Era Uma Vez... Uma Ilusão
40 39. Devemos pensar e agir com calma, cavalheiros, baseando-nos não no presente, mas no futuro.
Abril|1812 Palácio de St. James, Londres
Reunida ao redor da rainha na sala de estar, toda a corte olha com atenção para as portas duplas da sala, onde o arauto já posiciona-se com o último cartão do dia... embora desnecessário. A última debutante foi apresentada a rainha e agora é a vez da...
— Sua Alteza Real, a princesa Charlotte de Gales! — As portas duplas são abertas e a princesa adentra na sala.
Toda a atenção foca apenas e unicamente na princesa Charlotte, marchando mecanicamente na direção da rainha. Está longe da graça demonstrada pelas tias, de fato, mas Charlotte tem apenas 16 anos e...
— Parece uma mulher adulta! — comenta discretamente Cathrine, cobrindo-se com o leque. — E pensar que na idade dela eu ainda brincava de bonecas.
— Mas já era a "senhora da casa". — E estava praticamente de casamento marcado. Voltando-se novamente para Charlotte, Richard nega. — Curvas definidas e seios fartos não são sinônimos de maturidade.
— O que você deseja dizer com isso? — questiona Cathrine, ganhando apenas um sorrisinho dele.
Não há nada a dizer; hora ou outra a realidade torna-se visível, basta esperar... Charlotte, alcançando o trono, curva-se à rainha. A consorte, sorrindo satisfeita para Lady de Clifford, estende uma mão para a neta, que beija e deixa a sala.
— Espero que seja o suficiente para trazer de volta a alegria. — Nunca tirando os olhos da rainha, Cathrine aperta fortemente a mão dele e sussurra: — Nada é o mesmo desde que... Você sabe.
Desde que Amélia morreu e o rei ficou permanentemente louco. Uma regência começou e... As debutantes, lideradas pela própria Charlotte, retornam à sala ao som de aplausos. A recepção da rainha começa e, naturalmente, os Bristol aproximam-se da princesa.
— Estávamos comentando sobre como a princesa foi perfeita. — Mas a duquesa viúva de Manchester chegou primeiro, junto da duquesa de Richmond e Lady Stafford. — Ouso dizer que nunca antes uma dama mostrou tanta calma, postura e...
— Odeio bajulação! — As damas franzem o cenho para Charlotte, que sorri, irônica. — Pergunto-me o quanto disso é sincero?
— T-tudo que dissemos foi sincero, minha princesa — defende-se a duquesa de Richmond, ofendida.
— O que acha das cinturas baixas retornando, minha princesa? — E Lady Stafford sempre tão autocrática quanto... — Oh, os Bristol!
E a atenção volta-se a Richard e Cathrine, dando às damas a oportunidade para "fugir com honra". Charlotte aproxima-se deles.
— Bognor lhe fez muito bem, Charlotte, está tão corada quanto uma criança. — A princesa sorri para Cathrine, que acrescenta: — Bem-vinda a alta sociedade.
— Nunca ambicionei estar neste lugar, mas fazer o quê? — comenta Charlotte, dando os ombros, em seguida. — Afinal, serei rainha um dia.
— Oramos a Deus que esse dia tarde a chegar — Richard responde, ganhando um assentimento da princesa, e nega tristemente. — Não estamos prontos para perder seu pobre avô.
— E quanto ao pobre príncipe regente? — A atenção volta-se ao recém-chegado duque de Sussex, sorrindo divertido.
Sendo tomada pela animação, a princesa Charlotte corre na direção do tio, abraçando-o... como se estivesse em casa, não na corte! Richard e Cathrine se entreolham, concordando que Charlotte ainda não desenvolveu maturidade para estar na sociedade.
Mas o que se pode fazer? O príncipe de Gales é regente agora e, se antes já não dava atenção à filha, dificilmente o fará agora. Nada mudou, politicamente falando, mas...
— Ainda vamos demorar muito? — Richard franze confusamente o cenho para Cathrine, que leva uma mão ao ventre. — Acordei sentindo... dores.
De fato, nada mudou, eles continuam apenas com Adam e, pelo próximo mês, isso não mudará. Mas Richard sorri e aponta para a saída; os filhos virão, afinal a esperança é a última que morre.
*****
Abril|1812 Schloss Leonberg, Leonberg
Cabelo loiro claro, olhos azuis igualmente claros e uma pele tão clara quanto... Bem, a pele de um bebê. A cria do usurpador tinha tudo para nascer um verdadeiro Habsburg... Se não fosse pelo maldito rosto Bonaparte.
— Por que Katharina ainda se dá ao trabalho? — Encarando com desgosto a miniatura que segura, Anne nega. — Ela sabe muito bem que odeio tudo o que essa... coisa representa!
— O rei de Roma é apenas uma criancinha, madame — a condessa Verweyen lembra, ganhando um irritado olhar da princesa. — Não pode culpá-lo pelos erros do pai.
— Não agora, mas quando ele crescer e... — Negando veemente, Anne segue na direção da lareira. — Como Maria Ludovica consegue dormir?
Ou melhor, Marie-Louise... Como se já não bastasse macular Württemberg, Baviera e Baden, o usurpador ainda ousou rebaixar a Áustria, divorciando-se de Joséphine e casando com a filha primogênita do imperador.
E quando as coisas não poderiam ficar piores... Marie-Louise apaixonou-se pelo algoz e teve um filho! Mas isso... Anne nega, é intragável! Sem pena alguma, ela joga a miniatura nas chamas da lareira, fazendo Luise exclamar em horror:
— Sua perversidade é tão grande assim a ponto de sentir ódio por uma criança!? — Anna semicerra os olhos na direção da condessa, que nega. — Não entendo isso, francamente...!
— Tente ser privada da sua fortuna, status e família! — Dormir como uma princesa e acordar como... uma ninguém! A condessa não responde. — Não odeio o menino, mas sim o usurpador e todo o clã Bonaparte.
A condessa, novamente, não responde, fazendo o silêncio instaurar-se. A verdade é que, embora "pacíficos", os últimos três anos foram amedrontadores. Não existe mais Países Baixos, nem Oldenburg, e a Confederação do Reno... Essa farsa serve apenas para proporcionar soldados alemães ao usurpador.
— E se um casamento...?
— Prefiro a morte! — exclama furiosamente Anne, encarando friamente Luise. — Antes morrer que ver um filho meu casando com um Bonaparte, Bernadotte ou quaisquer um desses arrivistas!
— Mas e se...
E Anton Belgärd entra na sala, calando a condessa e fazendo Anne suspirar em alívio. Não existe "e se" nessa situação.
— Sua irmã está com conversas muito estranhas, Anton — comenta Anne, seguindo para a mesa do chá... infelizmente, holandês. — Aviso logo que não aceitarei damas traidoras comigo.
Sentando na mesa, Anne serve-se de chá, enquanto Anton direciona um censurador olhar para a irmã, que suspira e também senta a mesa. Logo as duas são acompanhadas pelo ex-controlador da princesa, que, por sinal, em seu novo cargo, deveria...
— As crianças e eu estávamos cavalgando. — Anne franze o cenho para Anton, que ri. — Deveria ter visto como Auguste se abraçava a mim.
— Uma imagem muito paternal, com certeza — Luise comenta irônico e, ganhando um curioso olhar de Anne, acrescenta: — Mas, até onde eu sei, você é tutor de Wilhelm, não professor de equitação.
— A indulgência faz bem.
— Quando usada com disciplina — pontua Anne, bebendo do chá e negando. — Não faça do meu filho um patife.
Já basta Fritz e o desgosto que é Paul. O maior desejo de Anne é afastar o filho do estigma problemático que os Württemberg possuem. E, justamente por isso, Anton foi chamado para educá-lo... O que, em contrapartida, é perigoso...
Ela percebe os olhares e devaneios de Anton, mas... Uma das damas de companhia entra na sala e, fazendo uma mesura, entrega uma carta para Anne. Sob o atento olhar de Anton e Luise, ela lê e... suspira.
— O rei deseja minha presença em Ludwigsburg... — Mas, logo em seguida, Anne franze o cenho. — Conhecem Ludwig de Oettingen-Wallerstein?
Tanto Anton quanto Luise franzem o cenho, não por desconhecerem que é, mas justamente pelo contrário. Esse nome é... curioso...
*****
11|05|1812 Palácio de Westminster, Londres
Uma grande multidão ocupa o saguão da Câmara dos Comuns; são comerciantes, indústrias do ramo têxtil e deputados, há também radicais e pessoas unicamente curiosas, mas o fato é que todos estão ali por um único motivo: as Ordens do Conselho.
Desde o início do Bloqueio Continental, o Conselho Privado de Sua Majestade emite decretos a fim de salvaguardar o comércio ultramarino britânico e retaliar o bloqueio. O resultado? O comércio francês está encolhendo, enquanto o britânico aumenta na direção das colônias. A consequência...?
— Abaixo as Ordens do Conselho! — Descontentamento generalizado na indústria britânica. — Abaixo o vigário de Old Bailey!
— Estamos todos falindo! — Um descontentamento tão grande que os reunidos no saguão não conseguem manter-se calados.
— Manchester foi só o começo! — E nem parados, vide os tumultos em abril. — Não aceitaremos mais as Ordens!
A insatisfação e agitação social vem apenas crescendo. Dificilmente o "vigário de Old Bailey" deixará a liderança do governo, Perceval é tão poderoso no Parlamento quanto Pitt foi.. Mas os britânicos já provaram diversas vezes que não devem ser desafiados.
Sabendo disso, a Câmara dos Comuns iniciou um inquérito e hoje mesmo está acontecendo um debate sobre a continuidade das Ordens. Porém, entre todos esses britânicos, há também... alemães...
— Como são tolos; Spencer Perceval sequer chegou. — Embora já passe das 17h. Junto de alguns dos seus companheiros, von Frieden nega. — Eles acham mesmo que serão ouvidos?
— Nós achamos mesmo que seremos ouvidos? — retruca von Eden, encarando um homem... estranhamente calmo no saguão. — Talvez os tolos aqui sejamos nós.
— O passatempo favorito do príncipe Robert é nos ignorar — Eduard Carrelli acrescenta irônico: — E Perceval não dá a mínima importância para a nossa insignificante causa.
— Cabe a ele nos ajudar, se assim necessário! — A frágil paciência de von Frieden já está falhando. — Nosso povo também sofre por conta do bloqueio.
Embora seja culpa do usurpador. O recrutamento, os impostos elevados e a falta de alimentos são problemas, "legalmente" falando, apenas dele e da Baviera. Uma coisa, porém, é certa: os ministros precisam de aliados políticos; alguém ou algo para influenciar o príncipe.
— Precisamos de alguém tão sedento pela paz que esteja disposto a usar tudo para alcançar esse objetivo! — Alguns dos ministros assentem para Karinberg... Mas logo uma agitação é ouvida. — Ele chegou!
Os ofensas e vaias não mentem, Spencer Perceval chegou. Os alemães avançam onde a multidão reúne-se, embora seja extremamente difícil ver o diminuto homem no meio da multidão.
Vozes altas, gritos de ofensa e até ameaças... Até que um tiro é escutado bem no meio da multidão, que recua assustada no caos que instaura-se no saguão. A própria seção parlamentar é interrompida com a confusão e os deputados saem para fora... E o caos torna-se ainda pior...
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12|05|1812 Palácio de Hampton Court, Londres
O silêncio que domina na sala de refeições é profundo e inteiramente calmo, como é próprio para o desjejum. Apenas Cathrine encontra-se na mesa, claro, mas as damas ao redor também mantêm-se caladas. Porém, embora calmo, dificilmente seja um silêncio feliz...
— Perdão pelo atraso, — E Richard entra apressadamente na sala, direcionando um irritado olhar aos cavalheiros — esqueceram que banho se toma com água morna.
Lord Wilmington abaixa a cabeça e coloca-se atrás dos outros cavalheiros. Mas Cathrine simplesmente nega e, suspirando, observa Richard sentar-se à cabeceira da mesa, sempre sorrindo para ela. O sorriso, porém, não é recíproco.
— Tomaremos o desjejum com Adam — ela avisa, pegando um guardanapo.
— Mesmo? Faz tempo que não fazemos assim. — A única ação dela é assentir, sem qualquer interesse. É o bastante para matar o sorriso de Richard. — Qual o problema?
O problema... Cathrine acena para Lady Wilmington, que deixa a sala de refeições com as outras damas e os cavalheiros. Eles estão sozinhos agora, ninguém poderá escutá-los e vigiá-los.
— Aconteceu de novo — sussurra Cathrine, apertando tão fortemente o guardanapo que... — Eu falhei... de novo...
— Não se cobre assim, por favor.
— Como não me cobrar!? — Richard arregala os olhos. A vontade de Cathrine é chorar, mas ela apenas nega. — Entra mês, sai mês e continuo tão oca quanto uma pedra!
— Somos jovens... — Richard tenta falar... Mas é impossível.
— Não, Richard, não somos mais jovens! — A juventude deles já passou há tempos. — Ambos temos 30 anos e... Logo vou maturar!
Se já não tiver maturado! Cobrindo o rosto, Cathrine tenta ao máximo não pensar nisso, ter alguma esperança. Mas é tão difícil! A humilhação de ser inútil... De falhar em seu maior dever... É impossível para Cathrine segurar as lágrimas. O silêncio domina, até que...
— Devemos ter esperança. — Richard toma a mão de Cathrine é, encarando-a, sorri fracamente. — Nossa única opção é tentar.
— Você é homem, Richard, não pode entender minha situação! — Mas ela recua, negando veemente. — Só existem mais duas pessoas na linha de sucessão e...
Adam entra na sala, encerrando definitivamente o assunto. Cathrine enxuga rapidamente as lágrimas e, forçando um sorriso, volta-se na direção do filho... Seu único e frágil filho de 11 anos.
— Acho que o bispo Sparke não vem hoje. — Adam senta à frente de Cathrine e, pensando um momento, acrescenta: — Na verdade, parece que ninguém vem.
— Quem lhe acorda e veste veio, isso que importa — responde Richard, dando o Cathrine tempo para regularizar a voz. — Sente-se melhor, Adam?
— Um pouco cansado, mas eu estava nos jardins. — Depois do mal-estar na noite anterior? Cathrine franze o cenho, mas Adam foge do assunto: — Sobre o que vocês discutiam?
— Saúde e conveniência. — Tão próprio. Cathrine serve-se com chá, trazendo a atenção de Richard. — Deseja que eu chame...?
— É algo íntimo demais — Cathrine retruca, odiando a ideia de falar desse assunto com o Dr. Markson. — Por que não existem mulheres médicas? Seria tão mais simples.
Mas, mesmo que existam, dificilmente frequentaram uma universidade. Cathrine nega e bebe do chá, embora esse comentário tenha trazido a atenção de Adam.
— Você também leu Mary Wollstonecraft, mamãe? — Cathrine franze o cenho para o filho, sendo seguida por Richard. — O bispo Sparke não gostou, mas tio Robert leu comigo.
— Quem é Mary Wollstonecraft? — questiona Cathrine.
— Uma escritora dos... direitos da mulher. Ela falava da igualdade na educação e moral. — Falava, ou seja, está morta. Richard suspira para Adam. — Pelo menos não foi William Godwin.
William... Godwin...? Cathrine simplesmente nega. O desjejum continua em quase total silêncio, apenas com a respiração de Adam sendo claramente audível. O assunto de antes é quase esquecido e a paz...
Uma correria é escutada no corredor, tornando-se cada vez mais audível, até que o general Churchill, líder da Guarda Germânica, entra abruptamente na sala com mais cinco guardas. É o suficiente para assustar todos os três, que levantam em horror.
— General Churchill, mas o que significa isso!? — Richard exclama... Embora o general pareça abismado.
— Perdão pelo inconveniente, Sua Alteza Sereníssima, mas... — Churchill respira fundo e, tomando coragem, fala que: — Assassinaram o primeiro-ministro.
O horror apodera-se novamente dos Bristol, tanto que Cathrine abraça protetoramente Adam, sendo ela mesma abraçada por Richard. Spencer Perceval... morto?... Uma revolta?
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16|05|1812 Buckingham House, Londres
— Uma perda de tempo! — Lady de Clifford, Mary e Sophia suspiram cansadas, mas Charlotte não para: — Fugimos de Londres para Windsor por causa de um... louco!
E, novamente, as damas suspiram, embora Sophia também feche os olhos. A carruagem delas acabou de entrar em Constitution Hill e Charlotte vem reclamando desde Richmond!
— O "louco" assassinou o primeiro-ministro, Charlotte — retruca Lady de Clifford... sendo ignorada. A governanta suspira. — Quem mata e fica tão calmo quanto um santo?
— Deveríamos ter ficado em Windsor — sussurra Mary, negando para Sophia. — Só faz cinco dias!
— Mas o assassino já foi julgado e condenado à forca! — Além de declarado completamente são. Suspirando, Sophia suplica: — Chega desse assunto, por favor!
Não se fala de outra coisa nos jornais e em qualquer círculo social. No início Sophia até entendia, mas agora... Ela fecha os olhos e cobre o rosto; pelo menos o pedido foi acatado... Mas não por muito tempo:
— Confesso que estou feliz — Charlotte volta a falar, ganhando um olhar franzido das tias. — Não pela morte do vigário de Old Bailey, claro, mas porque os Whigs retornarão ao poder.
— Nada é garantido — responde Sophia, pensando um momento e negando. — George ainda teme pela recuperação de papai.
— Não ofenda George! — Mary exclama, mais ofendida do que o próprio príncipe regente ficaria. — Ele sabe o que é melhor para a Grã-Bretanha.
— Sendo assim, os Whigs retornarão. — Sorrindo arrogante, Charlotte ainda acrescenta: — Eles sempre serão o melhor para a Grã-Bretanha, diferente dos Tories lixo...
— Lave sua boca ao falar, Charlotte! — repreende Lady de Clifford... No mesmo instante que a carruagem para. — Uma futura rainha não deve...!
O lacaio sequer desce do seu lugar e Charlotte abre a porta e deixa a carruagem. É tão cheia de si que parece esquecer quem é. Mas a idosa Lady de Clifford logo trata de ir atrás da pupila.
— A favoritismo dela por você logo será extremamente prejudicial. — Sophia franze o cenho para Mary, que nega. — Um soberano não é Whig ou Tory, mas...
— Nenhum de nós é neutro, você sabe disso. — Na verdade, todos eles são profundamente partidários.
Sophia sorri e, aceitando a ajuda do lacaio, desce da carruagem. Ofendida, Mary desce também e corre atrás da caçula pelo pátio de Buckingham House. Está cheio de criados e baús, mas Mary logo a alcança.
— Você é impossível, sabia? — Mary a agarra pelo braço e questiona-se: — Por que todos gostam tanto de você?
— Porque Sophia é a nossa anjinha. — Elas voltam-se na direção da entrada, onde desce um sorridente William. — Não seja invejosa, Mary.
Os olhos de Mary arregalam com essas palavras e, novamente ofendida, ela parte na direção do risonho irmão. Sophia inicialmente também ri... Até que vê Charlotte, levemente ruborizada, lendo uma carta.
— Algum problema, Charlotte?
— N-não! Eu só... É de mamãe. — Charlotte praticamente esconde a carta atrás de si. — Vou visitá-la.
— O príncipe regente permitiu? — questiona Lady de Clifford, aproximando-se com os olhos semicerrados.
— Desejo visitar minha mãe e assim o farei! — A baronesa recua assustada com as palavras de Charlotte, que entra, em seguida, na casa.
Confusa, Sophia franze o cenho para Lady de Clifford, que simplesmente sai atrás da princesa. Bem... a juventude é cheia de sentimentos conflituosos, mas assim!?
— Que reação mais... estranha — sussurra Sophia, virando-se para trás ao sentir Mary aproximando-se. — Notou algo estranho ultimamente?
— Você não? — Sophia franze o cenho para Mary, que dá os ombros o olha preocupada na direção da casa.
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
Misturando distraidamente o açúcar no chá, Cathrine suspira cansada. Ela mal consegue olhar para a viúva Lady Cottington, que analisa atentamente a sala de visitas. É visível o desconforto de ambas, mas como não estar? Lady Cottington representa todos os medos de Cathrine!
— E onde está Robert? — Cathrine, tal como Lady Wilmington e Lady Castlereagh, franze o cenho para Lady Cottington, que acrescenta: — Refiro-me ao seu Robert, Sarah.
— No funeral do Sr. Perceval, mamãe... Eu não havia avisado? — responde Lady Wilmington, franzindo o cenho e dando os ombros. — Eles são primos distantes.
Ambos descendem do 2⁰ conde de Northampton, Spencer Compton — embora Perceval tivesse esse "direito" por conta da mãe. E como Cathrine sabe disso? O próprio Wilmington sempre faz questão de frisar sua nobre linhagem.
— Surpreende-me Lord Wilmington ter sido "convidado" — comenta Lady Castlereagh, cuja linhagem não é assim tão nobre, também bebendo do chá —, afinal a Sra. Perceval pediu um funeral privado.
E Lord Castlereagh foi "convidado"? Suspirando, Cathrine nega e bebe do chá. Pelo menos alguma conversa está saindo dessa visita. O silêncio, porém, não tarda a chegar e logo as damas estão totalmente focadas em suas xícaras... Mas não Lady Cottington...
— A milady deseja algo? — A baronesa franze o cenho para Cathrine, que educadamente sorri. — Imagino que essa visita, no mínimo, incomum, tenha um motivo, não?
— Muito perspicaz, minha princesa — responde Lady Cottington, pousando sua xícara na mesa e dizendo que: — Gostaria de convidá-la para ajudar numa instituição...
— É a duquesa de Kendal que cuida da filantropia. — Cathrine força um sorrisinho e bebe novamente do chá. — Sophia tem tanto os meios quanto a voz necessária para ajudá-la.
Além da vontade, que é o maior fator decisivo. Mas Lady Cottington continua plácida... Na verdade, Cathrine nunca viu essa mulher mostrando outra coisa além de placidez.
— Foi a própria princesa Sophia que me pediu para convidá-la. — Claro que sim; Cathrine ri com as palavras de Lady Cottington, que não recua. — Talvez seja do interesse da princesa ajudar, é um orfanato.
É o bastante para matar o sorrisinho de Cathrine, cuja expressão é tomada pela seriedade. Um orfanato...?
— O que a milady está insinuando com isso?
— Nada, apenas que desejo sua ajuda. — Lady Cottington dá os ombros e suspira. — Embora Sarah seja minha joia, sempre ansiei por mais filhos; foi impossível, infelizmente, mas encontrei um certo consolo nessas crianças enjeitadas.
— Mulheres como nós sempre encontram. — Lady Castlereagh refere-se ao filho de Lord Charles Stewart? — Se não na caridade, em coisas ditas como frívolas.
E a atenção retorna a Cathrine, que põe-se a pensar. Um orfanato... Ela já ajuda o Foundling Hospital, mas a ideia de ajudar um orfanato é tão...
— Onde fica esse tal orfanato? — questiona Cathrine, encarando fixamente Lady Cottington. — Dependendo da localização, talvez eu pense em ajudá-la...
— Northbury, Berkshire... É uma vila perto de Windsor. — Windsor... Cathrine assente para a baronesa, que sorri levemente. — São crianças lindas e... muito carentes de amor.
— Vou pensar na sua proposta — responde Cathrine, bebendo do chá.
É humilhante a ideia de apoiar um orfanato, não pelo fato de ser um orfanato, mas porque... Seria aceitar a derrota, não seria? Mas Cathrine ainda tem Adam, então o desespero dela ainda não é tão grande assim. De qualquer forma, são crianças e... Crianças necessitam de amor.
Bem, de qualquer forma, o orfanato de Northbury logo ganhará uma doação. O silêncio, porém, retorna a sala... Até que um criado entra na sala e fala algo para Lady Paston.
— O Dr. Markson chegou, minha senhora — avisa Lady Paston, fazendo Lady Cottington franzir o cenho.
— Adam acordou indisposto — Cathrine explica e, sorrindo docemente, levanta do sofá. — Deve ser cansaço.
Esse cansaço já é tão rotineiro que nem incomum é mais... Pelo menos é isso que Cathrine tenta acreditar. Mas ela ainda tem Adam... Isso que importa.
*****
Maio|1812 Bond Street, Londres
Dificilmente existe em Londres uma rua tão luxuosa e efervescente quanto Bond Street, não desde que a falecida duquesa de Devonshire boicotou Covent Garden em 1784. É uma rua de prestígio, cujos estabelecimentos comerciais — joalherias, chapelarias e ateliês de alfaiates e modistas — são prodigiosamente frequentados.
Pode até parecer um lugar frívolo, quase "feminino", mas basta olhar com atenção e essa imagem cai por terra, vide a n⁰ 13 de Bond Street, onde funciona não apenas a academia de esgrima dos D’Angelo, mas também a academia de boxe de John Jackson.
— Não seja tão compassivo, Lansdowne, seu adversário não retribuirá! — O agora 3⁰ marquês de Lansdowne, Henry Petty, encara ofegante do chão Robert, que ainda zomba: — Levante! Os outros também querem treinar!
Os ditos outros cavalheiros apenas riem do marquês, que estende um braço na direção do zombeteiro Robert. Não foi ele quem derrubou Lansdowne, infelizmente tal mérito cabe ao próprio "Gentleman" Jackson — que teve de sair, mas nada impede Robert de zombar.
— Você não acha que é muito violento, para um pacifista? — Fingindo pensar um momento, Robert nega, irritando Lansdowne. — Por que você não vem suar também, Kendal!?
— Eu levei meu cabelo, desculpe — Robert zomba e ajuda Lansdowne a levantar.
Robert dificilmente luta e, embora também receba instruções do Gentleman Jackson, ele prefere a esgrima e o levantamento de peso, são menos "desfigurantes".
Quando sentam numa mesa, onde Richard sinaliza para um garçom trazer água e Lansdowne tira as luvas, dois cavalheiros passam por eles comentando sobre a execução de John Bellingham, o assassino de Spencer Perceval.
— Muito precipitado, não? — Lansdowne franze o cenho para Robert, que sinaliza para os cavalheiros. — O homem mata o primeiro-ministro e em uma semana é julgado e enforcado.
— São Tories, Kendal, não se pode esperar muito. — Olhando dessa forma... Robert dá os ombros, bem no momento que chega o garçom. — Devo confessar, porém, que Bellingham parecia bastante calmo no cadafalso.
— Antes morrer com honra do que humilhado — sussurra Robert, pegando uma laranja e... lembrando: — Alguma informação sobre "o escolhido"?
— O cunhado do regente aqui é você, não eu — Lansdowne responde, numa irônica risada, bebendo água... e ficando sério. — A liderança continuará Tory e, no máximo, um cargo insignificante será oferecido para Grenville ou Grey.
— Vejo que meu cunhado está começando a revelar sua verdadeira face. — No caso, seu real objetivo: desafiar o rei ao apoiar os Whigs. — Mas quem será o primeiro-ministro?
Essa é talvez a pergunta mais feita ultimamente. Será o marquês Wellesley? Camden?... Canning? A dúvida permanece na mente de ambos os homens, que tomam a água e retornam ao treino. E Robert também pega as luvas e junta-se a Lansdowne.
— Logo saberemos, de qualquer forma — o marquês comenta, desferindo um golpe contra Robert, que protege-se com os punhos. —; a Grã-Bretanha não pode ficar sem primeiro-ministro... Byron!
Byron!? Robert olha para trás e... Ele é golpeado por Lansdowne e fica tão atordoado que começa a ver dois Lord's Byron... Byron não! Seguindo para a mesa de antes, Robert senta e se recompor. Esse soco, porém, parece confundi-lo de uma forma que...
— Qual de nós venceria numa luta, hein? — Lansdowne franze o cenho, mas Robert semicerra os olhos na direção de Byron. — Sou maior, mas Byron é mais jovem, além de mais musculoso.
— Acho que você deveria falar com o regente. — Sobre o governo? Robert nega para Lansdowne, que suspira e sorri de lado. — Aposto que ele derruba você.
O desafio está feito! Robert levanta da cadeira e, amarrando o cabelo com uma fita, caminha com um largo sorriso na direção do odiado primo poeta, pronto para...
— Byron! Eu te desafio!
O poeta, pego de surpresa, franze o cenho na direção de Robert... Mas rapidamente essa surpresa torna-se um desdenhoso sorrisinho. O desafio é aceito e logo os dois estão com os punhos e os peitos nus, em posição de luta...
*****
Junho|1812 Oldenburg House, Londres
Levantando abruptamente, o barão von Frieden bate na mesa e volta-se com terrível fúria na direção do príncipe. Porém é o desdém que domina o rosto de Richard. É quase o suficiente para fazê-lo se arrepender de permitir as reuniões na sala de conferências.
— Como ele ousa!? — o barão exclama, negando na direção de Richard. — Nomear um bispo como intendente de Niedersieg!? É um desafio!
E o barão esmurra novamente a mesa, fazendo seus companheiros fecharem dolorosamente os olhos. Quem diria isso de von Frieden no passado, hein? Mas algo deve ser feito, ou melhor, dito:
— Que perigo esse bispo representa para nós, cavalheiros? — Os ministros franzem o cenho para Richard, que acrescenta: — Montille é francês, acima de tudo, francês! Um que, por sinal, foi professor do príncipe herdeiro Ludwig.
— Não é "apenas" um francês, meu príncipe — retruca O'Ryen, frisando a diferença —, mas um bispo francês!
— E o senhor, mais do que ninguém, sabe o quão fielmente católicos são os niedersiegers — o coronel Karinberg acrescenta, referindo-se a 1804. — O respeito deles pela Igreja...
— Os levará a rejeitar Montille, nomeado bispo não por Roma, mas pelo demônio corso! — As palavras de Richard são frias e não mostram abertura alguma ao diálogo. — Pierre-Ignace de Montille não é um problema, apenas um contratempo.
É praticamente um francês, um invasor, e essa é a confiança de Richard. O preconceito é degradante, mas também muito útil. Os ministros, porém, se entreolham e assentem para von Eden, que volta-se ao príncipe. Como sempre, a arma deles será o diplomático barão Leopold.
— Um contratempo que não nega o objetivo dos bávaros: minar nossa influência. — Suspirando, Richard encara a porta, no outro lado da sala, fazendo Eden acrescentar: — Um bispo, mesmo que francês, ainda é um bispo, e torna-se muito mais palatável que um bávaro qualquer.
Mesmo que os Montille sejam da antiga nobreza do Palatino-Simmern? Mas Richard fica em silêncio, agora realmente meditando nas palavras de Eden. Toda essa situação é, de fato, preocupante... Mas por que fazerem tanta questão em discuti-la?
— Essa nomeação, meu príncipe, serve apenas para aumentar a nossa convicção de que algo precisa ser feito. — Claro que sim... Richard semicerra os olhos para von Frieden. — Já faz cinco anos e...!
— Exigimos uma ação da sua parte! — exclama Carrelli, fazendo-o arregalar os olhos.
— Exigem!? — Richard repete e... Agora é ele quem levanta furioso. — Quem os cavalheiros pensam...!? Sua última exigência acabou em morte e fracasso!
É uma forte acusação da parte de Richard, ofendendo tanto os ministros que, além de gerar protestantes exclamações, von Frieden volta a levantar.
— Algo precisa ser feito, meu príncipe, ou Niedersieg cairá no esquecimento! — Mas Richard nega a von Frieden, que ainda tenta: — Temos planos e...
— Logo o usurpador partirá numa campanha contra a Rússia, e levará consigo praticamente todo o exército francês. — O coronel Karinberg também levanta em apoio ao barão. — E o nosso momento!
De passar vergonha novamente!? Richard nega veemente ao ministro e volta a sentar, tentando ao máximo acalmar os pensamentos. Esses homens não percebem que o trunfo de Niedersieg está na vitória das Coligações? Sozinho... Niedersieg sozinho é um graveto seco.
— Devemos pensar e agir com calma, cavalheiros, baseando-nos não no presente, mas no futuro. — Richard encara calmamente cada um dos ministros e decide que: — Observaremos o andamento da campanha russa e então, só então, é que agiremos. Estão dispensados.
Sequer dando tempo para alguns deles protestar, Richard levanta da cadeira e sai rumo a porta. Mas, no final, é isso mesmo, não? A decisão dele, boa ou ruim, é suprema e nunca deve ser ignorada. Quanto à campanha russa...
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06|07|1812 Palácio de Inverno, São Petersburgo
A tensão e as tropas imperiais dominam as ruas de São Petersburgo... Uma tensão tão crescente que, embora ainda dia, os vendedores nas ruas já começam a recolher seus produtos, enquanto os navegadores e pescadores no Neva remam para a orla.
Observando tudo da carruagem — conduzida pelo Aterro do Palácio, Mary tem uma expressão longe de satisfeita. Na verdade, tudo está longe de satisfatório... Logo, porém, a carruagem chega no Palácio de Inverno.
— Seja bem-vinda, madame. — Mary é recebida pelo alto, belo e incrivelmente maduro Nicholas, que estende uma mão. — Não sabe como me alegra vê-la; sua beleza...
A juventude é tão... vergonhosa. Mary aceita a ajuda de Nicholas, porém, assim que pisa no chão, ela o deixa para trás e entra no palácio.
— Desejo notícias de Alexandre — ela ordena, assim que Nicolas a alcança. — Disseram que ele estava em Vilna, mas logo depois chegaram notícias de que Vilna foi tomada pelos franceses e então... nada.
— Foi Elizaveta quem decidiu assim. — Franzindo o cenho, Mary volta-se para Nicholas. — Sabe que ela te odeia; pensa que você e Alexandre... Bem...
— Temos um caso? — O grão-duque cora violentamente com as palavras de Mary, que ri. — Oh, Nika, as coisas seriam muito diferentes se fosse verdade.
Subitamente, a expressão dele torna-se horrorizada, furiosa... Reações desse tipo estão cada vez mais costumeiras, fazendo Mary até suspeitar que... Não, é melhor nem pensar! Ela novamente ri, mas agora negando e acrescentando.
— O que foi? Está com ciúmes?
A raiva não desaparece de Nicholas, apenas é acrescentada a vergonha, tanto que ele desvia o olhar. Mary apenas nega e começa a subir a escadaria principal. Não é o momento para coisas supérfluas, os franceses invadiram!
— Seu marido deixou ordens expressas para que Pavel fosse trazido à capital. — Enquanto Maria e Elena foram deixadas em Konstantinovsky. Nicholas volta a alcançá-la. — Mas talvez a ordem mude, agora que Vilna foi capturada.
Instantaneamente Mary para de subir e encara Nicholas. Essas palavras... Que a ordem pode mudar... Isso significa que...?
— O usurpador realmente adentrará na Rússia — sussurra Mary, fechando fortemente os olhos quando Nicholas assente. — Quem está com ele? A Áustria...
— Toda a Europa Napoleônica. — Ela é obrigada a apoiar-se no corrimão. Mas Nicholas ainda acrescenta: — Áustria, Itália, Prússia, Confederação do Reno... Espanha...
É o suficiente! Mary dá as costas e, afastando-se de Nicholas, tenta se acalmar. É uma união de nações vindo contra a Rússia... Deus queira que eles sobrevivam até o inverno.
— Devemos considerá-lo louco ou... temer por nossas vidas? — As palavras quase não saem.
Agora Mary entende essa tensão em São Petersburgo... Como não sentir tensão numa situação dessas!? Mas ela continua de costas, apenas sentindo Nicholas se aproximar.
— Não tenho medo, Mary — ele sussurra, passando para a frente e agarrando fortemente as mãos dela —, eu a protegerei.
— Garoto tolo... Eu não tenho medo, Nika. — Forçando um calmo sorriso, Mary fecha os olhos e nega. — Sou casada com o Ceto, lembra?
Não aguentando, ela abraça Nicholas, que retribui o abraço. É a calma e o consolo que ela precisa... Um simples abraço... No topo da escadaria, porém, observando-os com os olhos semicerrados, a imperatriz Elizaveta não acha isso nada "simples".
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Julho|1812 Palácio de Hampton Court
Na sala verde, Cathrine toca o piano com toda a fúria e raiva que possui. Dizem que a música é um escape e, nessa situação, ela concorda plenamente, pois é impossível para ela expressar em palavras... Essa humilhação!
— E-e como são seus momentos íntimos? — Uma grande humilhação! Infelizmente, tornou-se necessário chamar o Dr. Markson.
— Nossos... momentos íntimos? — Richard repete e, olhando rapidamente para Cathrine, dá os ombros. — Imagino que normais... Como eles seriam anormais?
— Não vou entrar nesse mérito, meu príncipe. — Markson anota algo numa caderneta e depois questiona: — A sua semente é bem plantada...
— Minha masculinidade está muito bem provada, Markson! — defende-se Richard, apontando para Adam, assistindo tudo calado. — Tanto a marquesa quanto eu somos férteis.
O médico apenas assente e volta a anotar, certamente que a acusando, como uma Oldenburg da Dinamarca, de infertilidade. Mas... A fúria dela ao piano torna-se pior ainda, bem como o único som. Adam tosse um pouco, ganhando um preocupado olhar de Markson, que...
— E quanto às regras da marquesa? — É o bastante para fazê-la parar e voltar-se escandalizada ao assustado médico. — S-são regulares e...?
— São muito regulares, Dr. Markson, sendo esse justamente o problema! — Cathrine levanta e, aproximando-se de Richard e Markson, questiona friamente: — Por que não estou engravidando mais?
E Adam volta a tossir, mas o foco de Cathrine está no acuado Markson, enquanto Richard aproxima-se dela e tenta confortá-la, abraçando-a pelos ombros.
— Minha princesa conhece a história da rainha Anne? — Richard arregala os olhos e Cathrine franze o cenho... Adam novamente tosse. — Ela teve 17 gestações e... Talvez mel ajude...
— Já demos tanto mel para Adam que ele não pode mais comer doces. — O tom de Cathrine é frio, mas não tanto quanto o olhar dela. — Diga logo, Dr. Markson.
O médico fica em silêncio, aparentemente pensando nas melhores palavras. Porém, no final, ele apenas suspira e fala:
— Minha princesa nunca mais terá filhos.
A reação de Cathrine... Não há reação, ela apenas cai numa poltrona e, tremendo, cobre o rosto, enquanto Richard a abraça e promete que tudo está bem... Eles têm Adam…
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