Em uma época onde o caos e os desastres naturais constantes são os senhores que regem a vida dos seres vivos que habitam a terra, os mesmos tiveram que se reinventar para conseguirem sobreviver ao sistema hostil de um clima caótico. Todas (ou quase todas), as construções, meios de transporte e até a forma de cultivar alimentos foi forçado a evoluir, mudar ou ser resgatado de páginas de livros e registros antigos. O histórico e o tecnológico foram fundidos em favor da sobrevivência.

Tufões, vendavais, tempestades de granizo constantes e imprevisíveis forçaram setores como a construção civil e o setor automobilístico a saírem das bolhas e se tornarem algo mais. As construções tanto habitacionais quanto as comerciais se tornaram grandes misturas malucas de coisas contemporâneas com elementos medievais, tocas de animais e coisas normalmente usadas em construções militares. Era como olhar uma colagem feita por uma criança, que grudou no papel tudo que ela achou interessante.

As pessoas também tiveram que se reinventar e reaprender a conviver e viver com a natureza, já que a sobrevivência de ambos se tornou mais dependente do outro do que nunca, tanto a vida selvagem quanto a doméstica.

Cavalos e jumentos voltaram a ser os meios de transportes mais populares em algumas regiões. Onde os veículos de quatro rodas falharam, os animais venciam. Animais são naturalmente sensíveis às mudanças no tempo sendo alertas muito eficientes, sem falar que o terreno também não era um grande problema para eles, por isso foi criado um sistema de entrega nomeado de cavalariços. Não é lá o nome mais criativo mas é fácil de lembrar. As bases e postos avançados dos cavalariços ficam sempre em vales e nos sopés das montanhas e morros, pois era mais protegido dos ventos fortes.

Camila era uma dessas entregadores. Suas entregas constituíam principalmente de suprimentos básicos como alimentos e materiais de limpeza. Ela realizava a tarefa com a ajuda de seu querido cavalo manga larga preto, o Keanu.

Em uma manhã abafada e ensolarada, Camila recebeu uma mensagem de sua amiga Marina pedindo por materiais de limpeza e se possível uma visita para pôr o papo em dia e provar uma nova receita de torta que ela inventou.

Uma missão bem simples, ou quase já que no dia anterior ocorreu uma forte tempestade e boa parte do caminho para a casa da sua amiga estava obstruído, como ela morava relativamente perto de onde sua base funcionava subindo um morro ela geralmente faria entregas para ela a pé, mas dessa vez Keanu seria necessário já que Camila seria obrigada a pegar outra rota para lá.

Após se equipar e prender muito bem a sacola de mantimentos que seriam entregues na sela do cavalo, Camila saiu dos estábulos da base rumo a avenida principal, durante o trajeto ela passou por alguns condomínios de prédios e os moradores de alguns deles estavam fazendo um trabalho de reforço estrutural.

O lugar onde Camila morava e onde a base onde ela trabalhava ficava dentro de um vale, eles não eram acometidos pelos ventos fortes das tempestades, mas as intempéries não eram mais gentis por causa disso.

Alguns minutos de cavalgada e eles finalmente chegaram à avenida principal do bairro. A avenida era bem larga, muito longa e cheia de prédios comerciais, todos eles equipados com abrigos para tempestade. Na parte da frente de todos os comércios havia um abrigo e o comércio em si ficava na parte de trás (nos fundos), isso também protegia os comerciantes e os transeuntes. O dia estava bem calmo e não havia muita movimentação, então não foi difícil visualizar um rosto familiar para ela na rua, passeando despreocupadamente na calçada em frente às lojas:

— Vânia? — Camila aborda a mulher.

— Camila é você mesma? Quanto tempo! — a mulher responde.

— Nunca mais tive notícias suas, nem sabia que você ainda morava por aqui.

— E não moro, desde que terminamos o ensino médio me casei e fui embora. Só vim visitar alguns parentes que ainda estão por aqui. E você como está?

— Eu estou bem obrigada por perguntar e trabalhando muito, né amigo? — Camila dá uma palmadinha no pescoço de Keanu que responde com um bufo.

Durante essa pequena interação a entregadora não notou o nervosismo da outra mulher.

— Quem é esse amiguinho aí? — Vânia pergunta se engolindo seco.

— Esse é meu companheiro de entregas Keanu.

— Ah! Você trabalha para os entregadores!

— Trabalho como entregador para os cavalariços*, e gosto bastante desse emprego!

— E você está em serviço agora? — Vânia pergunta com um tom de esperança.

— Na verdade, estou sim! Eu só queria dizer um oi mesmo, faz tanto tempo desde que eu vi alguém da época da escola, quase dez anos se formos contar!

— Eu também não vi mais ninguém, foi bom te encontrar, mas acho melhor seguirmos nos caminhos, afinal você está trabalhando e tudo mais e não é bom atrasar o pedido do cliente né? — Vânia já estava falando de forma aguda e quase gritando.

— Verdade! Então até mais…

Antes que Camila terminasse a sua despedida o cavalo se agitou e relinchou, não foi preciso mais outro sinal, uma tempestade estava se aproximando e bem rápido.

—Temos que nos abrigar rápido! — Camila diz enquanto desmonta o cavalo e o conduz para o comércio mais próximo deles, que no caso era uma oficina mecânica.

Ao entrar no abrigo e acomodar Keanu a entregadora percebe que Vânia não veio com eles. Ao olhar para trás ele vê que Vânia estava parada olhando para o cavalo e finalmente nota o olhar assustado da outra.

— Vânia? — Quando Camila se move com intenção de ir em direção a outra, a mesma sai correndo.

O dono da oficina apareceu correndo próximo a ela, dando uma última olhada para ter certeza que não havia mais ninguém na rua e fecha a porta sanfonada do abrigo. Nem se passaram 2 minutos e a porta começou a ser chacoalhada pelo vento. Foram 6 angustiantes minutos de tempestade, 6 minutos acalmando o animal e se preocupando. Torcendo para que Vânia estivesse devidamente abrigada e tentando entender o por que dela não ter vindo se abrigar com eles, uma teoria estava rapidamente começando a ser montada quando a tempestade passou e tudo ficou tranquilo novamente.

No momento em que a porta foi aberta sem pensar duas vezes Camila sai correndo para procurar Vânia, deixando o cavalo para trás.

Três comércios depois ela de fato encontrou a outra mulher, ela estava abrigada na farmácia.

— Vânia sua doida, por que você saiu correndo daquele jeito? Podia não dar tempo de se abrigar! Você está bem?

— Desculpa por te preocupar desse jeito, só que de jeito nenhum eu iria me esconder de uma tempestade no mesmo lugar que um cavalo! Eu morro de medo desses bichos, vai que ele me dá um coice, quebra as minhas costelas e eu sofro uma perfuração no pulmão? Ou me acerta na cabeça e me dá um traumatismo craniano? Não! Não! Eu prefiro enfrentar a tempestade! — Vânia termina cruzando os braços.

Quase 10 segundos piscando como uma coruja e sem saber se ria ou chorava, Camila decidiu se despedir:

— Eu não sabia que você tinha medo de cavalos… de qualquer forma eu só queria saber se você estava bem, ainda tenho uma entrega a fazer e agora eu estou atrasada então.. Até qualquer dia desses está bem?

— Até qualquer dia e tome cuidado viu!

— Você também, se cuida! Tchau!

Voltando para a oficina o belo cavalo preto estava esperando a cavalariça na porta ao lado de um funcionário do estabelecimento, após agradecer o mesmo por vigiar seu cavalo, Camila o monta e ambos voltaram a cavalgar pela avenida principal agora cheia de galhos e lixo que foram carregados pelo vendaval.

— Sabe meu amigo, acho que vou fazer um pequeno desvio e passar na mercearia do seu Jorge e comprar um pouco de leite condensado e um chocolate em pó, porque depois dessa aventura, um brigadeiro de colher vai cair muito bem.

Keanu relincha e se ergue nas duas patas e sai correndo sem precisar de ajuda para chegar na dita mercearia. Camila fica muito aliviada e feliz por não haver nada na carga que eles estão levando que possa quebrar.

Após uma pequena pausa na mercearia.

Com mais meia hora de trajeto e um desvio de caminho que acabou levando mais quinze minutos por que Keanu queria ficar brincando com o dono da mercearia. (Às vezes Camila se perguntava se ela tinha um cavalo ou um cachorro) a dupla finalmente chega ao seu destino final: a casa de Marina.

O setor onde Marina morava era apelidado de Jardim das Fadas, pois diferente do restante do bairro esse setor não sofria com o clima severo e louco, na verdade lá o tempo era 90% do tempo do ano ameno tendo pequenas mudanças somente nos primeiros dias de verão e de inverno, a chuva também era regular e não agressiva, ventos sempre frescos e serenos e muito ideal para plantação, as casinhas parecem terem saído de um livro de contos de fadas e para finalizar a estética Cottagecore*, o lugar era rodeado por um cinturão verde de mata preservada. Simplesmente surreal.

Camila geralmente detesta ir pra lá pelas vias principais pois ela se sentia um bandido de faroeste e era encarada como um, entretanto as vias paralelas estavam bloqueadas então não outro jeito. O uniforme dos entregadores era muito parecido com roupas de vaqueiros e geralmente eram marrons ou pretas. As pessoas que viviam nessa região geralmente usavam tons de cores claras e/ou pastéis, por isso o apelido de fadas, então já viu a estranheza que era.

Para seu alívio, a casa de sua amiga ficava no final da segunda rua seguindo pela avenida principal, um sobradinho verde afogado em flores de diversas cores .

Por ter demorado mais do que o normal, Marina já estava esperando na porta.

— Amiga, o que aconteceu? Você demorou bastante dessa vez!

— Desculpa Mari! Ficamos presos numa tempestade passageira.

— Vocês estão bem né?

— Claro que sim, certo Keanu? — O cavalo responde com um balançar de cabeça.

— Bom! Então me dê as compras e vamos entrar, deixe Keanu no quintal dos fundos para ele não comer as minhas flores.

Após acomodar o cavalo no quintal dos fundos da casa, Camila e Marina vão para a cozinha.

— Eu trouxe ingredientes para fazer brigadeiro se você quiser.

— Está tão confiante que meus experimentos culinários estão fadados ao fracasso.

— Não! Só fiquei com vontade de comer brigadeiro depois dessa entrega.

— Quais foram as coisas emocionantes e estressantes que aconteceram hoje?

— Nada de mais, só mais um dia normal de entrega.

Ainda bem que essa era a sua única entrega do dia.

Marina basicamente alugou Camila pelo resto do dia, elas comeram torta, beberam café e sucos, e conversaram bastante.

A volta para casa, já ao cair na noite foi surpreendente tranquila.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!