Era Uma Vez... Uma Ilusão
44 43. Seus conselhos foram muito úteis, meu príncipe. Não pelo povo, mas pela força.
Final de dezembro|1812 Palácio de Inverno, São Petersburgo
Em pé no meio da sala, o príncipe Volkonsky lê para o imperador e sua família o último boletim emitido por Napoleão Bonaparte sobre a Campanha Russa. Os franceses acabaram de deixar o império russo e esse boletim...
— "A saúde de Sua Majestade nunca esteve melhor." — e Volkonsky conclui o boletim, fechando os olhos e negando. — Surpreende-me o narcisismo desse demônio.
— Surpreende-me ele aceitar, mesmo que veladamente, a derrota — a imperatriz Maria responde e, pegando o boletim, volta a lê-lo. — "Até 06 de Novembro o tempo estava bom"... Que bela desculpa!
— Devemos reconhecer o quão favorável o inverno foi para nós. — Mas todos, a não ser Anna e Nicholas, parecem ignorar Mary, que acrescenta: — Dificilmente teríamos vencido sem ele.
Quase certamente eles seriam derrotados e Mary nesse momento estaria sujeitando-se ao corso. Claro que o exército russo mostrou-se extremamente competente, mas não existe arma melhor que a natureza.
Mas, novamente, ela é ignorada. A imperatriz Maria, por exemplo, parece totalmente imersa na leitura do boletim... Qual será a reação dos franceses, hein?
— O importante é que vencemos e a paz foi restaurada — a imperatriz viúva fala, voltando-se séria ao imperador. — Não estou certa, Alexandre?
E toda a atenção volta-se ao imperador, cuja expressão é anormalmente taciturna. Mas essa é a nova realidade, pelo menos desde o início da invasão. De qualquer forma, as coisas certamente voltarão ao normal agora... Não voltarão?
Levando uma mão ao queixo, Alexandre começa a vagar pela sala, obrigando todos a ficarem em silêncio. Até que...
— Napoleão Bonaparte veio da França com uma força esmagadora, mas retornou derrotado e com mais de meio milhão de soldados perdidos... — Todos franzem o cenho para Alexandre, que sussurra: — O Grande Armée está aniquilado.
— E o que isso significa para nós? — a imperatriz Elizaveta questiona.
— Que a guerra não acabou, ela só mudou de foco — Nicholas responde, ganhando um assentimento do imperador. — Nossos generais continuarão atrás dos franceses... Mas até onde?
— Até Paris. — Toda a sala, desde Mary a Volkonsky, arregalam os olhos. Alexandre, porém, sorri exultante. — E eu mesmo irei liderá-los!
E o horror instaura-se na sala. A grã-duquesa Anna abraça ofegante de medo a imperatriz Maria, enquanto Elizaveta e Volkonsky começam a questionar Alexandre sobre essa decisão. Seguir os franceses até Paris? Iniciar outra campanha, mas dessa vez...
— Um contra-ataque russo — Mary sussurra, trazendo a atenção de Nicholas. — Mas e quanto ao resto da Europa? Como ela reagirá?
É o bastante para ela chamar alguma atenção... Até que Mikhail pergunta se poderá ir junto e ela volta a ser ignorada. Mas a pergunta continua: no que isso resultará?
*****
Março|1813 Oldenburg House, Londres
— A Prússia está prestes a entrar em guerra com a França! — exclama Karinberg, olhando para todos com expectativa e rindo. — Nossa inteligência apurou até que só falta a declaração oficial de guerra.
— Isso se já não tiver sido emitida. — Os outros ministros assentem para o calmo Eden.
— Agora é Rússia, Suécia e Prússia, além da Grã-Bretanha, claro — o barão von Frieden aponta e, voltando-se ao marquês, acrescenta: — Estamos vendo uma nova Coalizão sendo formada, meu príncipe!
E ações devem ser tomadas, não? Todos os olhares voltam-se na direção de Richard, cuja expressão é calma e pensativa. Uma nova Coalizão... Uma nova guerra...
— É visível que agora as coisas estão diferentes; Bonaparte não é invencível. — Desde Aspern-Essling isso está provado. Porém... Richard respira fundo e nega. — Mas a incerteza ainda é muito grande.
Os riscos que eles correm... Richard cobre o rosto, tentando não pensar nisso. Mas os ministros se entreolham e começam a sussurrar entre si.
— O imperador Franz retomou o contato conosco, meu príncipe — o conde O'Ryen fala e, sorrindo confiante para Richard. — Temos o apoio austríaco...
— Temos o apoio do imperador, não da Áustria! — Os ministros negam para Richard, que lembra: — Metternich ainda não tomou uma posição.
— Mas decidiu manter a Áustria neutra — retruca Eduard Carrelli, obrigado Richard a franzir o cenho. — Isso mostra dúvida e nossa principal aliada é justamente a dúvida.
A confusão de Richard apenas aumenta, principalmente quando os outros assentem na direção de Carrelli. Mas... Será que eles não podem tentar entendê-lo!? Não percebem que um passo em falso e tudo pode resultar num desastre!?... Ou será indecisão da parte dele?
Os pupilas do príncipe dilatam com tal pensamento, e, inconscientemente, ele nega. Isso enquanto os ministros esperam em silêncio por uma resposta, uma decisão... Ou negativa, como sempre. Até que Karinberg...
— Tenho planos, meu príncipe. — Richard franze o cenho para o coronel, cujos olhos brilham de expectativa. — Inúmeros planos para restabelecermos nosso poder...
— Metternich jamais concordaria com uma revolta. — É demais para ele... Karinberg abre a boca em protesto, porém Richard levanta a mão. — Mas confesso que... Estou dividido.
Parece, de fato, que o tão esperado momento chegou. Mas o medo... Respirando fundo e arrumando-se na cadeira, Richard sinaliza para os ministros deixarem a sala. Essa reunião já durou mais do que deveria e por algo bem simples: uma nova guerra entre ex-aliados.
— Respeitaremos sua decisão, meu príncipe — responde von Eden, levantando da mesa e dando os ombros. — O que é um quando já suportamos seis?
Richard franze o cenho para von Eden, que faz uma mesura e deixa a sala com Carrelli e O'Ryen. Mas deixando para trás um Richard muito afetado. Foi algum tipo de provocação?... Ele, porém, logo percebe o fixo olhar de Karinberg.
— Pense nos planos, meu príncipe — o coronel fala, também fazendo uma mesura.
E logo o príncipe é deixado sozinho, nem mesmo o excepcionalmente calado von Frieden decide ficar e "dialogar". Mas é melhor assim... Richard fecha os olhos e suspira; é o momento para ele pensar... e buscar ajuda.
*****
Palácio de Hampton Court, Londres
Entrando numa perfeita fila na sala de visitas, os criados da marquesa trazem bandejas com chá, bolos e chocolate quente. Uma bela fartura financiada principalmente pelas colônias no Caribe e no Brasil. E nada mais "justo", eles estão lutando na Península Ibérica pela Espanha e Portugal.
— Agradeço profundamente pela sua ajuda, minha senhora. — A atenção de Cathrine volta-se a Lady Cottington, que acrescenta sorrindo: — As crianças em Northbury agradecem.
O orfanato... Cathrine esboça um pequeno sorriso e, após os criados deixarem a sala, põe-se a servir o chá.
— Fico feliz em saber que sou útil para alguma coisa. — Já que como mãe... Suspirando, ela entrega uma xícara a baronesa. — O mundo corre, mas as vezes sinto que continuo parada.
— É normal sentimentos assim. — Cathrine ri ao escutá-la. Será mesmo? Mas Lady Cottington sorri. — E quando nos fará uma visita a Northbury?
— Nós? A milady fala como se morasse lá — Lady Paston aponta, entristecendo o sorriso da baronesa.
— Passo tanto tempo lá que às vezes sinto assim — sussurra Lady Cottington, rapidamente negando e voltando a Cathrine. — A Srta. Elton e a Srta. Martha Elton ficarão muito gratas.
Cathrine franze levemente o cenho com as palavras de Lady Cottington. São mulheres que administram o orfanato? É normal isso em escolas para moças, mas... um orfanato?... É muito curioso.
— Talvez eu faça uma visita algum dia. — E, acabando de servir o chá, ela fala num dar de ombros: — Tempo é o que não me falta agora.
Sem ânimo, sem deveres e sem filho... Realmente, o que sobra para ela fazer? Administrar a casa e encontrar alguma instituição de caridade para ajudar, porque até nisso há quem faça melhor. Mas é melhor acreditar que as coisas estão voltando ao normal, embora...
O silêncio instaura-se na sala e Cathrine não faz esforço algum para findá-lo. Lady Cottington não parece incomodada, enquanto as cinco damas de companhia...
— O protegido dos York chegou são e salvo na Espanha, minha senhora. — Estão como sempre. Lady Castlereagh amassa a carta e bufa. — Charles Hesse... Quem se importa?
— A duquesa, aparentemente — responde Cathrine, bebendo do chá e franzindo o cenho. — Ele é tão bonito e encantador quanto dizem?
Deve haver algo que o faça tão popular na alta sociedade, embora certamente não seja rumores de ilegitimidade. Lady Cottington abre a boca para respondê-la, porém...
— O marquês chegou, senhora. — O barão Maurs entra na sala, acrescentando também: — E os Kendal não virão mais hoje, a princesa Sophia está indisposta.
Certamente que está, e com as pernas tremendo também, com certeza. Mas Cathrine simplesmente dispensa o barão com um aceno, um gesto tão desprovido de animação que chama a atenção de Lady Cottington.
— E quanto a milady? — Mas Cathrine percebe e age antes de qualquer pergunta. — Feliz pelo novo neto? É o oitavo, não?
— Nono; são minha maior alegria. — a baronesa fala sorrindo, embora o mesmo não possa ser dito de Cathrine. Casados desde 1798... — E quanto a senhora?
— Passou do meu tempo — imediatamente responde Cathrine, tentando manter a voz suave —, é com Sophia agora.
— Mas pode acontecer. — Uma estéril engravidar? Cathrine franze o cenho para Lady Cottington, que acrescenta: — Foi uma surpresa a última vez de Katherine.
Não conseguindo evitar, sequer tentando, Cathrine começa a rir. Lady Cottington a está comparando com... a sogra!? Isso é hilário, totalmente ridículo! Com certeza Katherine e Wilhelm tinham mais momentos íntimos que ela e Richard têm agora.
Uma gravidez... Cathrine continua rindo, até que a diversão se torna melancolia. Seria maravilhoso um milagre desses...
— Quem sabe, não é? — sussurra Cathrine, cobrindo o rosto e suspirando. — A baronesa Linzmain e a Sra. Karinberg já chegaram, Georgina?
É melhor colocar um fim nesta visita. Lady Cottington logo é conduzida por Lady Chartents para a saída. Permanecendo na sala, Cathrine fecha fortemente os olhos e tenta não ser dominada mais ainda pela tristeza.
*****
Início de abril|1813 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg
Sussurros nada discretos são escutados desde a sala de reuniões. Seus donos são os ministros do rei, que discutem com o soberano os últimos acontecimentos no norte da Alemanha e Prússia. É baixo o suficiente para não deixar a sala, porém...
— Mais homens!? Bonaparte sabe ao menos quantos soldados württembergers retornaram da Rússia!? — É Friedrich von Phull, o Ministro da Guerra. — Meu rei, por favor, o nosso exército está lamentável!
Baixo o suficiente para não sair da sala, porém alto o bastante para Anne escutar ao lado da porta entreaberta. Nada digno, de fato, mas às vezes é preciso deixar a dignidade de lado.
Não há ninguém na antecâmara, pelo menos. Porém, só por garantia, Anne segura um maltês no colo — o único cão da rainha pequeno e, ironicamente, calmo o suficiente —, bem como uma bola.
— Está claro que Bonaparte nos vê apenas como um objeto — o conde von Zeppelin fala, questionando logo em seguida: — Não acha que está na hora de reconsiderarmos nossas alianças, meu rei?
— Reconsiderar? — o rei pergunta, embora num tom anormalmente plácido. — O que está sugerindo com isso, Zeppelin?
— Abandonar a aliança francesa seria perigoso demais! — Mas o conde von Reischach impede qualquer resposta do Ministro do Exterior. — Devemos optar pela neutralidade...
— A Lei da Confederação do Reno nos obriga a fornecer tropas ao demônio — o rei volta a falar, calando o Ministro do Interior. — Estou mais preocupado com as revoltas no norte...
Revoltas? No norte da Alemanha? É uma região governada diretamente pela França... Isso é novo; tudo é novo, na verdade. As últimas notícias que Anne conseguiu foi sobre as tropas realocadas da Espanha para a Alemanha e a retirada de Joseph Bonaparte de Madrid.
Mas revoltas ao norte...? O que causou isso? A simples insatisfação não tem tamanho poder... Ou tem? Anne aproxima-se mais ainda da porta. Até que um braço surge na frente dela e a fecha com força, fazendo-a recuar assustada e...
— Não sabia que você gostava de espiar. — Franzindo o cenho, Anne coloca o maltês no chão e joga a bola... Fritz.
Ele a encara complacente, quase exibindo um sorriso, embora também haja uma certa seriedade. Mas Anne respira fundo e, arrumando o xale nos ombros, toma uma arrogante expressão.
— Que outra opção tenho além de espiar? — Perguntar diretamente? Fritz arqueia a sobrancelha, mas Anne logo pergunta: — Quais as notícias da guerra?
— Morand se rendeu em Lüneburg e Beauharnais perdeu em Möckern. — É impossível para Anne não sorrir. Mas Fritz também sorri... zombeteiro. — Belgärd não lhe notificou?
— Anton tem andado muito estranho comigo ultimamente — ela responde, virando o rosto e sussurrando: —, mais até que o normal.
Começou logo após a partida de Ludwig. Inicialmente Anne cogitou ciúmes, mas quem Anton é para sentir ciúmes dela? Deve ser outra coisa... Anne fica pensativa, até que Fritz aproxima-se mais ainda dela.
— Creio que já tenha percebido os espiões francófilos — ele fala e, pegando delicadamente a mão dela, nega. — Tome cuidado, Anne, as coisas estão prestes a mudar drasticamente.
— As revoltas...
— Estão no norte da Alemanha, e já sendo reprimidas. — Reprimidas? Mas como isso gerará mudanças!? Fritz aproxima-se do pescoço dela e sussurra: — A verdade é que a guerra começou desfavorável ao demônio.
— Deus ajude que continue assim. — Anne praticamente esquece da proximidade dele. Até que Fritz toca o rosto dela. — Mas o que pensa estar fazendo!?
Empurrando violentamente Fritz, Anne recua para trás e o encara furiosa. Como ele ousa tocá-la sem permissão!? Mas o olhar dele, surpreendentemente, é apenas doloroso.
— Você está pálida — ele aponta, preocupado.
— Sinto-me fraca, Fritz. — E a preocupação aumenta. Mas Anne nega num suspiro — Fique tranquilo, é apenas medo e ansiedade.
Que, queira Deus, logo serão substituídos por sentimentos melhores. Sim, mudanças logo ocorrerão na Europa e tudo ficará bem novamente. E Anne logo pega novamente o maltês da rainha e deixa a antecâmara, enquanto Fritz entra na sala de reuniões.
*****
Abril|1813 Palácio de Kensington, Londres
Servindo-se com um pouco de conhaque, Richard suspira cansado e se aproxima de uma das janelas da sala azul. É uma bela visão que Robert e Sophia têm dos jardins, dá até para ouvir os pássaros cantando. Um interessante contraste com a própria austeridade deles.
A atenção de Richard está apenas nos jardins, até que ele escuta uma bengala batendo no piso de madeira e a porta sendo aberta...
— Pois bem, qual o problema? — Voltando-se para trás, Richard arqueia a sobrancelha, fazendo Robert acrescentar: — Já é a quarta vez em dois meses que você nos visita, sei que há um problema.
— Não posso simplesmente desejar vê-lo? — Agora é Robert quem arqueia a sobrancelha. Richard bebe o conhaque e dá os ombros. — Você está certo, de qualquer forma... Por que da bengala?
— Preciso dela para produzir herdeiros. — Richard franze o cenho, mas Robert senta numa poltrona e explica: — Minha perna dói e não sou nenhum virgem para sentir dor.
Oh, a perna dele ainda dói... Richard bebe o resto do conhaque e senta num sofá ao lado de Robert. As coisas não têm sido nada agradáveis desde... Bem, a perna e os herdeiros. Richard envergonha-se bastante daquele dia, embora deseje profundamente perguntar onde estão os...
— E quanto a Sophia...?
— Vá logo ao ponto — retruca Robert, massageando a cabeça... e levantando a mão em seguida. — Não, melhor ainda, deixe-me adivinhar... Niedersieg!
A ironia de Robert é tamanha que Richard... O perdão não chegou, mas não é como se ele tivesse pedido perdão mesmo... Respirando fundo, Richard cruza as mãos e fala:
— Meus ministros esperam que eu tome uma ação referente a Niedersieg. — Robert assente, enquanto Richard engole em seco. — Estou dividido, por isso desejo... bem...
— Diga — sussurra friamente Robert, fazendo-o fechar os olhos.
— D-desejo que me aconselhe! — ele exclama, ganhando um sorrisinho desdenhoso do irmão. — Devo ou não escutar meus ministros?
Melhor ainda, ele deve ou não iniciar uma revolta em Niedersieg. Robert se diz um estadista, não é? Que agora ele se prove um então. Richard encara fixamente o irmão, cuja expressão torna-se pensativa.
— Você tem medo e deseja agir somente quando tiver certeza da vitória. — Há outra opção? Robert acrescenta: — Mas a guerra já começou e a Coalizão já está vencendo.
— E quantas dessas guerras não começaram com vitórias da Coalizão? — questiona Richard com ironia. — Hoje ganham, amanhã perdem.
— Mas é diferente agora — Robert afirma, fazendo Richard arquear a sobrancelha. — Todas as cartas do usurpador estão na mesa; sabemos como ele joga.
— Tanto que ele perdeu na Rússia — sussurra Richard em concordância... Mordendo os lábios e negando. — Mas a Áustria...!
— Está neutra, e, consequentemente, também aberta a negociações.
Há tanta certeza nessas palavras que nem parecem imediatas, mas sim ponderadas com antecedência. Porém, respirando fundo, Richard levanta e serve-se com um pouco mais de conhaque. Ele deveria começar a beber também antes das reuniões.
— E Metternich? — Richard volta-se a Robert e ainda acrescenta: — Ele jamais concordará com nossos meios!
— Não da forma como estamos planejando. — É o bastante para fazê-lo franzir o cenho. Robert dá os ombros. — Envie alguém de confiança, um nobre conservador, e tudo acabará bem.
Nem tudo na Áustria resume-se simplesmente a reacionismo. As palavras de Robert, porém, realmente tocam Richard. É uma reafirmação clara da realidade. Mas ainda é tão arriscado...
— Seja rápido, Richard, e não pense muito nas consequências. — Richard encara fixamente Robert, que acrescenta sério: — A Baviera mudará de lado quando a França for derrotada e então será tarde demais para Niedersieg.
É um aviso ou ameaça?... Não, na verdade é simplesmente a mais pura realidade. É agir agora... Ou não agir nunca... Richard bebe todo o conhaque do copo e assente para Robert; ele sabe o que fazer agora.
*****
Final de abril|1813 Harwich, Essex
O cais do Porto de Harwich encontra-se profundamente agitado. Navios de guerra encontram-se ancorados para reparos no estaleiro do porto, enquanto a presença de soldados sendo enviados para a Guerra Peninsular e os gritos dos marinheiros é marcante.
Outra coisa marcante são os voluntários galeses e escoceses — todos usando o típico branco e dourado da Guarda Germânica — ajudando a abastecer o HMS Clio, o brigue que os levará para Rostock.
— Nos foi prometido pelo tio da princesa, o duque de Mecklenburg-Schwerin, passagem segura pelo país. — Próximo ao brigue, o coronel Karinberg reúne-se com Linzmain e seus colegas ministros. — Depois cruzaremos a Prússia e Boêmia rumo à Viena.
— Mas todos esses homens armados não chamarão atenção? — a Sra. Karinberg questiona, segurando o braço do marido.
— Parte deles irá disfarçada de criados. — É o bastante para ela franzir o cenho. Mas Karinberg suspira na direção dos homens. — Na verdade, esses ainda são é pouco.
Podem até parecer muitos, mas estão no limite entre pelotão e companhia. O bom é que mais homens estão sendo preparados na Alemanha, o que equilibrará um pouco as coisas.
Mas a atenção do coronel logo retorna aos ministros e Linzmain. É o tão esperado momento deles, então...
— Tome cuidado com Metternich, Karinberg — o barão Linzmain avisa, tão sério quanto pensativo. — Sugiro que foque no círculo imperial, principalmente na imperatriz.
— Maria Ludovika odeia Bonaparte tanto quanto Maria Theresia odiava — acrescenta Eduard Carrelli, sugerindo também: — Use esse ódio a nosso favor.
Porém nunca o incitando a ponto de gerar a inimizade de Metternich. Muito eles discutiram sobre Metternich e a influência dominadora que ele possui sobre o imperador. Nessas discussões, porém, eles chegaram a uma simples conclusão: os Tudor-Habsburg são importantes demais para serem relegados ao mediatismo.
Mais algumas informações e palavras são trocadas entre os homens, até que o brigue é abastecido e... Uma bengala batendo no chão chama a atenção dos homens, que voltam-se na direção do... príncipe Robert.
— O príncipe lhe deseja boa sorte, Karinberg. — Robert fala e, encarando fixamente o coronel, acrescenta: — E deseja também que você não falhe, ele não terá misericórdia dessa vez.
— Garanto que tudo sairá como o planejado, meu príncipe. — Inicialmente sério, o coronel então sorri arrogante. — Já está saindo.
— De fato... Afinal vocês conseguiram, não? — A arrogância torna-se uma confusão compartilhada pelos outros. Agora é Robert quem sorri. — Mas qual é o plano?
Esse detalhe não foi compartilhado, não com Robert. Karinberg troca um olhar com von Frieden e von Eden, eles assentem.
— Que os austríacos invadam a Baviera — o coronel responde, fazendo Robert franzir o cenho. — Seus conselhos foram muito úteis, meu príncipe. Não pelo povo, mas pela força.
— Nunca saiu de minha boca liberal tais palavras — retruca Robert, arqueando a sobrancelha e... assentindo. — Disponha.
Após mesuras ao príncipe, o coronel e a Sra. Karinberg finalmente embarcam no brigue. Parece tanto algo visto anteriormente... Porém tão diferente...
— Muito obrigado pela ajuda, meu príncipe. — Robert volta-se sério ao barão von Frieden, que acrescenta: — Sua confiança é...
— Estou apenas garantindo a fortuna da minha família, nada mais que isso. — E se for preciso usar da força, que assim seja. Mas... — O que garante o sucesso dele?
Deve haver uma garantia, não? Normalmente os alemães são muito leais as suas dinastias, mas como ser leal a alguém que nunca nem pisou no próprio domínio? É necessário algo a mais, mas o quê?
— Os abusos, a insatisfação, a instabilidade e, acima de tudo, o preconceito — o barão Linzmain responde. — Juntos, todos esses ingredientes não apenas salvarão Niedersieg, como destruirão Napoleão Bonaparte.
É tudo o que Robert precisa, e o que Richard ficará satisfeito em escutar. A destruição de Napoleão Bonaparte e a tão esperada paz e ordem.
*****
Início de julho|1813 Palácio de Inverno, São Petersburgo
— Um armistício em Pläswitz? — Sentando no recamier onde confortavelmente deita, Mary franze o cenho e questiona: — Quando isso foi acordado?
O tenente-general Matvey Lamzdorf não aguenta encará-la e abaixa a cabeça, o que apenas aumenta uma crescente desconfiança no coração de Mary. Até que o general engole em seco e...
— No mesmo dia da derrota francesa em Luckau, madame.
— Luckau? Mas foi no início de junho!? — ela observa, encarando Lamzdorf com uma mistura de fúria e confusão. — Por que não fui informada antes!?
— A imperatriz Maria não queria estressá-la, madame — o general instantaneamente responde, negando veemente. — E o próprio tsarevich Konstantin pediu que...
— Pouco me importa o que Konstantin pede ou deixa de pedir. — Mary levanta do recamier e aproxima-se ameaçadoramente do general. — Quando exijo informações é porque tenho dúvidas, e quando tenho dúvidas é bom que elas sejam sanadas.
Tudo não passa de sussurros, mas ditos com tanta fúria contida que Lamzdorf recua assustado.
— Sou apenas o tutor dos grão-duques Nicholas e Mikhail, madame. — Ele está se esquivando? — Não...
— Saia da minha presença — sussurra pausadamente Mary, fazendo-o franzir o cenho. — Sua lealdade não está comigo, mas com eles. Saia!
Imediatamente o general faz uma mesura e deixa os aposentos da tsesarevna. Certamente que ele irá daqui para a imperatriz Maria. Fechando os olhos e respirando fundo, Mary volta para o recamier. Um armistício...
— Não acha que tratou muito duramente o velho Lamzdorf? — A atenção dela volta-se à porta, onde Nicholas entra. — Ele só estava cumprindo ordens.
— E você também, aparentemente — ela responde num tom ríspido. — Sempre que eu perguntava algo você simplesmente dizia "eu não sei".
— Porque você ficaria ansiosa! — defende-se Nicholas, aproximando-se dela. — Desejo sua cabeça pensando somente em mim.
É o bastante para fazê-la franzir o cenho. Mas Nicholas continua se aproximando... Até que Mary levanta novamente e se afasta. Talvez ainda falte nele um pouco de bom-senso, o que claramente não é automaticamente conseguido ao fazer 17 anos.
De costas para Nicholas, porém, Mary tenta focar na guerra e no armistício. Certamente que Nicholas tem mais informações do que ela, que sabe apenas das derrotas e vitórias.
— Este armistício traz algo bom, no entanto: revela que Bonaparte está desesperado. — E como não estaria? Mary nega. — Desde o início da guerra em janeiro os franceses só venceram duas vezes.
— E com muita dificuldade — acrescenta Nicholas, ganhando um assentimento de Mary.
Mas deve haver um motivo, não? Claro que a derrota é um grande motor para o desespero, mas deve haver algo a mais. Além de que a Rússia e Prússia não aceitariam um armistício tão gratuitamente assim.
— Já lutamos tanto e a vitória também cansa — sussurra Mary, pensativa, voltando-se em seguida para Nicholas. — O que aconteceu mais desde o armistício?
— Bem, Metternich quem o propôs. — Claro que sim. A Coalizão está seduzindo a Áustria. — E propôs também um congresso em Praga...
— Congresso!? — Mary exclama, franzindo o cenho com... fúria. Ela avança na direção dele. — Pergunto-me quais outras coisas vocês estão omitindo de mim!?
A fúria dela é imensa, chega a ser furiosa. Mas é o silêncio que instaura-se entre os dois. Nicholas só consegue encará-la, tão assustado e com os olhos arregalados que...
— Eu te amo! — Agora são os olhos dela que arregalam, mas em horror. Mary tenta se afastar, mas Nicholas agarra a mão dela. — Os outros eu não sei, mas... Mary, eu te amo!
O horror dela aumenta e... Mary só consegue negar. Significa 17 anos também impulsividade e loucura!? Mas o sorriso fraco de Nicholas continua, bem como o aperto.
— Talvez eu seja um iludido, Mary, mas eu te amo desde os 13 anos. — Oh Deus! Mary continua negando, mas em silêncio. — Diga algo, por favor.
— Saia daqui — ela sussurra, afastando-se a fazendo-o franzir o cenho. — Estou enojada comigo mesma! Sou o objeto de desejo de uma... crianças!? Saia!
Nicholas até tenta responder, mas Mary cobre os ouvidos e, afastando-se, nega veemente. Ela não deseja ouvir nada dele; absolutamente nada! Logo Nicholas assente e a deixa sozinha.
*****
Julho|1813 Palácio de Hampton Court, Londres
Na sala de desenhos, Cathrine toca distraidamente a derradeira sonata para piano de Haydn. É um som incomumente harmônico e rítmico, embora também melancólico. Mas ninguém reclama, muito pelo contrário, Richard parece o suficientemente distraído com Robert e Sophia.
— As negociações em Praga que definirão o restante da guerra — aponta Robert, sendo servido com chá por Sophia —, mas é certo que ela continuará.
— O usurpador dificilmente aceitará os termos da paz. — Será que entre eles está a usurpação da Noruega pela Suécia? Sophia acrescenta: — A verdadeira questão é se a Áustria tomará o lado da Coalizão?
— Ela o fará, isso é certo — Richard responde, servindo-se com whisky na adega e voltam-se aos Kendal. — Metternich se comprometeu em Reichenbach a entrar na guerra caso as negociações em Praga falhem.
No último dos tratados de Reichenbach. Foi assinado por três das grandes nações, mas não pela Grã-Bretanha que ficou insatisfeita com o esquecimento da Espanha, Holanda e os antigos Estados Italianos. Mas dois acordos anteriores, também em Reichenbach, foram assinados pela Grã-Bretanha, Rússia e Prússia.
No final foi acordada a entrada da Áustria na Coalizão e que tudo na Europa voltará a ser como era antes da Paz de Pressburg.
— Mas e Niedersieg? — questiona Robert, chamando a atenção de Richard.
O silêncio instaura-se na sala azul, onde só não é perpetuado pela música que Cathrine toca. É uma provocação da parte de Robert.
— Richard não achou Karinberg adequado para lidar com questões dessa magnitude. — E toda a atenção volta-se a Cathrine, focada apenas nas teclas. — Perdemos uma oportunidade.
— Somente as grandes nações estavam representadas em Reichenbach — afirma Richard, tomando do whisky e negando. — E Karinberg não é diplomata, mas militar.
— Sir Charles Stewart também, mas ainda assim você confiou nele. — O marquês franze o cenho para Cathrine, que acrescenta, ainda encarando as teclas: — E qual o resultado? Ele "esqueceu" de Niedersieg!
O irmão de Lord Castlereagh "esqueceu" deles! O olhar de Richard fica furioso... Apenas para logo em seguida ele virar o rosto e se afastar. Mas Cathrine... Em toda essa situação os olhos dela continuam no piano, nunca se desviam dele.
E o silêncio se instaura, agora realmente sendo absoluto. Robert troca um olhar com Sophia e, suspirando, fala:
— Não precisamos de Reichenbach para libertar Niedersieg, e nem das grandes nações. — Tanto Richard quanto Cathrine voltam-se na direção dele. — Basta o apoio da Áustria, que Karinberg conseguirá em Viena.
— Um apoio que já está praticamente garantido — Sophia acrescenta, forçando-se a sorrir confiante. — Apenas esperemos pelos resultados de Praga.
Que outra opção eles têm? Cathrine retorna ao piano e volta a tocar. E logo as conversas voltam ao normal, embora Cathrine continue afastada, até que dá duas da noite e, com Robert e Sophia decidindo pernoitar em Hampton Court, todos se recolhem.
Após ser vestida para a noite pelas damas de companhia, Cathrine deita na cama e espera por Richard. É dias deles dormirem juntos e... O marquês entra no quarto e deita ao lado dela na cama. Os dois ficam em silêncio no escuro.
— Bem, mais uma noite concluída, não? — Cathrine mantém o silêncio. Richard respira fundo e sussurra: — Posso ser sincero com você?
— Estou sendo cruelmente sincera com você — ela responde, sem qualquer emoção. — Retribua.
Mas nada é dito. Cathrine chega a pensar que não é nada, apenas uma tolice que passou. Mas Richard se aproxima dela e, segurando-a pelo queixo, a vira na direção dele.
— Você os escuta? — pergunta Richard num sussurro, fazendo-a franzir confusamente o cenho. — Dá para escutar, até sentir no ar... Robert e Sophia estão fazendo amor.
— E o que nós temos haver com isso?
— Quero você, Cathrine. — Richard acaricia o rosto dela e se aproxima. — Quero fazer amor com você.
E ele a beija nos lábios... Mas Cathrine simplesmente o afasta e, virando-se para o outro lado, cobre-se com as cobertas. Ele deseja, mas ela não. A frequência com que isso está ocorrendo é... infeliz. Mas Richard apenas fecha os olhos e também se afasta.
*****
Agosto|1813 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg
Praticamente caindo na cama, Anne encara perplexa a rainha, cuja expressão é ansiosa. Anne tenta falar, ela até abre a boca, porém não consegue. Está longe de ser uma surpresa, claro, mas...
— A Áustria declarou guerra à França — Anne repete, quase não acreditando nas próprias palavras.
— As negociações em Praga falharam e... Bonaparte só queria tempo para reunir mais tropas. — Resultando em mais um inimigo. A rainha senta ao lado dela. — A guerra vai recomeçar.
— E agora com a Coalizão completa. — Rindo, Anne pega as mãos da rainha e sorri amplamente. — Quero gritar de alegria, Charlotte! Logo estaremos livres!
Bonaparte será humilhado e a Europa voltará aos eixos. Anne mal consegue segurar a alegria, é um alívio elas estarem nos aposentos da rainha. Mas Charlotte... Anne logo percebe, ela continua ansiosa.
— Livres, de fato... — Fechando os olhos e negando, a rainha questiona: — Mas a que preço?
— Como assim "a que preço"?
— Estaremos livres dos franceses, mas o que será de Württemberg!? — A rainha não aguenta e, soltando as mãos de Anne, levanta e se afasta. — Tenho medo das consequências por termos permanecido ao lados dos franceses.
— Duvido que a Coalizão nos trate com muita severidade. — Sorrindo calmamente, Anne ainda lembra: — Württemberg é uma das mais antigas casas alemãs.
— O que não nos isenta de represálias — afirma a rainha, encarando-a com preocupação. — Friedrich teme que voltemos às fronteiras anteriores a 1806... Ou pior, que sejamos rebaixados!
É o bastante para diminuir o sorriso de Anne, cuja expressão torna-se pensativa. Quanto às fronteiras, isso pouco importa, mas o status... Há alguma chance de Württemberg deixar de ser um reino? Mas então o que seria, um ducado!?
Quando casou com Fritz, Anne sabia que não seria nada além de uma duquesa, mas... Foi a expectativa de ser rainha que a fez suportar todos esses anos de cabeça erguida!
— A guerra recomeçará e a Coalizão vencerá — Anne fala, pegando as mãos da rainha e encarando-a fixamente. — Novas batalhas ocorrerão e então ficará claro que Bonaparte perdeu.
— E nós também. — Mas ela nega para a rainha, que acrescenta: — Friedrich está mantendo Württemberg neutro, mas...
— O rei mudará de lado. — A rainha arregala os olhos com as palavras de Anne. — Cedo ou tarde isso acontecerá. Você, eu e Fritz vamos garantir isso.
A rainha sorri fracamente para Anne e assente. Mas logo esse sorriso morre, sendo substituído por preocupação.
— Fritz foi designado para cuidar das tropas em Heilbronn. — Afastando-se da rainha, Anne franze o cenho. Heilbronn? — E, caso necessário, ele comandará nosso exército na guerra do usurpador.
As palavras deixam a boca de Anne, que só consegue gaguejar e... Fritz... Liderando um exército? Mas por que ela não foi avisada!? Por que ele não se despediu dos filhos!? Tomada pela emoção, Anne deixa os aposentos da rainha e segue para os estábulos.
É algo quase instintivo, embora também desesperador. Os passos dela são rápidos, seus lábios tremem e os olhos... Anne arregala os olhos em horror assim que chega nos estábulos. O desespero é substituído pela vergonha... Fritz está beijando a baronesa von Keudelstein.
Sentindo-se um tola, Anne deixa em silêncio os estábulos e... Esta visão. Ela deve deixá-lo ir e lutar, ficando para trás com seus filhos. Fechando os olhos e respirando fundo, Anne tenta focar apenas na guerra. Embora uma pergunta seja persistente: e Niedersieg?
*****
06|09|1813 Dennewitz, Brandenburg
Projéteis barulhentos de luz cortam o céu noturno e atingem numa explosão de fogo as forças francesas. As forças da Coalizão, sobretudo a cavalaria e infantaria — lideradas pelo príncipe herdeiro da Suécia Bernadotte e pelo barão von Bülow — avançam contra os franceses em fuga.
A confusão e estrago que os Foguete Congreve fazem é imensa, o que é apenas acentuado pelos canhões da artilharia prussiana. A ordem do exército francês é destruída, e o resultado da batalha torna-se cada vez mais claro.
Horas atrás, quando a batalha começou, era impossível prever um lado vencedor, depois a vitória francesa parecia inevitável... Mas ela foi evitada, e de uma forma humilhante.
Se antes o marechal Bernadotte, como era conhecido antes, infligia derrotas à Coalizão, agora ele derrota os próprios franceses. O próprio marechal Ney é deixado confuso pelas explosões e fogo.
Tudo parece se perder, o exército francês só consegue recuar e sobreviver. Enquanto os foguetes e canhões atiram, destroem e explodem com toda a força. Dennewitz é uma batalha terrivelmente barulhenta... Mas seus resultados farão ainda mais barulho...
*****
Setembro|1813 Theatre Royal, Covent Garden
Entrando correndo no Theatre Royal, um mensageiro sobe as escadarias e segue com rapidez rumo aos camarotes. O mensageiro consegue escutar o som ópera apresentada no teatro, mas tão abafada que ele prefere ignorar.
Isso até que ele chega na porta de um dos camarotes e a abre, chamando imediatamente a atenção das damas e cavalheiros do marquês e da marquesa de Bristol, ambos focados demais no "The Soldier, tir'd of war's alarms" para prestar atenção nele.
Mas Lord Irvington se aproxima do mensageiro e escuta o que ele tem a dizer... Arregalando os olhos, o visconde aproxima-se do marquês. Uma ação que chama a atenção de todos nos camarotes ao redor, principalmente no dos ministros niedersiegers.
— A Coalizão venceu Dennewitz, senhor — Lord Irvington sussurra para o marquês, chamando também a atenção da marquesa. — Revoltas já estouraram no Tirol e... Karinberg marcha rumo a Niedersieg.
O marquês e a marquesa trocam um olhar, então o marquês olha de lado para o distante mensageiro e retorna ao palco.
— Dê um agrado ao garoto e depois mande-o embora. — Lord Irvington assente e assim o faz. Richard sussurra num suspiro: — Que Deus salve o nosso povo.
E a marquesa também retorna ao palco. A ária de "Mandane" está chegando ao fim, tornando-se mais forte e vocal. Uma representação da própria Europa, cujos protestos contra Napoleão Bonaparte tornam-se ainda mais furiosos.
Fale com o autor