Era uma vez... de novo.
18 Aprendiz de feiticeiro, quer dizer, de esqueleto.
Notas iniciais
Oi. Ela parou na sensação de queda né?
(Não Dorothy, eu sei onde você parou. É só um modo simpático de iniciar). Desculpem.
Bom, não vou começar com ela.
Voltando à torre do relógio: fiquei lá deitada, sentindo a cabeça girar, até que senti alguém se mexendo do meu lado.
– Aah... Acho que chega de portais pra mim. O que acha Rachel?- Henry colocava as mãos na cabeça.
Dei um sorriso fraco e me sentei. Antes que pudesse responder, Emma se aproximou correndo.
– Henry! Rachel! Vocês estão bem?
– Estamos – respondi rapidamente, para conter a preocupação dela – Só precisamos comer algo que não dê em árvores ou que tenhamos visto ainda com flechas cravadas no corpo. — ela riu – Como sabia que havíamos chegado?
– Bom, digamos que Dorotéia nos deu uma pista nada sutil. Caiu como um enorme saco de lixo na água. — foi só aí que percebi que, com a exceção da jaqueta e das botas, Emma estava encharcada. Tipo, pingando mesmo.
– Então... Como está a Dorothy?
– Com o Killian. Dentro do possível, creio que ela está bem.
– HENRY!- Regina corria até o filho, me interrompendo antes que eu pudesse ressaltar o fato de Emma ter usado o nome do pirata, ao invés do apelido- Está tudo bem? Machucado? Com fome?- ela o abraçou forte.
– Mãe! Relaxa!- Henry se desvencilhou da mãe- Eu tô bem!
Regina o soltou e tentou dar um sorriso, mas percebi que ficou chateada. Acho que Henry também, pois ruborizou e abraçou a rainha. Dessa vez, o sorriso foi verdadeiro.
Em seguida, surgiram como que saídos do nada Mary Margaret, David, Belle, Rumpelstiltskin, Neal,os anões, os Homens Alegres, Aurora, Felipe e Mulan. Assim que Neal terminou a frase “Onde está Dorotéia?”, ela surgiu acompanhada por Hook. Apesar de o sobretudo do pirata cobrir seus braços e pernas, era nítido que seus machucados ardiam, e ela estava encharcada como o quê.
(Dorotéia é claro que dava pra ver que estava doendo! Você arrancou pedaços dos seus joelhos e cotovelos e caiu na água salgada, o que achou que aconteceria? Ah, cala a boca.).
Todos se viraram e olharam pra ela, o que a deixou nervosa.
– Sério pessoal, eu posso tirar uma foto. Dura mais.
Ninguém se mexeu, e Dorothy fez a coisa mais estranha que já tinha feito na vida:
– BLEARGH! EU SOU UM KRAKEN E VENHO DO MAR!- berrou ela, enquanto mexia os braços e arregalava os olhos, fazendo todos, exceto Killian (creio que já estava acostumado, até teve que disfarçar uma risada) darem aquele pulinho de susto.
(Ai! Que, vai dizer que aquilo foi totalmente normal, e que todos fazem isso o tempo todo? É, foi o que pensei.)
Depois de passado o susto, voltei a conversar com Emma (que ainda estava meio boquiaberta). Foi então que vi o carro do David indo embora. No banco de trás, consegui distinguir as costas de Hook, e olhando diretamente pra mim, Dorothy sorria zombeteira.
– Eu não acredito que aquele pássaro inútil foi embora sem mim!
– Na verdade – Regina colocou a mão no meu ombro – foi até bom. Queria conversar com vocês dois.
Com um movimento da mão, ela apontou/congelou Henry. Aquele pirralho estava tentando sair de fininho! Bufei. Regina percebeu minha irritação, e deu uma risadinha. Com apenas o movimento dos lábios, a Rainha falou comigo:
–Vingança? –concordei com a cabeça. Aquela mulher já me conhecia. Creio que entre eu me vingar longe dela e na frente dela, ela preferiria a segunda opção. Ela trouxe Henry até mim, ele ainda paralisado. Ao mesmo tempo, ela o soltou e eu lhe dei um belo peteleco na nuca. Dessa forma, tive o prazer de vê-lo dar um gritinho agudo e passar a mão na nuca. Ele se virou de cara feia, mas ao ver Regina rindo e meu sorrisinho vitorioso, ele revirou os olhos e bufou se livrando da carranca.
– Ah, tudo bem. E quanto à minha proposta?- a rainha perguntou. Como se fosse possível algum de nós dizer “não”.
(É, você está certa. Ah, pelo menos uma vez na vida isso tinha que acontecer né? Calada).
Dorothy acaba de dizer que até seria possível algum de nós dizer não, mas isso não teria muita relevância para Regina. Mas o fato de eu não poder negar o... Hm... Convite, não queria dizer que não podia negociar.
– Se tiver pizza, eu tô dentro.
Regina arqueou um pouco as sobrancelhas, mas concordou. Ela ligou para a Granny’s, encomendou a pizza de Cream cheese. Fechou a cara quando pedimos borda, mas acabou cedendo. Fomos andando até a casa da prefeita, e cruzamos com Ruby na porta. O cheiro da pizza estava tão bom que eu e Henry praticamente atacamos a garota.
Regina pagou Ruby e abriu a porta. Eu e Henry corremos até a cozinha. Ele achou aquela rodinha que as pessoas usam para cortar a pizza, e à medida que ele ia cortando eu ia colocado nos pratos. Servi 3 pedaços pra cada um, deixando dois para a Rainha. Em menos de dez minutos, os pratos estavam vazios, e Regina nos encarava assustada.
Enquanto a rainha levava os pratos até a pia, me aproximei de Henry e sussurrei:
– A mãe é sua, você se vira.
Ele me olhou meio assustado, mas antes que pudesse retrucar, Regina se sentou.
A única coisa que posso dizer sobre essa conversa é que:
A) Henry não teve que responder nada. Regina falou por todos.
B) Durou exatamente 17 minutos.
Como sei disso? Bom, digamos que passei todo esse tempo encarando o relógio na parede atrás da prefeita.
Assim que ela nos liberou, saímos em silencio. Já a meio caminho da Granny’s, Henry quebrou o silêncio:
– Faz alguma ideia do que ela disse?
Neguei com a cabeça.
– Bom, isso é um problema, por que eu também não sei de nada.
Demos uma risada, pensando no que aconteceria se a rainha retomasse o assunto.
Chegamos à hospedaria, e entrei pela porta dos fundos. Subi até o quarto, e deixei Henry com seu videogame. Peguei minhas roupas e tomei um banho. Usei a tesoura que já estava no banheiro para cortar os cabelos (dessa vez, na altura da cintura) e penteei os fios. Coloquei minha touca de gato (cale a boca Dorothy. Não é idiota, é fofa) e desci com Henry.
Encontrei Dorothy na mesa com Hook, Mary Margaret e David. Ergui a mão para dar um tapa na cabeça do pássaro, mas percebi que ela tinha colocado um band-aid no nariz. Realmente, aquilo estava bizarro. Dei uma risada, e Dorotéia bufou.
– Muito engraçado, Rachel.- terminei de dar o tapa.
– Por ter me deixado lá. Fomos para a casa de Regina esclarecer todo o negócio do meu relacionamento com Henry. Acabou que demorou um pouco mais do que esperávamos, por isso aproveitamos e comemos pizza lá.
– E esse suéter horrível apareceu como, por magia?
–Não, eu acabei de tomar banho no nosso quarto de hotel.
– Ei, hoje é halloween. – Henry comentou.
– Não creio, Henry. – Dorotéia já estava de pé.
– Chegamos no dia do Halloween! Que tal nós três e quem quiser fazermos uma sessão de filmes de Halloween?
– É uma boa ideia – Dorotéia concordou.
Acabamos assistindo A noiva cadáver e O estranho mundo de Jack. Nada realmente de terror para que Hook (só pra constar, ele ficou meio encantado com o DVD) e Henry conseguissem dormir.
(Não me bate pirralho!).
Pra provar que não estou exagerando: em um certo momento, no filme O Estranho Mundo de Jack, ele para no meio de uma canção e suspira, como se estivesse dormido. Em seguida dá uma espécie de pulo e exclama “que isso?” meio que de repente. As mocinhas se assustaram, enquanto eu e Dorothy cantávamos junto com o Jack.
Pois é.
Depois do filme, enxotamos os dois do quarto e caímos na cama, sem nem mesmo um boa noite. E aí veio a sensação de queda, que não era só uma sensação na verdade.
Abri os olhos, e me vi caindo na escuridão. Olhei para o lado, e vi Dorothy abrindo os olhos e percebendo o que estava acontecendo. Antes que pudéssemos dizer algo, nos estatelamos no chão.
Quase não acreditei no que vi.
Centenas de monstros desfilavam e cantavam.
“In this town we call home
Everyone hail to the pumpkin song
La la lalala lalala...”
Ficamos encarando aquilo meio que sem entender, até que eles pararam de olhar para o que quer que eles estivessem olhando (que estava atrás de nós) para olhar diretamente para nós.
– Elas são... Humanas? — Um homenzinho com uma cartola enorme e uma faixa de prefeito perguntou – Mas... – para a minha surpresa, o rosto dele virou, passando para algo preto e branco, de expressão desesperada – não deveriam estar aqui!
Antes que qualquer uma de nós pudesse fazer qualquer coisa além de levantar, outra voz veio das nossas costas:
– Ora prefeito, creio que não causarão problemas. Vou cuidar delas, sempre gostei de uma entrada triunfal.
Eu e Dorothy nos entreolhamos. Aquela voz era conhecida. Nos viramos devagar, e demos de cara com Jack Skellington. Ele nos observava de volta, e deu um sorriso.
– Como se chamam? – ele perguntou de forma amável. Percebi que Dorothy ainda estava em estado de choque, então respondi pelas duas:
– E-e-eu sou Rachel... E-essa é Dorotéia.
– Hm... Rachelle e Dorotea. — era assim que ele pronunciava nossos nomes – parecem pouco à vontade. Por favor, sintam-se em casa. Nenhum de nós fará mal a vocês.
– Jack, querido, creio que essas são as roupas que usam para dormir, deve ser por isso. Será que não poderia...? – Sally. A cada novo personagem que eu via, meus olhos se arregalavam mais. Os de Dorothy quase saltavam para fora das órbitas, e os meus deveriam estar iguais.
Acho que não deveríamos estar tão surpresas. Quer dizer, éramos personagens de contos de fadas, eu até tenho um filme da Disney!
(Não estou me gabando Dorothy. É só uma constatação.).
– Ah! Mas que cabeça a minha! Bom, como minhas aprendizes devem se vestir à caráter.
Com um movimento da mão esquelética, Jack nos envolveu com uma nuvem de fumaça preta. Quando ela se dissipou, trajávamos roupas diferentes. Diferentes, mas bonitas. Jack pensara em tudo, até mesmo nos cabelos.
– Espera aí... Você disse aprendizes?- aparentemente, Dorothy saíra do transe.
– Ah, ela fala! – Jack deu uma risadinha- sim, disse. Consigo sentir a magia em vocês. Claro, em alguns pontos especiais- ele apontou para meus cabelos e para os sapatos da Dorotéia – se conseg...
– MEUS SAPATOS! – Dorothy o interrompeu – o que você fez com eles?- ela estava realmente em pânico.
– Apenas uma camada de magia ilusória. – ela suspirou aliviada quando ele desfez e fez novamente a ilusão – Continuando: se conseguirem canalizar os poderes para o restante do corpo serão excelentes alunas.
– Você será nosso professor?- Dorothy parecia entusiasmada. Pelo menos eu não era a única.
– Sim. Agora, que tal um passeio para conhecerem a cidade do Halloween?
Assentimos e o seguimos. Pelo caminho, Jack foi nos apresentando aos monstros. Depois do sétimo ou oitavo, Dorothy resolveu fazer graça:
– Já sei qual monstro a Rachel pode ser: o abominável pigmeu.
Jack riu, mas não pude deixar barato:
– E você seria o horrível pássaro estranho.
Jack pareceu confuso, e expliquei rapidamente:
– Eu a apelidei de Dodô.
Depois de um segundo, Jack também riu. Estávamos entrando no cemitério, e ao passar por uma casinha de cachorro, Jack assoviou.
Como que saído do nada, Zero estava ao seu lado. Assim que nos viu, veio fazer festa. Ou seja lá o que cachorros mortos fazem. Apanhei um galho do chão e joguei pra ele, que imediatamente foi buscar. Ao invés do galho, ele voltou com algo branco na boca.
– Minha costela! Até que enfim você a encontrou garoto! – Jack afagou a cabeça do cachorro (ou do fantasma do cachorro) enquanto recolocava a costela no lugar. Dorotéia abriu a boca para dizer algo, mas lancei um olhar de aviso e ela ficou quieta.
Fomos até o campo de abóboras e de volta à cidade. Encontramos Sally, e ela falou diretamente com Jack.
– Está tudo pronto, espero que elas gostem.
– O que está pronto? – Eu e Dorothy perguntamos em uníssono.
– Ora, onde acharam que iam dormir? Montamos um quarto para vocês. Algo como uma mini-casa.
Jack nos guiou até sua própria casa, mas ao passarmos pelo portão avistamos uma pequena casinha.
– Durmam bem meninas, espero que gostem – Sally nos entregava a chave. Ela e Jack nos observavam, e entendi que queriam ver nossa reação. Puxei Dorothy até a casa. Abri a porta, e me surpreendi.
Não era o que eu esperava.
A sala era pequena, mas aconchegante. Tinha um sofá, uma mesinha e uma lareira. Uma das paredes estava repleta de livros. Checaria quais depois.
Abrimos a porta seguinte, e demos com o corredor. Na porta da direita estava o banheiro, muito parecido com o da Granny’s, já abastecido com tudo o que precisaríamos. Na outra porta estava o quarto.
(Não. Não vou deixar essa parte pra você).
As duas camas eram baixas e de madeira preta. Eram idênticas a não ser pelos lençóis: uma cama era azul escura e a outra verde musgo. Entre as duas camas havia os dois criados e um grande abajur negro. Havia dois armários e uma porta. Automaticamente fui até ela e afastei as pesadas cortinas.
Era uma varanda. Como a casa era só de um andar, era apenas um espaço ao ar livre. Havia uma daquelas cadeiras que ficam penduradas no teto, meio parecida com uma gaiola cortada ao meio. Era um delicioso lugar para quando se quer ficar em paz.
Quando voltei para dentro do quarto, Dorothy estava sentada na cama azul.
– Ei loira. Só eu tenho a impressão de que isso tudo é um sonho?
Me deitei na cama.
– Um sonho bom ou ruim?
Depois de alguns segundos, ela respondeu:
–Vamos descobrir amanhã.
Com esse feliz comentário, adormecemos.
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