Dizem por aí que tudo é possível.

Mas nem tudo parece possível quando se esta morrendo de sono e tem-se que acordar às 6 da manhã. Esse era o pensamento de Luci ao escutar o barulho irritante do despertador. Eram 5h55min de uma quarta-feira, hora de acordar para mais um emocionante dia da sua vida. Ela sairia de casa pontualmente às 6h30min, pegaria o ônibus no máximo às 7h45min, chegaria à escola às 8h30min, passaria na Biblioteca e usaria sua meia hora de adiantamento para terminar o trabalho sobre Universos Paralelos, coisa de sua professora louca de Português.

- Bom dia, Luci – Sua avó exclamou assim que a viu se arrastar pelos corredores.

- Bom dia, vó. – Respondeu automaticamente, aquela era a conversa de todas as manhãs, numa manhã igual a todas as outras.

- Você pode me fazer um favor, querida?

- O café já está pronto, vovó.

- Oh, obrigada querida. Mas você pode me fazer um favor?

Mas aquele não era o favor de todas as manhãs? Fazer o café e coloca-lo nas duas únicas xícaras da casa, destinadas às únicas duas pessoas da casa? Luci nunca gostara de café, mas desde que mudara, há duas semanas, para a casa de sua avó, adquirira o hábito de beber ao menos uma xícara todas as manhãs.

- O que quer que eu faça? – Perguntou realmente curiosa.

- Quero que vá lá em cima, no quarto que foi do seu tio, que eu uso como deposito, e pegue uma caixa marrom. Ela tem um fecho dourado, você vai reconhecer assim que ver.

Luci apenas assentiu e correu escada acima, aquele quarto era um dos locais proibidos da casa, entrar lá era como invadir a área militar, não que ela já tivesse invadido uma para saber, mas gostava de imaginar qual seria a sensação. Provavelmente deveria ser algo parecido com o que estava sentindo naquele momento. Andou pelo corredor saboreando, pela primeira vez, a sensação esquisita que o ranger da madeira velha lhe causava. Parou à frente da mais velha das quatro portas existentes no corredor. Respirou fundo e girou a maçaneta.

O quarto era extremamente comum e decepcionante. Se alguém retirasse dali as caixas cobertas de poeira cheirando a mofo, a poeira e o cheiro de mofo, seria um lugar como qualquer outro. Ou seja, não havia um pingo sequer no copo dos motivos para que ela não entrasse lá, o que significava que a estadia dela ali não era nada “militarmente invasiva”.

Olhou o colorido de caixas dispostas à sua frente, haviam de todos os tamanhos e cores. Cerca de vinte caixas, talvez mais, talvez menos. Procurou a caixa marrom da qual a avó lhe falara, ela tinha razão. A caixa era inconfundível. Pegou-a nas mãos surpreendendo-se com o peso, equilibrou-a sobre os braços e saiu do quarto já não tão proibido. O ranger que a madeira fazia já não lhe causava mais nenhuma sensação. Só o costumeiro enjoo, mas aquilo era normal, Luci tinha certa aversão a coisas antigas.

- Aqui está a caixa, vovó. – Falou colocando o objeto em cima da mesa e soprando a poeira de forma teatral e exagerada. A mais velha a encarou com uma expressão desgostosa no rosto. Ela sempre fazia aquela cara, todas as vezes que alguém não fazia as coisas como queria. Desta vez a regra quebrada era “Objetos imundos em cima da mesa? Não mesmo”. – Então, será que agora eu posso ir embora?

- Acho que não, meu bem. – A avó gesticulou para que sentasse – Tenho adiado isso desde que você chegou aqui, mas está na hora de conversarmos.

“Temos que conversar”. A tão amedrontadora frase pairava na cozinha. Luci apenas sentou e esperou que a avó desse início a conversação. Sabia que aquilo tiraria dela a meia hora extra para fazer o trabalho de Português, então já começava a pensar na desculpa que usaria desta vez. Viu a caixa ser aberta, uma caixa repleta de livros repletos de poeira.

- O que é isso vó? – Não conseguiu conter a curiosidade, talvez a vó fosse lhe confessar que era uma grande bruxa e que ela herdaria um legado poderoso...

- São livros, querida. Livros que lhe farão entender o motivo de seu irmão ter sumido...

O irmão. Desde que os pais morreram a pessoa que Luci mais amava no mundo era o irmão mais velho, ela achava que eles ficariam juntos a vida toda, apoiando-se durante todas as horas, no entanto ela estava errada. Ele não pensou duas vezes antes de deixa-la sozinha. Pior, ela pensou que havia acontecido algo grave com ele, mas não, ele só havia ido embora.

- São livros de autoajuda? Não preciso.

- Luci, você lembra que eu sempre te disse que tudo era possível? – Sim, ela lembrava daquilo todas as manhãs. – Imagine então se não seria possível que além do nosso mundo, existissem outros mundos...

- Como universos paralelos? – Indagou segurando a risada, talvez sua avó fosse tão louca como a professora de Português.

- Não, acho que seriam mais como outras dimensões. Dimensões pelas quais podemos viajar e mundos aos quais podemos explorar. – Luci fez uma careta, ela estava mesmo escutando aquilo? – Deixe-me explicar melhor. Imagine que a casa em que moramos é uma dimensão e a casa da nossa vizinha é outra, quando você quer ir até lá o que faz? Abre portas, fecha portas, atravessa a rua, abre e fecha mais portas, certo? É assim que acontece quando se quer viajar por entre as dimensões. A grande diferença é que não é tão fácil...

- Vó, por favor, isso é loucura. Só existe uma dimensão.

- Então você acredita que a sua dimensão existe?

- Claro que sim, eu estou aqui, não estou?

- E só porque você está aqui quer dizer que lá não existe? – Não respondeu, apenas afundou ainda mais na cadeira. Aquele dia não seria como os outros, mas isso não significava que ele seria bom. – Vou lhe contar uma história, uma que minha mãe me contou uma vez, a mesma que eu contei para seu irmão três semanas atrás. – Três semanas, exatamente o tempo em que o irmão lhe deixara. – Assim como o nosso mundo foi criado, outros mundos foram criados também. Mundos sombrios, mundos diferentes do nosso. Alguns desses mundos são tão, ou mais, evoluídos que o nosso. Dividem-se em países, organizam-se como lhe convém. A história que eu vou lhe contar é sobre um reino, um reino de uma das diversas dimensões que existem por aí. Equoc.

- O quê?

- Os nascidos em Equoc acreditam que seu mundo foi criado pela deusa Éris. A deusa bondosa que tudo costura. Reza a lenda, que havia uma princesa solitária em seu lar, então, para abrandar a própria solidão ela decidiu costurar bonecos que seriam sua companhia. A deusa, com pena da pobre jovem, e admirada com tamanha qualidade de seu trabalho, deu vida as criações dela. E não só isso, costurou todo um reino para que a jovem pudesse governar. Um reino dividido em colônias, que viviam em paz até a chegada da Bruxa.

- Bruxa? Se a deusa é tão boa por que ela criou uma bruxa?

- A Bruxa não foi criada pela deusa, querida. Ela veio de outra dimensão, não se sabe qual.

- Como não? É só olhar para ela e saber se é humana ou alguma outra criatura, simples.

- Não, não. Ninguém nunca viu realmente a bruxa, ela nunca mostrou sua verdadeira forma. Mas deixe-me continuar a história, onde eu estava mesmo? Ah sim, Rifos. Este é o nome dela. Quando ela chegou a Equoc uma onda de caos foi instalada, algumas criaturas resolveram passar para o seu lado, mas a maioria não. Os que se opuseram a Rifos sofreram terrivelmente.

- Sofreram? O que ela fez?

- Coisas terríveis. Transformou as criaturas em bonecos novamente, tirou-lhes a vida e deu às suas próprias criações. Agora ela explora o reino de todas as formas possíveis, sugando tudo de bom que há por lá.

- E esse é o fim?

- Ainda não acabou, querida. É por isso que existimos, para ajudar a deter as forças do mal...

- Ajudar a deter as forças do mal? Vó, a história que você contou é mesmo muito legal, mas não dá pra acreditar. É um bom conto, mas...

- Seu irmão foi para Equoc, querida.

- Quê?

- A princesa Blue saiu em busca de ajuda, ela viajou por entre as dimensões até que chegou à nossa. Onde encontrou minha mãe, que ainda era uma adolescente. Mamãe foi levada até Equoc e juntamente com princesa resgatou as criaturas que foram aprisionadas por Rifos. – Abriu a caixa e retirou de lá algo parecido com um urso panda. – Mas as pequenas criaturinhas ficaram congeladas assim. Depois de um tempo minha mãe descobriu que elas, apesar de tudo, preservavam a capacidade de sentir e que voltavam ao normal quando recebiam aconchego e carinho. Então resolveu arrumar lares para as criaturas. Desde então tudo ficou bem, ou aparentemente bem.

- Mas?

- Mas então, cerca de um mês atrás fui procurada pelo Mike, ele não chegou a dizer muita coisa. Apenas disse que tínhamos que ajuda-los, que a bruxa havia escapado da prisão e capturado a princesa.

- Esse é o Mike? – Perguntou. A avó estava mesmo louca.

- Sim, ele congelou logo depois de chegar aqui. Fiquei uma semana sem saber o que fazer, até que decidi que contaria tudo para seu irmão. No começo ele não acreditou em mim, achou que eu estivesse louca. – Jura? – Mas no fim consegui convencê-lo que eu falava a verdade.

- E ele foi para Equoc salvar a princesa Blue?

- Prometi a ele que eu cuidaria de você até que ele voltasse.

- Ele não voltou.

- Por isso estou lhe contando querida, acho que algo deu errado. Você precisa ir atrás do seu irmão.

- Por que você não vai?

- Eu não posso, alguém tem que ficar aqui para controlar as coisas. Alguém que conheça o povo de Equoc.

- Pelo que você me disse o povo de Equoc é bem fácil de reconhecer, afinal, quem é que não olharia para um panda andando pelo meio da rua?!

- As criaturas também podem mudar de forma temporariamente, meu bem.

- Isso é ridículo.

- Luci, você precisa ajudar seu irmão.

- Vó, você está louca.

- Por favor, Luci. – Os olhos da mais velha pareciam suplicar que ela acreditasse naquela história toda. Ela queria acreditar, queria acreditar que o irmão não a abandonara por nada, que ele estava preso em alguma outra dimensão mágica e que ela poderia salvá-lo. Entretanto, era loucura. – Você podia ao menos tentar.

Tentar? Tentar não a faria tão louca quanto a avó? Tentar viajar para uma dimensão inexistente, para conhecer criaturas inexistentes não a transformaria numa maluca de pedra? No entanto, quem saberia? E o que custaria tentar? O que teria que fazer? Abrir uma porta para Equoc? Se seu irmão fizera mesmo aquilo, então ela também conseguiria.

- Tudo bem, eu só vou tentar uma vez.

- Antes você precisa saber de algumas coisas.

- Ou é agora ou nunca, vovó. O que eu tenho que fazer?

- Está bem, leve este livro com você. – Pendurou-lhe uma bolsa no pescoço. – Agora, pegue este aqui. E leia estas palavras. – Apontou para um parágrafo no livro. – Você precisa acreditar Luci, acreditar que pode ver seu irmão novamente.

Respirando fundo, Luci abriu a boca para dizer as palavras, mas elas não saiam de modo algum. Passou os olhos pelos dizeres novamente. Nada. Ela não conseguia falar. Fechou os olhos fortemente, a decepção a tomou por completo, apesar de saber que aquilo era loucura, uma parte dela queria que fosse verdade. Ela queria ver o irmão novamente, ela queria abraça-lo novamente. Queria... Sentiu um frio lhe percorrer a espinha, então foi como se algo a sugasse para dentro. O ar lhe faltou nos pulmões, o corpo não a obedecia, mover-se era impossível. E tão do nada quanto a crise começara, ela foi. Luci abriu os olhos novamente e quase engasgou com o que viu.

Não era a casa que esperava ver que lhe abrigava. E sim um campo repleto de flores azuis. Sorriu abobadamente com a paisagem que se estendia a sua frente. Sua avó não estava louca, ela tinha razão. A história era real. Assim como Rifos, assim como a Princesa, assim como o sonho que tinha de reencontrar seu irmão.

Logo mais a frente ela conseguia ver o que se parecia com uma pequena aldeia. Caminhou por entre as flores, cantarolando uma música qualquer. Já sabia exatamente para onde ir, pois estava exatamente onde precisava e queria estar. No Reino de Equoc. Numa outra dimensão.

Talvez tudo fosse mesmo possível.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.