sorri.
—Eles gastam muita energia de dia brincando e acordam muito cedo.
—Eles gostam muito de você isso sim, eu sofro quando você não aparece por aqui – disse massageando o canto da cabeça com a mão. Parecia exausta.
—Eu também amo muito seus filhos senhora Miller. E ah, tem jantar na cozinha eu ajudei May a fazer. – disse enquanto arrumava minha bolsa no ombro. – Eu preciso ir agora, nos vemos amanha.
—Obrigada Vivi, por acaso você viu meu filho Cold? – ela perguntou – Fui ao quarto dele e ele não esta lá.
—Hm, acho que ele saiu.
Me espreguicei e me preparei pra pegar Ariel no colo já que ela estava desmaiada no sofá. Eu a peguei e a ajeitei nos meus braços. Gente, como ela cresceu, me lembro de quando a pegava com um braço só. Agora mal consigo com os dois. Não sei onde ela vai parar assim.
Me despedi deles e agradeci a Deus pelo elevador já estar lá me esperando. Quando entrei no carro ajeitei Ariel na cadeirinha. Quando rodei a chave o carro balançou um pouco e não pegou.
—Ah o que foi agora? – disse indignada.
Tentei uma, duas e três vezes e ele não pegou. Olhei o visor e o tanque estava cheio. Nem imaginava o que poderia ser agora. Droga! Eu estava tão cansada a única que queria era ir pra casa.
—Mas que merda – murmurei batendo a mão no volante com força e logo em seguida sobressaltei de susto quando ouvi alguém bater no janela do vidro – Ai!
Pra minha surpresa era o Cold que estava me encarando do lado de fora. Deveria ter acabado de chegar. Abaixei a janela e o encarei.
—Tudo bem? – ele perguntou.
—Não, meu carro não quer pegar.
—Pode estar sem gasolina – disse ele e eu bufei.
—O tanque esta cheio, eu não sei qual é o problema. – disse irritada e acabei batendo a mão no volante de novo. Não sei como Ariel ainda não tinha acordado. Cold, de repente me surpreendeu abrindo a porta do meu carro e me puxando pra fora.
—Eu levo vocês pra casa, vem.
—Não – eu disse me afastando – Não precisa eu dou um jeito, chamo um taxi sei lá.
—Não vou deixar você chamar um taxi. Eu levo vocês.
Ele deu a volta no meu carro e abriu a porta de trás e pegou Ariel no colo.
—O que você pensa que esta fazendo? – perguntei irritada.
—Levando vocês pra casa – ele a ajeitou cuidadosamente no banco de trás do seu carro fechou a porta e me encarou – Vai entrar no carro ou vou ter que te colocar lá dentro a força?
Eu abri minha boca pra responder mais ele fez comigo igual eu fiz com ele mais cedo, me deu as costas e entrou no carro antes que eu pudesse responder.
Fiquei uns segundos emburrada do lado de fora e depois de bater o pé eu entrei no carro bufando que nem um touro e me sentei do seu lado.
—Achei que ia criar raiz lá fora – disse revirando os olhos. – Me fala seu endereço.
Eu passei meu endereço a ele e fomos a maior parte do caminho em silencio. Ele dirigiu com cuidado, pois Ariel estava sem cinto e dormindo como uma pedra.
Ele não puxou assunto e nem eu. 15 minutos depois ele estacionou na frente da minha casa.
—É aqui? – perguntou e eu assenti.
Eu já ia descer do carro quando minha cara de pau e curiosidade falou por mim.
—Porque eu nunca te vi antes?
Ele me olhou surpreso entendo a minha pergunta. Acho que não esperava que eu fosse falar mais com ele hoje, ou principalmente perguntar sobre esse assunto. Mas era complicado pra mim que vivia mais tempo na casa dele do que na minha, saber da existência dele só ontem.
—Estava com meus avós no canada.
—Por mais de um ano? – perguntei – Trabalho com seus pais direto a mais de um ano, já passei feriados e férias e até o natal e nunca vi você. Nunca nem ouvi falar de você. — Ele engoliu em seco visivelmente incomodado enquanto batia os dedos no volante impaciente e eu cai em mim. O que eu pensava que estava fazendo? Não era da minha conta. – Desculpa, eu só...
—Ta tudo bem, é só que é muito complicado – ele disse mordendo os lábios. Parecia estar se segurando e eu não entendia muito bem por que. Ele me encarou com aqueles olhos verdes perdidos e eu senti uma imensa vontade de conforta-lo e eu nem sabia do que se tratava seus problemas. – A vida de ninguém é fácil Viviana, muito menos a minha.
Eu esquecia isso. Minha vida era tão aterrorizante que eu esquecia que outras pessoas também poderiam ter problemas.
—Sinto muito pelo que quer que seja, que você tenha passado ou esteja passando – disse e ele apenas me encarou sem expressão – Eu preciso ir. Obrigado pela carona.
Desci do carro determinada a matar o assunto. Peguei Ariel nos braços e as chaves de casa. Ele abaixou o vidro e acenou pra mim.
—Boa noite – eu disse.
—Boa noite princesa dorminhoca – disse dando uma piscadela.
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