Era Uma Vez... Uma Ilusão
52 Epílogo.
Final de agosto|1816 Southampton, Hampshire
O porto em Southampton está uma grande confusão. Marinheiros cruzam as docas com mercadorias do exterior — grãos, vinho, frutas e etc. —, oficiais da Marinha Real embarcam e desembarcam de navios de guerra e os ricos embarcam em navios para o continente.
Desde o reinado de Henry VII que Southampton não presencia tal movimentação. O fim da guerra, e a queda do Bloqueio Continental, está sendo benéfico até para o quase esquecido porto... É tão irônico, não? A Inglaterra se beneficia da paz, enquanto a Alemanha...
— Sua ação foi precipitada, meu príncipe. — E no meio desse povo todo está Richard com o Sr. Görtenietz. — O povo continua insatisfeito e agora estamos nesta situação.
— A insatisfação do povo mostra-se unicamente pelos jornais, excelência. — O tom do príncipe, porém, é calmo e composto. — Confio na minha capacidade de resolver a situação.
— O espetáculo sempre acalma os ânimos dos insatisfeitos, não? — Forçando um sorriso, o enviado então suspira e nega. — Os jornais dos liberais se reproduzem como ratos.
— Não acho que sejam todos liberais, apenas pessoas descontentes. — Professores, escritores e filósofos. — Mas todos, tanto liberais quanto conservadores, amam o príncipe e saberei usar isso em meu benefício.
— Deus queira então que não façam outros protestos — retruca Görtenietz, levemente irônico —, e nem voltem a colocar cartazes sediciosos nos portões do Schloss Niedersieg.
Cartazes colocando o palácio a venda? Richard olha para o enviado e nega, desejando, porém, revirar os olhos. No século passado já fizeram isso com St. James; não é nada novo. Mas o diplomata logo faz uma mesura e deixa o porto.
E a atenção de Richard acaba voltando-se na direção de Cathrine, cujos olhos são dominados por lágrimas prestes a serem derramadas. A aflição apodera-se de Richard, fazendo-o correr na direção de Cathrine a abraçá-la.
— Oh, Cathrine, meu amor! — Cathrine esconde o rosto no peito de Richard, que começa a sentir as lágrimas dela. — Não! Não chore, por favor! Parte o meu coração vê-la assim!
— Parte o meu coração vê-lo partir! — sussurra Cathrine, encarando-o com os olhos marejados. — Nunca estivemos mais de um dia separados, Richard! Agora só nos veremos novamente em janeiro!
Daqui a pouco mais de quatro meses. Richard só consegue abraçar Cathrine, que começa a chorar com toda a liberdade. É o bastante para chamar alguma atenção, principalmente dos que os reconhecem, mas os dois não dão importância alguma aos olhares.
— É necessário. — Fazendo-a encará-lo, Richard acaricia o rosto de Cathrine. — Niedersieg precisa do seu príncipe.
— Mas e quanto a princesa? — Cathrine acaricia a mão de Richard e suspira.
— Quero que fique segura, Cathrine. Sabe que será uma viagem desagradável. — Praticamente um mês viajando pelo Atlântico e Mediterrâneo. — Além do mais, alguém precisa ficar em casa e manter tudo em ordem.
As propriedades, as finanças... Robert e Sophia... Claro que Richard confia no irmão e na cunhada, mas... O coração dele fica mais calmo com Cathrine em casa.
— Seu voto de confiança me toca. — Há um leva desdém nas palavras de Cathrine. Mas Richard toca os lábios dela. — Por favor... Assim vou ceder como uma árvore.
Porém, antes mesmo dele pensar em algo, o olhar de Richard encontra Robert, observando-os com um zombeteiro sorriso. É o bastante para Richard pegar a mão de Cathrine e se aproximar do irmão.
— É isso, então? — Robert fala, tentando mostrar-se indiferente. — Um príncipe de Niedersieg pisará novamente no principado depois de... Quanto tempo, hein? 70 anos?
— Mais ou menos isso. — O silêncio instaura-se entre os dois, até que Richard acrescenta: — Realmente, as coisas mudaram bastante. Há alguns anos não havia nenhuma súplica pela presença física minha pessoa.
— Creio que seja natural. — Principalmente depois da anexação bávara. — Será bom restabelecer a fé dos niedersiegers na nossa família.
Um fé muito forte, com certeza, mas que não deixa de ser cega. Mas o silêncio novamente se instaura. Que estranho isso... Richard aperta a mão de Cathrine e sorri. Porém Robert logo fala novamente:
— Qual será a sua rota? — E um zombeteiro sorriso apodera-se de Robert. — Imagino que será... instrutiva.
— Serei recebido em Nápoles pelo rei Ferdinando, depois em Roma pelo papa e então partirei para Florença. — Onde, naturalmente, o grão-duque da Toscana o receberá. — O arquiduque Anton Viktor estará me esperando em Veneza e, após passarmos em Módena e Parma, seguiremos para Milão.
Será um passeio pelas cortes dos parentes Bourbon e Habsburg deles. Mas também uma ótima oportunidade para criar laços com os Estados Italianos. Porém...
— Alguém está muito ansioso pela Itália. — A atenção dele volta-se na direção de Sophia, aproximando-se com Mary Jane.
— Oh, não se preocupe, depois de Milão só irei parar no seu futuro principado, pequena — responde Richard, pegando Mary Jane de Sophia e sorrindo. — Sentirei sua falta... De você também, Robert.
— Claro que vai sentir. — Robert coloca-se ao lado de Sophia e, suspirando, estende a mão ao irmão. — Boa sorte lá, Richard.
Sorrindo, Richard beija a testa de Mary Jane e, entregando-a a Sophia, aperta a mão de Robert. Com o anúncio de que o navio logo partirá, Richard se despede dos Kendal e segue para junto de Cathrine.
— Volte para mim, Richard... — sussurra Cathrine, pegando a mão dele e beijando. — Volte para nós.
— Voltar? Mas não estou indo para lugar nenhum. — Richard também beija a mão de Cathrine e acaricia o queixo dela. — Estou na sua mente e no seu coração... Sempre.
Dito isso, Richard dá um rápido beijo nos lábios de Cathrine, que retribui com afinco... Logo Richard embarca e o navio deixa o porto de Southampton; para trás fica apenas Robert, Sophia, Mary Jane e... uma Cathrine com o coração na mão.
Demorará muito tempo até que eles se vejam novamente. Mas é verdade, Richard estará sempre na mente e no coração de Cathrine...
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