Era Uma Vez... Uma Ilusão
50 49. Sofrer propositalmente é tão ruim, afasta quem amamos e ainda encurta a vida.
Início de março|1815 Palácio de Kensington, Londres
A mesa já está totalmente posta para o café da manhã na antecâmara dos aposentos do marquês, onde tanto as damas de companhia quanto os cavalheiros esperam pelos seus senhores. O silêncio domina profundamente no local... Embora a realidade fosse totalmente outra há um minuto...
— Não quer tentar novamente? — questiona Sophia, voltando-se a um ofegante e suado, bem como nu, Robert. — Por favor, não seja assim.
— Homem? Oh, Sophia, acha que é infinito? — Fechando os olhos, Robert deita de bruços na cama e suspira. — Deixe-me respirar um pouco.
O tempo que ele leva para "respirar" é o tempo que ele poderia estar usando para criar uma nova vida. Mas... Sophia franze o cenho ao vê-lo movendo a cintura na cama... Ele está...? Robert sorri zombeteiro.
— Está desperdiçando sua semente, Kendal? — O tom dela é igualmente divertido, tanto que ela ri. — Lembre-se do seu dever.
— Pois não vejo a hora da cumprir meu dever e transar apenas por diversão. — O sorriso dele, porém, diminui e Robert fala: — Tenho medo de ficar monótono.
— Oh, Robert, estamos falando de você, não tem como ficar monótono. — E ela nem está falando de desenvoltura, grandeza ou ousadia. — E, mesmo se ficar, devemos continuar até cumprir o nosso dever.
Afinal, biologicamente falando, não é para isso que o sexo existe, reprodução? A menção dessa questão, porém, acaba de matar o sorriso de Robert, que vira-se para cima e suspira.
— Por que será que nunca dá certo, hein? — Nenhuma resposta é dada por Sophia, fazendo Robert encará-la com o cenho franzido. — Você notou algo diferente? Talvez a textura, força ou...
— Certamente que é o estresse, não necessariamente nós — ela responde, pegando a mão dele e apertando. — Tudo está bem com você; tudo está bem comigo; logo teremos um herdeiro.
— Sim... É, você está certa, Sophia. — A expressão de Robert é tomada pela determinação. — A Europa está em paz, Caroline na Itália, Charlotte aquietou-se e logo Niedersieg será soberano. Não haverá mais grandes ansiedades!
— Esse é o espírito! — E, tomado por esse mesmo "espírito", Robert a abraça e começa a beijar. — Sim, isso mesmo!
Robert aceita o incentivo, não que Sophia já tenha recusado alguma vez, e continua a explorá-la, tanto que logo está em cima dela... O café da manhã é novamente esquecido e dificilmente a intimidade tardará para recomeçar. Porém...
— O príncipe já leu o jornal!? — O barão May entra subitamente no quarto, assustando tanto Sophia quanto Robert. — Senhor, por favor, o jornal!
Há um imenso desespero no tom e até na expressão do cavalheiro. Robert deixa então a cama e, tomando de May um exemplar, começa a ler o jornal. Inicialmente não há nada de incomum... Até que Robert arregala os olhos e volta-se na direção de Sophia, já coberta.
— É Bonaparte — ele sussurra, fazendo-a se aproximar —, ele fugiu de Elba!
Igualmente arregalando os olhos, Sophia junta-se a Robert e lê a dita linha onde... Ambos se encaram com horror... Sim, Napoleão Bonaparte realmente fugiu de Elba para a França...
*****
Março|1815 Oldenburg House, Londres
Todos os ministros, cavalheiros, damas e até o general Churchill encontram-se reunidos na sala de conferências com a realeza niedersieger. A marquesa de Bristol e a princesa Sophia sentam num sofá, isso enquanto o príncipe Robert mantém-se ao lado do irmão na frente da janela.
— E o que isso significa? — A voz de Richard é quase inaudível, mas todos percebem ele fechando os punhos.
Quando a notícia da fuga de Bonaparte foi dada ao príncipe a reação calma dele foi vista como uma benção, mas agora... hoje... Nem mesmo Robert tem coragem o suficiente para respondê-lo. Até o olhar de Cathrine é preocupado.
— Que uma nova guerra está prestes a estourar, meu príncipe. — O barão von Frieden, porém, reúne a coragem necessária. — Mas não há necessidade alguma de medo...
O príncipe levanta abruptamente a mão, sinalizando para o barão se calar. As palavras dele são enganosas. A França está praticamente numa guerra civil, onde todo o exército francês está se voltando contra Louis XVIII e retornando ao tirano corso.
— E como vão as negociações em Viena? — questiona Richard, voltando-se para trás e encarando fixamente os ministros. — Como Viena irá reagir a esta infâmia?
— As Grandes Nações já preparam uma ação — responde Carrelli, acrescentando em seguida: — A guerra logo será declarada.
— O que não implica mudança alguma nas negociações em Viena. — E a atenção de Richard volta-se a von Eden. — Linzmain disse que o Congresso continua andando no mesmo ritmo.
— Andando? — Todos voltam-se a Robert, que ri fracamente. — Perdão, Eden, mas creio que o termo certo seja dançando.
Os diplomatas e emissários em Viena parecem até ter esquecido que existe um mundo fora de Viena, uma Europa que necessita de ordem. Tudo lá resume-se a bailes, ópera e concertos.
Mas Richard respira fundo e afasta-se da janela. Por um lado, é muito benéfico a continuidade das negociações, mas... Logo Bonaparte chegará em Paris e certamente que o exército francês o receberá de braços abertos.
— Está claro que a fuga de Bonaparte não deve ser levada a sério — aponta Sophia, negando veemente. — Ele pode até ser bem recebido em Paris, mas dificilmente prevalecerá.
— Ele já não foi derrotado uma vez? — Cathrine acrescenta e, encarando Richard, dá os ombros. — Por que então não será novamente?
Nenhuma resposta é dada a marquesa. Ninguém parece disposto a concordar ou discordar dela. Richard, porém, fica pensativo com essas palavras. De fato, Bonaparte foi derrotado antes e já não é o mesmo homem de antes...
— Deus queira que seja realmente assim — ele sussurra e, deixando por definitivo a janela, segue para a mesa. — Robert está certo, cavalheiros, o congresso está se mostrando terrivelmente lento.
— São muitas questões para tratar, meu príncipe — responde von Frieden, também sentando. — Tantas que o Comitê Alemão teve de colocar Niedersieg na mesma posição que os estados midiatizados.
— Junto dos midiatizados!? — O barão assente para Richard, que franze o cenho. — Mas é uma afronta!
Agora o foco tornou-se diplomacia e Niedersieg, não é mais adequado para as damas permanecerem na sala. Cathrine e Sophia saem então com as damas de companhia.
— Bem, não será agora que teremos nossa tão almejada paz — comenta Sophia assim que elas deixam a sala. — Mas sei que ela virá.
— Sim... virá... — Não há muita certeza na vo de Cathrine, tanto que ela suspira. — Apesar de que essa guerra já dura tanto tempo que nem sei mais o que é paz.
— Mas tendo somente um tipo de paz já basta, não? — Cathrine franze o cenho para Sophia, que sorri. — Temos paz interior... Paz conosco mesmas.
A única ação de Cathrine é olhar pensativa para baixo, tentando analisar se... Respirando fundo, ela força um sorriso e assente. Logo as duas estão nas suas próprias carruagens retornando para seus palácios.
*****
17|03|1815 Schloss Leonberg, Leonberg
É impressionante como a vida pode ser tão cruelmente irônica quando deseja. O dia está profundamente ensolarado em Leonberg, pássaros cantam no jardim e as flores da primavera já começam a desabrochar. Isso enquanto no interior do castelo... É só luto e tristeza.
Deitada na cama, a mortalmente pálida Anne abençoa uma última vez Elisabeth, sua filha caçula e a que mais sentirá... sua falta. O choro das damas de companhia domina todo o quarto. Os três mais velhos, porém, mantêm-se em pé e sem derramar lágrima alguma... Uma visão terrível!
— Confie sempre nos seus irmãos — sussurra fracamente Anne, forçando um sorriso para a filha —, sua proteção cabe a eles agora.
— Mas... E quando eles forem embora?
Elisabeth fala de quando os irmãos casarem. Certamente que Wilhelm continuará em Württemberg, não pode ser diferente, mas Charlotte e Anna... Fechando os olhos e recuperando o fôlego, Anne sorri para os outros filhos e sinaliza para eles se aproximarem.
— Prometam, por favor, que sempre estarão juntos. — A voz dela é fraca, mas Anne encara fixamente cada um dos quatro filhos. — Prometam que até ao buscarem o casamento, olharão somente para a Alemanha... Prometam.
Lágrimas tomam os olhos de Charlotte, Wilhelm e Anna, mas todos os três guardam a emoção e assentem. Sim, os filhos dela sempre devem estar juntos, assim que foi na vida dela, então também será...
Chamando, porém, a atenção de todos, a porta é aberta e entra no quarto... Fritz. Então ele chegou de Viena a tempo? Anna corre imediatamente para os braços do pai, enquanto Wilhelm o encara com fúria e Charlotte abraça Elisabeth. Mas Anne sinaliza para todos saírem.
— Então é um adeus? — Aproximando-se da cama, Fritz senta ao lado dela. — A situação mudou tão drasticamente, não? Agora é você que está me deixando com nossos filhos.
— Mas não numa fuga. — Anne, forçando novamente um sorriso, estende a mão. — Como uma boa cristã, devo dizer que lhe perdoo, Fritz.
— Não acredito muito nisso — ele responde numa tensa risada. — Eu mereço perdão?
A traição é algo muito difícil de perdoar, é uma dor que deixa sequelas terríveis. Mas e quando há arrependimento? Suspirando, Anne olha para o lado.
— Você acaba se acostumando a traição, principalmente vinda de você. — Franzindo o cenho, porém, Anne volta-se a Fritz e questiona: — Fritz... Você já me amou?
Os olhos dele arregalam, em total horror e... dúvida? O silêncio instaura-se no quarto, embora Anne e Fritz se encarem fixamente. Isso até que ele responde:
— Não... Não... N-não! — Lágrimas tomam de conta dos olhos dele, tanto que Fritz desvia o olhar.
E novamente o silêncio se instaura. Fritz nunca a amou realmente... É algo que ela já sabia a tanto tempo, mas dito agora pelos lábios dele... E ela?
— Fomos dois apaixonados que descobriram da pior forma que paixão... não é amor — comenta Anne, fechando os olhos e suspirando. — Seja homem, Fritz; não faça aquela pobre coitada sofrer.
— Ekaterina? Mas não... — A voz dele morre, principalmente quando Anne o encara. Fritz desvia o olhar. — O que será dos nossos filhos?
— Você haverá de cuidar bem deles — sussurra Anne, fazendo Fritz voltar a encará-la. — Você será bom... Você precisa ser bom. Um bom soldado, homem, pai... e, acima de tudo, um bom rei.
Nada é dito por Fritz, que simplesmente abaixa a cabeça. Mas é a verdade... Quanto a Anne... Ela se arruma na cama e respira fundo.
— Württemberg logo se alegrará... jamais haverá uma rainha Anna de Niedersieg!
Nenhuma palavra a mais é dita por Anne, o silêncio apenas instaura-se e todos logo retornam... A tristeza domina cada vez mais o Leonberg.
E no dia seguinte já é emitido o seguinte anúncio em Stuttgart: "logo após às 08:30 da noite de ontem, morreu Sua Alteza Real, a princesa herdeira, em Leonberg..."
*****
Final de março|1815 Oldenburg House, Londres
— Um milhão de florins!? — exclama Richard com total horror... beirando a raiva. — A Baviera deseja um milhão de florins por Niedersieg!?
Numa súbita explosão de raiva, mesmo que nenhum pouco inesperada, o príncipe levanta e bate na mesa com força. Nada, porém, é dito pelos ministros do príncipe... Não até Richard sentar, quando von Frieden fala:
— É um absurdo, de fato, e...
— Os bávaros limparam nossos tesouros! — Mas Richard ainda se mostra profundamente irritado. — Como eles ousam exigir algo que eles mesmo já tomaram de nós!?
— Mais calma, meu príncipe, por favor! — repreende von Eden, encarando firmemente Richard. — As negociações sequer foram concluídas...
— Eu mesmo deveria concluí-las! — O tom dele é desafiador, tanto que Eden abaixa a cabeça. Respirando fundo, Richard pergunta: — Linzmain mencionou a posição austríaca e britânica?
Os ministros ficam em silêncio, o que já responde a pergunta dele. Fechando os olhos e massageando a testa, Richard busca manter de alguma forma a calma. Os aliados deles... estão em silêncio? Oh, isso não é difícil de acreditar!
— Duzentos mil florins... Duzentos mil florins foi o preço de Smaragdberg em 1677. — E comprada da própria Baviera. Negando, Richard sussurra: — Claro que não é impossível, mas... Não agora.
Maximilian Joseph e seus burocratas foram muito espertos. Quando chegaram, os bávaros encontraram um Niedersieg relativamente próspero, mas ao irem embora... deixaram para trás um principado a beira da falência...
— O povo está exausto por conta da guerra, meu príncipe. — A atenção de Richard volta-se a Carrelli. — Sequer conseguimos imaginar o estado de Niedersieg após esses oito anos.
— Dificilmente aquele Niedersieg é o mesmo de agora — comenta O'Ryen num suspiro.
— Nós mesmos parecemos agora mais ingleses que alemães — o barão von Frieden acrescenta, semicerrando os olhos para von Eden. — Não concorda, Eden?
A única ação de von Eden é sorrir e assentir ao barão, cuja expressão torna-se irritada. Mas Richard não se importa com isso; na verdade, nenhuma competição entre os ministros tem importância. A única coisa que importa é Niedersieg!
— Como então devemos proceder? — ele questiona... novamente fechando os olhos e negando. — Até se comunicar com Linzmain em Viena é difícil.
As cartas demoram tanto para chegar... Muito diferentemente das fofocas... Richard, porém, ao abrir os olhos, encontra os ministros com as mais tensas expressões.
É o bastante para fazê-lo franzir o cenho. Parece até que eles desejam falar algo... E essa confusão só aumenta quando von Frieden e Eden assentem um para o outro. O barão von Frieden volta-se então a Richard.
— Meu príncipe, gostaríamos de comunicar ao senhor nosso desejo de retornar a Niedersieg. — E os olhos de Richard arregalam... Mas von Frieden continua: — Desejamos também sua permissão para formar um governo...
— Retornar? — o príncipe repete, ganhando assentimentos de todos. — Não tenho oposição alguma, mas... Por quê?
— Será mais fácil administrar as negociações em Viena — responde von Eden, pensando um momento e dando os ombros. — E também legitimará a soberania de Niedersieg.
— Por que as Grandes Nações tornariam independente um lugar sem príncipe, governo e lei? — O tom de Carrelli é... irônico. — Nossa presença lá é indispensável.
Muito diferentemente da presença do próprio soberano, aparentemente... Melhor assim, Richard odiaria ter que pedir permissão ao parlamento para viajar. Na verdade, a simples ideia de pisar na Alemanha é...
— Pois que assim seja — Richard responde e, voltando-se a von Frieden, estende a mão. — Vá para Niedersieg e forme um governo em meu nome.
Em outras palavras, o peso agora é de von Frieden. Mas o barão em momento algum hesita em pegar a mão do príncipe e beijar, há até um sorrisinho nos lábios dele... Uma satisfação que não é compartilhada por todos, principalmente os mais jovens e liberais...
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Início de abril|1815 The Crescent, Buxton
Na antecâmara de uma sala privada de inalação, uma criada recolhe um amontoado de roupas masculinas do chão, enquanto outra serve numa mesa chá e sanduíches. Uma fina bruma passa pela porta da sala, mas nada grande o suficiente para incomodar.
— Tudo então continuará como sempre foi. — Na sala, porém, o vapor reina supremo... Negando, Robert ri. — Confesso que não me surpreende.
Rindo mais ainda, Robert puxa Henry para um abraço e nega veemente. Combina tanto com Richard! Mas Henry só aperta ombro de Robert, enquanto Eden mantém-se sério.
O silêncio domina entre os três, totalmente despidos e aproveitando do vapor, embora Eden também aproveite do "vapor" de um cachimbo. Os músculos deles — rígidos por conta da tensão — brilham com o suor...
— São claras ações de um conservador — aponta Eden, exalando uma nuvem de fumaça. — O barão está longe de desejar mudanças reais.
— Cedo ou tarde Richard faria isso — sussurra Robert, pegando um cachimbo e tragando. — Nem de Neipperhard ele gostava.
— O que será agora dos nossos planos? — Eden encara fixamente o príncipe e nega. — E quanto a constituição!? O parlamento!?
Há frustração na expressão de Eden, quase irritação. O que é surpreendente; poucas foram as vezes que Eden foi tão sincero. O que cachimbos de qualidade e nudez entre camaradas não faz, hein?
— O constituição virá, Viena garantirá isso. — Robert traga novamente e entrega o cachimbo para Lansdowne. — Um dos compromissos da Confederação Alemã é que todos os estados alemães...
— Não seja tão otimista — zomba Lansdowne, também tragando do cachimbo. — Estamos falando de estados alemães, Kendal.
Mas não será um dos termos!? Deverá então ser obrigatório a formação de uma constituição individual, não? Robert volta-se a Eden, que dá os ombros e coça as axilas peludas.
Pois bem, nem mesmo o alemão liberal confia na força da Confederação Alemã. Respirando fundo e forçando um sorriso, Robert pega a mão de Lansdowne e começa a analisá-la.
— Bem, é a decisão do príncipe, não é? — Robert beija a mão de Henry e, voltando-se a Eden, acrescenta: — Só nos cabe então obedecer.
Nenhum ato rebelde será permitido entre os associados dele. Mesmo franzindo o cenho, Eden assente. De qualquer forma, um dia o príncipe Robert será o príncipe. O silêncio, porém, instaura-se entre os três, apesar de Robert continuar beijando a mão de Lansdowne.
Até que os cachimbos acabam e, numa mesura, Eden deixa a sala de inalação. O vapor aumenta e os músculos deles brilham com o suor... Até que Robert abraça novamente Henry.
— O que acha dele?
— Jovem, bonito e liberal moderado... Parece confiável. — Tirando do rosto de Robert algumas mechas de cabelo, Henry dá os ombros. — Quais outros compartilham dos mesmos pensamentos dele?
— Eduard Carrelli e talvez o conde O'Ryen. — Sendo Carrelli o mais "radical". Suspirando, Robert então fala: — Tentarei trazer Richard a razão.
É vital para Niedersieg uma constituição e um parlamento eleito... Sorrindo para Henry, e sendo retribuído, Robert apoia a testa na testa dele e fecha os olhos.
Sophia é o centro dele, o mundo dele, bem como o motivo deles estarem em Buxton, mas um amigo leal também é essencial. Embora sejam dois homens suados, másculos e despidos numa posição...
— Oh, que excitante! — Afastando-se, os dois voltam-se na direção de... Sophia. — Desejo meu marido, Henry.
Há, porém, um grande e divertido sorriso no rosto de Sophia, bem como gotas de água caídas do cabelo meio preso dela. A única ação de Robert é rir da situação, coisa que Lansdowne também faz... Até levantar.
— Me deu uma súbita vontade de estar com Louisa. — E Henry deixa a sala de inalação.
Sorrindo malicioso, Robert sinaliza para Sophia se aproximar, coisa que ela faz tirando o robe. A pele pálida dela já começa a suar, embora também hajam gotículas dos banhos...
— Você sabe que eu te amo, não sabe? — Sentando no colo dele, Sophia assente. — Henry e eu nunca iríamos além da amizade.
— Por que eu teria ciúmes de Henry? — questiona Sophia, fazendo Robert sorrir e acariciar a bochecha dela. — Sei que sou muito melhor.
— E em todos os aspectos — ele sussurra, olhando para os seios dela e sorrindo. — Está calor, não?
— Oh, já estava antes, tenha certeza. — Aproximando-se do ouvido dele, Sophia sussurra: — Sabe... tudo isso me deixou tão excitada.
Deixando-o igualmente mais excitado ainda, Sophia acaricia o abdômen dele e desce... Rindo, embora parecendo mais um gemido, Robert joga a cabeça nos seios de Sophia e começa a chupá-los... Não tarda, porém, para Sophia ser colocada no banco e Robert...
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Abril|1815 Palácio de Mármore, São Petersburgo
— Agradeço pela boa intenção, mas não acho que seja necessário. — Em seus aposentos, Mary encontra-se na presença da imperatriz viúva. — Novas damas de companhia? Por quê?
Sentada numa poltrona, Mary tem consigo o recém-nascido Nikolai, cujo afeto e amor da mãe por ele é inegavelmente grandioso. Maria e Elena também estão no quarto, embora distraídas demais brincando para prestar atenção na mãe e na avó.
— Porque é da minha vontade. — O tom da imperatriz é duro. Mary, porém, arquea a sobrancelha. — Veja como um presente pelo sobressalente.
— O nome dele é Nikolai! — De fato, é grande o amor de Mary pelo garoto. Respirando fundo, Mary então fala: — Desconfio dos seus objetivos.
— E quais seriam eles? Lhe espionando? — Mary semicerra os olhos para a sogra, que ri com desdém e... A expressão dela fica carrancuda. — Não seja tola, Mary! Aceite logo as damas!
Não há como negar... Não é possível negar! Mas fará lutará com todas as forças contra essa imposição da imperatriz viúva. Mary não é mais tão facilmente controlável assim.
— Uma delas é alemã — comenta a imperatriz, forçando um sorriso. — Filha e esposa de um hanoveriano.
A real vontade de Mary é negar, e negar com todas as forças... Mas, respirando fundo, ela simplesmente assente:
— Traga as damas.
Damas de companhia nomeadas pela imperatriz viúva não irão afetá-la tanto assim. Mary só terá de ter mais cuidado e cautela. Sorrindo amplamente, a imperatriz segue para a antecâmara, certamente que para chamar as damas.
Nesse meio-tempo, Mary chama as filhas e entrega Nikolai para Maria. Não tardará muito para Nicholas retornar e ver o quão belo é... A imperatriz retorna, trazendo consigo duas damas.
— Condessa Evdokia Gaspov, Sua Alteza Imperial — cumprimenta a primeira, uma mulher mais velha, porém bela, numa mesura. — Meu marido é um dos conselheiros de estado do imperador.
— Princesa Cäcilie von Weserpholz. — A outra dama, cujo corpo é marcado por muitas gestações, também faz uma mesura. — O general Peter August von Weserpholz, herói da libertação em Oldenburg, é meu marido.
Duas damas de companhia... Duas novas damas de companhia... Analisando cuidadosamente ambas as mulheres, Mary sorri.
— Seremos grandes amigas — ela fala, fazendo-as encará-la. — Amigas realmente grandes.
As damas sorriem para a tsesarevna, que força também um sorriso para a imperatriz viúva. Não há possibilidade alguma de sair algo benéfico disso... Mas que assim seja.
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Abril|1815 Palácio de Hampton Court, Londres
Arrumando o chapéu na cabeça, Cathrine desce a escadaria e segue para a sala de visitas. Há uma hora ela recebeu um bilhete de Richard pedindo para encontrá-lo lá e... Eles irão passear, aparentemente.
Porém, ao entrar na sala, Cathrine leva um susto ao encontrar não somente Richard, mas também o barão von Frieden. Ambos estão em pé e... A conversa parece longe de agradável.
— Praticamente todos os generais da Coalizão estão mobilizando suas tropas para a fronteira com a França. — A voz do barão é séria e firme. — Wellington e von Blücher já estão marchando para a Bélgica.
— E Schwarzenberg?
— Na fronteira do Alto Reno — o barão responde e, pensando um momento, ainda acrescenta: — Segundo Linzmain, o objetivo deles é tomar Paris.
Tudo parece estar andando tão rapidamente. Há alguns dias Bonaparte havia acabado de retornar a França e agora tropas já estão sendo preparadas. Esta guerra será tão rápida quanto a causada por Christian na Noruega; durou duas semanas e ele retornou a Dinamarca.
— Linzmain comentou algo sobre quando a França será invadida? — questiona Richard, finalmente encontrando Cathrine atrás do barão. — Temo que logo o próprio Bonaparte estará pronto para a guerra.
— Será provavelmente entre julho e agosto. — Richard franze o cenho. Enquanto Cathrine permite-se entrar realmente na sala. — A Áustria e a Rússia estão tendo dificuldades para...
— Mas o regente disse que Wellington estará pronto no mais tardar de maio!
A exclamação de Richard ecoa por toda a sala, fazendo tanto o barão se encolher quanto Cathrine parar. Não há raiva, nem frustração ou violência, é apenas surpresa. E Cathrine volta a andar, chamando assim a atenção de Richard.
— Sou muito grato pelo seu leal serviço, barão. — Sequer olhando para o barão, Richard estende a mão. — E espero que continue assim como chanceler em Niedersieg.
— Minha lealdade sempre estará com a Coroa, meu príncipe — o barão responde, curvando-se ao príncipe e pegando a mão dele —, assim como o meu coração com o povo.
E von Frieden beija a mão do príncipe, o que simbolicamente o torna Chanceler do Estado, o principal ministro do soberano. Mas não dura muito esse "cerimonial", pois logo o barão levanta e, numa mesura, deixa a sala. Será que ele esqueceu da princesa...?
Mas Richard não esquece, muito pelo contrário, ele sorri amplamente e se aproxima dela. Cathrine, porém, segue para um espelho e observa ele pelo reflexo.
— É isso então? — Richard franze o cenho, mas Cathrine continua: — Finalmente estou livre delas.
— Por enquanto. — Para sempre, afinal todos embarcarão hoje mesmo. — Você sempre soube como evitá-las.
— Não gosto da irreverência delas. — Realmente, alemães não são britânicos ou dinamarqueses. — Além do mais, vovó nos criou para rejeitar nosso sangue alemão.
— O que é um problema — aponta Richard, aproximando-se e colocando as mãos no ombro dela —, afinal você é uma consorte alemã.
Que mora a milhas da Alemanha e do próprio principado. Cathrine, porém, só foca no reflexo de Richard, nas mãos dele... Até que ele beija o ombro dela e...
— Como vão as negociações? — Cathrine se afasta, deixando para trás um visivelmente frustrado Richard. — Gostaria tanto de receber notícias sobre Frederik...
— O que acha de vir comigo? — Mas Richard corre para a frente dela e estende a mão. — Falarei tudo que você deseja, mas quero que venha comigo.
E Cathrine recorda do real motivo dela estar nesta sala: o bilhete de Richard. Ela aceita a mão dele, com hesitação, claro, mas aceita... Sorrindo, ela a conduz pelo palácio até o pátio onde espera uma landau.
— Para onde iremos, Richard? — ela questiona, entrando na landau e sentando. — Esta não é nossa carruagem.
— Berkshire. — E Cathrine franze o cenho para Richard, cujo sorriso aumenta. — Eu não disse que faríamos uma visita a Northbury? Pois é o que faremos!
Nenhuma resposta é dada por Cathrine, ela simplesmente fica perplexa e... Northbury? A landau começa a se mover... E Cathrine só consegue encará-lo.
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Northbury, Berkshire
A carruagem dos Bristol encontra-se orgulhosamente parada em frente ao orfanato de Northbury. Não há nem brasão, nem libré e muito menos as cores da Casa, mas oito guardas germânicos montados guardam a carruagem, o que já chama muita atenção.
— Você sabe que não precisa fazer isso, não sabe? — Mas a realeza continua na carruagem... Pegando a mão de Richard, Cathrine nega. — Não quero obrigá-lo a perseguir meus desejos.
— Mas eu quero; é a minha vontade. — Richard sorri e leva a mão dela aos lábios. — Compartilhe comigo a sua felicidade, Cathrine.
O coração dela bate fortemente com esse simples toque, esse simples beijo... Mas ela não responde, o que também não os impede de descer da carruagem e seguirem para a entrada do orfanato, onde eles são recebidos por mesuras das Srtas. Mary e Martha Elton.
Logo, porém, Richard e Cathrine são levados para o pátio interno — toda a demora para recebê-los foi para juntar todos os órfãos —, onde são recebidos com alegria pelas crianças. Sem vergonha ou receio algum, as crianças correm e se aproximam deles.
— Não julgo Lady Cottington por gostar tanto daqui — comenta Richard, pegando uma menininha nos braços e sorrindo para Cathrine. — Deveríamos ter vindo muito antes.
Sem qualquer tentativa de resistir, Cathrine assente e também sorri, um sorriso que torna-se muito maior quando as crianças lembram dela e se aproximam para abraços. Até os órfãos mais velhos mostram animação. E não tarda para tudo se tornar uma "festa"...
— Sua preocupação e amor pelas crianças é louvável. — Observando um menininho pintando, Cathrine volta-se a Srta. Martha. — A senhora deve ter sido uma ótima mãe.
— Está sendo gentil, senhorita. — Cathrine entrega ao menininho um pincel mais grosso e nega. — Fui exaltada, superprotetora e, por diversas vezes, alimentei os caprichos dele.
— Mas deu amor, proteção, não é esse o papel de uma mãe? — E a Srta. Elton também se aproxima. — O senhor também parece gostar muito delas. É triste que o imprevisto não tenha sido gentil.
A atenção de Cathrine volta-se na direção de Richard, ajudando algumas crianças mais velhas com um canteiro de flores. Ele se mostra tão atencioso e constantemente sorri para a garotinha que ainda segura...
— Não foi nenhum pouco gentil — ela sussurra, encarando fixamente Richard. — Ele tirou de nós nossa mais plena alegria e satisfação.
Deixando para trás apenas tristeza, distância e traumas... Mas Cathrine logo volta a sorrir quando o menininho mostra o resultado da pintura: a aquarela dos campos de Berkshire... Inclinando a cabeça, Cathrine aceita a aquela do menininho, que logo corre para junto dos amigos.
— As senhoritas também gostariam muito de ter filhos, não? — É o bastante para as duas irmãs se entreolharem. — Sei o quão torturante é esse desejo.
— Não é nada feliz ser solteira e sem filhos — comenta com seriedade a Srta. Elton... Porém logo sorrindo e negando. — Mas não há nada que possamos fazer a respeito.
— E esse é o nosso consolo — acrescenta a Srta. Martha, fazendo Cathrine franzir o cenho. — Por que sofrer com algo fora do nosso controle quando há diversas coisas para fazer?
— Inúmeros objetivos que podem nos dar grande satisfação. — Mas os filhos... Cathrine volta-se na direção das crianças. A Srta. Elton então fala: — Claro que são pesos desiguais, mas... Sofrer propositalmente é tão ruim, afasta quem amamos e ainda encurta a vida.
É o bastante para fazê-la se voltar na direção das irmãs e franzir o cenho. Mas Cathrine não escolheu sofrer! Ela sofre porque... Bem, porque... Cathrine volta-se lentamente na direção de Richard. Por que ela não deveria sofrer?
Richard, porém, olha na direção dela e sorri amplamente. Cathrine não consegue deixar de retribuir o sorriso, mesmo que o dela seja levemente triste... Uma pessoa pode escolher sofrer?... Ela pode escolher não sofrer...?
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
Nos aposentos da marquesa, Lady Newport arruma junto de Lady Chartents e Lady Cavenbush a cama da marquesa para a noite, enquanto Lady Castlereagh guarda as joias e Lady Paston arruma o cabelo de Cathrine...
— Ela menciona também alguns eventos sociais em Buxton e afirma estar esperançosa após os banhos. — Há Lady Wilmington também, claro, com um carta de Sophia. — Acredito que dentro de um ano teremos nosso tão esperado herdeiro.
Mas a única ação de Cathrine é assentir. É uma ação automática, desatenta e dispersar; a atenção dela não está na carta, nem nas damas e muito menos na noite... Mas nela mesma, embora não nela agora...
Encarando fixamente o próprio reflexo no espelho, Cathrine medita na visita de mais cedo ao orfanato. Há inúmeras coisas acontecendo na cabeça dela, inúmeros pensamentos e lembranças retornando...
— Algum problema, minha senhora? — questiona Lady Castlereagh, ganhando a atenção dela. — É a guerra, não é? Ou será Niedersieg? Robert garantiu que...
— Não é nada disso, Emily, é só... — A voz dela morre e a única ação de Cathrine é negar. — Richard já foi dormir?
— Eu esperava dormir aqui hoje. — E todas as damas fazem uma mesura ao recém-chegado Richard. — Posso?
Voltando-se novamente ao espelho, Cathrine assente. Não é necessário dizer ou sinalizar mais nada; ele adentra no dormitório e senta numa poltrona com vista para a penteadeira. E Cathrine volta a meditar.
Logo, porém, as damas acabam de vesti-la para a noite e Cathrine é conduzida para a cama, onde Richard também deita. As damas fazem uma mesura e, apagando quase todas as velas, deixam o quarto. O silêncio instaura-se...
— Obrigado, Cathrine. — Mas não por muito tempo. Richard volta-se para ela e, sorrindo, fala: — Você não mandou trancar a porta dessa vez.
— Não agradeça, por favor. — Assim como ele, Cathrine ri levemente. Até que ela respira fundo e... — Na verdade, sou eu quem deve agradecer.
— Agradecer? — questiona Richard, apoiando-se na cama e franzindo o cenho. — Pelo o quê?
— Por sua ajuda, sua atenção e... seu amor — ela sussurra fracamente e, fechando rapidamente os olhos, o encara. — Você foi muito paciente e persistente comigo... Obrigada, Richard.
Um agradecimento... Um simples agradecimento... Mas tão cheio de significado que... Cathrine engole em seco e espera uma resposta de Richard. Até que ele sorri e pega a mão dela.
— Valeu a pena... Está valendo a pena. — O sorriso dele é terno, cheio de sentimentos. — Por você, sempre valerá a pena.
Mesmo ela sendo tão ingrata? Ou os problemas que tanto ela quanto ele... Não! Cathrine fecha fortemente os olhos e nega. Tais pensamentos apenas farão mal. Qual a importância das imperfeições e erros deles? Há apenas uma coisa que Cathrine deseja fazer:
— Lembra daquele dia no balão, quando você disse que queria ser melhor? — Mordendo os lábios, Richard assente para Cathrine. — E-eu também quero ser melhor... Quero ser feliz e... Quero amá-lo.
— Você então está com sorte. — Richard leva uma mão a bochecha dela e sussurra: — Porque eu já te amo e, só de ouvir essas palavras, me torno o mais feliz.
Um sorriso gradativamente toma de conta dos lábios de Cathrine, um sorriso tão feliz e cheio de amor que... Cathrine leva uma mão ao ombro de Richard e o beija. É um beijo rápido e terno... Até que Richard a beija novamente e Cathrine deita na cama.
— Seremos felizes — declara Cathrine, abraçando o pescoço de Richard.
— Muito felizes — repete Richard, acariciando os lábios dela e sorrindo. — Bonaparte cairá, a Europa estará definitivamente livre, Niedersieg será soberano e nós... Nós viveremos a alegria do nosso amor.
Sem filhos, de fato, sem o fruto desse amor... Mas nem toda árvore bela tem frutos, não é? Richard volta a beijar Cathrine, que retribui ao mesmo tempo que o ajuda a tirar a camisa se dormir...
*****
18|06|1815 Waterloo, Bélgica
A história é uma força esmagadora e imprevisível, ela é feita por padrões, claro, mas padrões que nem sempre seguem uma constância. Um belo exemplo é Waterloo, um município tão insignificante e pequeno, embora muito perto da rica Bruxelas, que está prestes a entrar para a história...
Os tiros da canhões, baionetas e gritos que ecoam pelos campos de Waterloo são ouvidos desde Bruxelas. Mas a visão da batalha mais importante da história belga é impossível de descrever com sensibilidade.
A questão é que os campos de Waterloo se tornaram campos de batalha, onde soldados se misturam com cadáveres e fluidos. Os prussianos já lutam nas laterais, enquanto o centro... É uma confusa e desesperadora luta entra a Guarda Imperial e as forças diretas de Wellington.
A derrota já parece eminente para o centro britânico. As forças holandesas, sob o comando de Wellington, foram destroçadas e o próprio príncipe de Orange gravemente ferido... A própria artilharia britânica parece estar em fuga agora...
Os 1⁰, 2⁰ e 3⁰ Chasseurs sobem uma colina atrás da infantaria britânica. No topo, porém, não há aparentemente nada, somente corpos e um forte odor de morte... Até que, como que revivendo dos mortos, uma multidão de soldados britânicos levanta e atira...
Centenas de caçadores caem com o ataque surpresa dos britânicos, até mesmo os líderes do batalhão. Outro batalhão de Chasseurs tenta repelir o ataque, e até obtém algum resultado, mas o fogo britânico é feroz... fatalmente devastador.
— La Garde recule! — E tão devastador quanto o fogo britânico é o resultado do fogo britânico. — Sauve qui peut!
A Guarda Imperial de Napoleão Bonaparte cede as forças britânicas e começa a recuar. Seus gritos de desespero ecoam por todo Waterloo, colocando as linhas francesas em pânico e desordem.
Esse pânico não demora a ser percebido pelo duque de Wellington, que de seu Copenhagen acena com o chapéu para um ataque geral aos franceses...
Direita, esquerda e centro falham... Os franceses são destruídos e começam a recuar, com a Coalizão indo logo atrás. Napoleão Bonaparte, na segurança da estalagem de La Belle Alliance, decide partir assim que a derrota francesa torna-se eminente.
E no dia 22 de junho é anunciado em Londres a "gloriosa" vitória da Coalizão em Waterloo. Mesmo tempo que Bonaparte, sendo seguido pela Coalizão, chega numa Paris totalmente antagônica a pessoa dela... É o fim do Império Napoleônico.
*****
01|08|1815 Oldenburg House, Londres
Damas brilhantemente vestidas com pérolas e diamantes aproximam-se junto dos maridos — todos com uniformes e exibindo ordens — das cadeiras prateadas de estado do príncipe e da princesa. Os soberanos assentem para os cortesãos, que se curvam e retornam a seus lugares.
Tudo parece sem sentido, afinal a temporada já acabou e, junto dela, o período de receber nobres na corte. Mas há sim um motivo; nenhum luxo e esplendor é desnecessário... Logo as apresentações acabam e o príncipe assente para o duque de Kendal.
— Cavalheiros, damas, sugiro um brinde! — Toda a atenção volta-se a Robert, ao mesmo tempo que criados entram com o champagne. — A queda de Bonaparte! A derrota da França!
— Ao exílio do demônio em Santa Helena! — exclama o enviado florentino, já pegando uma taça.
— A paz na Europa! — acrescenta o jovem secretário do embaixador austríaco. — Ao Congresso de Viena!
E todos os cavaleiros no salão seguem o exemplo, as damas também pegam taças, mas não brindam. De qualquer forma, o clima em Londres — bem como no resto da Europa — é de mais pura alegria.
Num intervalo minúsculo de tempo, Bonaparte novamente caiu, Louis XVIII retornou a França e agora... Foi decretado anteontem o exílio do demônio numa insignificante ilha no meio do Atlântico. A paz foi restaurada!
Porém, assim que todos se dispersam, o príncipe e a princesa levantam e seguem para uma sala anexa ao salão...
— Francamente, Richard, não entendo isso. — E Robert, junto de Sophia, entra logo em seguida. — Por que não resolver esta questão em Viena mesmo?
— Porque o príncipe é a voz maior da nação. — Robert faz uma careta ao ouvir essa voz... É o novo enviado niedersieger, que curva-se. — Altezas.
— Sr. Viktor Görtenietz. — Os olhos de Richard, porém, focam apenas na caixa com o diplomata. — Então esta é a Ata Final... Mas e quando a Lei Federal?
— Está junto da Ata Final, meu príncipe — o enviado responde e, colocando a caixa numa mesa, abre. — Ao assinar este documento o senhor não apenas ratifica os termos da nossa independência, como também entra na Confederação Alemã.
Uma união de estados alemães independentes visando proteger a segurança externa e interna da Alemanha, bem como o equilíbrio da Europa... Richard observa com atenção Görtenietz abrindo a Ata Final.
— A Baviera abdica de suas reivindicações ao território niedersieger e reconhece sua soberania como principado mediante o pagamento de uma indenização de 1 milhão de florins — explica o enviado, passando para a última folha. — Estes serão pagos em parcelas anuais até 1830.
— Um preço caro por algo tão pequeno — aponta Richard, aproximando-se do documento —, mas tudo pelo meu povo.
De qualquer forma, a Ata não fala em nenhum momento de juros envolvendo atrasos... longos atrasos... Como "compensação", porém, o Congresso elevou Richard a Alteza Real, e os outros membros da casa a Alteza...
O príncipe passa os olhos pela Ata Final, bem como a Lei Federal, que, por sinal, é insignificante, e assina.
— Independente, soberano e principesco. — Colocando a pena no tinteiro, Richard acrescenta sorrindo: — Niedersieg é novamente um país alemão!
— Não mais preso ao Santo Império, mas a Confederação Alemã — comenta Robert, analisando o documento e dando os ombros — Pelo menos somos mais autônomos agora.
Cathrine e Sophia também se aproximam para ler o documento. O alívio que Richard sente agora é imenso. E Cathrine sorri na direção dele, mostrando que sabe o que ele sente e sente o mesmo.
— Só nos resta agora esperar pelo herdeiro. — E todos voltam-se a Görtenietz, que sorri na direção de Sophia. — Um herdeiro forte, inteligente e saudável.
Nenhuma resposta é dada por Sophia, que sorri para o enviado e volta-se novamente a Ata Final, com Robert logo se juntando a ela. Os dois trocam um olhar e, no final, Robert apenas pega a mão de Sophia e aperta com carinho.
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