Era Uma Vez Um Talvez Felizes Pra Sempre
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Acordei cedo no dia seguinte. Não ia a aula de novo, mas não consegui voltar a dormir. Fui tomar cereal e fiquei vendo desenho a manhã inteira. Quando deu 12h, levantei e fui me arrumar. Tomei um banho, coloquei uma calça de couro, uma blusa do Guns e um all star preto de cano alto. Enchi-me de perfume, aquele que a Nina gostava, e sai de casa. Eram 12h50min, ela saia em 10 minutos.
Procurei uma floricultura por perto e um senhor na rua me ajudou. Comprei um buquê de lírios com rosas, branco e vermelho. Fui pra frente da escola e cheguei na hora, avistei Alice de longe, mas ainda não via Nina.
- NINAAA! – Gritei.
Vi só a mão dela acenando e ri. Baixinha.
Fui até ela, pouco me importei com as pessoas em volta. Não sei como minha timidez permitiu. Ela olhou as flores e já pôs a mão na boca. Eu sorri, me ajoelhei, segurei a mão dela e dei um beijo.
- Meu anjo, não sei se é ainda cedo, ou se já é tarde. Mas pra mim, agora é a hora. A hora de tentar fazer feliz quem me fez desde o esbarrão com o sorriso torto na praça. Então, menininha linda e minha protetora, você aceita namorar comigo?
Já havia água nos olhos dela, ela piscou e chorou, fez que sim com a cabeça e me puxou pela blusa pra me levantar, levantei e ela me abraçou forte, demos um selinho longo e eu limpei o rosto dela. Ela pegou o buquê, que tinha uma carta junto, respirou fundo e me olhou no fundo dos olhos.
- Eu aceito, minha linda, aceito o que eu já queria há tanto tempo. – Nos beijamos.
Nossos amigos nos parabenizaram, Alice me deu um abraço sincero, e terminou com um sussurro:
- Faça-a feliz.
Concordei com a cabeça. Outras pessoas do colégio nos parabenizaram também, e outras olharam com desgosto, mas meu foda-se estava ligado pra eles.
Fui andando com ela até a casa dela, quando chegamos, ela pôs as flores num vazo com água, e colocou na mesa do quarto dela.
- Você é linda. – Ela sorriu e passou a mão pelo meu rosto.
- Não tanto quanto você. – Abracei ela pela cintura.
- Você me surpreendeu. – Ela riu.
- Eu me surpreendi. – Ri junto. – Achei que ia travar, você sabe como sou tímida... Mas ai, eu olhei nos seus olhos, só nos seus olhos, e de repente, foi como se todo mundo tivesse sumido, e só tivéssemos nós duas lá. Ai, consegui falar.
Ela me beijou. – Gosto tanto de você.
Abracei-a e acariciei. – Eu também.
- E agora, aonde você vai me levar, namorada? – Ela deu ênfase na palavra e mordeu o lábio.
- Aonde você quer ir, namorada? – Nós rimos.
- Vamos ao shopping.
Fomos. Chegamos e fomos tomar sorvete, demos uma volta.
- Que blusa linda! – Ela largou minha mão e apontou pra vitrine. Me olhou. – Quero experimentar. – Fez biquinho.
Ri. – Vamos entrar então.
Entramos e eu segurei o sorvete dela. Claro que não foi só a blusa, foram 3 blusas, 2 calças e 5 jaquetas. Eu, obviamente, tomei o sorvete dela enquanto ela experimentava. Quando ela saiu, levando só a blusa que viu na vitrine, me encarou com carinha de metida. Ri.
- Que foi? – Levantei e saímos.
- Cadê o meu sorvete?
- Comi ué.
- Pooooxa. – Ela cruzou os braços.
- Ah pequena, você me deixou um tempão esperando, ia derreter.
- Vamos voltar então que eu quero outro. – Ela me deu a mão e voltamos ao Mc.
Demos mais uma volta e fui deixar ela em casa. Nos beijamos em frente a porta da casa dela.
- Obrigada pelo dia de hoje, pela surpresa, por tudo. – Ela ficou na ponta do pé e beijou meu nariz.
- Que isso linda, obrigada você. – Nos beijamos. Vi um carro chegando.
Ela olhou pra trás. – São meus pais. – Ela sorriu.
Seria horrível se eu saísse correndo? Acho que sim. Apenas soltei o abraço, mas ela pegou meu braço e se envolveu de novo.
- Boa noite, Isabella. – Sr. Turner sorriu e me cumprimentou.
Soltei Nina pra apertar a mão dele.
- Boa noite. – Sorri tímida. Virei pra Sra. Turner. – Boa noite, senhora.
- Boa noite, querida. – Ela me deu um beijo em cada lado do rosto. Ela abriu a porta. – Vão entrar?
- Não, não... Eu tenho que ir já.
- Ah, entre um pouco. Só um café. – Sr. Turner me olhou.
Nina me olhou também e fez aquilo com os olhos, que não me deixava dizer não.
- Eu fico um pouco então.
Nós todos entramos, Sra. Turner foi fazer o café, eu e Nina nos sentamos no sofá e o Sr. Turner numa poltrona ao lado. Nina segurou minha mão e deitou a cabeça no meu ombro.
- Eu soube o que aconteceu – Sr. Turner quebrou o silêncio se voltando a mim. – Você está melhor?
- Estou sim – respirei fundo – melhor deixar no passado, o presente é o que importa.
- Gostei de ver, assim que se fala. – Ele sorriu. – O que fizeram hoje?
Nina acariciou minha mão e se levantou.
- Bella foi até a escola me buscar, pai. – Ela abriu um sorriso enorme e eu me fitei nela. Que sorriso maravilhoso. – Ela me pediu em namoro. – Ela me olhou e sorriu junto com o meu sorriso, depois olhamos o Sr. Turner.
- Sério? Querida, você ouviu? – Ele aumentou o tom de voz. – Nina e Bella estão namorando. – Ele nos olhou com o mesmo sorriso quase sem dentes de sempre, mas as sobrancelhas levantadas, o que devia demonstrar felicidade. – Parabéns, meninas. – Ele se levantou e nós também.
Ele nos abraçou juntas, Sra. Turner apareceu na sala nos parabenizando e entrando no abraço. Sr. Turner segurou minha mão.
- Cuide bem da minha filha. – Ele me olhou sério, mas logo riu.
- Pode deixar senhor. – Sorri.
Nós tomamos o café, Sra. Turner fazia um café muito bom. Resolvi ir embora, fiquei desconfortável de beijar Nina na frente dos pais dela, então ela me levou até a porta e nos despedimos com um selinho.
- Se cuida, meu amor. – Ela soltou minha mão e eu fui.
Cheguei em casa e minha mãe chegou junto comigo.
- Onde você tava? – Ela perguntou.
- Você chegou tarde também. – Abri a porta e nós entramos. – Mas eu estava com a Nina, por quê?
- Imaginei. – Ela subiu.
Subi atrás. – E você, estava com o seu namoradinho, não é? Então não fode, eu não gosto do teu namorado e você não gosta da minha namorada, agora para de encher.
- CALA A BOCA, ISABELLA, CALA A BOCA! – Ela jogou a bolsa no chão e se virou com raiva. Eu estava vermelha. – SE ELE É MEU NAMORADO OU NÃO, O PROBLEMA É MEU...
- E SE ELA É MINHA NAMORADA O PROBLEMA É MEU!
- MENINA NÃO NAMORA COM MENINA!
- EU SOU MENINA E ELA TAMBÉM, E É MÃE, A GENTE TA NAMORANDO, POR QUÊ? EU JÁ FALEI CARALHO, SE VOCÊ NÃO GOSTA FODA-SE, NÃO VOU VIVER MINHA VIDA DO JEITO QUE VOCÊ QUER, A VIDA É MINHA.
Ela me deu um tapa na cara, estava vermelha e eu devia estar tão vermelha quanto ela. Comecei a chorar, sai do quarto dela e me tranquei no meu. Ela bateu na porta.
- SAI DAQUI, SUA BABACA. NÃO QUERO MAIS SABER DE VOCÊ!
- Isabella, me desculpa, não queria te...
- MAS BATEU. SAI! – Entrei no banheiro e me tranquei lá também, chorei muito, muito mesmo.
Entrei no banho e correu-me pelo corpo a imensa vontade de fazer o que não fazia há muito tempo. Não queria fazê-lo, eu estava superada, ou queria estar. Mas meu corpo pedia, e pedia mais. As palavras de minha mãe, e o tapa, me torturavam ainda mais.
Há uma parte que não havia lhes contado no princípio. Já sofri de depressão. Durou esta de quando meu pai morreu, até pouco antes de eu me mudar para cá. Quando me assumi pra minha mãe, ela piorou bastante. Eu ainda tinha algumas marcas quase transparentes nos braços, coxas e barriga. Eu me cortava em tal época, mas a mais de um ano, já havia parado e superado tudo.
Mas a sensação, agora, voltava. Não estava pensando direito, então minha mente me moveu por mim. Minhas mãos procuravam por qualquer objeto cortante ao meu alcance, e acharam.
Eu chorava, chorava bastante, e me sentei no chão e deixei minhas mãos terminarem o trabalho.
- EU ODEIO MINHA MÃE! – Falei num tom alto, mas que não ultrapassasse a parede.
Chorava de soluçar, e sentia o arder dos meus braços correndo e minha pulsação forte. Algumas gotas de sangue caíram no chão, e outras na minha perna. Parei, pensei em Nina e larguei a minha maldita e velha amiga, navalha, no chão. Me deitei neste, e chorei mais um tanto. Busquei o celular no bolso, e a primeira pessoa que eu pensava era em Rafa. Liguei pra ela.
- Rafa – solucei – Vem pra cá amiga, aconteceu de novo, vem pra Ca.
- O QUE ACONTECEU BELLA? MEU DEUS, CALMA.
- Não da pra explicar. – Eu chorava muito. – Não consigo, vem pra cá, vem, por favor.
Ela disse que viria e eu desliguei. Minha mãe bateu na porta algumas vezes, mas não abri, tampouco respondi. Não contaria a Nina, não queria preocupá-la, nem contar essa parte obscura da minha vida.
Tomei um banho e deitei na cama, fiquei pensando e chorando até a Rafa chegar.
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