Era Uma Vez... Uma Ilusão
51 50. Nosso conto de fadas não foi tão idílico assim, mas temos amor.
Setembro|1815 Orange Hall, Ilha de Wight
É temporada das laranjas na Inglaterra, o que significa que todos os laranjais e campos de laranjeiras estão floridos ou totalmente laranjas. O que é algo muito curioso, afinal essa é uma fruta e cor tão solar, mas... Sua época é justamente quando o sol vai embora.
O "modesto" pomar de Orange Hall também encontra-se dominado pelo verde e laranja. Ainda não é a época da colheita, claro, mas algumas já estão tão grandes que... Uma laranja cai de um galho e atinge as costas nuas de Robert, que levanta em alerta.
— O que foi? — E Sophia não deixa de perceber isso, tanto que apalpa a toalha onde eles deitam em busca da chemise. — É alguém se aproximando...?
— Não, não... Foi só uma laranja. — Mas Robert a mantém deitada e beija o ombro dela. — Sou o único homem que pode vê-la nua.
— Levando em consideração que nunca amamentei, realmente — zomba Sophia numa leve risadinha... que vira um suspiro.
É o bastante para Robert levar uma mão a cintura de Sophia e beijar novamente o ombro dela. Nenhuma palavra é dita, o silêncio instaura-se... Até que Sophia pega a mão dele.
— Você está pensando demais novamente, Sophia — sussurra Robert, apertando a mão da esposa. — Sabe que é prejudicial.
— Mas nem sempre consigo evitar! — Há uma dor angustiante na voz dela. — Robert, as pessoas olham para mim, negam e... Elas comentam que estou murchando...!
— Não importa! São idiotas! Todos eles! — Segurando o rosto de Sophia e fazendo-a olhar na direção dele, Robert nega. — O que importa é apenas o nosso amor e a confiança que temos um no outro.
Tudo é vão além disso. Mas o olhar de Sophia continua cheio de angústia, o que faz o coração dele aperta com força, principalmente quando Sophia fala:
— Mas e se eu nunca tiver o herdeiro da dinastia?
Os olhos de Robert arregalam em horror. A vontade dele é simplesmente dizer que o herdeiro virá, é uma certeza... Mas há anos eles vêm tentando conceber esse herdeiro. Os últimos meses... Foram todos os banho de água fria. Há uma possibilidade deles falharem.
— Nossa felicidade não está condicionada a filhos, Sophia — responde Robert num sussurro cabisbaixo. — Daremos um jeito... Simples assim.
— Simples? Não é tão simples assim! — retruca Sophia, visivelmente chateada. — Me culparei pelo resto da vida. Como pode isso? Minha mãe teve 15 filhos e eu...
— Ficar pensando e falando nisso só aumentará as suas inseguranças... As minhas! — Fechando os olhos, porém, Sophia desvia o olhar. Robert volta a beijar o ombro dela. — Adotaremos Nikolai, se necessário.
Na falta de herdeiros da linha masculina, pode-se nomear um da linha feminina. Wilhelm está fora de questão, e Pavel também, mas Nikolai ou qualquer outro sobressalente... O importante é afastar dos Aberavon a Coroa.
Mas Sophia fica em silêncio, nada mais é dito entre os dois. Sempre é assim, ela não nega ou fica furiosa, apenas sente a dor e... Respirando fundo, Sophia muda de posição na toalha, deitando agora na direção dele.
— O estresse e a preocupação não ajudam em nada. — Forçando um sorriso, ela acrescenta: — Você está certo, não devo me preocupar demais... Ou nunca acontecerá.
Exatamente, criar expectativa demais só causa ansiedade. Robert leva uma mão ao rosto de Sophia e acaricia a bochecha dela.
— Eu te amo — ele sussurra, fechando os olhos e encostando a testa na testa dela. — Amo muito, mais até do que qualquer filho ou filha.
É o bastante para Sophia sorrir e beijá-lo... Logo, porém, os dois estão não somente aos beijos, mas também aproveitando de toques e... Sophia sobe em cima de Robert, é a vez dela reinar...
*****
28|11|1816 Amelian House, Cheshire
Risos de imensa diversão ecoam por toda a extensão do canal dos jardins de Amelian, sendo seguidos por pequenos gritinhos e suspiros. E, claramente, eles pertencem a Robert e Sophia, que brincam de correr como duas crianças. Há uma juventude e vitalidade incrível neles...
— Os Tudor-Habsburg não poderiam estar em melhores mãos. — Debaixo de uma árvore, porém, Richard observa os dois abraçado a Cathrine. — Sei que Robert terá a coragem que eu nunca tive.
— E os herdeiros também — sussurra Cathrine, rapidamente fechado os olhos e negando. — Oh, agora estou falando tolices...
— É a verdade. — Não é necessário mentir ou enganar a si mesmo. — Mas fui príncipe numa das épocas mais sombrias da Europa... E sobrevivi.
— Você foi o príncipe certo para o momento certo. — Richard assente para Cathrine, que abre a sombrinha e inclina a cabeça. — Sophia está... diferente, não acha?
Diferente? Richard franze o cenho e vira-se a cunhada. O rosto dela parece mais brilhante, vivo e ela parece levemente mais cheia... Antes, porém, que Richard possa falar algo, Lord Irvington aparece e aproxima-se.
— É Viktor Görtenietz, senhor. — Richard franze o cenho para o visconde, que acrescenta: — Ele diz que é urgente.
O príncipe troca um alarmado olhar com Cathrine e volta-se na direção de Robert, que já aproxima-se deles. Görtenietz?... Urgente!?
Não tarda muito e o enviado niedersieger é levado ao príncipe e a princesa no jardim. Há uma visível tensão e desagrado na expressão de Görtenietz, mas o diplomata não demora a falar essa tal urgência... Richard arregala os olhos.
— Um motim no Fürstlich Palais!?
— Protesto, Richard — corrige Robert, franzindo o cenho para Görtenietz. — Qual a reclamação deles?
— São pessoas pobres e sem nenhuma instrução, meu príncipe. — Mas o diplomata olha apenas para Richard e Cathrine. — Reclamam simplesmente porque desejam reclamar.
— Mas deve haver um motivo — repete Robert, fazendo Görtenietz sorrir com desdém. — Qual a reclamação deles, Görtenietz? Ordeno que diga!
Agora a atenção do enviado é fisgada, assim como a de Richard e Cathrine. Ele... ordena...? Richard inicialmente franze o cenho, até que Görtenietz o encara ultrajado e ele assente ao enviado. Que seja dito logo. Görtenietz engole em seco.
— Nada mais é o mesmo, meu príncipe. Tudo mudou de uma forma absurdamente... profunda. — Richard franze o cenho. Uma mudança? — Seus súditos, seus leais súditos, aqueles que serviram seu avô e sua mãe, são velhos demais ou estão mortos.
— É o curso natural das coisas, não? — O próprio Görtenietz serviu ao avô e a mãe dele. Mas a seriedade dele preocupa Richard. — Meu povo... mudou?
— Os niedersiegers foram expostos às ideias deturpadas da Revolução. — Ideias... deturpadas? O enviado então fala: — Eles exigem a imediata retirada das tropas austríacas.
— Mas os austríacos salvaram Niedersieg — aponta Cathrine, tão confusa quanto Richard.
— Como eu disse, senhora, são as ideias deturpadas. — A confusão de Richard só aumenta, até que Görtenietz volta-se a Robert. — Afirmam que a presença militar austríaca é uma violação da nossa soberania.
Os niedersiegers estão insatisfeitos com a Áustria? Mas isso... Richard nega, é impossível! A menos que... O domínio francês nos estados alemães, na Baviera, foi tão profundo assim? Richard sente Cathrine apertando a mão dele, mas ele só consegue olhar para Robert... Cujo olhar é cheio de expectativa...
— N-não é uma demanda absurda... Estão relativamente certos. — A voz de Richard é terrivelmente arrastada, hesitante. — Vou ordenar que as tropas sejam reagrupadas na fronteira...
— Mas não é somente isso, meu príncipe. — Richard franze o cenho para Görtenietz. Há mais? — Os protestantes exigem uma representação.
— Representação? — repete Richard, ganhando um assentimento do enviado.
— Um parlamento. — Os olhos do príncipe arregalam, mas Görtenietz ainda fala: — Eles exigem um parlamento.
Nada mais é dito e Richard volta-se a Robert, que troca um olhar com a pensativa Sophia. Mas... um parlamento?
*****
Schloss Ludwigsburg, Ludwigsburg
Um profundo e frio silêncio domina o escritório da rainha, o que é apenas acentuado pelo negro dos vestidos da própria rai nha e das três jovens princesas. Fritz, com um meio sorriso, olha com expectativa para as filhas.
— C-casar? — questiona a jovem Charlotte, incapaz de acreditar nas palavras do pai. — M-mas papai... Só fazem oito meses!
— Não acha que é cedo demais, Fritz? — Não deixando de sorrir, ele volta-se a rainha, com Elisabeth no colo. — Seus sentimentos...
— Estão todos no lugar, garanto. — Inflados, certamente, mas no lugar. — Sei que é cedo, muito cedo, na verdade, mas será o melhor... Para todos nós.
O sorriso de Fritz na direção da filha mais velha apenas aumenta, mas Charlotte vira o rosto e dá as costas. Claro que seria assim, não poderia ser diferente, mas ele imaginava pelo menos que... Fritz volta-se a Anna, sentada na mesa de chá.
— Se isso fará o senhor feliz... que assim seja — sussurra Anna num tom profundamente desanimado. — Mas quem será nossa nova... mãe?
— Nova mãe? — Elisabeth, porém, cai em ouvidos surdos.
— Uma mulher jovem, doce e muito amorosa, além de ser uma prima nossa. — O sorriso dele só aumenta ao lembrar dela, tanto que Fritz fecha extasiado os olhos e... — A grã-duquesa Ekaterina da Rússia...!
— A viúva de Oldenburg! — Anna quase derruba o chá ao levar abruptamente. — Oh, Deus, serei irmã daqueles dois garotos feios!
— Anna, por favor! — repreende a rainha, fazendo a neta sentar. — São seus primos.
Netos de duas das irmãs do avô deles, ou seja, eles têm o mesmo bisavô. Mas não é o suficiente para tirar o horror dos olhos de Anna, que busca algum consolo em Charlotte, cujo silêncio é frio. Elisabeth está confusa com tudo isso, e Wilhelm...
— Ekaterina é uma grã-duquesa russa e eu a amo. — O tom de Fritz agora é sério, muito firme. — Será o melhor para todos.
— Para todos? — Fritz volta-se na direção de Wilhelm, que arquea a sobrancelha e ri com desdém. — Ou será apenas para o senhor!?
É o bastante para Fritz semicerrar os olhos. Não é a primeira vez que Wilhelm usa esse tom ao falar com ele, é assim desde a mudança deles para Ludwigsburg, mas agora...
— Confesso que já esperava essa reação de você. — Afinal eles nunca se deram bem. Mas Fritz acrescenta: — Entenda, por favor, filho, vocês precisam de uma mãe...
— Nós temos uma mãe! Não viemos do vento! — exclama Wilhelm, voltando-se na direção da rainha. — Faça algo, vovó! Ele está tentando tomar de mamãe a Coroa!
— A Coroa nunca pertenceu a sua mãe, Wilhelm! — O olhar de Wilhelm torna-se furioso na direção dele. — Sou tão culpado assim por buscar minha felicidade e meu amor!?
— Sim, e muito! — E Wilhelm avança na direção de Fritz, encarando-o firmemente. — Você não merece ser feliz! Não merece o amor! Não merece paz!... Você merece a morte...!
— Mas quem morreu foi sua mãe!
Perdendo a paciência e sendo tomado pela fúria, o príncipe herdeiro ergue a mão e dá um tapa no rosto do filho... A rainha exclama em horror e Elisabeth esconde o rosto, enquanto Charlotte e Anna aproximam-se.
Os olhos de Fritz arregalam assim que ele percebe o que fez. Arrependido, ele tenta se aproxima de Wilhelm, que se afasta e sai correndo da sala. Charlotte logo segue o irmão.
— Desejamos que seja muito feliz ao lado dela, papai. — O olhar dele volta-se a Anna. — Mas Ekaterina da Rússia jamais será uma mãe para nós.
Muito pelo contrário, será o terrível símbolo de uma separação... Não aguentando, Fritz deixa o escritório da rainha e segue para os seus próprios aposentos.
É na Schlosskirche que Charlotte encontra Wilhelm, observando a igreja, agora protestante, do camarote real.
— Ele não pode fazer isso, Lottie, não pode! — Wilhelm enxuga algumas teimosas lágrimas e nega — Mamãe queria tanto ser rainha e... Não pode haver uma rainha que não seja ela!
— Não podemos questionar a decisão dele, Wilhelm. — O tom de Charlotte é conciliatório. — É cedo, de fato, mas Ekaterina com certeza será ótima.
Mas Wilhelm não responde, o único foco dele é a capela... O túmulo da princesa herdeira.
— Pode ser até um anjo, mas eu ainda assim me vingarei. — É uma clara ameaça. — Friedrich Wilhelm se arrependerá de todo o sofrimento que nos causou. Mamãe não pôde concluir a sua vingança... então eu a vingarei.
Wilhelm não terá paz e nem alegria enquanto não se vingar do pai... É uma promessa...
*****
Amelian House, Cheshire
O Allegro assai da Sonata para Piano n⁰ 12 de Mozart domina a sala azul, ao mesmo tempo que o silêncio reina. Richard observa Cathrine ao piano, Sophia semicerra os olhos para um livro que lê e Robert... O jovem Kendal traga um cachimbo na janela.
Nada é dito e nenhuma palavra é trocada; não desde o ocorrido mais cedo. Até o jantar esfriou mais rápido com o silêncio...
— Se ninguém vai falar nada, eu vou! — Parando de tocar, Cathrine volta-se alarmada ao inquieto Robert. — Não acho nada absurda a ideia de um parlamento e uma constituição em Niedersieg!
Dito isso, Robert encara ofegante Richard, talvez realmente por conta da aflição ou... a fumaça. O silêncio retorna a sala; dessa vez, porém, Cathrine não volta a tocar, mas vira-se para o contido Richard. Dá para sentir o desgosto dele...
— Claro que não acha, Robert — aponta Richard entre dentes. — Afinal você é um adepto dessas "ideias deturpadas".
— E Görtenietz mostrou-se tão conservador quanto um cão velho! — Robert deixa o cachimbo numa mesa e aproxima-se deles. — Richard, por favor, estamos em 1815...!
— Não, Robert, por favor você! Dá para contar nos dedos as constituições e parlamentos eleitos! — exclama Richard, levantando da poltrona e... Cathrine nega para Richard, que senta novamente. — É inconveniente!
— Muito pelo contrário, é vital. — A atenção volta-se a calma Sophia. — A Europa já não é mais a mesma, Richard, o povo busca cada vez mais espaço e voz.
A calma nas palavras de Sophia apenas irritam Richard, que fecha os olhos e massageia a testa. Cathrine só consegue olhar com preocupação para ele, ao mesmo tempo que... Ela abaixa o olhar. São menos de 30 anos que os separam da Revolução Francesa...
— Se não soubermos deixar o povo satisfeito, existe a possibilidade deles mesmos buscarem a própria satisfação — sussurra Cathrine, voltando-se a Richard e acrescentando: — Podemos perder a nossa influência e poder.
As pupilas de Richard dilatam com essas palavras, tanto que ele levanta e segue na direção da lareira. Claro que Richard nunca gostou da pressão, mas...
— A Áustria retaliará. — O tom de Richard é indeciso. Ele nega na direção de Robert. — Metternich é extremamente reacionário!
— Mas estaremos protegidos pela Lei Federal — responde Robert, caminhando na direção do irmão e sorrindo. — O artigo XIII defende que cada estado alemão deve adotar uma constituição...
— E quantos já obedeceram este artigo!? — É o bastante para Robert parar e Richard negar.
Nenhum... Nenhum dos outros 41 membros da Confederação Alemã tem uma constituição, alguns — a exemplo da Baviera — possuem constituições ordenadas por Bonaparte, mas...
Respirando fundo, Cathrine volta-se para o piano e começa a tocar novamente. No final, constituição e parlamento são questões políticas e ela é apartada da política. Richard, porém, suspira.
— As tropas austríacas serão enviadas para a fronteira. — O tom dele é cauteloso. Porém Richard continua: — Mas se, e apenas se, isso não resolver o problema... Tomarei uma ação.
Parando de tocar, Cathrine encara com surpresa Richard, que senta ao lado dela no piano e, sorrindo, começa a tocar. Cathrine também sorri e se junta a ele.
Nada mais é dito, o contentamento parece ser geral. Isso até que Robert e Sophia se encaram, eles sorriem um para o outro e...
— Sei que talvez não seja o momento, e confesso estar com medo que seja um mal presságio, mas tenho uma notícia. — A atenção volta-se a Sophia, que sorri largamente e... leva uma mão ao ventre. — Dentro de oito meses... Haverá um herdeiro!
Novamente, nada inicialmente é dito... Até que Cathrine leva uma mão a boca e começa a rir; rir de alegria. A tensão de antes é esquecida e Richard abraça Robert e Sophia. Um herdeiro... Os Tudor-Habsburg terão um herdeiro!
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21|02|1816 Palácio de Inverno, São Petersburgo
A voz do metropolita Ambrosy Podobedov, líder da Diocese de São Petersburgo, ecoa por toda a Grande Igreja. Os cavalheiros russos usam seus melhores trajes regimentais, os burocratas usam uniformes da corte e as damas russas estão quase envergadaa com seus véus e diamantes.
É típico para a corte imperial mostrar luxo e exalar esplendor, mas hoje é especial... Segurando velas na frente do metropolita, estão a grã-duquesa Anna e o príncipe de Orange... É o segundo; o segundo desde... O olhar de Mary recai no príncipe herdeiro de Württemberg e... Ekaterina...
— Não olhe tanto — sussurra Konstantin, encarando-a com desdém. — Eles já casaram, não há nada que possa ser feito.
— Obrigado pelo aviso, marido. — Mary força um sorriso e... acrescenta: — Mas quem você deveria vigiar é o marido de Anna... Ele observa com tanto interesse os oficiais.
Konstantin arquea a sobrancelha, mas Mary simplesmente volta a focar no casamento. Certas fofocas dizem que Orange aprecia tanto a frágil quanto a bruto. Há alguma verdade nisso?... Quem sabe, não é?
Logo, porém, a cerimônia Ortodoxa chega ao fim, bem como a Calvinista, e Willem e Anna são declarados marido e esposa... Príncipe e princesa de Orange... Concluídas as cerimônias, todos são conduzidos para a Sala do Trono.
— Está fugindo de mim, Nicholas? — Quando todos estão distraídos, Mary aproxima-se sorrindo de Nicholas... junto de Mikhail. — Como foi sua estadia em Berlim?
— Muito feliz — responde Nicholas... bastante sério. — Pude conhecer muito melhor Charlotte...
— Todos que os vissem juntos diriam que estão apaixonados! O que, de fato, é! — acrescenta, porém, Mikhail, rindo divertido. — O sorriso dela ao ser anunciado o noivado... Esplêndido!
— Oh, claro que sim, qualquer princesa ficaria felicíssima em tê-lo como marido e pai dos filhos. — Encarando-o fixamente, quase como um aviso, Mary acrescenta: — Só tome cuidado com as palavras, Nika, ou pensarei que fui suplantada.
— Impossível, madame. — Mas, novamente, ele continua sério. — Com licença.
Numa mesura, Nicholas afasta-se na direção de Ekaterina e Fritz, e Mikhail vai junto... Mas não sem antes sorrir com desdém para Mary... Ah, então esse é o joguinho.
Encontrando a princesa Cäcilie e sussurrando algo, Mary deixa então a Sala do Trono e segue para um corredor. Ela também sabe seduzir... E, como o esperado, logo Nicholas a encontra no corredor.
— Lhe ofendi de alguma forma em nosso último encontro, Nika? — questiona Mary, voltando-se para trás com os olhos marejados. — Sinto você... distante.
Não que o último encontro deles, há quase um mês, tenha sido algo impressionante... Na verdade, parecia apenas que Nicholas só saciar-se.
— Suplico então o seu perdão, madame. Não era o meu objetivo... — Fechando, porém, os olhos, Nicholas nega aflito. — Nós fizemos amor, Mary!
— Sim, e qual o problema nisso? — Eles têm um filho... O relacionamento deles é adúltero... Mary semicerra os olhos. — Não me diga que...?
— Lembrei de Charlotte e fiquei com um terrível sentimento de culpa! — Os olhos de Mary arregalam. Ele lembrou... dela? — Ela é minha noiva! Seremos marido e esposa!
Nicholas lembrou da prussiana ao... Maldita! Fechando os olhos e afastando-se, Mary tenta pensar em algo para dizer; ela tenta se acalmar. Áustria e Prússia realmente são rivais, até pelo membro de um homem!
Respirando fundo, porém, ela sorri e volta-se para Nicholas. O olhar dele é preocupado, aflito, mas Mary tem uma certeza na cabeça:
— Quem é o seu amor? — ela questiona, aproximando-se dele. — Nika, eu dei tudo de mim para você.
— Eu sei, mas... Ela está apaixonada! — Rindo levemente, Mary suspira e acaricia o peito de Nicholas, que fecha os olhos e sussurra: — Assim não, por favor!
Sim, assim sim... Mary pega as mãos de Nicholas e coloca na cintura dela, ao mesmo tempo que agarra o pescoço dele e o beija... Logo Nicholas está retribuindo e sussurrando que a ama mais que tudo na vida... Sim, exatamente...
— Estou grávida, Nika. — Arregalando os olhos, Nicholas a afasta e... Mary repete: — Teremos nosso segundo filho.
Nenhuma resposta é dada por Nicholas, até que ele começa a rir e a abraça com força. De fato, Mary sabe muito bem como "amá-lo".
— Nossos filhos serão felizes, Mary; muito felizes! — E Nicholas volta a beijá-la, mas agora com mais desejo e empurrando-a na direção de uma coluna...
É tão perigoso, não é? Mostrar tanta... intimidade num corredor qualquer é pedir para o escândalo. Mas ninguém irá descobri-los... Não é?... A condessa Evdokia Gaspov arregala os olhos ao observá-los atrás de uma coluna... A imperatriz viúva ficará furiosa, principalmente com... Nossos... filhos!?
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Final de fevereiro|1815 Royal Pavilion, Brighton
O único som audível na sala de jantar é dos talheres. Há apenas três pessoas: o regente, a princesa Charlotte e o duque Leopold de Saxe-Coburg-Saalfeld, mas nenhuma palavra é trocada. O silêncio é frio, embora não tanto quanto o olhar do regente em Leopold.
— Confesso que tudo que ouvi do príncipe foi muito positivo. — O regente bebe então um pouco de vinho do Porto e acrescenta: — Principalmente da sua coragem na Batalha de Kulm.
— É dever de todo soldado mostrar coragem. — O tom de Leopold é respeitoso, porém simpático. — Kulm foi insignificante se comparada a...
— Foi uma vitória da Coalizão. — Mas o regente continua frio... E bebe novamente do Porto. — Se não me engano, você é tenente-general, não?
Como que falando com um marechal, o que, de fato, é verdade, Leopold assente. Um oficial do Exército Russo, claro que não apenas porque a irmã dele, Juliane, foi brevemente considerada noiva do grão-duque Konstantin, mas também pela bravura.
Essa interação, porém, não parece agradar em nada Charlotte, que morde os lábios e volta-se sorrindo ao pai.
— Fiquei encantada com Coburg! — O regente arquea a sobrancelha para Charlotte. — E também com as histórias de Leopold sobre os irmãos.
— Nossa corte, apesar de modesta, sempre foi muito familiar. — Modesta? Talvez a palavra certa seja pobre. — Éramos sete, mas todos crescemos unidos e com amor.
— Mesmo o caçula? — questiona o regente, olhando com desdém para Leopold. — Não quero ofendê-lo, Leopold, mas você se acha realmente digno de Charlotte?
Afinal o que Saxe-Coburg-Saalfeld pode oferecer ao Reino Unido? Mesmo o pequeno Mecklenburg-Strelitz havia algo a oferecer, mas que prestígio há neste ramo menor dos ernestinos?
Nenhuma resposta é dada por Leopold, cujo rosto é tomado pela seriedade. Mas Charlotte... A princesa encara furiosa o pai e nega.
— Papai, o senhor não tem...
— Não, minha princesa, não diga nada! — Charlotte franze o cenho para Leopold, que volta-se ao regente. — Reconheço minha inferioridade, senhor. Sou o caçula de uma família insignificante; não tenho riqueza, títulos ou prestígio. Mas eu amo a sua filha e sei que ela também me ama.
Sorrindo de lado, Leopold estende até a mão na direção de Charlotte, que a pega e aperta com ternura. O regente fica em silêncio... Mas não para sempre...
— Bravo! Lindo discurso! — exclama o regente, aplaudindo com desdém. — Mas só o amor não basta.
— Assim como reconheço minha inferioridade, também reconheço minhas qualidades. — O tom de Leopold é firme, convicto. — Sua filha será rainha, senhor, ela não precisa de um grande herdeiro como marido, mas de um conselheiro... um protetor.
— E você será esse protetor e conselheiro?
— O melhor. — De fato, não há dúvidas nas palavras dele. — Claro que apenas se o senhor permitir a nossa união.
Com os olhos brilhando de expectativa, Charlotte encara o pai... Porém nada é dito, o príncipe regente apenas suspira e pega uma taça de champagne. Nada mais é dito e o resto do jantar ocorre em total silêncio.
Logo, porém, Leopold é levado para fora da sala circular, embora Charlotte continue. Os dois trocam um terno olhar antes de se separarem. Mas, assim que perde Leopold de vista, Charlotte volta-se determinada ao pai.
— Leopold é irmão da viúva de August da Saxônia, o herói caído de Quatre Bras. — Mas o silêncio do regente continua. — O segundo irmão mais velho dele é casado com uma das maiores herdeiras da Hungria e a irmã mais jovem, Victoire, é...
— Não me importa o que são os irmãos dele ou o quanto possuem. — Servindo-se com mais champagne, o regente levanta da mesa e dá os ombros. — Foi uma conversa... interessante.
Mas a expressão dele é impossível de decifrar. O regente não sorri, não mostra chateação ou seriedade, apenas... nada, ele não mostra nada!
— O senhor está dizendo então que...?
— Leopold é sábio, carismático e muito bonito — ele responde, voltando-se na direção da filha. — Ele possui todas as qualificações para fazer uma mulher feliz.
Para fazer a futura rainha da Inglaterra feliz... Arregalando os olhos, Charlotte fica sem reação... Até que ela começa a rir e abraça o pai. Isso significa que... ela e Leopold casarão!
*****
08|03|1816 Palácio de Hampton Court, Londres
O Sr. Görtenietz curva-se a Richard no escritório, ocupado também por Cathrine e Robert. Desde novembro o enviado mostra-se terrivelmente calado em relação a Niedersieg. Mas não agora... Não mais...
— Infelizmente, os distúrbios continuam, senhor — o enviado fala, encarando fixamente Richard. — A ordem não mostrou-se permanente. Sugiro uma ação mais dura contra...
— Há alguma repressão? — Violenta, no caso. Görtenietz franze o cenho, então Richard continua: — Os distúrbios são reprimidos?
Talvez a violência da própria Guarda do Príncipe seja o motivo dos protestos. Ameaças são feitas, claro, mas...
— Görtenietz está certo, Richard. — A atenção dele e do enviado volta-se a Robert. — Uma ação mais forte precisa ser tomada.
— Não vou levantar armas contra o meu próprio povo! — exclama num tom perturbado Richard... semicerrando os olhos. — Oh, você fala daquilo...
— Falo de acatar certas demandas dos desordeiros. — Robert parece firme, o que irritada Richard, mas ele acrescenta: — Alguns dos pedidos são apenas um reflexo da vontade popular.
— A vontade do povo é irrelevante, meu príncipe... — comenta Görtenietz.
— A vontade do povo é que os mantém em ordem e leais a nossa casa. — E Robert encara fixamente Görtenietz, apenas para voltar-se ao príncipe. — Você prometeu, Richard.
Respirando fundo, Richard assente e segue para a mesa, onde abre uma gaveta e pega alguns papéis. É o bastante para Cathrine franzir o cenho e seguir para o lado dele, enquanto Robert sorri com desdém na direção do confuso Görtenietz.
Infelizmente, Richard lembra do que disse e, mesmo não tendo prometido, cumprirá com sua própria palavra. Os niedersiegers pedem uma constituição e um parlamento, não é? Pois bem...
— Envie ao barão von Frieden. — Tão rápido quanto começou, Richard concluí. O sorriso de Robert morre. — São ordens para dispensar metade das tropas e... A criação de um parlamento.
Görtenietz pega as duas folhas e franze o cenho, o que logo vira um sorriso quando ele passa os olhos pelo o quê está escrito. O enviado faz uma nova mesura e deixa o escritório...
O olhar de Robert torna-se ainda mais confuso. Richard sente uma tempestade se aproximando, e Cathrine também, tanto que ela leva uma mão ao ombro dele.
— O que foi isso? — questiona Robert.
— Niedersieg tem agora uma Lei Básica. — Simples e direto. Richard dá os ombros. — Satisfeito?
Robert está perplexo demais para responder, ele apenas fecha os olhos e aproxima-se da mesa. Naqueles papéis que Richard levou menos de dez minutos para escrever... está a Lei Básica?... Uma Lei Básica!?
— Não! Claro que não! — exclama Robert, negando furioso. — Richard, o que você entende de constituição e parlamento!?
— O suficiente para criar uma em três meses... Ou melhor, uma base. — Porque uma lei básica não é uma constituição. — Niedersieg traçará o mesmo caminho da Inglaterra.
É imensa a calma nas palavras dele. Mas Richard sabe que não é nenhum jurista, advogado ou diplomata... Por isso mesmo ele pediu a ajuda do Conselho de Bristol.
Novamente negando, Robert começa a andar ansiosamente na sala. É quase irritante para Richard, mas ele faz o mesmo quando está ansioso. Até que Robert para e o encara fixamente.
— O que você colocou nessa "Lei Básica"?
— As Katharinengesetze, bem como o Habeas Corpus e a Lei da Liberdade Religiosa. — Uma base constitucional, tal como na Inglaterra. — O número de parlamentares será condizente às paróquias.
— Você sabe quantas paróquias há em todo Niedersieg? — Richard dá os ombros ao irmão.
— Quanto a determinadas questões parlamentares, caberá a uma comissão. — Porque, obviamente, nenhum analfabeto ou fazendeiro pobre estará qualificado para ser deputado. — A democracia é um processo, Robert, ela cresce, não surge.
E quando "surge" causa inúmeros problemas e grande oposição. Mas Robert nada responde, ele apenas pensa um momento e...
— Sua vontade é lei, meu príncipe. — Robert então faz uma mesura ao príncipe e a princesa. — Terei que partir agora, Sophia não pode ficar muito tempo sozinha...
— Chegará hoje mesmo, não é? — questiona, porém, Cathrine, fazendo Robert franzir o cenho. — A coleção.
— Sim, esta tarde. — Mas antes de deixar o escritório, Robert ainda zomba: — Aquilo tudo só estava entulhando em Kensington.
É arte, e arte não entulha... Mas Robert deixa o escritório. Bufando cansado, Richard olha para Cathrine, que sorri e aperta o ombro dele. O importante é que Niedersieg caminha agora para o constitucionalismo... Será o suficiente para contê-los...?
*****
Tal como dito por Robert, no meio da tarde chegaram as pinturas que Cathrine mandou trazerem de volta para Hampton Court. Há alguns anos, poucos antes de Adam morrer, ela ordenou que todas as pinturas da Galeria Matriarcal fossem enviadas para Kensington. Mas... chegou a hora...
Vagando quase desnorteada pela galeria, Cathrine olha para cada uma das mulheres que criaram a dinastia dos Tudor-Habsburg; ela olha para suas crianças... Até que para na família da marquesa Katherine...
— Surpreende-me Robert não ter se apagado desta pintura. — Também entrando na galeria, Richard para ao lado dela. — Ele diz que o pintaram gordo demais.
Parece normal... para uma criança, claro. Apreciando a presença do marido, Cathrine apóia-se em Richard, cujo olhar está fixo na mãe. Este lugar traz lembranças tão complexas... Cathrine suspira.
— Ficou tanto tempo fechada — ela comenta num sussurro, olhando para Richard. — Será bom reabri-la e... exibir toda a beleza da nossa família.
Mulheres belas, poderosas e, acima de tudo, férteis. Todo Tudor-Habsburg deve ser exibido, visto com toda a sua beleza etérea... Até mesmo aqueles que não existem mais... Afastando-se de Richard, Cathrine segue para o canto da galeria, onde... A pintura dela com Adam a espera...
— Você sabe que não precisa fazer isso, não sabe? — No meio do caminho, porém, Richard segura a mão dela e nega. — Podemos enviar tudo para Goldenhall.
— Há anos não pisamos em Goldenhall. — Um palácio tão grande e bela... que não serve para nada. — Quero que seja assim... Precisa ser assim.
— Não quero vê-la sofrer.
— Sofrerei muito mais se eu negar tudo. — Apoiando a cabeça no peito dele, Cathrine sussurra: — Devo aceitar a verdade e ficar feliz com o que tive... Mesmo que por tão pouco tempo.
Uma década... Uma gloriosa década de maternidade... Cathrine se afasta de Richard e segue na direção da pintura, pegando-a um momento... e sorrindo. É do início da década, só passaram cinco anos, mas já é uma nostálgica lembrança do passado.
Logo, porém, Cathrine sinaliza para dois criados pendurarem a pintura, o que rapidamente eles fazem, colocando-a ao lado de uma das portas. Um pequeno sorriso aparece nos lábios de Cathrine ao apreciar a pintura, principalmente quando Richard colocar-se ao lado dela.
— Será que Sophia também colocará uma pintura dessas aqui? — questiona Richard, pensando um momento e dando os ombros. — Bem, só cabe ao futuro nos responder.
O futuro... Um futuro que virá de Robert e Sophia; um futuro que só lembrará de Robert e Sophia... É tolice pensar isso! Cathrine ri levemente e nega.
— Confesso que sinto um pouco de inveja dela. — Cathrine pega a mão de Richard e sorri. — Sophia realizará o sonho que eu sempre tive.
— Mas nada impede o bebê de ser também o nosso bebê. — Igualmente sorrindo, Richard acaricia a bochecha dela. — Somos os Tudor-Habsburg... Somos todos a mesma família.
Sim, todos eles são a mesma família, todos desejam o mesmo: a continuidade. Não deixando de sorrir, Cathrine aperta a mão de Richard e o beija. O filho de Robert e Sophia... será também o filho deles.
*****
02|05|1816 Carlton House, Londres
A capital inglesa encontra-se em total festa e júbilo. Uma grande multidão reúne-se no lado sul do Pall Mall; eles aplaudem e gritam de alegria, uma alegria que só aumenta a medida que a multidão torna-se maior ao redor de Carlton House.
Essa festa, porém, não se limita apenas ao povo, mas a própria Carlton House está em festa. Todo o palácio está iluminado; a alegria toma de conta do local.
— ... E todos os meus bens mundanos eu te dou — profere o príncipe Leopold, fazendo Charlotte rir.
Quais os bens mundanos que este pobre duque saxão pode dá-la? Ou ele se refere a anuidade parlamentar de 50 mil libras que receberá agora? Porém nenhum questionamento é feito e o casamento segue.
A sala de estar carmesim encontra-se particularmente cheia. O príncipe regente, ao lado do noivo, assiste o casamento com lágrimas nos olhos. A rainha encontra-se sentada junto das filhas, porém, diferentemente delas, exibindo apenas um meio sorriso.
Há também parlamentares, amigos do regente, oficiais e ministros da Coroa. Todos observam com religiosa devoção este momento...
— Ele é melhor que Orange, com certeza. — E há também os Bristol, em pé com os duques reais. Richard sussurra para Cathrine: — Mas ele será um William III ou um George da Dinamarca?
— Não ofenda minha nação, por favor — responde Cathrine, exibindo um leve sorriso e abanando-se com um leque de penas. — Só o tempo dirá... Isso se ela realmente ascender.
— E por que ela não ascenderia? — A única ação dela é dar os ombros. Richard retorna ao casal. — Charlotte parece amá-lo demais para colocá-lo na posição de subordinado.
O que pode ser bom, mas também ruim, tudo dependerá do quão diligente Coburg é. Mesmo que... É lastimável a ideia de um insignificante Coburg reinando sob uma grande monarquia. Há o ducado do irmão de Leopold, claro, mas... Simplesmente, é lastimável.
Logo o arcebispo inicia a consagração do casamento e inicia um discurso. Agora isso... Os olhares de admiração e devoção são substituídos por cansaço e tédio.
— Ė uma pena Sophia não estar presente — comenta Richard, trazendo a atenção de Cathrine. — A reclusão dela não poderia começar só depois do casamento?
— Não, ou certamente a criança seria prejudicada. — Ou pelo menos é o que os médicos disseram. — Logo o bebê nascerá.
Falta pouco mais de um mês, e será um dos grandes eventos do ano... para os Tudor-Habsburg, claro, porque, para os britânicos em geral... A atenção de Richard e Cathrine volta-se a Charlotte e Leopold... Logo o discurso acaba, os documentos oficiais são assinados e...
Está consumado, Charlotte de Gales e Leopold de Saxe-Coburg-Saalfeld são marido e mulher. Um casal jovem, carismático e que certamente conduzirá o Reino Unido à glória como rainha e consorte. Sorrindo para para o outro, Charlotte e Leopold trocam um rápido beijo.
*****
16|06|1816 Palácio de St. James, Londres
Os gritos da princesa Sophia ecoam por todo o apartamento. É um som terrível, angustiante... desesperador... Principalmente com o constante som da criadagem subindo e descendo a escadaria...
Na sala de desenho, sendo silenciosamente observado pelos duque reais, pelos ministros e por Richard, Robert anda de um lado para o outro. A ansiedade nele é tão visível quanto o sofrimento da princesa audível.
Porém... Robert subitamente para o olha para cima, enquanto os cavalheiros levantam dos assentos... Os gritos cessam e o silêncio se instaura em St. James. Richard aproxima-se de Robert e, levando uma mão ao ombro do irmão, ambos se entreolham preocupados... Até que passos solitários são ouvidos e...
— Mande prepararem os canhões em Hyde Park, Frederick. — Entrando na sala, a rainha encara impassível Robert. — O novo neto do rei nasceu forte e saudável.
Arregalando os olhos, Robert troca um rápido olhar com Richard e deixa correndo a sala de desenhos. Logo, porém, o próprio Richard também deixa a sala, deixando para trás os duques e os ministros em alvoroço.
Mas a rainha, ainda tão impassível quanto uma estátua, volta-se ao duque de York e acrescenta:
— Uma salva de 21 tiros.
O alvoroço aumenta... O duque assente e deixa a sala, bem como os duques e Lord Sidmouth, que seguem para os aposentos da princesa. Vinte e uma salva de tiros...
Quando entra na antecâmara do quarto, Richard logo é recebido por Cathrine, cujo sorriso é imenso. As risadas de Robert também não tardam a serem escutadas desde o dormitório.
Há um ar tão grande de alegria nos aposentos de Sophia, o que é muito contrastante com o desagradável odor de sangue e cloro que domina o local. Richard estende o braço a Cathrine, que o pega, e os dois seguem para o dormitório.
— Qual o sexo do bebê? — questiona Richard num sussurro. — É um príncipe ou...?
— Uma princesa!? Oh, Deus, é uma princesa! — Adentrando no dormitório, eles encontram um exultante Robert segurando... o embrulho. — Temos uma filha, Sophia!
Uma menina... Uma princesa... Seguindo para junto de Robert, eles também sorriem ao ver a pequena princesa. Tão branquinha e frágil... Parece um bebê normal, mas...
— Na minha atual situação, não me importa se é menina ou menino, apenas que é saudável. — Sorrindo, Robert aproxima-se de Sophia e entrega. Ela também sorri e sussurra: — Valeu a pena... Muito a pena.
Não tarda para os irmãos de Sophia entrarem no quarto, e nem para a rainha e as princesas voltarem. Todos desejam ver o novo bebê real; a criança que não é apenas o futuro dos Tudor-Habsburg, mas também parte do futuro da monarquia britânica.
Uma menina... Uma princesa... Forte, saudável e nascida sem qualquer alarde. O futuro parece promissor... Glorioso!
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01|07|1816 Capela Real, Palácio de St. James
— Eu a batizo Mary Jane, a serva do Senhor, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém! — O bispo de Londres derrama então água sobre a criança nos braços do regente. — Recebemos esta menina na Congregação do Senhor...
Um momento solene; um momento sagrado; um momento que... Há um visível desgosto no rosto de Robert, certamente que pelo nome escolhido pelo príncipe regente. A menina não poderia ser Sophia, Elizabeth, Amélia ou Louisa; Anne, Katherine e até Philippa também foram sugeridos, mas... não.
Um inconveniente, de fato, o que diminuiu um pouco o alegria do momento. Mas basta lembrar da necessidade desta criança para a alegria retornar. De qualquer forma, na Alemanha ela reinará como Maria Johanna...
— A lei alemã permitirá que ela seja a herdeira dos Tudor-Habsburg? — Franzindo o cenho, Richard vira-se a Cathrine, que sussurra: — A última mulher reinando na Alemanha foi Maria Theresa... E com conflitos.
— Não é costumeiro, mas a lei permite que, na falta de homens, mulheres reinem. — Ou seus filhos, caso hajam. Mas Richard ainda sorri. — E, mesmo se não fosse assim, faríamos ser assim.
O Santo Império está morto, isso significa que suas leis também estão mortas. Mary Jane será princesa de Niedersieg quando chegar a hora... Deus queira, porém, que tal hora demore para chegar. O olhar de Richard volta-se a bebê, agora dormindo, nos braços do regente.
— É só um bebê, mas já tem todo um futuro traçado e... Que futuro! — sussurra Cathrine, também fitando a criança.
A congregação também observa com atenção a princesa, o que não é muito fácil com todos em pé. Os únicos claramente visíveis são a rainha, o regente e os procuradores — o duque de Wellington, representando o imperador austríaco, e Lady Castlereagh, representando a grã-duquesa de Hesse.
Claro que Robert e Sophia também são observados, junto de Richard e Cathrine, embora não tanto quanto Charlotte e Leopold...
— Sabe... Eu também sinto inveja dele as vezes. — Sorrindo para Cathrine, Richard ainda sussurra: — Robert tem uma tendência natural a se dar bem e um brilhantismo tão grande que... É invejável.
— Vejamos se ele saberá usar isso em benefício próprio. — Quando for príncipe?... Quando Richard... morrer? Ele nega... Cathrine ri. — Somos tão invejosos.
— É da natureza humana sentir inveja. — Richard nega novamente, tentando não pensar nisso. — Seremos ótimos tios.
A cerimônia de batismo chega então na reta final, fazendo os presentes sentirem um misto de alívio e edificação. Logo acabará e... Cathrine ri baixinho, chamando a atenção de Richard.
— Não foi assim que eu imaginei o meu "felizes para sempre". — Suspirando, ela pega a mão dele. — Mas não estou triste ou desanimada... Estou orgulhosa. Nós sobrevivemos.
— Sobrevivemos juntos — sussurra Richard, apertando a mão dela. — Nosso conto de fadas não foi tão idílico assim, mas temos amor, isso basta.
Haverá de bastar... O batismo chega ao fim e o regente parte na frente de uma procissão pela Capela Real. Naturalmente, Richard e Cathrine também seguem no centro da procissão... De mãos dadas e sorrindo um para o outro.
— Sinto que o futuro será glorioso! — E Cathrine olha para Richard, que aperta novamente a mão dela.
Sim, o futuro será glorioso, uma era de ouro que seguirá os desastres da guerra e da inconstância. Um novo futuro, uma nova dinastia Tudor-Habsburg e... novos pensantes... E no final, todos estão felizes...
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