Era Uma Vez... Uma Ilusão

43 42. Os franceses podem até reivindicar a vitória, mas seremos nós os vitoriosos aos olhos da história.


Início de outubro|1812 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg

— O rei parece irritado hoje, madame. — Os olhos da rainha Charlotte passam das cartas ao sorridente Oettingen-Wallerstein. — É algum problema particular?

— Se você considera a campanha russa algo particular — Anne responde e, sorrindo para a rainha, pega outra carta.

A rainha também sorri e pega uma carta, mas não nega. Não é necessário negar, sequer é possível. O rei pode até estar mais afastado, mas sua insatisfação é tão visível quanto a doença do conde von Normann-Ehrenfels.

— As notícias estão demorando muito para chegar e o rei odeia esperar — a rainha responde e suspira complacente para Ludwig. — Oremos para que esta demora acabe logo.

— E finalmente tomemos conhecimento do desastre. — Anton e Luise também encaram Anne, que acrescenta: — Ouvi dizer que nossas tropas estão sendo obliteradas.

— Pelos russos? — Ludwig questiona desdenhoso.

— Pelo inverno, meu príncipe. Não devemos subestimar Deus. — E Anton acaba com a diversão de Ludwig... Mas não por muito tempo. — Quem é a dama com o príncipe herdeiro?

Embora o próprio Anton continue focado nas cartas, todos na mesa — excluindo Anne — voltam-se na direção de Fritz, que mostra-se incrivelmente atencioso com a dama recém-chegada na sala. A campanha russa é esquecida.

— É a baronesa von Keudelstein — a rainha fala e retorna as cartas —, era uma dama de companhia de Katharina em Kassel.

— Era? Mas que pena. — Ludwig também retorna ao jogo, não deixando, porém, de acrescentar: — A baronesa von Keudelstein é divinamente bela e o príncipe...

— Venci! — exclama friamente Luise, jogando as cartas na mesa. — O que acham de outra rodada?

— Para você tomar o que restou da nossa fortuna? Não, obrigado. — Mas Anton continua sério, principalmente quando ele retorna a Fritz. — De fato, o príncipe herdeiro parece encantado com a baronesa.

E o olhar de Anton passa para Anne, que finalmente olha para Fritz e a baronesa. Realmente, é muito bonita... Certamente que uma das amantes de Jérôme.

— Homens precisam se distrair de suas frustrações, não é? — comenta Anne com desdém, levantando e fazendo uma mesura à rainha. — Com licença, vou me recolher...

— Deseja companhia, senhora? — Anne franze o cenho para Ludwig, já em pé e estende a mão.

É o bastante para chamar a atenção de toda a sala, mas Anne aceita e sai com Ludwig, deixando para trás Fritz e Anton furiosos.

Pelos corredores de Ludwigsburg, é o silêncio que domina entre Anne e Ludwig. As lantejoulas no vestido lilás dela são a única distração da princesa, enquanto Ludwig...

— Lhe incomoda a proximidade do príncipe com outras damas? — Deixando o vestido de lado, Anne franze o cenho para Ludwig. — Desculpe se estou sendo evasivo...

— Você está e a resposta a sua pergunta é não — ela responde, soltando-se do príncipe e aumentando o passo. — A maioria dos homens têm amantes, por que me incomodar?

— Porque é uma deslealdade. — Anne ri com as palavras dele. — Dizem que é um sinal de masculinidade, mas não é quanto aos filhos?

Agora ela não ri, sequer nega, a única ação dela é franzir o cenho. Por que Ludwig está fazendo isso com ela? Essas perguntas tão íntimas... Qual o objetivo dele?

— Nem todos os homens pensam como você, Ludwig — ela sussurra, sentindo-o se aproximar.

— Mas deveriam, principalmente quando casados com mulheres como você. — Anne franze o cenho para Ludwig, apenas para encontrá-lo perigosamente perto... Ele sussurra no ombro dela: — Eu nunca a trairia ou trocaria.

Um calafrio sobe pela espinha de Anne... Imediatamente, porém, ela se afasta de Ludwig e segue sozinha para seus aposentos. Observando-a de longe, o príncipe apenas aprecia a beleza dela. Lilás é bonito, mas uma cor de luto... Tão apropriado, não?

*****

Outubro|1812 Amelian House, Cheshire

Três batidas são dadas na porta... Porém sem nenhuma resposta, o que faz novamente três batidas serem dadas e, consequentemente...

— O café da manhã está servido, minha princesa! — Lady Castlereagh exclama e, olhando preocupada para as outras damas, acrescenta: — Viemos ajudá-la a se vestir!

O silêncio é a resposta que a viscondessa recebe, aumentando mais ainda a preocupação delas. Todas as seis usam vestidos pretos de luto, o que apenas acentua a tristeza que domina em Amelian desde o início da semana.

— O Dr. Markson poderia examiná-la, não? — Todas franzem o cenho para Lady Paston, que dá os ombros. — Por garantia, claro.

As damas, porém, continuam a encará-la, não por horror ou censura, mas sim por medo disso realmente ser necessário. Um grave silêncio instaura-se na antecâmara. Até que Lady Castlereagh bate novamente na porta.

— Minha senhora, por favor...!

— Estou indisposta! — Surpresas, as damas recuam. É a primeira vez que ela responde, embora... — Voltem depois, quando eu chamar!

A voz da marquesa é abafada pela pesada porta, mas é claramente perceptível o tom choroso e a voz rouca. Mas as damas obedecem e, fazendo uma mesura ao nada, deixam os aposentos da marquesa.

— Vamos falar com o marquês, ele saberá o que fazer — Lady Castlereagh comenta assim que elas saem.

Em seu quarto, porém, sentada na janela, Cathrine observa os chuvosos e tristes campos de Cheshire. O rosto dela é impassível, sem sinal algum de tristeza ou dor... A não ser pelas lágrimas nos olhos, focados unicamente nos campos.

*****

Frogmore House, Windsor

A rainha e as princesas já estão na sala de refeições para o desjejum, o que não inclui a princesa Charlotte, que apenas agora deixa seus aposentos. Junto dela está a Srta. Mercer Elphinstone e claramente o assunto que elas conversam é...

— Você tem certeza que mandou para Montagu House, não tem? — Margaret assente para Charlotte, respira fundo e nega. — Eu odiaria descobrir que foi parar em Brunswick House.

— Todos os cuidados necessários foram tomados, minha princesa. — Disso Charlotte não duvida, mas... — A carta foi entregue nas próprias mãos da princesa de Gales.

— Por uma criada, imagino. — Novamente, Margaret assente. Tentando manter a calma, Charlotte sorri. — Você fez bem... Só espero que ele não responda, ou...

Um casamento seria imediatamente arranjado para ela e, considerando as opções protestantes aceitáveis, seria com um dos irmãos Orange. É vital então que o tenente dela não responda, principalmente agora que as cartas de Charlotte estão sendo controladas pela rainha.

— Ele não seria tão tolo. — Chegando ao final da escadaria, Margaret nega e acrescenta: — Você foi muito clara ao dizer para ele não responder.

— Sim, mas Charles... — Charlotte pensa um momento e, mordendo os lábios, ri timidamente. — Foi justamente a coragem e impetuosidade dele que chamou minha atenção em Bognor.

— E quanto ao "desejo por aventura"? — questiona Margaret com ironia, fazendo-a novamente rir.

— Também, mas não sou tão egoísta assim, Margaret. — Elas seguem para a sala de refeições. No caminho, porém, Charlotte ainda fala: — Eu realmente gosto dele...

Porém, fazendo-as arregalar os olhos, a porta da sala de refeições é aberta... por uma séria Mary. Um tenso silêncio acaba se instaurando entre as três, que torna-se terrivelmente angustiante quando Mary semicerra os olhos.

— A rainha estava quase enviando alguém para buscá-la, sabia? — A voz de Mary é calma, porém tão lenta que... A princesa franze o cenho. — Você se atrasou tanto e nem sequer se vestiu direito!?

Charlotte franze o cenho e analisa a própria roupa, logo percebendo que a tia se refere ao fichu mal colocado e partes da anágua aparecendo. É o suficiente para matar o medo de Charlotte.

— É só o desjejum com minha avó, não um banquete! — defende-se Charlotte, cruzando os braços e zombando: — E por que você não está lá?

— Porque há uma carta minha que Edward deve entregar a Sophia — é a rainha quem responde, porém, embora do interior da sala, Charlotte ainda paralisa. — Entre logo, Charlotte! E não demore, Mary!

Charlotte obedientemente entra na sala com a Srta. Mercer, enquanto Mary segue para os aposentos da rainha. Ao chegar no hall, porém, ela vê algo curioso: a correspondência que logo será levada à rainha...

Sem receio algum, Mary começa a vasculhar as cartas e não demora muito a encontrar uma destinada a Charlotte, uma carta de Caroline...

— Melhore, Charlotte — Mary sussurra, pegando a carta e seguindo seu caminho —, sua mãe nunca escreve mais de duas vezes numa semana.

Quando chega nos aposentos da rainha, Mary abre a carta e começa a lê-la. Inicialmente parecem apenas palavras desconexas escritas realmente por Caroline... Até que, nas últimas linhas, Mary lê:

— "Espero com ansiedade por Oatlands." — Ela franze o cenho, principalmente no final. — Charles Hesse...

Mary deixa a carta de lado e... Negando, ela amassa a carta. Charlotte está interessada no prussiano Charles Hesse... Um ninguém filho... Mary novamente nega, até que arregala os olhos ao lembrar... Oatlands?

*****

Amelian House, Cheshire

Sentado à cabeceira da mesa, Richard encara fixamente o bule de chá para o café da manhã. Nada é dito por ele, tão absorvido em seus próprios pensamentos que... Respirando fundo e suspirando, Richard assente para as damas de companhia.

— Agradeço pelo aviso, miladys, assim como agradeço pela preocupação — ele fala melancólico e acrescenta: — Garanto que logo tomarei as providências necessárias.

— O Dr. Markson? — Richard franze o cenho para Lady Paston, que recebe imediatamente duras negativas das outras.

— Não vejo necessidade alguma dessa presença em Amelian — mas é Sophia quem responde, sentada ao lado de Robert, que, por sua vez, senta à esquerda do marquês. — Ou você discorda, Richard?

Ele nega e, juntando as mãos na mesa, começa a meditar sobre o assunto. Nada é o mesmo desde 30 de setembro; Richard sente um imenso vazio no peito e... Novamente negando, ele ordena para Lady Newport:

— Leve o café da manhã para os aposentos da marquesa. — E, numa mesura, as damas deixam a sala. Richard cobre o rosto e geme: — O que será de mim!? Ajuda-me, Deus, por favor!

O que será deles!? Sem principado e agora também sem herdeiro. E ainda tem a tristeza profunda de Cathrine... Como suportar tudo isso!? Richard descobre o rosto, apenas para encontrar pena nos olhares de Robert e Sophia.

— Creio que seja melhor não intervirmos, Richard — Sophia fala, ganhando um olhar franzido dele, e acrescenta negando: — É natural a preocupação, claro, mas chamar Markson...

— Seria como juntar fogo e pólvora. — Geraria uma explosão... Robert come uma uva e nega. — Vamos evitar a medicina neste assunto.

— Mas o que fazer!? — questiona Richard num sussurro, voltando a encarar fixamente o bule. — Também estou sofrendo, e sofrendo muito, mas sei que o isolamento em nada ajudará a aceitar que Adam...!

Que Adam... A voz dele falha e, sentindo um turbilhão de emoções, Richard volta a cobrir o rosto. Já não é fácil aceitar assim e se isolando... fica quase impossível!

— Todos temos formas diferentes de lidar com o luto, Richard. — Ainda cobrindo o rosto, ele assente para Sophia, que exclama: — Tente entendê-la; só faz algumas semanas!

— Eu entendo; na verdade, sou quem melhor a entende, mas...! — Novamente, a voz dele falha e Richard só consegue negar. — Isso não ajuda em nada! E se ela não superar!?

— Ela vai superar — garante Robert... numa expressão friamente sombria. — Não existe outra alternativa senão superar.

Uma frieza tão sombria que é notada até na voz de Robert. Mas Richard não consegue responder, ele sequer tenta. Porque é a realidade, pessoas na posição deles simplesmente aceitam ou... são destruídas...

Nada mais é dito por nenhum deles, e certamente que o café da manhã acabou. Respirando fundo, Richard volta-se ao irmão e a cunhada... principalmente a cunhada, que ele encara fixamente.

— Meu único consolo nisso tudo é que ainda nos resta uma esperança. — Robert franze o cenho, mas Richard simplesmente dá os ombros. — Não creio que seja necessário entrar em mais detalhes.

O olhar de Richard passa de incomodado a furioso, tanto que ele... Sophia agarra fortemente a mão de Robert e, numa séria expressão, assente para o marquês.

— Fique tranquilo, Richard — ela fala num tom extremamente calmo —, tudo ocorrerá como deve acontecer.

A ação de Richard é assentir. É uma garantia, não é? Esse bebê que Sophia espera, seja menino ou menina, representa a continuidade dos Tudor-Habsburg. Porque sem esse bebê... sem Tudor-Habsburg.

*****

Outubro|1812 Palácio de Inverno, São Petersburgo

Aristocratas, ministros e altos oficiais encontram-se reunidos no salão branco para um baile imperial. Tudo é esplendidamente brilhante, desde as ordens dos cavalheiros e diamantes das damas, até os lustres de cristal.

E a valsa tocada pela orquestra, cujo som se mistura com animadas conversas e risadas, apenas aumenta a sensação de esplendor. O clima cada vez mais frio é esquecido, assim como os franceses em Moscou... Mas não é esse o objetivo?

— Pão e circo. — Vagando sozinha pelo salão, e quase não dando atenção aos cumprimentos, Mary nega e sussurra: — Não sabia que seria assim.

— Mas não era você a mais fiel opositora de Bonaparte? — Nicholas... Ficando ereta, Mary para de andar. Fugir com diamantes não é uma opção. — Por que está me evitando?

Nicholas agarra Mary pelo braço, fazendo-a voltar-se para trás. O que dizer? Como reagir?... Ignorá-lo é uma opção? Mas ela respirando fundo e volta-se na direção dele.

— Por que eu evitaria você? — Nicholas dá os ombros; Mary se solta dele. — E o que me incomoda não é a guerra, mas sim este baile.

— Parece tudo normal para mim — ele responde, analisando o salão. — Se os franceses não estivessem em Moscou, eu até diria que não estamos numa guerra.

— Exatamente. — Confuso, Nicholas franze o cenho. Porém, arrumando a calda do seu vestido branco, Mary volta a caminhar. — Não desejo novas batalhas, claro, mas... É uma enganação!

— Enganação? — repete Nicholas, seguindo-a e, com um confiante sorriso, acrescentando: — O inverno lidará com os franceses.

— O que, aparentemente, significa para nós oferecer bailes e festejar.

É visível o desagrado de Nicholas com essas palavras, mas Mary não se importa e continua a vaguear. Mas é a verdade, eles estão numa guerra e... Este baile é só uma distração para a alta sociedade.

Porém Nicholas continua ao lado dela, o que começa a incomodar Mary. As coisas ficaram muito estranhas desde Borodino e após a acusação de Elizaveta... Nicholas coloca-se à frente dela, fazendo-a parar e franzir o cenho.

— Dance comigo. — Nicholas pega a mão dela e, beijando-a docemente, pisca um olho. — Vai dizer que não deseja?

— Irmãos não dançam, Nicholas. — Ele franze o cenho com as palavras dela e Mary afasta a mão. — Dançar com você seria o mesmo que incesto.

— Você nunca se importou com isso antes. — Antes era diferente... Pegando novamente a mão dela, ele suplica: — Por favor, Mary...

Antes, porém, que ela possa responder, a atenção dela volta-se à entrada do salão, mais especificamente ao príncipe Piotr Volkonsky, que segue na direção do imperador e da imperatriz.

Curiosa, a tsesarevna segue para a mesma direção, com Nicholas a seguindo. Alguns outros também percebem essa entrada, ainda mais quando o imperador arregala os olhos. Mas é o próprio Volkonsky que age depois.

— A atenção de todos, por favor! — A valsa para e toda a atenção foca no príncipe. — Napoleão Bonaparte deixou Moscou e está marchando!

Sussurros instantaneamente começam no salão, mas que logo se tornam exclamações e súplicas por mais explicações. O baile acaba e o horror instaura-se no salão. Mary olha confusa para Nicholas, mas ele nega, igualmente assustada.

Deixou Moscou!? Mas para onde ele está marchando!? São Petersburgo...!? Isso é loucura! E, antes mesmo deles chegarem perto, Alexandre deixa o salão com Volkonsky e outros grandes oficiais.

*****

28|11|1812 Amelian House, Cheshire

Sendo recebido por Lord Maurs, o barão Linzmain é conduzido pelo hall junto da nova baronesa Linzmain, a Hon. Barbara Villier. Nenhuma palavra é trocada entre eles, até que chegam na escadaria, onde...

— Sua Alteza Sereníssima! — O barão e a baronesa se curvam à marquesa, descendo lentamente a escadaria com as damas de companhia. — Não pude estar no funeral, então expresso desde já...

Mas a marquesa simplesmente passa pelos Linzmain e segue para a sala verde. Ela não deseja a pena ou pêsames dele, e nem de ninguém, na verdade!

Inicialmente confuso, o barão logo força um sorriso para Maurs e segue com a esposa para a sala verde. Assim que entram, eles são recebidos pelo marquês e, após os cumprimentos formais, sentam num dos sofás.

— ... A senhora foi apresentada até com sua cunhada, não? Lady Dacre? — A baronesa assente alegremente para Richard, que senta num sofá e volta-se ao barão. — Sua carta chamou bastante minha atenção, Linzmain.

— Não tanto quanto a que recebi do imperador Franz, garanto. — Os criados entram com o chá e Lady Wilmington põe-se a servi-los. Linzmain franze o cenho. — Achei, no mínimo, curioso.

— Surpreendente, na verdade — corrige Richard, acrescentando em seguida com ironia: — Será que o conde von Metternich tem conhecimento disso?

— Tendo ou não, o importante é que o imperador escreveu — o barão responde e, aceitando uma xícara de chá, nega. — Quando foi a última vez que isso aconteceu?

Quando Maria Ludovica casou com o demônio. Logo todos são servidos com chá e Linzmain coloca na mesa de centro a tal carta do imperador austríaco. Richard a pega e começa a lê-la.

— Bem, é inegavelmente de Franz. — Linzmain franze, mas Richard nega e fala: — O barão sabe o quão engenhosos são meus ministros.

— Eles desejam apenas o melhor para Niedersieg — a baronesa responde, praticamente sussurrando, mas Richard ainda escuta.

— Que é o que eu decidir. — Richard dobra a carta e coloca novamente na mesa. — O que diz nela?

— Não é o conteúdo em si que importa, mas a iniciativa. — A ação de Richard é semicerrar os olhos, sinalizando para Linzmain continuar: — O imperador deseja retomar as conversas sobre a independência de Niedersieg.

Retomar as conversas... Faz um certo sentido, principalmente considerando que a campanha russa parece estar sendo particularmente difícil para Bonaparte vencer. Mas a França não perdeu... Não ainda...

Respirando fundo e suspirando, Richard bebe um gole de chá e põe-se a pensar. Por um rápido momento, os olhos dele até se voltam na direção de Cathrine, mas ela sequer presta atenção na conversa, preferindo as chamas da lareira.

— Isso é bom, mas devemos ser cautelosos — Richard responde, voltando-se ao barão e negando. — Não desejo agir até que a vitória esteja garantida.

Novas perdas não serão aceitas. Niedersieg já sofreu demais desde o início das Guerras de Coalizão, e agora sofre mais ainda sob a influência francesa. O fracasso é inaceitável, por isso a ação deve ser apenas no momento certo.

Linzmain, porém, não protesta, a ação dele é voltar-se na direção de Cathrine. Talvez tivesse sido melhor deixá-la em paz no quarto. Mas...

— Perdão, meu príncipe, sei que isso não me envolve — o barão fala, imediatamente ganhando a atenção de Cathrine —, mas e quanto a continuidade?

O silêncio que se instaura na sala é terrivelmente desconfortável. Cathrine encara fixamente o impassível barão, enquanto Richard foca apenas no chá e a baronesa... Ela treme como a criança que é. Isso até que Cathrine levanta do distante recamier e deixa a sala.

— A dinastia não morrerá, Linzmain, isso eu garanto. — O barão volta-se a Richard, que pensa um momento e dá os ombros. — Meu irmão Robert haverá se servir para algo: gerar herdeiros.

Talvez até como um castigo divino, o próprio Robert entra na sala, e direcionando um olhar tão raivoso na direção de Richard... Que ele retribui com indiferença e retorna ao barão.

*****

— Uma festa em Oatlands Park? — O duque de Kent assente para Sophia, que nega. — Não creio que seja possível.

É uma distância extremamente longa até Surrey e Sophia está grávida. Sem contar que... Novamente negando, pega o braço de Edward. Os dois seguem por um corredor, tendo acabado de deixar os jardins.

— Mas foi o próprio Frederick que convidou — Edward insiste, acrescentando com um sorriso: — Serão apenas amigos.

— Da duquesa de York, no caso. — O sorriso enfraquece e ele assente. Sophia ri levemente e suspira. — Agradeço por estar aqui comigo, mas a resposta ainda é não.

Sorrindo, Edward assente para Sophia, que apoia a cabeça no ombro dele. É bom ter esse apoio físico e emocional. Principalmente agora... É incrível que, pela primeira vez, Sophia sente realmente saudades de casa.

— Você é minha anjinha, Sophia, não posso deixá-la muito longe. — Edward abraça os ombros dela e, deixando de sorrir, nega. — E Kendal...

— Não critique, Robert, por favor. — Olhando pelo corredor e suspirando, ela fala: — O ambiente desta casa está profundamente triste.

— Entendo você, todos vocês. — Eles adentram no hall, onde Edward ainda acrescenta: — Principalmente com sua cunhada parecendo até uma morta-viva.

— Tenha pelo menos a cortesia de garantir que eu não esteja ouvindo da próxima vez.

A atenção deles volta-se instantaneamente à escadaria, de onde Cathrine os observa com uma frieza tão grande que Sophia sente Edward congelar. O silêncio domina entre os três, até que Cathrine semicerra os olhos e volta a subir.

Edward até tenta segui-la, mas Sophia o para e sinaliza que ela mesma fará isso. É mais provável Cathrine escutá-la a Edward.

— Cathrine, por favor! — E logo Sophia sobe o primeiro lance da escadaria. — Edward não queria ofendê-la!

— Mas ofendeu! — a marquesa exclama, parando um momento e encarando-a friamente. — E não apenas a mim, mas também ao meu filho!

— Ele apenas expressou uma opinião! — Sophia responde, quase suplicante, e estende uma mão. — Tente me escutar, por favor...!

— Não! Não quero escutar ninguém! — Assustada, Sophia recua e quase desliza nos degraus. Cathrine arregala os olhos e nega. — Fique aí, me deixe em paz! Você e esse seu filho!

Agora são os olhos de Sophia que arregalam, não em horror ou medo, mas como se tivesse entendido algo. É o bastante para Cathrine voltar a subir e virar no segundo lance da escadaria.

— Isso é ciúme!? — Sophia questiona, voltando-se a segui-la.

— Você não sabe o que fala. — Cathrine tampa os ouvidos e nega. — Deixe-me!

— Sim, é ciúme! — O tom de Sophia é acusatório. E, correndo pelo segundo lance, ela acrescenta: — Ou você está tão amargurada assim a ponto de se ofender por algo tão banal...!?

— Cala a boca! — exclama Cathrine, voltando-se furiosa para trás. Sophia continua correndo. — E fique onde está, ou...

Sophia pisa em falso num degrau e, fazendo Cathrine gritar, acaba caindo na escadaria, parando apenas no patamar, desacordada.

Rapidamente o duque de Kent vem socorrer a irmã, e logo os próprios Robert e Richard também aparecem. É o bastante para o caos se instaurar, principalmente quando Sophia começa a gemer com dor. E Cathrine... Ela olha estoica para tudo.

*****

Berezina, Rússia

Um som terrivelmente angustiante de gritos e choro ecoa por ambas as margens do rio Berezina. O que começou com uma desesperada tentativa francesa de cruzar o rio acabou em caos e terror.

São milhares entre as multidões que tentam fugir... Mas em vão. Atrás deles, os canhões russos de Wittgenstein atiram com toda a força, enquanto o inverno torna-se particularmente feroz durante a noite. Já as pontes... Elas foram destruídas pelo desespero das multidões e do fogo russo.

A única ponte restante é usada por Napoleão e suas tropas armadas. Mas dificilmente os 40 mil civis e soldados inferiores conseguirão alguma vantagem sobre os 40 mil guardas do imperador. O resultado é centenas tentando nadar no gélido Berezina e mais centenas sendo esmagados por seus compatriotas franceses.

É um horroroso pesadelo, e parece longe de acabar. As balas caindo entre as multidões; os corpos mutilados e congelados pelo frio... Tudo aumenta, não parece ter fim!

Alguns generais franceses, principalmente Eblé, tentam acalmar suas tropas, bem como manter a ordem. Mas é inútil. Os canhões... O ensurdecedor vento invernal... Os gritos e choro... É demais até para o mais forte dos homens, tanto que alguns simplesmente param de avançar e choram como criancinhas.

Berezina é uma batalha infeliz. A lembrança das vidas, lágrimas e gritos dessas pessoas será esquecida pela história... Na verdade, são despercebidas até pelos russos, cujo som do bombardeio torna-se o horror dos franceses... simplesmente horror.

— Napoleão Bonaparte cruzou a ponte, general — o ajudante de campo do conde Wittgenstein avisa —, devemos avançar?

O general, porém, observando todo o caos francês com uma luneta, permanece em silêncio. O grupo ao redor do general também espera por uma ação, certamente até o general Chichagov — no outro lado do campo de batalha — também espera. Porém...

— Deixem os pobres coitados cruzarem o rio. — A confusão apodera-se do grupo de Wittgenstein, até que ele acrescenta: — Os franceses podem até reivindicar a vitória, mas seremos nós os vitoriosos aos olhos da história.

De fato, nenhuma ação notável será tomada pelos russos até o dia seguinte. Os canhões apenas continuam atirando, causando mais e mais choro, lágrimas e gritos... Muito choro, lágrimas e gritos...

*****

29|11|1812 Amelian House, Cheshire

Mais um grito de Sophia é escutado pela casa, sendo seguido por dolorosos gemidos e um alto choro. A situação é das mais piores. Como salvar em 1812 um feto de seis meses?

— Mantenha acima de tudo a calma, Robert. — Embora Robert já pareça o suficientemente "calmo", sentado ao lado da porta e escondendo o rosto entre as pernas. — E lembre-se que nesta situação o importante é salvar Sophia.

— Ninguém falou nada de escolha, Bristol! — Muito diferente do duque de Kent, que não para quieto. — Por que não posso vê-la!?

Porque homens como Kent só servem para atrapalhar e causar problemas. Cathrine, sentada impassível num banco, só consegue negar. Desde a tarde do dia anterior as coisas estão assim; médicos foram chamados de Chester, Liverpool e Manchester. E agora já é madrugada e...

— Confesso que ainda não entendo como aconteceu — Cathrine fala num suspiro e lentamente nega. — Mas eu avisei que ela não deveria correr...

— Está culpando Sophia!? — Edward questiona, profundamente acusatório.

— Ninguém é culpado de nada, Kent, foi uma fatalidade. — A atenção retorna a Robert, que fecha fortemente os olhos e, apoiando a cabeça na parede, sussurra: — Só oro a Deus para que consigam salvá-los

— O que acho muito difícil de acontecer. — Richard imediatamente nega para Cathrine, que ganha um furioso olhar de Edward. Isso até que... — Logo descobriremos, de qualquer forma.

Os gritos pararam e o som do choro diminuiu. Todo o caos é substituído por uma plenitude que dificilmente significa algo bom. Alarmado, Robert levanta e troca um preocupado olhar com Richard e Edward.

Não tarda, porém, e um dos médicos deixa os aposentos de Sophia. A expressão dele é abatida e o lenço que ele usa para limpar as mãos... Está totalmente vermelho... O médico abaixa a cabeça.

— Fizemos tudo que o podíamos, mas... a criança nasceu sem vida. — Os olhos de Robert arregalam e seus lábios tremem. — Era um bem formado e desenvolvido... menino.

É o bastante para Robert empurrar o médico e entrar no quarto, exclamando desesperado pelo nome de Sophia. Logo Edward faz o mesmo e o médico, numa mesura, retorna ao quarto.

Suspirando, Cathrine nega e levanta, pronta para voltar aos próprios aposentos. Antes, porém, que ela consiga ir muito longe...

— Para onde você está indo? — Richard questiona, franzindo o cenho. — Não deseja saber como Sophia está?

— Ela está viva, isso que importa, não?

— Quanta insensibilidade da sua parte. — Cathrine ri com desdém das palavras de Richard, que acrescenta irritado: — Você, mais do que ninguém...

— Sei que pena e preocupação não trarão o bebê de volta! — A voz dela sai trêmula, e o olhar que Cathrine finalmente dá a Richard... Ela fecha os olhos e nega. — Sou inútil aqui, então vou dormir.

E logo Richard é deixado sozinho no corredor. Ele pode ir atrás de Cathrine ou ver como Sophia está... Mas a cabeça dele está tão perturbada quanto a de Cathrine, a diferença está apenas no modo como isso é expressão.

— Em três meses eles farão outro — Richard sussurra amargurado e também segue para seus aposentos.

*****

Início de dezembro|1812 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg

— Oh, mas que pena! — Nos jardins, Anne caminha de braços dados com Ludwig. — E por que sua mãe não vem para cá? Ela e o rei são primos, não?

Ambos netos do duque Karl Alexander de Württemberg. Mas Ludwig sorri de lado e, olhando rapidamente para as damas de companhia atrás deles, nega.

— Mamãe não gosta muito daqui. — Sendo fruto de um casamento morganático... Ludwig acrescenta num suspiro: — Há também assuntos urgentes para tratar em casa.

— Seu antigo principado forneceu tropas para a loucura de Bonaparte? — O tom dela é irônico, mas ele ri.

— Algo assim, embora também haja assuntos mais... intelectuais. — Anne franze o cenho. Mas Ludwig sorri galante e beija a mão dela. — Confesso que fiquei muito interessado no seu liberalismo britânico.

— Nenhuma de nossas conversas foi sobre política — ela responde, afastando a mão e... sorrindo arrogante. — Mas sempre é avassaladora qualquer amostra de mudança nesta Alemanha.

Vida a tal liberdade e igualdade que os franceses afirmam ter trazido. Nenhum dos grandes estados alemães ousa contradizê-los e até mesmo a imprensa os apoia... Ou apoiava, pelo menos...

Ludwig, porém, logo volta a pegar a mão de Anne e beijá-la, embora dessa vez com um sorriso de despedida.

— Não passarei uma semana sem escrever. — É uma promessa? Sorrindo... Anne novamente afasta a mão.

— Foi bom conhecê-lo, Ludwig. — O sorriso dele treme, principalmente quando Anne acrescenta: — Sua amizade foi um sopro de novidade.

Uma amizade; tudo não passa de uma amizade... O príncipe faz uma mesura e a deixa sozinha nos jardins com as damas de companhia. Ele segue então para os estábulos, onde espera pela carruagem que o levará...

— E então? Conseguiu o que queria? — Anton Belgärd aparece nos estábulos, fazendo-o franzir o cenho. — Sei que falhou; não há espaço para pirralhos no coração dela.

— Perdão, mas está falando comigo?

— Não me subestime, pirralho! E nem se faça de tolo! — exclama Anton, já furioso. Mas Ludwig inclina a cabeça. — Todos perceberam suas intenções para com Anne!

— Acho que confundiu as coisas, Belgärd; Anne e eu somos amigos. — Mas o sorriso de Ludwig é... irônico. — Seu ciúme é em tudo desnecessário.

E não apenas o sorriso, mas até o tom de voz. Isso serve apenas para aumentar a fúria de Anton, que avança na direção do príncipe.

— Tome cuidado...!

— Não, tome cuidado você, Belgärd! — Anton recua assustado, principalmente quando Ludwig sussurra ameaçador: — Lembre-se que sou um príncipe, muito misericordioso, de fato, mas ainda um príncipe. Já você... É um ninguém sem casa ou fortuna!

Levando isso em consideração, qual deles tem a vantagem?... Parando um momento de respirar, Anton assente e se afasta de Ludwig. E logo em seguida chega a carruagem do príncipe.

— Só me responda uma coisa — Anton fala, assim que Ludwig entra na carruagem —, quem mandou você?

É a única coisa que ele deseja saber, nada mais que isso. Ludwig sorri e, fechando a porta da carruagem, revela da janela:

— Napoleão Bonaparte.

E a carruagem parte logo em seguida, deixando para trás Anton Belgärd com os olhos arregalados de medo e horror.

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Dezembro|1812 Frogmore House, Windsor

O sol já começa a se pôr em Windsor e, em seus aposentos, Charlotte é vestida para a festa da duquesa de York em Oatlands Park. Embora, na verdade, ela esteja atrasada...

— Poderiam ir mais rápido? Logo a carruagem do príncipe regente chegará. — E ele não espera nem a própria filha. As criadas dela passam para o cabelo. — Como você faz falta, Margaret.

É uma pena que ela foi chamada pelo pai, o visconde Keith, de volta à Escócia. Charlotte é incapaz de organizar sozinha sua rotina; Lady de Clifford até tenta ajudá-la, mas... As criadas finalizam o cabelo de Charlotte, que pega suas pérolas na penteadeira.

— Quanto capricho! — Charlotte volta-se para trás, na porta do dormitório está Mary... sorrindo de lado. — Nem parece que sua tia favorita quase morreu.

— Sophia está muito bem, tia Mary — ela responde, olhando-se no espelho e colocando um colar. — A carruagem já chegou?

— Não, não chegou — Mary responde e, adentrando no quarto, acrescenta: —, e nem chegará.

Deixando o resto das pérolas, Charlotte franze o cenho para Mary, que continua sorrindo. É o bastante para as criadas fazerem uma mesura e deixarem os aposentos da princesa. A carruagem... não virá?

— Estive com seu pai mais cedo, sabia? Ele estava tão preocupado com Sophia, e como não estaria? — Charlotte semicerra os olhos, mas Mary suspira. — Disse que teve inúmeros pesadelos... Então sugeri que ele fosse visitá-la.

— Papai... foi para Cheshire? — sussurra Charlotte, ganhando um assentimento da tia. — Vou mandar prepararem a...

— Sem uma companhia? A rainha jamais permitirá! — Suspirando tristemente, Mary cruza os braços e nega. — Todas nós estamos tão preocupadas com Sophia... Sem ânimo algum para festas.

E, novamente, Mary suspira. Todas essas palavras, porém, nem têm nenhum efeito em Charlotte, ou melhor, até têm... Causam uma profunda raiva nela.

— Você armou isso! Deseja manter-me presa! — Charlotte avança furiosamente na direção da tia, que semicerra os olhos. — Por que...!?

— Para protegê-la de Charles Hesse! — E os olhos dela arregalam com as palavras de Mary. — Surpresa? Eu também, mas com sua falta de vergonha! Como ousa se rebaixar tanto!?

— Como você descobriu? — questiona Charlotte num sussurro... fazendo Mary rir.

— Oh, Charlotte, você não é nada discreta. — Só há ironia e desdém nessas palavras. A princesa nega. — Pergunto-me até onde chegou essa tolice?

— Não é uma tolice! — Charlotte volta a avançar, encarando fixamente a tia. — Charles me ama!

Nada é dito por Mary, que simplesmente nega e dá as costas para Charlotte, aparentemente deixando o quarto. Mas isso em nada acalma Charlotte, que sente o coração a mil... Até que, na porta, Mary revela uma chave.

— Vejamos se ama mesmo. — Arregalando os olhos, Charlotte corre na direção da porta, que é imediatamente fechada. — É para o seu próprio bem, Charlotte!

E gritos começam a ser ouvidos do quarto, bem como violentas batidas. Enquanto Mary apenas recua, mesmo com as pernas tremendo.

Assim que deixa os aposentos de Charlotte, porém, Mary cruza com a rainha no corredor. As duas ficam em silêncio, apenas se encarando... Até que Mary obedientemente assente para a rainha. O futuro da Coroa deve prevalecer... Não importa como...

*****

Dezembro|1812 Amelian House, Cheshire

Desde a sala azul um sombriamente apaixonado piano ecoa pela casa. É, naturalmente, Cathrine quem toca, e com toda a emoção e luta interior digna da 14⁰ Sonata para Piano de Mozart.

Ela toca sozinha, ninguém ousa perturbá-la, nem mesmo as damas de companhia... Ninguém, até agora...

— Tem certeza disso, Sophia? É melhor não. — O duque de Kent entra na sala, sendo seguido por Robert... trazendo Sophia nos braços. — Segure ela como homem, Kendal!

— Não me diga como segurar minha própria esposa, Edward! — A expressão de Robert está longe de calma. Mesmo a pergunta dele é bruta: — Atrapalhamos, Cathrine?

Mas ela não responde, apenas continua tocando. Robert bufa e, revirando os olhos, caminha na direção de uma poltrona. Quem também não parece nada satisfeita é Sophia.

— Isso é desnecessário — ela fala ao ser delicadamente colocada na poltrona. — Eu estou doente, não aleijada!

— Por isso mesmo é necessário todo esse cuidado. — Richard... Cathrine para um momento de tocar ao escutá-lo. — Precisamos de você saudável, Sophia... Para nos dar herdeiros.

E não apenas a música para, mas também o silêncio instaura-se. Cathrine escuta até os passos de Richard. Mas esse comentário... Ela volta a tocar, o que também não melhora em nada os ânimos.

— Richard é um idiota, Sophia, não o escute — responde Robert, cobrindo Sophia com um cobertor. — Quero vê-la saudável...

— E grávida — mas Richard acrescenta, ganhando um olhar furioso do irmão. — É só um comentário; não há pressão alguma...

— Então por que você faz questão de falar!? — Mesmo com Edward tentando impedi-lo, Robert avança na direção do marquês. — São meus filhos com Sophia!... Nossa intimidade!

— Não brigue por causa disso, Robert... — Sophia tenta intervir, mas em vão.

— São meus herdeiros! O futuro da minha dinastia! — Richard impõe-se, encarando fixamente Robert e sussurrando: — Você e Sophia... não são nada!

O silêncio volta a se instaurar, embora Cathrine continue tocando. Os irmãos se encaram fixamente... Até que Robert dá um tapa em Richard... Isso a faz para. Porém Richard revida e, num incomum ato de força, soca o rosto de Robert.

É o bastante para derrubá-lo perto da lareira, embora no processo Robert rasgue a perna num dos apontados enfeites dela. Um doloroso grito é dado... E Cathrine volta a tocar.

— Robert! Vá ajudá-lo, Edward! — O príncipe imediatamente obedece e, assim que vê a perna dele sangrando, Sophia volta-se ao marquês. — O que deu em você, Richard!?

Nada é dito pelo marquês, que encara a expressão de dor do irmão. O duque de Kent até tenta ajudá-lo a levantar, mas Robert continua furioso.

— Maldito...! — ele murmura e grita para Richard: — Como ousa me machucar!?

E Robert pula em Richard, derrubando-o e iniciando uma violenta briga. Sophia grita em horror, Edward tenta separá-los... Mas os dois irmãos lutam como se estivessem num ringue... até a morte. Nenhum deles parece disposto a recuar, muito pelo contrário....

Os gritos de Sophia são terríveis, tanto que Edward tenta inútilmente interferir. Ela grita também quase aos prantos para Cathrine fazer algo... Mas a marquesa foca apenas no piano, como se nada estivesse acontecendo.

— Ajuda! Chamem a guarda! — Sophia obriga-se a levantar e, abrindo a porta, grita: — O marquês e o príncipe Robert vão se matar!

Não tarda para os guardas chegarem... Porém nada mais será o mesmo…

Notas finais
* Outro capítulo maior que a maioria, não? Sempre tem uns assim, mas este ainda é menor que último em 1809. Mas, falando nisso, eu anuncio que "Era Uma Vez... Uma Ilusão" está na sua "reta final". Só faltam sete ou oito capítulos para o final. Emocionante, não? * A última frase deste capítulo é uma verdade, e não apenas para os Tudor-Habsburg, mas também para a história em si. O próximo capítulo falará bastante disso, e começará com a conclusão da Campanha Russa. Os próximos capítulos serão bem emocionantes, dinâmicos e cheios de acontecimentos. * É muito interessante que, editando este capítulo, eu vi como é irônico eu postá-lo agora, durante as Olimpíadas de Paris, porque Berezina é sinônimo de desastre para os franceses. * "Era Uma Vez... Uma Ilusão" também está no Pinterest:https://pin.it/3tt9B8BfO