Era setembro, e era frio

1 Uma manhã fria de setembro


Notas iniciais
Para Letícia, e para que Lebriel dure para sempre... ou não.

Começou em uma manhã fria de Setembro.

Ela não saberia dizer se era de fato Setembro, ou se estava mesmo frio, ou se era manhã ou se foi onde tudo começou, porém gostava do mês de Setembro e adorava frio de maneira suficiente e pouco necessária, e não conseguia pensar em outro jeito de começar uma história, senão com aqueles dois conceitos que de nenhum modo condiziam com a realidade — porque não era Setembro e também não estava frio, nem era manhã e nem foi onde tudo começou. Setembro era uma matéria distantes de olhos negros e o frio era um indivíduo que dificilmente se fazia presente.

No entanto, era Setembro e estava frio, e é assim que tudo começa.

X

Os olhos negros de Setembro lhe cumprimentaram — e ela não soube dizer se aquilo eram olhos ou se eram profundas fendas mortais, mas sabia que tinha curiosidade em experimentá-los da mesma forma que um suicida tem curiosidade na morte — e ela sorriu, mesmo que minimamente e mesmo que de forma não visível, mesmo que não quisesse sorrir.

A curva nos seus lábios tinha vida própria.

— Me dá uma caneta — ele pediu, e logo então ela lembrou que ele era tudo, menos Setembro. Era qualquer sensação que pudesse imaginar, menos frio.

— Não deveria me devolver a caneta no fim da aula se sabe que no dia seguinte vai pedir ela de novo. — retrucou.

Ele não respondeu, mas a caneta já estava em suas mãos.

X

Ela tinha o costume de amar com intensidade e entusiasmo demais, sempre em excesso e com uma grande dose de sufoco. Aquele era seu jeito de gostar das coisas e era seu jeito de sufocar e manter essas coisas para si até o momento em que decidisse largar e não gostar mais.

Um dia ela amou excessivamente beber café sem leite debaixo de uma coberta, não importando o quão calor estivesse. Desde que ela tivesse um pacote de biscoitos e um seriado de comédia rodando no computador, tudo estaria bem. E não importava realmente quantas xícaras de café fossem por dia, nem quantos pacotes de biscoitos exageradamente doces logo acabariam.

Amar e desamar era fácil, e logo chegou o dia em que ela decidiu que já não amava fazer aquilo. E que café já não era nada mais que uma bebida, e que dias quentes não foram feitos para se passarem embaixo de uma coberta, e que ‘amor’ era uma palavra fácil demais de ser dita e mais fácil ainda de ser esquecida.

X

Em dias frios, ela lembrava dele. E sabia que isso não era uma coisa saudável ou até mesmo racional, mas nos últimos tempos coisas saudáveis e racionais eram tão raras quanto dias frios — como excepcionalmente raros eram estes! —, e aquele dia era frio, ou ela queria que tivesse sido, mas sabia que não era.

Era Setembro, ao mesmo tempo em que não era.

Mas isso não importava.

— E esta é uma nuvem assassina com uma metralhadora destruindo a escola. — ele apontou.

— Ok, mas o que deveria ser isso?

O rabisco de linhas deformadas deveria ser um desenho e deveria ter formas de um, mas eram rabiscos e ela não conseguia ver nada além disso. Ele, porém, era um artista. Seus desenhos eram péssimos e de traçadas fortes demais, no entanto sua mente era arte e dessa arte qualquer rabisco e traço parecia ser algo, mesmo que não fosse e mesmo que tentasse ser.

— É o professor Jorge Ivo defendendo o presidente. — ela riu e as histórias do velho professor militar pintaram sua mente — E aqui é o Gandalf em uma épica batalha contra Dumbledore.

— Por que Harry está lutando ao lado de Gandalf e Frodo do lado de Dumbledore? — ela mesma se espantou ao notar que conseguiu identificar os dois gravetos tortos ao lado do que deveriam ser o mago e o bruxo.

Ele a olhou com os olhos escuros e sorriu do modo que só ele parecia conseguir — algo meio deformado para o lado, com um pouco dos dentes aparecendo e uma marca meio funda na covinha bem sutil da bochecha.

— Por que não estariam?

Aquilo a deixava feliz, porque era tão excessivamente estúpido — como tudo sempre era e ela sempre fazia questão de esquecer — que realmente parecia frio. Frio como a estupidez que Setembro trazia na brisa fria e levava com a ventania morna.

X

Setembro deixou de ser frio quando o tempo passou. Primeiro veio a primavera do primeiro beijo, depois o verão dos abraços e logo então chegou o outono dos encontros.

Setembro não deixou de ser Setembro nem mesmo quando o frio se foi. Naquele fim de tarde que não era frio, ela sentou-se no banco e cruzou os braços indignada. Era teimosia de sua parte e ele sabia — ela sabia também — então apenas ficou em pé, fitando-a.

— Aquele pirralho maldito. Pisou no meu pé!

— Você jogou o sorvete dele no chão, o que esperava?

O cabelo negro balançou quando o vento lhe abateu. Estava odiando o fato dele ainda estar de pé, quando ela estava sentada. Estava odiando muito naquele dia, e poderia até dizer que estava odiando com a mesma intensidade que conseguia gostar das coisas.

— Eu paguei um sorvete novo pra ele! — insistiu.

— Correção: eu paguei um sorvete novo para ele.

— Tanto faz. — gesticulou — Poderia ter pago um sorvete para mim, aliás.

— Você é uma chata mesmo.

Ele sorriu, e ela notou aquela mesma postura torta e deformada que só seu sorriso conseguia ter. Não era um sorriso perolado de mil e um diamantes, mas ela gostava, assim podia fazer de conta que seu mundinho próprio era tão torto e deformado quanto aquele sorriso esquisito que ele tinha.

Podia fingir também que os olhos negros dele eram tão frios quanto os de Setembro — embora já nem lembrasse do frio de Setembro, visto que o Setembro parecia se prolongar para sempre, enquanto seu frio há muito se perdera —, embora soubesse que jamais seriam e que ainda assim seria confortável.

— Está ficando tarde, — ele murmurou — melhor irmos para casa.

E ela gostaria de ter o contrariado, mas não o fez.

X

O começo foi uma manhã fria de Setembro.

Mas o frio se foi.

E o fim é só Setembro.

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Ela olhou em volta e viu choros e abraços. De muitas coisas que nunca entendeu, estaria na sua lista as despedidas que sempre conseguiam acabar tão drasticamente em lágrimas molhadas demais e choros excessivamente barulhentos.

— Drama demais — Ele pareceu ter lido seus pensamentos.

— Sim.

Fitou-o. Havia uma sombra de tristeza no canto do seu olho — ou ao menos foi só ali que ela conseguiu notar.

— Não é como se isso fosse um adeus para sempre. — Concluiu.

— É.

— Ainda vamos nos ver no verão.

— Sim.

— Então é! Sem choros.

— Com certeza.

E houve um abraço que demorou mais do que estava nos planos. Uma pausa.

— Nos vemos em breve, macaca albina.

Ela sorriu e acenou. Pouco tempo depois ele era apenas um ponto perdido no horizonte.

X

E ela nunca mais o viu.

E já não era frio.

E ainda era Setembro.

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