Era Uma Vez... Uma Ilusão
45 44. Hanau foi uma derrota, e apenas uma derrota.
26|09|1813 Niedersieg, Reino da Baviera
Com impecáveis uniformes azuis e brilhantes capacetes de lagarta, uma tropa da cavalaria bávara cruza com imponência a Siegesbrücke. O destino deles é única e exclusivamente o Schloss Niedersieg. Porém, assim que pisam no Noblerstadtteil, eles são vaiados por uma multidão furiosa.
Desde o dia anterior a cidade está mergulhada num caos de protestos e vandalismo. Janelas são quebradas, comércios saqueados e prédios públicos invadidos. Num ato desesperado, o bispo Montille convocou toda a administração franco-bávara para o Schloss Niedersieg. Mas agora o povo protesta nos portões do palácio.
Os gritos são terrivelmente violentos. Alguns ameaçam até derrubar os portões e os bávaros. Uma fúria que só aumenta com a chegada dos reforços.
— Como você deixou as coisas chegaram a esse ponto, major!? — O bispo Montille volta-se furioso a Julius von Falkensgen. — Quando exigirem uma cabeça, fique desde já avisado que darei a sua!
O major, recuando assustado da janela por onde eles observam os protestos, nega veemente para o bispo. Ele até busca apoio entre os burocratas e muitos guardas na sala, mas em vão.
— Reverendíssimo, por favor, ninguém sabe ao certo como começou! — suplica Falkensgen, quase se ajoelhando. — Parecia apenas um simples protesto no Handelsplatz...
— E veja só no que resultou! — Montille quase pula no pescoço do major, mas, respirando fundo, retorna a janela. — Graças a Deus, estão ocupados demais com o Tirol.
— Mas não o suficiente para se esquecerem de nós. — E Falkensgen não desiste do bispo, tanto que acrescenta: — O coronel von Ramsau chegou para nos salvar.
E muito rápido, por sinal... A atenção deles retorna aos portões, onde os gritos contra os impostos, a falta de alimentos e os soldados só aumenta. Mas tudo ficará bem agora que...
Uma carruagem no pátio explode em chamas, quebrando janelas no palácio e obrigando Falkensgen a derrubar Montille. Um atentado?... O arsenal!... O povo começa a fugir desesperado dos portões. Enquanto gritos começam a ser ouvidos nos corredores do palácio.
Logo o coronel adentra na sala, e junto dele também um grupo de soldados... apontando pistolas na direção de todos na sala.
— Mas o que significa isto, Ramsau!? — Montille coloca-se atrás de Falkensgen, que saca uma pistola e... É agarrado e incapacitado por um dos guardas domésticos. — Traição!
— Não, reverendíssimo — o coronel fala, aproximando-se tanto que Montille arregala os olhos... Karinberg —, isto é um golpe!
Todos os outros guardas revelam-se traidores, fazendo o bispo e seus burocratas recuarem. Mas não existe escapatória. Logo todo o palácio é controlado e a "movimentação" começa.
— Quando o rei tomar conhecimento disso será seu fim...! — Obrigando, porém, Montille a sentar numa cadeira, Karinberg empurra um decreto. — Recuso-me a assinar qualquer coisa sua, escória!
— Assine, reverendíssimo, e sem questionar. — O tom do coronel é frio, tão ameaçador que o bispo treme. — Garanto que seu rei não moverá um só dedo para ajudá-lo. Já seu imperador... Ele sequer se importa.
Mesmo com extrema fúria, Montille cede e assina o decreto. O coronel sorri satisfeito e entrega o documento para um dos comparsas. Nenhum dos bávaros imagina o que diz lá, sequer cogitam o conteúdo. Porém não tardará para ser descoberto.
Pouco depois do sol se pôr, sinos começam a ser escutados pela cidade e Montille é levado por Karinberg até uma carruagem. A multidão que antes se reunia nos portões do palácio, aglomera-se agora em frente a Hofoper.
Diferentemente de antes, porém, agora a multidão parece mais calma, quase exultante. De fato, a "movimentação" já avançou em muito na cidade. Entrando no prédio, Montille é levado para a sacada da Hofoper, a vista de toda a multidão.
— Veja como é lindo, reverendíssimo! Nada de bandeiras e estandartes! — Montille arregala os olhos quando olha para os prédios públicos e... não vê nada! Karinberg exclama: — Viva a Alemanha! Viva ao príncipe!
A multidão abaixo segue o coronel em júbilo, assustando profundamente o bispo. As faltas de bandeiras... O "golpe"... O decreto!... A alegria, os gritos do povo e a festa... Montille só consegue fechar dolorosamente os olhos.
— Viva a Alemanha! Viva ao príncipe! — o bispo também exclama, fazendo aumentar o júbilo do povo. — Deus salve Niedersieg!
O povo acalma seu príncipe e sua liberdade, apoiada até mesmo pelos opressores... Isso enquanto tropas austríacas marcham na direção de Niedersieg e Königsstadt, a fim de ocupá-las... A convite do próprio bispo Montille...
*****
Início de outubro|1813 Oldenburg House, Londres
Fechando fortemente os olhos, Richard apoia a cabeça na vidraça da janela e respira fundo. Suas pernas estão trêmulas e a respiração... Por um momento, Richard realmente esqueceu o que é respirar. Mas agora... É a primeira vez em anos que ele realmente consegue respirar.
— Obrigado — Richard sussurra na direção do céu e, respirando fundo novamente, volta-se para trás. — É indescritível o alívio que sinto com esta notícia, cavalheiros. A rosa finalmente voltou a reinar no Inn.
É, de fato, imenso o alívio que o príncipe sente, embora não possa em nada ser comparado à genuína alegria que os ministros, junto de Linzmain, sentem com a libertação da sua casa e povo.
— E sem qualquer derramamento de sangue — aponta von Eden, sorrindo exultante com a expectativa. — Foi gloriosamente bem-sucedida a nossa revolução...
— Nossos aliados odeiam a palavra "revolução", von Eden, lembre-se disso. — Richard deixa a janela e, dando os ombros, acrescenta: — Quanto a "golpe"... Só peguei de volta o que, por direito, é meu.
— Nada mais justo, de fato — o conde O'Ryen fala, retornando a mesa e suspirando. — Graças a Deus que acabou...
— Engana-se, O'Ryen — é o barão Linzmain quem retruca, chamando a atenção de todos —, na verdade, acabou de começar.
Toda a sala franze o cenho para Linzmain, desde o príncipe até o mais tolo dos ministros. Mas essa ação torna-se muito rapidamente compreensão. Nenhum deles é ignorante ao que acontece na Baviera. Até mesmo Richard lê os jornais agora.
— Imagino que o barão se refira às negociações austro-bávaras. — Linzmain assente para von Frieden, que nega. — Metternich...
— Não assinou acordo nenhum conosco — responde Richard, caminhando de volta para a mesa e sentando. — Temos o controle, mas não a soberania.
Os ministros sentam também em seus respectivos lugares. Mas é um fato, ter duas cidades — Königsstadt e Niedersieg — significa apenas o controle de... Bem, duas cidades. Smaragdberg e Ehreschöne são praticamente inalcançáveis.
Com todos sentados, a atenção divide-se entre o príncipe e seus principais ministros: von Frieden e von Eden, bem como Linzmain. O silêncio instaura-se, embora não por muito tempo:
— É certo que as tropas permanecerão nas cidades, o que sozinho não garantirá a nossa posição. — Pensando um momento, von Eden suspira e fala: — Devemos iniciar a segunda fase do plano.
— A diplomacia. — Os ministros principais assentem para Richard. — O imperador jamais humilhará sua própria família, e, mesmo que o faça, Rússia e Grã-Bretanha nos apoiarão.
— Devemos enviar também diplomatas as cortes amigas, meu príncipe. — sugere von Frieden, acrescentando com desgosto: — E para Munique também.
— Creio que meu irmão possa nos ajudar em Viena, meu príncipe. — Richard lembra dele... É Georg Carrelli, não? — Ele serve na corte da arquiduquesa Maria Beatrix e tem acesso direto à família imperial.
— Já para Munique enviaremos o barão Beylstein. — E todo o horror volta-se a Linzmain. Mas... quem é Beylstein? — Ele é jovem, mas vem de uma família antiga e tem sangue Wittelsbach.
E as discussões continuam, a medida que a participação de Richard torna-se cada vez menor. Ele está distraído demais para sugerir algo complexo ou... Fechando os olhos, ele novamente suspira, o alívio é imenso... Será que Cathrine já sabe?
*****
Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg
Ao som de tambores e autoritárias ordens gritadas, um regimento da infantaria de Württemberg marcha em extrema ordem pelo pátio interno do Palácio de Ludwigsburg, sendo seguido de perto por um regimento da cavalaria.
Metade da corte reúne-se no pátio para assistir ao desfile, cuja vistoria cabe ao duque Wilhelm e o príncipe Wilhelm, já começando a vida militar. As princesas Charlotte e Anna também encontram-se presentes; estão num dossel com o restante da família real. Porém três faltas são notavelmente notadas...
— Não! Minha resposta continua sendo não! — o rei exclama, afastando-se bruscamente na direção da janela. — Quantas vezes mais terei que falar até você desistir!?
— Inúmeras, porque isso jamais acontecerá! — Praticamente ajoelhada no centro da sala, Anne volta-se ao rei. — O senhor não percebe o quão prejudicial é apoiar...!?
— Ordeno agora que pare! Esqueça esse assunto! — O rei deixa a janela e, aproximando-se dele, sussurra ameaçador: — Estou avisando, Anne. O rei aqui sou eu!
É mais que uma ameaça, é um aviso. Claro que a meses elas estão nessa luta, mas... Respirando fundo, Anne dá as costas ao rei, o deixando furioso. Antes, porém, que qualquer outra coisa possa ser dita, Charlotte coloca-se entre o rei e a princesa herdeira.
— Mas eu sou a rainha e, consequentemente, sua maior conselheira! — Ele semicerra os olhos, mas Charlotte aproxima-se... suplicante. — Por favor, Friedrich, abandone esta aliança! A única coisa que Bonaparte tem a oferecer são problemas!
Com uma mão ele oferece um reino e com as outra... destrói uma família. Mas a fúria do rei continua, sendo acalentada somente quando a rainha se aproxima o suficiente para tocar em seu braço.
Ainda ajoelhada, Anne escuta tudo em silêncio e com a cabeça abaixada. Ela medita em tudo que aconteceu nos últimos 20 anos; desde o assassinato dos pais até a ocupação austríaca...
— Posso ser muitas coisas, Charlotte, de imoral a tirano — o rei fala, negando veemente a rainha —, mas se há uma coisa que não sou é traidor!
— E quanto ao seu povo!? — Horrorizado, o rei volta-se a Anne, que ergue-se com os olhos cheios de lágrimas. — Perdão, meu rei, mas apoiar Bonaparte e sua loucura não é... traição? Traição contra Württemberg!?
Arregalando os olhos, o rei solta-se da rainha e caminha friamente na direção da princesa herdeira, encarando-a tão friamente que... Os dois ficam cara a cara. É a primeira vez na vida que Anne vislumbra o homem que destruiu a primeira esposa...
— Sua cunhada... Minha filha... É cunhada do demônio. — As palavras dele saem falhas, até que ele sussurra, semicerrando os olhos. — Se mudarmos de lado, será Katharina quem sofrerá as consequências?
— Quais consequências? — questiona Anne, encarando-o com desafio. — O império de Napoleão Bonaparte está ruindo... E parece que Württemberg cairá junto.
Dessa vez o rei não arregala os olhos, e nem mostra qualquer sinal de fúria. Mas ainda assim a rainha toma o lado de Anne, abraçando-a protetoramente.
— A Baviera já trocou de lado, Friedrich — afirma Charlotte, já cansada disso tudo —, nem mesmo eles acreditam mais no usurpador.
— Devemos agir agora, antes que seja tarde demais — acrescenta Anne, suavizando o olhar. — Por favor, meu rei, deixe Napoleão Bonaparte!
Até uma lágrima Anne deixa escapar. Mas a única ação do soberano é dar as costas e se afastar... Exatamente como nas últimas vezes...
— As tropas já foram enviadas para a Saxônia. — As duas olham com horror para o rei... Leipzig... — Eu não mudarei de lado, não de bom grado.
Dito isso, ele deixa a sala... Afastando-se devagar da rainha, Anne suspira e, limpando as lágrimas, segue na direção da lareira. Ela precisa pensar... E também de um tônico. Enquanto a rainha simplesmente segue o rei; a presença deles é necessária no desfile.
Württemberg lutará ao lado dos franceses na Saxônia... O que será necessário para fazê-lo aderir à Coalizão!?
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
O relógio na sala azul já bate 19h e, enquanto as damas de companhia se distraem com leitura, bordado e jogos, Cathrine vagueia ansiosamente pela sala. Há horas ela está assim, desde que... Cathrine olha para o bilhete já amassado nas mãos e aproxima-se da janela.
Desde que o mensageiro de Londres chegou... Já tentaram chá, música e até "Orgulho e Preconceito", mas tudo em vão. Cathrine continua muito inquieta e se acalmará apenas quando...
— O marquês chegou, minha senhora. — A atenção de Cathrine volta-se a Lady Cavenbush e... Ela deixa a sala.
Chegando no hall, Cathrine imediatamente avista Richard, que conversa com Lord Irvington e parece pronto para subir a escadaria. Porém, tomada pela impulsividade, Cathrine corre na direção de Richard e o abraça fortemente, permitindo-se até rir de alegria.
Naturalmente, a surpresa apossa-se de Richard, tanto que ele quase não a abraça de volta. A frequência com que tais abraços acontecem é...
— Mas o que houve? — ele questiona, afastando-se e rindo tensamente. — O usurpador foi assassinado?
— Quisera Deus que sim, mas não. — Sorrindo ternamente, Cathrine pega a mão dele e aperta. — Sua felicidade é a minha felicidade. Niedersieg está livre!
Inicialmente a confusa expressão dele continua. Até que Richard sorri de lado e beija a mão dela... O coração de Cathrine momentaneamente para com essa ação, então ela se afasta e retorna a contenção. E o bastante também para ele.
— Podemos conversar em particular? — Cathrine franze o cenho com as palavras de Richard, que explica: — Estou profundamente cansado.
— C-claro, mas... Como exatamente aconteceu? — É a vez dele franzir o cenho. Mas ela simplesmente dá os ombros. — Você esteve tão distante ultimamente.
Ela também tem um pouco de culpa, claro, mas... Respirando fundo, Cathrine desvia o olhar e abaixa a cabeça. Não é da vontade dela falar disso. Pelos menos uma vez eles precisam ser felizes.
Logo, porém, os dois estão no dormitório do marquês, onde Richard explica a situação de Niedersieg. Ele até mesmo fala de coisas que foram simplesmente omitidas dela.
— Uma revolta seria inviável, principalmente porque já tentamos e falhamos. — Sentado ao lado dela na cama, Richard nega num suspiro. — E a Áustria também nunca nos apoiaria. Seria uma revolta contra a Baviera, não a França.
— Diferentemente das revoltas no norte. — Richard assente para Cathrine. O norte é controlado diretamente pela França.
— Por isso foi necessário fazer de Montille prisioneiro. — Num golpe interno, pouquíssimo divulgado. — Tecnicamente falando, as tropas austríacas foram convidadas pelas próprias autoridades bávaras, não por rebeldes.
— Uma ação válida e, tecnicamente, legal — sussurra Cathrine, embora logo franzindo o cenho. — Mas você não teme uma retaliação de Munique?
E nenhuma resposta é dada por Richard, que deixa a cama e, negando, começa a vaguear pela sala. Os olhos de Cathrine focam unicamente nele.
— Uma ocupação austríaca é o mesmo que a proteção austríaca — aponta Richard, mais para si mesmo que para Cathrine. — A Baviera jamais ousaria desafiar a Áustria; é a última coisa que ela deseja agora, na verdade.
E ele continua vagueando pela sala. Os impulsos alegres de Cathrine já diminuíram bastante desde o início desta conversa, mas vê-lo assim... Respirando fundo, Cathrine aproxima-se de Richard e o abraça por trás.
Nenhuma palavra é dita por ele... Nada é dito por ela... O silêncio simplesmente instaura-se... Mas não a inação. Richard beija a mão de Cathrine, que abre o colete dele... Logo os dois estão imersos no fogo de beijos, indo para a cama...
*****
Outubro|1813 Buckingham House, Londres
— Reconsidere as suas palavras e veja como são mesquinhas, totalmente egoístas! — O tom do príncipe regente não é censurador, mas sim brutal. — Nem mesmo seus avós casaram se amando, por que com você seria diferente!? Acha mesmo que é tão superior assim!?
Mantendo a cabeça baixa, Charlotte escuta tudo no mais profundo silêncio, apenas esperando ele acabar. Foi definitivamente uma má ideia Charlotte compartilhar seus receios com o Dr. Halford, agora ela está sofrendo as consequências disso.
Atrás deles, a rainha e as princesas observam tudo caladas. Há pena nas expressões de Augusta e Elizabeth, enquanto Mary assente para tudo que o irmão diz e a rainha... está impassível. Até que a paciência de Charlotte acaba e...
— Mas, papai, Willem de Orange...! — O regente levanta a mão, fazendo-a se calar.
— É um jovem corajoso e bem-humorado, além de herdeiro! — Semicerrando friamente os olhos, o regente ainda acrescenta: — Qualquer jovem inteligente ficaria honrada em casar...!
— Mas não sou uma jovem qualquer, papai! — ela exclama, fazendo o regente arregalar os olhos. — Eu serei rainha! E rainha do maior império que existe!
A fúria nos olhos do príncipe regente é imensa, tanto que Charlotte recua quando a coragem passa. Mas ele respira fundo e, dando as costas, afasta-se dela.
— Essa conversa já se estendeu demais, Georgie — a rainha fala e, negando para o filhos, encara com seriedade a neta. — Dê um tempo para ela pensar direito. Tenho certeza que Charlotte...
— Não considero tal união adequada! — As princesas exclamam em horror, enquanto a rainha nega. Mas Charlotte aproxima-se do regente. — Suplico que me escute, papai, por favor! Uma futura rainha britânica não deve se casar com um estrangeiro!
Principalmente um como Orange. Quando os Países Baixos voltarem ao pai do príncipe, e logo voltarão, ele se tornará herdeiro da Holanda. E se tal casamento resultar em novos William e Mary!?
— Então com quem você espera se casar? — o regente questiona, arqueando uma sobrancelha para Charlotte. — Gloucester?
Os olhos de Charlotte arregalam; ela fica sem reação com as palavras do pai. Casar com o duque de Gloucester...? Onde ele ouviu isso!? A rainha, porém, não gosta nenhum pouco do rumo dessa conversa.
— Deixe a menina, Georgie...!
— Responda! — ele grita, fazendo-a recuar assustada. — Se não deseja casar com Orange, vai casar com quem!? Gloucester!?
— Está me ofendendo, papai — sussurra Charlotte num tom choroso, negando veemente para o regente. — Nunca sequer passou pela minha cabeça...
— Sendo assim, você casará com Orange. — É uma ordem. Charlotte tenta protestar, mas ele levanta a mão. — Estou farto da sua recusa.
— Não vou casar com Orange...! Não quero casar com Orange! — mas Charlotte volta a exclamar, quase chorando. — Por favor, papai, me entenda! Também lhe obrigaram...!
— Cale a boca! — A fúria do príncipe é tamanha que a rainha levanta da sua cadeira. — Você vai casar com Orange! Querendo ou não, vai casar! Estamos entendidos!?
Mas ele não espera uma resposta e, fazendo uma rápida mesura a rainha, deixa a sala. Ficando para trás, Charlotte cede e deixa-se cair numa cadeira, chorando profundamente.
— Recuso-me! Recuso-me a casar com Orange!
A simples expectativa de estar com ele ou naquele país de pântanos e sapos... Charlotte só consegue negar, incapaz de pensar claramente o que fazer nesta situação.
A rainha olha com uma certa pena para a neta... Até que a pena acaba e, sendo substituída pela tédio, ela levanta.
— Deixe de drama e suba para o seu quarto. — Lá é o melhor lugar para chorar. Bufando, a rainha volta-se a Augusta. — Traga o meu rapé.
Parando momentaneamente de chorar, Charlotte limpa os olhos e segue para o quarto. Mas... Um nome logo surge na cabeça dela, um nome que certamente a ajudará e aconselhará: Lord Grey...
*****
Outubro|1813 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg
Uma batalha está prestes a começar em Leipzig, na Saxônia, fazendo a tensão instaurar-se na corte de Ludwigsburg. O medo é geral, o receio não tem pena de ninguém e o rei... O rei partiu com os ministros para Stuttgart a fim de acalmar a cidade.
O fato é que a incerteza domina profundamente a Europa, tanto que todos os olhos estão voltados agora para Leipzig. Ninguém sabe qual o resultado da batalha, mas é certo que decidirá o destino da Europa.
— Mas é traição! E em todos os sentidos da palavra! — exclama Charlotte num tom receoso, embora não com extremo medo. — O que Friedrich dirá quando descobrir?
— "Obrigado por salvar meu reino", talvez? — A rainha nega para Anne, que respira fundo. Elas começam a descer a Escadaria da Rainha. — Não estamos fazendo nada ilegal.
— De fato... Estamos planejando! — Agora ela revira os olhos com as palavras de Charlotte, que pede: — Por favor, Anne, deixemos Leipzig de lado.
E elas param no meio do último lance de escadas, ou melhor, Anne obriga Charlotte a parar. Esquecer a batalha que ocorrerá em Leipzig? Seria o mesmo que esquecer Württemberg! Seria mostrar covardia!
— Eu serei rainha, Charlotte, e meu filho será rei. — A expressão dela é séria, tanto que a rainha sente medo. — E se for necessário passar por cima do meu sogro para isso, tenha certeza que assim o farei.
A única coisa que poderá separá-la da Coroa é a morte, e não está nos planos de Anne morrer. A tensão é claramente visível na rainha, tanto que Anne suaviza o olhar e nega.
— É só um plano de contingência. — Dando os ombros, ela volta a descer. — Além do mais, você é praticamente a regente.
A rainha arregala os olhos com essas palavras, tanto que desce correndo atrás de Anne para fazê-la retirar essas palavras tão... angustiantes! Claro que Friedrich tinha uma má fama, mas, quando casou em 1797, Charlotte só queria uma vida tranquila.
Mas as duas logo chegam no final da escadaria, onde aparece Ludwig de Oettingen-Wallerstein... Há alguns dias ele retornou, trazendo consigo um ar... estranho...
— A ansiedade pela nossa próxima conversa está me corroendo, senhora. — Sorrindo galante, Ludwig beija a mão de Anne e a da rainha. — Interrompo?
— Dificilmente — responde rispidamente a rainha, semicerrando os olhos. — E sobre o que são essas... conversas?
— Gosto muito de política — Ludwig fala, sorrindo de lado. Anne divide o olhar entre os dois. — Ultimamente, porém, ando mais voltado para a arte.
— Claro que sim! — A atenção de todos volta-se ao outro lado do corredor... Anton... — Já percebeu que seu mestre vai cair!
A rainha arregala os olhos com a exclamação de Belgärd, enquanto Anne franze o cenho e Ludwig fica sem reação.
— Não estou entendendo... — Anne volta-se para Ludwig. — Como assim seu mestre...?
— Creio que o medo tenha dominado Belgärd. — Agarrando-a pelo braço, Ludwig nega veemente. — Vamos...?
— Tenho que resolver algumas coisas ainda. — Mas Anne se solta, deixando Ludwig tenso. Ela encara Charlotte. — Não é, minha rainha?
A consorte assente em silêncio e as duas começam a subir a escadaria, deixando para trás Anton e Ludwig se encarando com fúria. Algo não parece certo, mas... Respirando fundo, Anne tenta manter a calma. Leipzig... Leipzig é mais importante.
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
Entrando na sala de jantar e curvando-se, um grupo de criados retira da mesa os pratos da última refeição, enquanto um outro grupo serve a sobremesa. Tudo é ordeiro e belo, nada está fora do lugar. E, novamente curvando-se, os criados deixam a sala.
— Como eu dizia, creio que no momento devemos focar em manter a ocupação — Robert fala e, analisando o creme, dá os ombros. — Como garantia, claro; a Baviera está com medo demais para agir.
— Toda a Europa está. — Na cabeceira da mesa, Richard nega num suspiro. — O que será de nós caso percamos em Leipzig?
— Não existe essa opção. Nós vencemos ou... — Parando momentaneamente, Robert apoia a mão na mesa e sussurra: — Ou lutamos de novo. Já estou tão acostumado com a guerra que o mundo antes dela parece totalmente idílico.
— Logo teremos nosso mundo idílico novamente — garante Richard, finalmente provando do creme. — Outra preocupação é o Tratado de Ried. A Áustria reconheceu a soberania bávara sobre o Tirol, Vorarlberg e Salzburg...
Mas também não ordenou que as tropas deixassem Niedersieg e Königsstadt. Na verdade, em nenhum artigo a ocupação foi mencionada. Carrelli e Beylstein já estão trabalhando, e com bastante eficácia.
O foco, porém, logo deixa a conversa deles é recai sobre as damas. Cathrine, na verdade, presta atenção somente no creme que saboreia. Ela tem um leve sorriso no rosto e...
— É refrescante ver que alguém não está com medo de Leipzig. — E, aparentemente, também irradia calma. Cathrine sorri para Sophia. — Você parece tão feliz, Cathrine.
— Ando assim ultimamente, sorrindo para qualquer tolice. — Rindo baixinho, e fazendo Sophia rir junto, ela suspira e acaba o creme. — Confesso, porém, que também estou ansiosa.
— Eu também, mas escuto tanto sobre Leipzig, uma batalha que sequer aconteceu ainda, que já estou cansada! — Ouvindo isso, Robert sorri para Sophia e beija a mão dela. — E onde estão Lady Wilmington e Lady Chartents?
A falta da condessa e da viscondessa é notavelmente notada. Há alguns meses Lady Wilmington teve um filho, claro, mas... O sorriso de Cathrine treme com a pergunta, e ela fica tão pálida que bebe uma taça de água.
— A nova situação delas as impede de estar com mais frequência na corte — Lady Castlereagh imediatamente responde. Estão grávidas... A viscondessa dá os ombros. — Sarah eu até entendo, mas Georgina...? Que surpresa!
O último filho — bem como herdeiro — dos Chartents já tem quase sete anos! E talvez seja esse o motivo da palidez dela, não?... Embora já faça um certo tempo que Cathrine não se sente muito bem... Forçando um sorriso, ela pega outra taça de creme.
— Já avisei a Sarah que faço questão de ser madrinha desta criança. — Mas o sorriso não dura muito e ela franze o cenho. — Será que Robert tem alguma notícia da Dinamarca?
— Temo que não — Sophia responde e, sorrindo, acrescenta: — Não fique preocupada, Cathrine, o primo Frederik logo verá a razão.
— Sim, verá... — sussurra Cathrine... Comendo o creme e sorrindo de lado. — Eu deveria me preocupar é com o meu peso, e também com os enjoos, mas é culpa delas.
As damas de companhia riem com a marquesa, embora o mesmo não possa ser dito de Sophia, que a encara fixamente. Enjoos? Sophia franze o cenho. Isso, junto da palidez e comer demais...
Pegando a mão de Robert e levando-a ao ventre dela, Sophia encara o marido e depois sinaliza para Cathrine. Parece algo impossível, mas... Será? Robert nega com um zombeteiro sorriso e retorna a Richard... Essas ações, porém, são muito bem percebidas por Cathrine.
*****
Final de outubro|1813 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg
O sol já começa a nascer ao leste, iluminando cada vez mais a estrada e também a cidade de Ludwigsburg, que já suge no horizonte. Este é o destino de um grupo de cavaleiros, usando uniformes dos Dragões do Príncipe Herdeiro e cavalgando com rapidez.
Não tarda muito e toda a corte de Ludwigsburg está acordada. Na verdade, pouco eles dormem desde o início da Batalha de Leipzig...
— Por aqui, Majestade. — E a rainha é conduzida pelos corredores junto da princesa herdeira, netos e a Casa Real. — Eles esperam na Escadaria da Rainha.
E trazem consigo o destino de Württemberg... A rainha é praticamente arrastada por Anne, apesar das duas andarem muito rapidamente pelos corredores. Até que elas chegam na escadaria e avistam...
A respiração de Anne para, tanto que é ela quem torna-se a amparada pela rainha. No final da escadaria, junto dos Dragões... É Fritz! Ele volta-se na direção dela e...
— Sua Alteza! — A baronesa von Keudelstein aparece como um fantasma, abraçando Fritz e beijando-o. — Oh, meu príncipe, não sabe como sofri sem você!
Os olhos dele continuam em Anne. Mas é o bastante para lembrá-la da realidade. Fritz, porém, logo se afasta da baronesa e curva-se a rainha.
— Você está pálida — ele aponta, virando-se na direção dela e sorrindo. — Sou eu mesmo, não um fantasma.
— Sei que é. Minha palidez... É outra coisa. — Pegando a mão da rainha e apertando-a com força, ela pergunta: — Qual o resultado?
Levantando, Fritz respira fundo e coloca-se no outro lado da rainha, cuja expressão é visivelmente perturbada, profundamente ansiosa.
A corte se aproxima cada vez mais da escadaria. Até mesmo Ludwig encontra-se junto. A curiosidade é geral, a ansiedade precisa acabar. Qual o resultado de Leipzig?
— És novamente aliada da Inglaterra, Majestade. — A rainha franze o cenho para Ludwig, que anuncia: — A Coalizão venceu Leipzig! E Württemberg venceu junto!
A rainha quase desmaia com essas palavras, mas é amparada por uma alegre Anne. Logo as duas riem amplamente, profundamente emocionadas. Após anos de guerras... O que será melhor? A vitória ou a aliança?
Porém, diferentemente delas, a corte começa a fazer questionamentos ao príncipe. Não completamente felizes, longe de calmos. Questionamentos que Fritz não responde. Apenas uma coisa é certa: a "deserção" é uma surpresa até para o rei!
— Oh, graças a Deus a encontrei sozinha! — Após todos se recolherem, Anne é abordada por Ludwig. — Não sabe o alívio que sinto com as notícias de Leipzig...
— Claro, elas significam sua liberdade! — A atenção deles volta-se para o outro lado do corredor... Anton? — Já veio suplicar pelo perdão dela?
— Perdão? — Anne repete, franzindo o cenho para Anton. — E o que Ludwig fez para precisar do meu perdão?
— Você não contou... Alteza? — Anne volta-se confusa a Ludwig, que está totalmente perplexo. — Pois bem, eu...
— Cale essa sua boca, Belgärd! — Ludwig avança violentamente na direção de Anton, assustando Anne. — Perdão, eu...! Estou cansado.
Mas a confusão de Anne permanece. Principalmente quando ela lembra... Daquela discussão... Franzindo o cenho, ela se afasta de Ludwig e assente para Anton. Que ele fale.
— Eu já cansei disso, Anne! Cansei dessa enganação! — Enganação!? Ela divide-se entre Anton e Ludwig. — A verdade é que este homem, este que você chama de amigo, serve a Napoleão Bonaparte!
Os olhos de Anne arregalam em horror com as palavras de Anton. Ela recua assustada, negando veemente. Mas Ludwig mantém-se calado, estoico.
— Isso é verdade, Ludwig!?
— O imperador o enviou a fim de enganá-la! Seduzi-la! — acrescenta Anton, agarrando fortemente a mão dela. — Por favor, Anne, perdoe-me por esconder, mas...
— É verdade, Ludwig? — ela repete e Ludwig assente. O silêncio instaura-se e quando Ludwig finalmente reúne coragem. — Sem explicações, por favor. Já fui enganada o suficiente.
Respirando fundo, ela simplesmente dá as costas e deixa os dois homens para trás. Ludwig só consegue olhar para baixo, enquanto Anton... A confusão o domina. Mas a vitória da Coalizão em Leipzig terá de curá-la.
*****
Novembro|1813 Palácio de Hampton Court, Londres
O inverno já faz-se presente nos jardins de Hampton Court e, embora ainda não tenha realmente começado, é claramente visível na grama morta e arbustos sem flores. Até mesmo o caramanchão encontra-se agora cercado apenas por vinhas sem folhas.
Essa aparente morte, porém, não retira a beleza do local, tanto que Richard e Cathrine passeiam com Robert pela grande alameda do Jardim Privado.
— Os franceses podem até não aceitar, mas a vitória deles em Hanau foi insignificante! — Um passeio, porém, que Robert deixa longe de calmo: — O que eles ganharam? Apenas um pouco de tempo para recuar.
— Diferentemente de Leipzig, onde humilhamos a França — acrescenta Richard, o suficientemente satisfeito. — Sem contar nos aliados que ganhamos.
— Enquanto Bonaparte perdeu todos os que importavam. — Sobrando apenas... os Bonaparte. Mas Robert nega. — Apenas a Dinamarca continua cega.
— Oro a Deus que não para sempre ou até que seja... tarde demais... — sussurra Cathrine, virando-se suplicante a Robert. — Não há realmente nenhuma salvação para a Noruega!?
Se o arrependimento matasse — e não o tivesse matado há muitos anos —, Richard estaria morto e enterrado após contar a Cathrine os planos de Bernadotte para com a Dinamarca. Mas isso foi antes deles... Richard aperta a mão de Cathrine e dá uns tapinhas.
A expressão de Robert, porém, não revela nenhuma esperança... Ou ele simplesmente não sabe o destino da Dinamarca-Noruega. O silêncio acaba se instaurando entre eles, sendo escutados apenas o vento e a bengala de Robert batendo no chão.
— Mas você está certo, Robert — até que o marquês fala, chamando a atenção do irmão —, não sobrou ninguém para ajudar o usurpador.
— A Saxônia está sob ocupação aliada, enquanto Württemberg e Baden desertaram. — Dando os ombros, Robert ainda acrescenta... confiante: — Como eu disse, Richard: Hanau foi uma derrota, e apenas uma derrota.
— Já Leipzig foi um espetáculo das nações. — Literalmente, uma batalha das nações.
O trio continua andando pela alameda, até que chegam em frente a fonte... E Richard sente Cathrine apertando o braço dele, o que não seria anormal, porém ela subitamente para de andar.
— Algum problema, Cathrine? — ele questiona, segurando o queixo dela... e franzindo o cenho. — Está pálida!
— É só o frio, certamente. — Pegando a mão dele e apertando, ela força um sorriso para Robert. — Jamais vou perdoar Sophia por não vir também.
— Urgências a mantiveram em Kensington. — Mas Robert não retribui o sorriso, compartilhando da preocupação do irmão. — Tem certeza que está bem, Cathrine?
A marquesa assente e sinaliza para eles continuarem. Logo a fonte é cruzada e fica para trás.
— Confesso que há algo que me preocupa em relação a Hanau. — Robert franze o cenho para Richard, que fala: — A participação bávara.
— Eu não ficaria tão preocupado assim. — Mas Richard morde os lábios, fazendo Robert negar. — Eles só estão desesperados pela aprovação austro-russo-prussiana.
— Talvez, mas Niedersieg... — E Cathrine volta a parar. — Não acha melhor... Cathrine!?
Os olhos da marquesa rodam e ela quase cai no chão, sendo amparada por um desesperado Richard. Um desmaio... Logo a tensão instaura-se nos jardins e o caos vem em seguida...
*****
Carlton House, Londres
— Quem faz mais o gosto da princesa? O "Slender Billy" ou "Silly Billy"? — A zombeteira voz de Lord Petersham ecoa pela sala, mas não acaba: — A "laranja" ou o "queijo"?
E o visconde começa a rir, mas tão altamente que gera a fúria do príncipe regente, que toma o folheto dele e amassa.
— Não leia esse tipo de fofocas na minha casa! — O príncipe joga o papal na lareira e semicerra os olhos na direção do visconde. — Estou entendido, Petersham!?
— Seja complacente, meu amigo, por favor. — Mas Lady Hertford intervém, embora não deixe de negar para o visconde. — Você sabe como Petersham é.
— Pouco me importa — retruca o príncipe, deixando a marquesa e pegando uma carta. — Garota tola! Continua em sua recusa; parece até Caroline!
— Lembra-me um pouco o próprio príncipe — Lady Hertford fala, ganhando um censurador olhar do príncipe. — Seja mais gentil e logo ela se curvará.
— Ou talvez não. — Tanto o príncipe quanto a marquesa franzem o cenho para Petersham. — Que motivação ela tem para casar? O príncipe, pelo menos, queria pagar dívidas.
E Petersham certamente que deseja ser expulso do círculo de Carlton House. Mas o príncipe regente apenas respira fundo e, negando para Petersham, começa a ler novamente a carta. Qual o problema de Charlotte com sapos?
— Os holandeses logo se revoltarão contra a França e restaurarão o príncipe de Orange — o príncipe fala, sentindo o braço de Lady Hertford no seu. — Devemos agir agora e nos beneficiar dessa restauração.
— Com um casamento que fortaleceria nossos laços com a Holanda. — Embora a marquesa tenha suas próprias motivações egoístas. — Fale com bondade.
— Já estou sendo extremamente bondoso e complacente! — O príncipe amassa a carta e sussurra entre dentes: — Como nunca antes na vida.
Tudo para casar Charlotte com o jovem Orange. De fato, a princesa Charlotte está sendo extremamente inflexível em sua recusa, tanto que nem mesmo a intervenção da princesa Sophia foi capaz de fazê-la mudar de ideia.
O silêncio instaura-se na sala, embora não completamente por causa de Petersham e seu rapé. Isso até que...
— Que tal um jantar? — sugere Lady Hertford, ganhando um olhar franzido do regente. — Sim, um jantar em Carlton House! Onde a princesa Charlotte e o príncipe-hereditário de Orange estão presentes e sentados juntos.
Houve aquela fracassada festa de aniversário em agosto, mas Orange foi coagido a ficar beber demais... Assim como o príncipe regente e a maioria dos cavalheiros... Os olhos do príncipe brilham com a sugestão.
— Charlotte não terá como recusar — ele sussurra, sorrindo amplamente e abraçando a marquesa. — Você é esplêndida, Isabella! Vamos oferecer um jantar!
Charlotte e Willem ficarão juntos e o casamento... finalmente será uma realidade!
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
Não há ninguém... Está totalmente vazio... É até surpreendente isso, mas... também melhor. Cathrine abre os olhos e encara fixamente o dossel da cama, tentando entender o que aconteceu nos jardins. Foi um mal-estar tão súbito que... Ela simplesmente fechou os olhos e acordou no quarto.
— Sinceramente, não sabemos ao certo. — Cathrine, porém, escuta uma voz vinda da antecâmara... É Lady Newport. — Mas está cada vez mais comum.
— Inicialmente pensávamos até que era melancolia, mas... Ela está tão feliz! — Agora é Lady Cavenbush. — Claro que percebemos a palidez, os enjoos e...
Palidez, enjoos e tontura, além de um maior apetite e mudanças bruscas de humor... Será que ela está louca? Ou será...? Sim, ela só pode estar louca!
Levando lentamente da cama, Cathrine se aproxima da penteadeira e começa a analisar o próprio reflexo. Sophia comentou anteriormente sobre a aparência alegre dela, mas o que ela vê... Cathrine coloca uma mão no seio, parece tão maior, sensível... e cheio...
Talvez esse desmaio a tenha deixado louca... Feito ela perder o juízo, mas... Os sinais... Palidez, enjoos, apetite e... Cathrine encara fixamente o reflexo da sua barriga. De fato, é uma loucura!
— Bem, ainda não sei ao certo — o Dr. Markson fala, encarando o ansioso Richard. — Talvez um exame.
— Não será necessário, Dr. Markson! Já sei o que tenho! — Mas Cathrine adentra na antecâmara, sorrindo largamente e... — Estou grávida!
Ninguém ousa respondê-la... A perplexidade toma de conta da antecâmara. Até que Richard... Ele simplesmente começa a rir e abraça Cathrine.
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