Era Uma Vez... Uma Ilusão
49 48. São a minha maior alegria... E também o meu maior sonho.
Junho|1814 Carlton House, Londres
Gritos e mais gritos ecoam por toda Carlton House. São coléricos, raivosos... totalmente furiosos!... É o príncipe regente e nem mesmo Lady Hertford ousa confrontá-lo. Lord Hertford e Lord Petersham até mantêm-se próximos do príncipe, mas com expressões muito assustadas.
Tudo, porém, chega ao fim quando o regente para de gritar e segue para a escrivaninha, onde começa a escrever com extrema fúria um bilhete.
— Envie para Warwick House. — Entregando o bilhete para Hertford, o regente semicerra os olhos. — Charlotte passou de todos os limites da indulgência; agora ela verá o lado mais sombrio do regente.
A única ação do marquês é fazer uma mesura e deixar a sala. Isso enquanto o regente, numa abrupta explosão de fúria, derruba tudo na escrivaninha. Charlotte se arrependerá do que fez!
Certamente que Charlotte sabia das consequências de romper com Orange. E ela já esperava por reações furiosas e retaliações violetas. Porém... Os olhos dela arregalam ao ler o bilhete do pai.
— Não! Não, por favor! — Aproximando-se de Lord Hertford, ela nega veemente. — Suplico por uma audiência com o príncipe...!
— Infelizmente, não será possível, minha princesa. — Mas a expressão de Hertford é dura a impassível, embora haja alguma pena. — Obedeça a ordem e talvez o regente tenha alguma pena.
Obedecer? Tentando ao máximo conter as lágrimas, Charlotte olha para o bilhete e depois para o marquês. Isso significaria deixar os amigos, a mãe dela... Friedrich...
— Recuso-me! Não irei para Cranbourne Lodge! — ela exclama com extrema fúria, negando veemente. — Papai não pode fazer isso comigo!
— Ele pode sim, minha princesa — responde Lord Hertford —, tanto que já o fez.
Os olhos dela voltam a arregalar, embora não de surpresa ou horror, mas sim de... Amassando o maldito bilhete, Charlotte deixa a sala e segue para o jardim. Agora ela se permite chorar com toda a liberdade.
Como o pai dela ousa mandá-la para o exílio em Windsor!? Ela não poderá ver ninguém, absolutamente ninguém! Haverá a rainha, claro, mas... Charlotte só consegue chorar mais ainda com a expectativa de morar em Cranbourne Lodge.
O que fazer!? Como fugir disso...!? Fugir... Arregalando os olhos, Charlotte enxuga as lágrimas e corre para fora da propriedade. Ela segue para a rua e, desnorteada, tenta buscar ajuda com os transeuntes.
— Com licença, por favor...! — Mas a maioria decide ignorá-la, certamente que não a reconhecendo. — Por favor, preciso de ajuda!
Novamente, ela é ignorada. Charlotte está aos prantos, desalinhada e com o rosto vermelho. A princesa não é conhecida pela "digna aparência real", mas agora... Até que Charlotte esbarra num casal, onde o cavalheiro arregala os olhos.
— Santo Deus, a princesa Charlotte! — exclama o cavalheiro, segurando com horror a princesa.
— Por favor....! Ajuda...!
— Chame um taxi para ela — a dama exclama, tomando a chorosa princesa para si. — Para Bayswater.
Logo Charlotte está numa carruagem de aluguel rumo a Bayswater. O desespero dela é visível, mas Charlotte espera conseguir alguma ajuda.
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
A nobreza e aristocracia reunida na sala branca — uma amálgama de britânicos e alemães — curva-se ao imperador Alexandre e o rei Friedrich Wilhelm III da Prússia. Ambos os homens, junto do príncipe Metternich logo atrás, seguem arrogantemente pela sala.
Sentados em cadeiras prateadas de estado, o príncipe e a princesa de Niedersieg observam os soberanos se aproximarem e fazerem uma inexpressiva mesura. O silêncio instaura-se na sala... Até que o príncipe levanta e, arrumando sua faixa verde e branca, aproxima-se dos soberanos.
— Minha família e minha nação alegra-se profundamente com os atos salvadores de Suas Majestades! — A voz de Richard ecoa por toda sala. — A Europa está livre; Napoleão Bonaparte derrotado; e isso graças a conjunta ação da Rússia, Áustria e Prússia!
E o firme silêncio é interrompido por aplausos que irrompem entre os presentes. São aplausos vindos principalmente dos generais e ministros estrangeiros. Até que Richard estende a mão — o que faz todos pararem — e sinaliza para Robert se aproximar.
Atrás do duque de Kendal, porém, aproximam-se também Lord Wilmington e Lord Irvington. O príncipe traz consigo colares prateadas — cujo distintivo são os Alpes em prata —, enquanto os lords trazem as faixas e as estrelas da ordem.
— Alegamo-nos em profunda gratidão e felicidade! — Pegando uma das faixas, Richard estende aos homens. — Por isso então ofereço aos soberanos a mais alta das ordens niedersiegers: o Inntal de Prata!
Com expressões tão sérias quanto o necessário, os soberanos e Metternich abaixam a cabeça. Primeiro a fita, depois a estrela e, por fim, mas não menos importante, o colar...
— Praemium Fidelium! — exclama o barão von Frieden assim que Richard coloca o colar no imperador. — Viva aos Aliados! Viva a Paz!... Viva a Niedersieg!
E os outros cavaleiros da ordem se juntam a ess júbilo. As senhoras na sala, porém — algumas damas da Ordem de St. Katharina, mas em sua maioria simples esposas —, mantêm-se em silêncio, assim como o príncipe e a princesa.
Mas não tarda muito para os aplausos cessarem. Chamando a atenção de todos, o imperador Alexandre sinaliza para o príncipe Volkonsky, que aproxima-se com duas caixas enfeitadas.
— A Rússia, em sinal de amizade, oferece ao príncipe a Ordem de Santo André, o Primeiro Chamado — anuncia o imperador, entregando a primeira caixa a Richard e voltando-se a Cathrine. — Assim como oferece a princesa a Ordem de Santa Catarina.
Tão digna que poucas consortes a possuem... Consortes grandiosas, claro. A princesa também aceita a ordem, mas, assim como o príncipe, a entrega para uma das damas. Em seu peito Cathrine já tem a estrela da Goldrose, bem como usa no ombro a fita da mesma.
Richard e Cathrine retornam, porém, as cadeiras de estado, onde observam os soberanos e Metternich exibirem com orgulho a nova ordem.
— Você tem algo haver com essa... dignidade? — sussurra Cathrine, mesmo que não olhando para Richard. — Não esperava por algo desse tipo.
— Foi uma surpresa até para mim — ele responde, voltando-se para ela e sorrindo. — Mas ficará muito bem em você.
Nenhuma resposta é dada por Cathrine, cujo olhar é fixo na frente... Mas Richard percebe um tímido sorriso nos lábios dela. Uma surpresa, de fato, mas longe de desagradável.
*****
Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg
Sentada à escrivaninha de seus aposentos, a rainha Charlotte lê com desprazer a última carta enviada por Fritz de Londres. E isso não necessariamente é por conta das várias menções sobre a grã-duquesa Ekaterina, mas sim o mal comportamento de...
— Ele não faz nada além de nos ofender! — Dobrando violentamente a carta, a rainha nega com desgosto. — A impropriedade da sua conduta é degradante!
— Paul, imagino. — E a atenção da rainha volta-se ao recém-chegado rei. — Todos os meus filhos são teimosos e desobedientes, mas Paul... É uma vergonha!
E isso é em grande parte culpa deles... A expressão de Charlotte se entristece; talvez até dela. Paul sempre foi uma criança alegre e cômica, claro, mas sempre houveram indícios de uma desenfreada rebeldia. Agora eles só estão colhendo os frutos da inadimplência...
— Lotte já partiu? — Mas a rainha decide esquecer Paul e, levantando, aproxima-se do rei. — Não sabe o quão preocupada estou, Friedrich.
— Mas imagino — ele responde e, tomando as mãos dela, tenta suavizar a expressão... em vão. — Deve ser apenas um exagero.
— Duvido muito. — A rainha, porém, se afasta e nega. — Pelo menos Lotte está lá, o que muito já me tranquiliza.
É uma prima, uma nora competente e, acima de tudo, uma amiga confiável. A rainha segue novamente para a escrivaninha, onde pega uma folha e começa a escrever. Isso chama a atenção do rei, tanto que ele questiona:
— É para Fritz? — A rainha volta-se ao marido, que dá os ombros. — A julgar pelos rumores, ele dará pulos de alegria.
A preocupação apodera-se do rosto de Charlotte, mas ela nega e volta a escrever. De qualquer forma, logo Friedrich partirá para as negociações em Viena e Fritz terá de ir junto.
— Confio na integridade de Fritz. — Concluindo, ela chama um criado e entrega a carta. — Envie com urgência a Londres.
O criado faz uma mesura e deixa os soberanos, que se encaram com preocupação. Agora é só esperar e... Oh, Deus, que chegue a tempo! Os olhos de Charlotte enchem de lágrimas, então o rei se aproxima e aperta o ombro dela numa tentativa de consolo.
Há uma grande tristeza no ar de Ludwigsburg... Mas que em nada se compara a de Leonberg... Quando chega no castelo, a princesa Paul de Württemberg logo é recebida por uma cinza condessa Verweyen que a conduz para dentro.
— É um alívio tê-la aqui, Sua Alteza Real — a condessa fala, suspirando com pesar. — Ela... O estado dela é preocupante.
— O que o médico acha que é? — questiona Lotte, fazendo a condessa encará-la tristemente. — É algum...?
— Bem... Oh Deus! — A voz da condessa falha... No exato momento que elas chegam nos aposentos da princesa herdeira. — É a gripe.
Os olhos de Lotte arregalam e ela adentra nos aposentos, apenas para não muito depois exclamar de horror ao ver na cama... Anne tão pálida e fraca quanto... um morto-vivo.
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
O imperador russo e o rei prussiano continuam sendo o centro das atenções na sala branca, o que é muito estranho para um Tudor-Habsburg, embora não necessariamente desagradável. Na verdade, isso é até útil: Richard poderá focar em outros assuntos...
— Infelizmente, não há nada que eu possa fazer. — A expressão de Metternich é cuidadosamente pesarosa. — Tente entender, meu príncipe, por favor, a Europa está finalmente em paz e nenhum de nós deseja novos conflitos, mesmo que regionais.
Mas e quanto a guerra que está prestes a estourar na Península Escandinava? A vontade de Richard é retrucar, e com toda a raiva que ele sente... Mas a única ação dele é fechar os olhos e assentir.
— Não é da minha vontade a guerra — ele sussurra, embora não cedendo totalmente: — Mas o que será de nós caso a Baviera não ceda?
— O príncipe haverá de confiar nos seus diplomatas em Viena. — Carrelli ou o congresso? Metternich acrescenta: — Lá a Áustria melhor poderá apoiá-lo.
— Junto da Rússia e Prússia? — questiona Richard num tom visivelmente irônico. Metternich não responde. — Foi o que pensei... Meu destino está nas suas mãos.
— Oh, meu príncipe, não. — Negando lentamente, Metternich suspira. — Está nas suas mãos e também nas das Grandes Nações.
Dito isso, Metternich faz uma mesura e se afasta. As Grandes Nações... O apoio da Rússia e Prússia é difícil, então ele só poderá contar em Viena com a Áustria e a Inglaterra. Afinal a Áustria sempre defendeu os pequenos príncipes e a Inglaterra... Ele terá apoio, não terá?
— A noção deles de ordem é tão estranha. — Richard, porém, é despertado por Cathrine, que aproxima-se. — Você terá de falar com Kriegelstein, Richard.
— Uma humilhação — ele sussurra... E franze o cenho em seguida. — Não acha estranho aqueles dois?
Seguindo o olhar dele, Cathrine olha na direção onde o príncipe herdeiro de Württemberg conversa alegremente com a grã-duquesa Ekaterina. Uma cena que já está bastante comum... Toda a Londres já comenta dessa proximidade.
— São primos, Richard.
— São brotos de amantes — ele retruca, semicerrando os olhos. — Será que ela sabe o quão cafajeste é ele?
— Ela haverá de descobrir, mas não cabe a nós fazer coisa alguma. — O tom dela é censurador. Mas Richard continua olhando. — Não se humilhe dessa forma!
— É inútil, Cathrine! — E a atenção deles volta-se a Sophia, aproximando-se com Robert. — Por experiência própria, digo que é inútil.
A resposta de Robert é revirar os olhos com o comentário de Sophia, o que gera uma leve risada de Cathrine. Mas nenhuma conversa pode resumir se desenvolver entre eles, porque antes...
— Oh, Deus, meu coração enche de alegria com esta imagem! — A viúva baronesa Cottington se aproxima. — Os bebês que eu vi nascer... Homens feitos agora.
— Mas a milady sempre nos vê — Robert responde com um divertido sorriso. — Ontem mesmo estive numa festa na sua casa.
— Vejo sempre ou um ou o outro, mas quase nunca os dois. — Porque são vidas sociais diferentes. A baronesa suspira emocionada. — Katherine ficaria muito satisfeita.
E o sorriso de ambos os irmãos treme. A lembrança da mãe e do pai nunca esteve acompanhada unicamente de alegria, mas também...
— E quanto a Northbury? — Mas Sophia logo intervém. — A bondade da milady é comentada até na corte.
— Bondade? Vejo mais como necessidade. — Lady Cottington, porém, sorri e volta-se a Cathrine. — E a marquesa? Quando nos visitará?
— Muito em breve, tenha certeza — é Richard quem responde, fazendo Cathrine franzir o cenho. — Nós dois iremos.
E o olhar franzido torna-se um arregalar de olhos. O sorriso de Richard é imenso, profundamente alegre, mas Cathrine gagueja e nega. Eles irão...? Juntos!?
Nada, porém, ela pode dizer em protesto. Antes que qualquer pensamento profundo seja formulado, a baronesa Norton e a baronesa Holes — as damas de companhia de Sophia — aproximam-se com horror.
— Minha princesa! Oh, minha princesa, é um escândalo! — Lady Norton exclama, o que já chama bastante atenção. — É a princesa Charlotte... Ela fugiu!
Essa oração é dito numa força e altura tão grande que... É o bastante para todo o salão escutar e, após um breve momento de silêncio, começar a comentar sobre isso. A expressão de Sophia, porém, é terrivelmente horrorizada. Charlotte... fugiu? Mas para onde!?
*****
Bayswater, Londres
Uma multidão reúne-se na frente da casa da princesa de Gales. São claramente pessoas de classe inferior — embora também hajam burgueses — e gritam em apoio a princesa Charlotte. A notícia da fuga dela espalhou-se como fogo em Londres, mesmo que tenha sido no dia anterior.
Líderes Whigs e até membros da família real vieram aconselhar a princesa. Mas nada parece ter sido decidido... Até que Charlotte deixa a residência com o duque de York. Os gritos aumentam, bem como as súplicas para ela não casar com o "Slender Billy".
Lord Grey e Henry Brougham a aconselharam a agir com calma. E a princesa até tenta sorrir e acenar para a multidão. Mas logo entra numa carruagem, que deixa o local...
— Uma fuga? Francamente, Charlotte, eu esperava mais de você. — E junto dela na carruagem está Sophia, cuja expressão é irritada. — Sabe o quão escandaloso foi isso?
— Mas eu...
— Não lhe dei permissão para falar! — repreende Sophia, levantando a mão. — Os aliados zombam de nós por sua causa. E a desordem é quase eminente na cidade!
O ato de Charlotte desencadeou ações perigosas até a popularidade da própria monarquia. Por que... Onde já se viu isso!? Uma princesa fugir!? Sophia só consegue negar para Charlotte. A expressão da princesa, porém, é igualmente irritada.
— E o que você queria que eu fizesse!? — exclama Charlotte, sem nenhuma paciência. — Aceitasse Orange...?
— Seu erro não foi romper com Orange, mas sim fugir ao invés de aceitar as consequências com honra! — Encarando-a fixamente, Sophia ainda acrescenta: — Você é uma princesa, Charlotte, uma mulher! Nós nunca fugimos!
Fugir é para os fracos, não para a mais ilustre das monarquias da Europa... Não para a futura rainha dessa monarquia. Mas Charlotte fecha os olhos e vira o rosto. É claro o descontentamento dela com tudo isso.
— George foi muito complacente ao apenas exilá-la em Cranbourne — aponta Sophia, negando para a sobrinha. — Em outra situação, você teria sido forçada a casar com Orange.
Claro que com o duque de York havia um mandado do regente para levar Charlotte a todo custo, até mesmo a força caso necessário. Mas... Fechando os olhos, Sophia respira fundo e nega.
Essa ação, porém, bem como essas palavras... É o bastante para decepcionar Charlotte. Todos eles vieram vê-la, tentaram aconselhá-la. Mas Sophia... O olhar de Charlotte na direção dela é de rancor.
— Seria isso que você faria? Forçaria uma filha a casar? — Sophia franze o cenho com as palavras de Charlotte, que nega com desdém. — Oh, que cabeça a minha. Esqueci que você não tem filhos!
Os olhos de Sophia arregalam em horror, e os de Charlotte também, mas de horror pelas próprias palavras dela. Charlotte nega e até abre a boca, porém Sophia...
— Sim, eu forçaria uma filha a casar. — O tom dela é sério, tanto que assusta Charlotte. — Mas não me preocupo, sei que minhas filhas serão sábias e diligentes.
Há tanta força nessas palavras... A expressão de Charlotte é tomada pela ofensa, mas a única ação dela é virar o rosto e observar o Hyde Park pela janela. A questão agora é que ela se "entregou" ao pai. O destino dela está nas mãos do regente.
Logo, porém, a carruagem chega em Carlton House, onde rapidamente Charlotte desce e segue para dentro da residência. Também chegando, mas a cavalo, o duque de York ajuda Sophia a descer.
— Todos estão contra George, Sophia — o duque comenta, olhando com preocupação para a casa. — Graças a Deus ela aceitou o exílio.
— Mas com raiva e rancor de nós... Todos nós. — Fechando os olhos e suspirando, Sophia nega e pergunta: — E como está George?
— Furioso. — O tom de Frederick é sério e preocupado. — Ele ainda está determinado a casá-la com Orange.
O que será impossível. A única opção agora é desistir ou... Optar por outro... Uma ideia surge na cabeça de Sophia, mas por agosto ela simplesmente entra em Carlton House com o irmão.
*****
Junho|1814 Palácio de Hampton Court, Londres
Com uma expressão mais tensa que séria, Richard encara fixamente a porta do escritório. Não faz tanto tempo assim que ele espera, mas a expectativa é... instigante! Robert até que poderia estar junto, ou até Cathrine, mas...
— Meu príncipe, — Lord Irvington entre no escritório. — o barão Pfeffel von Kriegelstein.
É o bastante para fazê-lo levantar e observar o quase quinquagenário barão entrar no escritório. Nenhuma palavra é trocada entre os dois e Richard apenas sinaliza para ele sentar.
— Imagino que seja Niedersieg — o barão fala, exibindo o leve sorriso. — Confesso que estava ansioso por esta reunião.
— Que sejamos rápidos então. — Mas Richard não mostra-se nada paciente, tanto que fala sem rodeios: — Exijo a imediata retirada das tropas bávaras do território niedersieger.
E o sorriso de Kriegelstein é substituído por seriedade. Será que ele não esperava por isso? Dificilmente. Richard também mantém-se sério, mesmo que...
— Perdão, meu príncipe, mas o meu rei não reconhece esse "território niedersieger". — Há um leve desdém nessas palavras. — A Lei da Confederação do Reno...
— Não tem mais nenhuma jurisdição legal, assim como a própria confederação. — Tanto que logo nem existirá mais confederação. — A anexação em 1807 foi um ato violador e ilegal.
— Mas e quanto ao "golpe" infringido por Karinberg? — As pupilas de Richard dilatam, enquanto Kriegelstein sorri satisfeito.
Seria inocência da parte de Richard afirmar acreditar que esta reunião ocorreria no melhor dos termos, mas isso... Discutir atos legais e ilegais!? Ele respira fundo e tenta acalmar a mente... Que tolice da parte dele!
É um fato que Richard não é um diplomata, mas isso!? A repreensão mental é difícil de ignorar. Porém Richard tenta focar apenas em Niedersieg e repete:
— Peço que as tropas seja retiradas. — O barão arquea a sobrancelha para Richard. — Ou o assunto será levado as Grandes Nações em Viena.
O silêncio volta a dominar, mas pela firme expressão no rosto de Kriegelstein está claro que não durará muito...
— As tropas permanecerão... É a vontade do rei — o barão responde e, fazendo-o franzir o cenho, ainda acrescenta: — Assim como é da vontade do rei continuar com os territórios.
Claro que é, se nem Württemberg, Baden e Hesse desejam perder seus territórios recém-adquiridos, o que dirá então da Baviera? Sendo assim, só resta a Richard uma última alternativa:
— A questão será então pacificamente levada a Viena. — A confusão apodera-se de Kriegelstein. — Peço apenas que comunique ao rei o meu pedido.
— Oh, é só isso? — questiona o barão ao levantar. — Sendo assim...
— Comunique também a minha boa-vontade para com a Baviera — acrescenta, porém, Richard, fazendo Kriegelstein franzir o cenho.
— Boa... vontade? — Richard assente para o barão. — O que o senhor está querendo dizer?
— Que estou disposto a pagar pela liberdade do meu povo. — E os olhos de Kriegelstein arregalam, principalmente quando Richard fala: — Pagar quantos florins forem necessários.
Claro que após negociações e tendo em base um preço justo, isso se for possível estabelecer um preço para um país. A expressão de Kriegelstein, porém, torna-se impassível... Até que ele faz uma mesura.
— O rei levará isso em consideração.
Dito isso, o barão deixa o escritório. Pois bem... A liberdade de Niedersieg será a base da diplomacia e do dinheiro. Acomodando-se na poltrona, Richard suspira... Onde está Cathrine, hein?
*****
Northbury, Berkshire
Não há nada tão cuidadosamente oculto que não venha a ser revelada algum dia, principalmente quando numa vila tão pequena quanto Northbury. Todos parecem muito atentos e tudo e todos, seja vizinhos ou... uma estranha movimentação.
O que quase explica a quantidade exorbitante de pessoas deixando suas tarefas e olhando para a rica berlinda cruzando a estrada principal da vila. A libré do condutor e dos lacaios... O brasão... Há horror nos olhos do povo.
— Santo Deus, não creio! — exclama uma mulher, já na casa dos 50 anos, da entrada de uma casa jacobina. — Aquele brasão... É o mesmo... Dela!
— Já faz quase 21 anos que não o vejo — acrescenta uma outra, não muito mais velha, aproximando-se dela. — Sabe o que isso significa, irmã?
— Mortos-vivos! — O idoso jardineiro praticamente joga suas ferramentas e coloca-se atrás delas.
Mas nenhuma palavra é dita pelas mulheres, pois a berlinda logo passa pelo portão e para próximo a entrada. O silêncio instaura-se... Até que a própria marquesa de Bristol — mais coberta até que uma árabe — desce da carruagem.
As mulheres se aproximam e, numa mesura, são apresentadas como a Srta. Maria Elton e a Srta. Martha Elton...
— Sua Alteza...
— Apenas senhora é o suficiente. — E a Srta. Elton cala-se com um simples sinal da marquesa. — Agradeço pela discrição; odeio ser o centro das atenções.
— E as crianças também não ficariam confortáveis — acrescenta a Srta. Elton, sinalizando para o orfanato. — É por aqui, senhora.
Nenhuma menção é feita ao título da marquesa ou os Aliados em Londres, as damas apenas seguem para dentro. Logo fica claro, porém, que a instituição se assemelha mais a um internato que um orfanato em si. Tudo é muito limpo, agradável e...
A marquesa para na frente de algumas pinturas; são no século passado. Lady Cottington afirmou passar muito tempo neste lugar. Mas...
— Percebo que Lady Cottington é realmente muito generosa. — Além de tempo, ela dá recursos. A marquesa volta-se a Srta. Elton. — Mas e quanto as crianças?
Afinal um orfanato precisa de crianças. E logo Cathrine é levada para o pátio interno, onde os olhos dela brilham ao ver... Inúmeras crianças, desde praticamente recém-nascidos até jovens, brincando. Ela não aguenta e se junta às crianças.
O orfanato de Northbury não é particularmente lotado — moram pouco mais de 30 crianças —, mas o local é muito bem abastecido por Lady Cottington e suas amigas. Seguindo o modelo de Coram, o orfanato abriga crianças e dá a elas educação e profissão.
— Satisfeita, senhora? — a Srta. Martha pergunta, assim que o chá é trazido para a direção. — Foi uma bela surpresa, mesmo que abrupta.
— Eu queria conhecer este lugar. — A marquesa sorri para uma criancinha que segura no colo... E sussurra num suspiro: — Pelos menos... antes dele.
Foi tão alegre e divertido brincar com as crianças. Há tempos ela não fazia algo do tipo. Mas os os pensamentos dela sempre acabam retornando a Richard... Ao que ele disse... Negando, ela beija a cabeça da criança.
— Esplêndida! Teremos outras visitas então! — exclama a Srta. Elton batendo palmas.
— Imagino que ele ame crianças tanto quanto a senhora. — E a marquesa franze o cenho para a Srta. Martha, que sorri. — Seu amor parece...
— São a minha maior alegria... — ela responde, olhando melancólica para a criança. — E também o meu maior sonho.
O chá, porém, logo é trazido e as damas discutem com mais detalhes sobre o lugar. Desde as atividades de marcenaria e arte, até o coro e músicos militares que o orfanato forneceu.
— Daqui não sairemos, senhora. — Abrindo a porta do escritório para a marquesa, a Srta. Elton ainda acrescenta: — Elas também são nossa maior alegria e sonho.
Nenhuma palavra é dita pela marquesa, que despede-se em silêncio das crianças no pátio e segue para a carruagem.
— Ficarei feliz em voltar em breve — a marquesa fala ao ser ajudada por um lacaio a subir na berlinda. — Espero que minha doação seja útil.
As Elton só conseguem assentir, pois logo a carruagem parte de volta a Londres. Uma visita tão rápida... Mas certamente haverá uma volta... Bem como corações acertados.
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Junho|1814 Schloss Leonberg, Leonberg
A escuridão é profunda nos aposentos de Anne, não há velas ou lareira acessa... não mais. A única "luminosidade" vem da lua, que está claramente visível na janela do quarto. Tudo é escuro e profundamente silencioso...
É nessas condições que uma sombra adentra no quarto e segue para a cama. Seus passos são lentos, cautelosos... quase imperceptíveis... Logo, porém, ele para e observa Anne dormindo profundamente... Ela abre subitamente os olhos.
— Mas o que você faz aqui!? — exclama Anne com horror, quase levantando da cama. — Saia agora ou gritarei pelos...!
Tomado pelo horror, porém, Anton cobre a boca dela e sinaliza veemente que não. Nada pode ser dito ou atenção alguma chamada, o que apenas aumenta o terror de Anne. Mas ela assente para Anton, que se afasta e senta ao lado dela.
— Há algo que desejo falar; algo muito íntimo. — É o bastante para Anne lembrar da fraqueza e praticamente cair nos travesseiros. — Sei que é tarde, mas... Não há mais como protelar.
— Você poderia ter batido — ela repreende, arrumando-se na cama. — Diga logo.
E Anne fecha os olhos, não para dormir ou descansar, mas porque os olhos dela doem terrivelmente. É uma graça até que não há nenhuma luz no quarto, ou Anton iria se sentir com um verdadeiro fantasma. O silêncio ameaça instaurar-se...
— Eu amo você, Anne. — Ela arregala os olhos e o encara com horror, mas Anton continua: — Amo profundamente e... Sei que você já sabe e jamais corresponderá!
Nenhuma palavra Anne consegue dizer, nenhuma sentença ou afirmação sai da boca dela, apenas... Sim, para ambos as afirmações a resposta é sim.
— Qual o seu objetivo com isso? — Algo, porém, consegue ser formulado. — O que deseja se insinuando?
— Livrar minha mente e meu coração desta aflição. — Há dor e, de fato, aflição na voz de Anton. — Oh, Anne, minha Anne, há anos escondo meus sentimentos!
— E por que não falou antes? — Mas a voz dela é firme e livre de qualquer emoção.
— Medo e... Sempre soube que você me rejeitaria e... — Nenhuma palavra é dita a mais. Até que Anton pega as mãos dela. — Odeio vê-la com o príncipe herdeiro.
Anton até mesmo aperta as mãos dela e ameaça levá-las aos lábios, porém Anne se afasta. Deitando-se novamente nos travesseiros, ela respira fundo e, tentando não focar no sacrifício que foi esse ato, nega.
— Oh, Anton, meu amigo, Anton... Seu amor é falho e enganoso; eu jamais escolheria você. — Ela sorri ao falar, fazendo o rosto dele ser tomado pela dor. — Por favor, não. Fritz representa a coroa, e entre o amor e a coroa... sempre será a coroa.
É até tolice cogitar o contrário. Mas nenhuma palavra é dita por Anton; o silêncio volta a dominar. Mas é a verdade; Anne pode até sofrer ou acabar sozinho, mas se isso significa um reino para reinar... que assim seja.
— Realmente, não tenho nenhuma chance... Principalmente agora. — É o bastante para fazê-la franzir o cenho. Anton, porém, levanta. — O que será de mim?
— Você arranjará uma esposa rica e depois... — Anne pensa um momento e dá os ombros. — Bem, será dispensado.
Assentindo, Belgärd faz uma mesura e deixa os aposentos da princesa herdeira, que fecha dolorosamente os olhos e geme com dor. Está ficando pior... Tudo pior! A respiração dela torna-se pesada e Anne é obrigada a se cobrir totalmente.
— Toda a casa será, na verdade.
Isso não passa de um sussurro, mas dito tão fracamente que é quase imperceptível. A dor é doença apodera-se cada vez mais de Anne... Da princesa herdeira de Württemberg.
*****
20|06|1814 Palácio de Kensington, Londres
Na sala azul, Sophia observa em silêncio os jardins de Kensington por uma das janelas. Os aliados logo partirão de volta para o continente e Charlotte, mesmo isolada em Cranbourne, continua firme em recusar Willem de Orange. É necessário então uma ação... Uma ação dela...
— Orange chegou, senhora — avisa Lady Holles, fazendo Sophia volta-se na direção dela. — Deseja recebê-lo aqui mesmo?
A única ação dela é assentir e retornar a janela. Orange... Essa é uma coisa da qual ela não queria fazer, não assim, mas não há outra opção. Respirando fundo, Sophia leva uma não ao ventre... De fato, não há outra opção.
O silêncio, porém, não dura muito. Logo a porta é aberta e Sophia começa a escutar os passos dele.
— Fico feliz que tenha atendido o meu chamado, Sua Alteza Real. — E Sophia volta-se na direção do príncipe... Frederik de Orange. — Há algo muito importante que desejo pedir.
É visível a surpresa e até o desconforto na expressão do príncipe. Mas ele assente e segue para o sofá, conforme a sinalização de Sophia. Não tarda muito e ela serve o chá, bem como fala para ele sobre casar...
— Casar!? — questiona Frederik, franzindo o cenho e forçando um risada. — Sinto informar, senhora, mas já estou ligado a alguém: minha prima, Luise...
— A princesa da Prússia tem seis anos — Sophia responde e, tomando do chá, aponta: — O príncipe ainda terá de esperar entre 10 e 12 anos antes de desposá-la.
— O tempo necessário para nos apaixonarmos. — Paixão? Rindo, Sophia nega para Frederik, que cora envergonhado. — Serei obediente aos desejos do meu pai, senhora.
Oh, então é da vontade do príncipe de Orange? Mas claro, é preciso continuar a tradição, não? Sophia, porém, ao invés de negar... sorri.
— Aprecio muito a qualidade da obediência; ela que caracteriza bons servidores do Estado. — Mesmo que ela não seja a mais obediente... — Mas acha mesmo que aguentará por tanto tempo?
— Não é bom casar flor na juventude...
— Mas e se houver uma princesa pronta? — Franzindo o cenho, Frederik inclina a cabeça. — Uma princesa tão grandiosa quanto a prussiana pronta para tê-lo como marido.
A confusão no rosto de Frederik apenas aumenta. Mas Sophia, deixando o chá de lado, levanta e segue para uma mesa, onde abre uma gaveta. Isso enquanto Frederik nega.
— Então não a mereço; ela será de Guillot. — Mas Sophia entrega uma miniatura ao príncipe. — Quem é, senhora?
— Sophie da Suécia — responde Sophia, quase com orgulho. — Bela, de uma grande casa real e, o mais importante, inadequada para qualquer herdeiro.
Mas grandiosa para qualquer sobressalente. É imensa e cheio de expectativa o sorriso que Sophia dá ao príncipe. Frederik, porém, entrega a miniatura para ela e nega.
— Papai jamais permitirá...
— Permitirá sim; eu mesma organizarei essa união. — Os olhos de Frederik arregalam. Sophia acrescenta: — Você terá a benção de uma princesa britânica.
A benção da própria monarquia britânica. Uma benção que os Orange já procuravam ao aceitar uma união entre Willem e Charlotte... Os olhos de Frederik brilham ao entender qual o objetivo de Sophia. Respirando fundo, o príncipe levanta do sofá e faz uma mesura a princesa.
— Tudo farei conforme a sua vontade, senhora. — E Frederik ainda acrescenta: — C-caserei com Sophie da Suécia.
Agora são os olhos de Sophia que brilham. Ela estende a mão ao príncipe, que obedientemente a beija. O acordo está feito.
— Acha mesmo que isso dará certo? — Assim que Frederik deixa a sala, porém, Robert adentra. — E se o tio ou a mãe dela...?
— Eles aceitarão — responde Sophia, aproximando-se de Robert e o abraçando. — Os Baden estão numa crise sucessória, claro, mas Bonaparte fez o favor de casar o "herdeiro" deles com a sua prima austríaca.
Um desprazer naquele momento, claro, mas agora... Sophia sorri confiante a Robert, que agarra a cintura dela e a beija. De fato, logo Frederik de Orange se casará com Sophie da Suécia...
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Julho|1814 Oldenburg House, Londres
— "Após longas reuniões e negociações em Munique, Sua Majestade, o rei Maximilian Joseph, ordenou que todas as tropas e autoridades governamentais deixassem Smaragdberg e Ehreschöne — lê von Eden, olhando para os companheiro —, bem como Königsstadt e Niedersieg."
É o bastante para aplausos irromperem entre os ministros do príncipe. A notícia é das melhores, e chegou praticamente de surpresa. Mas o fato é que...
— Mais um trunfo para a nossa causa! — exclama von Frieden, orgulhoso. — Já consigo até sentir o ar dos Alpes novamente...
— O anúncio ainda não acabou. — Mas a atenção volta-se ao contido Richard, que encara von Eden. — Certamente que ele não esqueceu.
— De fato, meu príncipe. — E o barão retorna ao anúncio. — "O rei comunicou também ao barão von Beylstein a vontade de resolver esta controvérsia no Inntal, levando em consideração, porém, os termos oferecidos pelo próprio senhor do barão."
A alegria é devidamente contida com essas linhas. As tropas bávaras deixaram o território niedersieger, claro, mas essa ordem do rei bávaro foi motiva principalmente pela promessa de uma "indenização".
— Sinto que não sairá barato esta empreitada — comenta Richard, voltando-se ao pensativo barão Linzmain. — O que acha desse anúncio, excelência?
Tendo a atenção chamada, o barão volta-se ao príncipe e dá os ombros. É o bastante para gerar alguns sussurros e questionamentos, mas o próprio Richard mantém-se profundamente sereno.
— A retirada das tropas foi uma batalha ganha — o barão aponta e nega lentamente —, mas a guerra só haverá de ser ganha em Viena.
Durante o tão falado congresso das nações... Agora Richard fica pensativo, tanto que acomoda-se na poltrona e semicerra os olhos. Toda a Europa estará representada em Viena, desde as Grandes Nações até as decadentes Espanha, Dinamarca e Portugal.
Serão meses de negociações dos mais diversos tipos. E certamente que a questão do falecido Santo Império e dos estados midiatizados será levantada.
— Diversos príncipes midiatizados enviarão emissários a Viena: Fürstenberg, Oettingen, Solms, Sayn, Hohenlohe. — E esses são só alguns que ele consegue lembrar agora. — Muito cautela será necessária.
— Porém, diferentemente dessas famílias, temos armas muito mais poderosas — afirma von Frieden, encarando fixamente Richard. — O sangue do príncipe o liga a praticamente todas as Grandes Nações.
— Mas todo o cuidado é pouco — recorda, porém, Linzmain, assentindo a Richard. — Comunicarei ao príncipe todo o processo das negociações em Viena.
Parte do destino da Niedersieg está nas mãos de Linzmain. Mais emissários poderiam até ser enviados, mas Richard confia nas habilidades de Linzmain.
— Que Deus o ajude, Linzmain — ele fala, respirando fundo e acrescentando: — O ajude tanto a negociar o preço de Niedersieg quando a existência do próprio Niedersieg.
Porque não será algo fácil, e nem simples. Muitos príncipes alemães enviarão emissários a Viena em busca de restituição... Mas quantos deles a conseguirão?
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14|11|1814 Palácio de Mármore, São Petersburgo
Tiros de canhões são ouvidos da Fortaleza de Pedro e Paulo, bem como sinos tão tocados em todas as igrejas da capital. Uma imensa alegria instaura-se em São Petersburgo. Nasceu às 22:11 a nova criança do tsarevich e da tsesarevna.
A alegria é tanta que, mesmo sendo uma noite tempestuosa, uma multidão reúne-se em alegria nos portões do Palácio de Mármore.
— Um menino? — questiona a imperatriz viúva na antecâmara dos aposentos da tsesarevna. — A criança é um menino?
— E dos mais belos, mamãe! — Tão focada na própria alegria, Anna despercebe a seriedade da imperatriz.
— Nasceu saudável e com belos pulmões. — Igualmente feliz, o médico inglês aponta para o quarto. — Deseja vê-lo?
Assentindo, a imperatriz segue para o quarto, cuja iluminação é proveniente apenas da lareira. A tempestade no lado de fora é forte, o que apenas aumenta o frio que a imperatriz senta na espinha. Ela segue... Até que vê Mary sorrindo para ele... Sorrindo em desafio...
Trovões ecoam do lado de fora, bem como raios iluminam o céu e o quarto. Mas a imperatriz segue para perto da cama.
— Satisfeita, Sua Majestade? — Trovões continuam ecoando. Sorrindo, Mary mostra o bebê. — Além de um herdeiro, agora tenho também um sobressalente.
Os olhos da imperatriz arregalam quando ela vê o bebê, ao mesmo tempo que raios voltam a partir o céu e iluminar o quarto... Não parece Konstantin, não parece Mary, parece... Nicholas...
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